As
palavras de Björk sintetizam na perfeição a arte de Meredith Monk. As canções
são um passaporte intemporal para melodias ancestrais. Não porque imitem
tradições antigas, mas por nascerem de um lugar anterior à própria memória. Um
território onde a voz ainda não era linguagem, mas impulso, respiração,
chamamento.
Já
passaram uns bons anos desde que fomos ao CCB ver a artista e o seu ensemble.
Lembro‑me singularmente da sala do Grande Auditório apenas meia cheia. Para um
acontecimento que merecia lotação esgotada com grande antecedência, aquilo
tinha algo de injusto. Ou talvez apenas revelasse a dificuldade de reconhecer,
a tempo, o que é verdadeiramente singular.
Foram
duas horas de magia no sentido mais rigoroso: a capacidade de transformar o
espaço interior de quem escuta. A partir das vocalizações, Monk conduzia‑nos
por recônditos meandros da mente onde se albergam memórias legadas por aqueles
que nos antecederam. Que não sabemos nomear, mas reconhecemos como nossas.
A música
dela não conta histórias, desperta‑as. Não descreve emoções, convoca‑as. É uma
arte que trabalha antes da palavra, antes da cultura, antes da identidade. E
talvez por isso seja tão difícil de classificar — e tão fácil de sentir.
Björk
tinha razão. Há em Meredith Monk algo de intemporal, que nos devolve a uma
humanidade mais funda, mais antiga, mais silenciosa. E, por isso mesmo,
continua a ressoar muito depois do concerto terminar.
Vale a
pena pensar nesta ancestralidade que a voz pode convocar. Porque, às vezes, o
que ouvimos não é música — é herança.

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