segunda-feira, julho 13, 2026

Fim de Semana no Elevador

 


Há filmes que se recordam por uma imagem, outros por uma interpretação, e este por uma banda sonora — o que não é pouco quando a banda sonora é Miles Davis a improvisar em 1957 numa sessão noturna de estúdio, deixando a trompete seguir a errância de Jeanne Moreau pelas ruas de Paris como se a estivesse a inventar em tempo real. A improvisação era o seu método e aqui tornou-se também o método do filme: música e imagem a descobrirem-se mutuamente, sem rede.

Jeanne Moreau não vale elogios enumerados — todos em si a apoucariam. O que faz neste filme é caminhar, olhar montras, fumar, esperar, e nesse aparente nada construir um retrato de desejo e de angústia que dispensava qualquer diálogo explicativo. A câmara seguia-a e bastava.

Maurice Ronet cumpre o papel complementar com uma economia de meios que trai a escola — Malle servira de assistente a Bresson, e aprendera com ele que os gestos que manipulam objetos dizem mais do que os rostos que declaram sentimentos. Ronet abre fechaduras, puxa cordas, acende cigarros, e nessa sucessão de gestos constrói um homem que julgou ter cometido um crime perfeito e descobre que a perfeição é uma ilusão cara.

O elevador parado entre andares é a metáfora mais simples e mais eficaz do filme: o crime que deveria libertar e aprisionou, o amante que deveria chegar e não chega, Paris lá fora indiferente a tudo.

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