terça-feira, julho 07, 2026

A Memória dos Pobres

No filme "Fogo do Vento", de Marta Mateus, uma das vozes pertence a Maria Catarina Sapata, octogenária de Estremoz que não sabe ler nem escrever e fala um português que os da cidade chamariam poético e que é, apenas, o português de quem trabalhou a terra a vida inteira. Ela dá conta de uma verdade que devia doer mais do que dói: hoje somos ricos ao pé de antes, mas há quem se esqueça de como foi pobre. E acrescenta o essencial — outros esquecem, são vaidosos e não contam.

Não contam. É a palavra exata. Esquecem-se de que carregaram pedra em padiolas de madeira, um à frente e outro atrás, antes de a máquina passar a fazer o trabalho. Esquecem-se dos pés descalços e geladinhos, da tontura da fome que era pior do que a do vinho, dos eitos ao sol de agosto, do cante que era a única coisa que se podia fazer à vontade porque o resto era proibido. Esquecem-se e tornam-se disponíveis para votar em quem representa exatamente aquilo contra o que os seus pais e avós lutaram.

O Alentejo do latifúndio produziu o cante e produziu a consciência de classe. Uma e outra nasceram da mesma raiz: a experiência partilhada da exploração, o saber coletivo de que a terra era de poucos e o trabalho de muitos, a memória de que só a união dos que nada tinham lhes dava alguma força perante os que tudo possuíam. Era um saber duro, comprado a fome e a suor, mas era um saber que orientava o voto sem hesitação.

Que esse mesmo Alentejo dê hoje ao Chega votações crescentes é o sintoma de uma amnésia que Maria Catarina diagnostica sem precisar de teoria. Para votar em quem defende os latifundiários de hoje — os donos do capital, os que querem despedir fácilmente e pagar menos —, é preciso ter perdido a consciência da classe a que se pertence. É preciso ter esquecido de onde se vem. É preciso acreditar que já não se é pobre, quando a verdade é que se continua a sê-lo, apenas com eletrodomésticos.

O filme de Marta Mateus faz o trabalho contrário ao do esquecimento: guarda as vozes, eterniza as memórias, põe o passado a falar com o presente. É cinema como resistência à amnésia — a mesma amnésia que a extrema-direita cultiva porque dela se alimenta. Quem não se lembra de ter sido explorado vota facilmente em quem o explorará de novo.

Maria Catarina lembra-se. Lembra-se de todas as portas a que bateu. E dá valor ao que tem porque sabe, na carne, o que é não ter nada. Essa memória é um ato político. Talvez o mais importante de todos: o que impede que a história, esquecida, se repita como farsa e depois como tragédia.

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