sábado, julho 11, 2026

A Trafaria que Ficou em Mim

 


A Trafaria foi território da minha infância. Não por acaso, mas por necessidade: ali vivia uma amiga da minha mãe, que conheci já acamada, e a quem ela dava algum apoio. Daí ter passado muitas tardes na praia, quase ao lado da casa da Rua Heliodoro Salgado. Aquele pedaço de areia, ainda sem o terminal de cereais, nem a poluição que hoje torna a água quase imunda, ficou como memória agradável. Um lugar simples, sem artifícios, onde o tempo parecia correr devagar.

Não espanta, por isso, que tivesse alguma expectativa em relação ao documentário que Pedro Florêncio rodou com alunos da Nova FCSH, recorrendo à participação ativa de vários habitantes. A ideia era boa. O conceito, interessante. E o resultado tem valor documental, sobretudo pela forma como dá voz a quem raramente a tem.

Mas esta não é, decerto, a minha Trafaria. A que guardo não cabe no ecrã. Não cabe na narrativa escolhida. É feita de cheiros, de luz, de tardes longas, de uma inocência que não se filma. É feita da presença da minha mãe, da amiga, da praia que parecia imensa aos olhos de um miúdo. E é feita, sobretudo, de um tempo anterior à degradação que hoje marca aquele território.

O documentário mostra uma Trafaria real. A minha memória guarda outra. E não há contradição nisso. Há apenas a distância inevitável entre o que vivemos e o que o presente devolve. Entre o lugar que existiu e o lugar que existe. Entre o que ficou em nós e o que ficou no mundo.

Vale a pena pensar nesta fratura entre memória e realidade. Porque, muitas vezes, o que perdemos não é o território — é o tempo que o habitava.

Pensar na fratura entre memória e realidade é aceitar que vivemos sempre em dois lugares ao mesmo tempo. O lugar que existiu. E o lugar que existe. Entre ambos abre‑se uma fissura que não é defeito — é condição humana.

A memória trabalha com luz própria. Seleciona. Atenua. Amplifica. Protege. E, às vezes, inventa. Não por falsidade, mas por necessidade: precisamos de organizar o passado para que ele não nos esmague.

A realidade, pelo contrário, é indomável. Não se curva ao que sentimos. Não preserva o que nos marcou. Não tem obrigação de coincidir com o que guardámos. E é nesse desencontro que nasce a fratura.

Quando regressamos a um lugar da infância, percebemos isso com nitidez. O território mudou — mas fomos nós que mudámos mais. A memória guardou a luz, o cheiro, a textura dos dias. A realidade devolve o desgaste, a transformação, a erosão. E o choque entre ambas não é derrota: é revelação.

A fratura entre memória e realidade é, no fundo, o espaço onde se forma a consciência. É ali que percebemos que o passado não volta, o presente não se repete. E que o que permanece não é o lugar — é o vínculo.

Por isso vale a pena pensar na fratura entre memória e realidade como quem observa uma cicatriz. Não para lamentar o que se perdeu, mas para reconhecer o que ficou. E para aceitar que a memória, sendo imperfeita, é ainda assim o mais fiel dos abrigos.

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