Há filmes
que se recordam por uma imagem, outros por uma interpretação, e este por uma
banda sonora — o que não é pouco quando a banda sonora é Miles Davis a
improvisar em 1957 numa sessão noturna de estúdio, deixando a trompete seguir a
errância de Jeanne Moreau pelas ruas de Paris como se a estivesse a inventar em
tempo real. A improvisação era o seu método e aqui tornou-se também o método do
filme: música e imagem a descobrirem-se mutuamente, sem rede.
Jeanne
Moreau não vale elogios enumerados — todos em si a apoucariam. O que faz neste
filme é caminhar, olhar montras, fumar, esperar, e nesse aparente nada
construir um retrato de desejo e de angústia que dispensava qualquer diálogo
explicativo. A câmara seguia-a e bastava.
Maurice
Ronet cumpre o papel complementar com uma economia de meios que trai a escola —
Malle servira de assistente a Bresson, e aprendera com ele que os gestos que
manipulam objetos dizem mais do que os rostos que declaram sentimentos. Ronet
abre fechaduras, puxa cordas, acende cigarros, e nessa sucessão de gestos
constrói um homem que julgou ter cometido um crime perfeito e descobre que a
perfeição é uma ilusão cara.
O
elevador parado entre andares é a metáfora mais simples e mais eficaz do filme:
o crime que deveria libertar e aprisionou, o amante que deveria chegar e não
chega, Paris lá fora indiferente a tudo.

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