quarta-feira, julho 15, 2026

A Luz Indecisa do Primeiro Dia

 


Entro nos setentas com o parlamento a discutir o estado da nação, cada gesto público suspenso entre a promessa de mudança e a repetição cansada do que já vimos demasiadas vezes, como se a história tivesse perdido o ímpeto e se limitasse a rodar em círculos discretos, quase impercetíveis, mas suficientes para lembrar que nada está garantido.

No rádio do carro ouço um comentário político que transforma a realidade em espetáculo, reduzindo a complexidade a slogans que se esgotam no instante em que são proferidos, e noto como esta simplificação contínua cria terreno fértil para os que preferem o ruído à análise, a fúria à responsabilidade, a certeza fácil ao trabalho lento de compreender o mundo.

É nesse terreno que os discursos autoritários encontram espaço para crescer, sempre com a mesma máscara de novidade que engana quem já esqueceu o que custou aprender.

Recordo Max Ernst e o seu anjo doméstico, criatura disforme que atravessou 1937 como aviso de que a violência pode nascer do interior da casa, do quotidiano, da normalidade aparente, e percebo como a imagem regressa - não como metáfora distante -, mas presença nos noticiários, nas conversas, nos gestos de impaciência que  criam hábito, e talvez seja essa infiltração silenciosa o verdadeiro perigo, mais do que qualquer grito explícito.

Termino o dia com a sensação de a vigilância não ser apenas política, mas também íntima, exercício de atenção ao modo como pensamos, reagimos e deixamos que o medo ou a exaustão nos tornem permissivos perante o inaceitável. Talvez seja esta consciência, frágil mas persistente, a única forma de manter alguma clareza no meio do nevoeiro.

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