Entro nos
setentas com o parlamento a discutir o estado da nação, cada gesto público suspenso
entre a promessa de mudança e a repetição cansada do que já vimos demasiadas
vezes, como se a história tivesse perdido o ímpeto e se limitasse a rodar em
círculos discretos, quase impercetíveis, mas suficientes para lembrar que nada
está garantido.
No rádio
do carro ouço um comentário político que transforma a realidade em espetáculo,
reduzindo a complexidade a slogans que se esgotam no instante em que são
proferidos, e noto como esta simplificação contínua cria terreno fértil para os
que preferem o ruído à análise, a fúria à responsabilidade, a certeza fácil ao
trabalho lento de compreender o mundo.
É nesse terreno que os discursos autoritários encontram espaço para crescer, sempre com a mesma máscara de novidade que engana quem já esqueceu o que custou aprender.
Recordo Max Ernst e o seu anjo doméstico,
criatura disforme que atravessou 1937 como aviso de que a violência pode nascer
do interior da casa, do quotidiano, da normalidade aparente, e percebo como a
imagem regressa - não como metáfora distante -, mas presença nos noticiários,
nas conversas, nos gestos de impaciência que criam hábito, e talvez seja essa infiltração
silenciosa o verdadeiro perigo, mais do que qualquer grito explícito.
Termino o
dia com a sensação de a vigilância não ser apenas política, mas também íntima,
exercício de atenção ao modo como pensamos, reagimos e deixamos que o medo ou a
exaustão nos tornem permissivos perante o inaceitável. Talvez seja esta
consciência, frágil mas persistente, a única forma de manter alguma clareza no
meio do nevoeiro.

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