segunda-feira, dezembro 14, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: As misérias do nosso tosco colonialismo

Retomamos a leitura do mais recente livro de Mia Couto depois de uma estadia no estrangeiro e das ocupações relacionadas com os imperativos da militância política.
É fácil regressar a esse romance, que interrompêramos quando estavam lidas apenas as primeiras cem páginas, já que conta com personagens particularmente impressivos.
Um deles é o sargento Germano, degredado da metrópole devido à participação numa intentona republicana e colocado como único militar branco numa zona recôndita do sul de Moçambique.
A outra é Imani, a rapariga que irá servir o recém-chegado à sua terra para a salvaguardar da ambição expansionista do imperador do Estado de Gaza, esse Ngungunyane sobre quem se contam as mais arrepiantes estórias.
Contrariando o quanto nos era propalado pela falaciosa História divulgada pelo regime salazarista, os portugueses pouco mandavam no vasto território daquela colónia, por se cingirem á ocupação de alguns entrepostos no litoral. No interior pontificavam os vários reinos locais, que conseguiam, amiúde, sobreporem-se a quaisquer tentativas em os controlar!
«Mulheres de Cinza» promete a riqueza do imaginário contido em todas as grandes obras de Mia Couto, com o rico complemento de nos dar a conhecer uma vertente da nossa História, que nos foi apresentada durante décadas, de tal forma mistificada, que passou a ser imerecidamente ignorada...


sábado, dezembro 12, 2015

ARTES: um ganha prémios, o outro muito não...

Na viragem do milénio, quando me tornei no marinheiro que perdeu as graças do mar, fui obrigado a assumir a vocação de diretor de uma grande empresa na área da manutenção de edifícios. Foi por essa altura que passei a contar com um subempreiteiro chamado Manuel Brandão, um homem simples, mas incrivelmente talentoso, que muito me ajudou a ter sucesso num conjunto de projetos com que comigo colaborou - construção de restaurantes e de escritórios de raiz, obras de carácter infraestrutural, etc. - de garantido sucesso.
Os anos tornaram-nos amigos e foi assim que lhe descobri a vertente artística. Não só pelo facto de lhe ter sabido a colaboração direta com um dos mais mediáticos artistas plásticos nacionais (que concebia as obras, dava-lhas a fazer, e depois assinava-as no fim como sendo da sua autoria!), mas também por lhe surpreender peças da própria autoria em sua casa.
Igualmente versada nas artes, a minha mulher tentou investigar mais seriamente o seu processo criativo. Embora só se tendo dotado do 9º ano de escolaridade através do nunca por demais elogiado programa das «Novas Oportunidades», o Manuel Brandão explicou-lhe o conceito dos seus trabalhos com uma simplicidade, mas ao mesmo tempo com uma perspetiva aprofundada do pretendido, que nos deixou impressionados.
Nessa altura - estávamos na festa de aniversário do neto desse amigo - falámos-lhe de Rui Chafes. Por causa dos trabalhos em ferro, mas também pelo uso intensivo das mesmas ferramentas criativas: a soldadura, a moldagem, a interação com outros materiais para conseguir um resultado orgânico. É que, embora o desconhecesse, esse Brandão não estaria muito distante do tipo de obras do agora galardoado Prémio Pessoa, tendo em conta uma das principais características do artista: a surpreendente leveza das suas peças, mesmo quando lhes adivinhamos o peso dos respetivos materiais.
Há, sobretudo, uma peça que julgo pertencer à coleção do CAM - pelo menos é aí que a temos mais amiudadamente encontrado! - que quase parece flutuar como se para ela não funcionassem as regras da gravidade. Talvez efeito prático da conceção filosófica, que o escultor incorporou na sua obra.
Essa será, porventura, a grande diferença entre o escultor e hábil artesão: o Brandão investe nas suas peças a filosofia de quem aprendeu tudo na escola da vida. Rui Chafes consegue associar à obra toda uma cultura aprendida nos livros, nos bancos de escola e no conhecimento prático do que outros artistas conceberam e estão a criar.
Mas, embora diferente, voto igual admiração aos dois artistas...

quinta-feira, dezembro 10, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Uma enorme confusão

Acabei de ver a segunda temporada da série «The Leftovers», que foi acumulando surpresas ao longo dos dez episódios, ao ponto de termos de reconhecer nessas sucessivas reviravoltas o seu maior interesse. Porque não é verdade que devemos preferir o que nos encantem, impressione ou inquiete?
Para quem nunca a viu o ponto de partida é este: a 14 de outubro milhares de pessoas desaparecem um pouco por todo o mundo como se se tivessem evaporado pelos ares. Enquanto os mais racionais procuram entender o que possa ter estado na origem de tão estranho fenómeno, que os terá privado dos seus entes mais queridos, começam a surgir seitas capazes de atraírem os mais frágeis. Uns convencem os seguidores da importância do abraço, outros dedicam-se à previsão do futuro de quem os consulta, mas a organização mais poderosa é a dos que se privam da palavra, vestem de branco e atuam como juízes morais dos que estão em dor.
Embora acompanhemos o percurso de muitos personagens, tendemos a privilegiar a empatia com o xerife da cidade de Mapleton, Kevin Garvey, que personifica o chefe de família desejoso de normalidade, mas assombrado pelas manifestações mais impressionantes do seu contrário: nesta segunda temporada morre sucessivamente, e outras tantas ressuscita, e a um vizinho, que o alvejara e confessa nada perceber do que está a viver, acaba por confessar a sensação de se sentir na mesma condição de ignorância.
Independentemente das derivações por onde as personagens se vão perdendo e reencontrando (dando às vezes a impressão da mesma deriva por parte dos argumentistas), a série é muito interessante para constatar as preocupações dominantes do presente imaginário norte-americano, já que o sucesso da série só pode condizer com o seu eco no mais íntimo dos seus milhões de espectadores: há o desejo profundo de salvaguardar a instituição familiar, muito embora ocorram no seu seio as maiores vilanias (a violação por exemplo), a facilidade com que se criam seitas religiosas por muito absurdas, que pareçam os seus fundamentos, a fragilidade coletiva perante fenómenos inexplicáveis da Natureza (os sucessivos terramotos, por exemplo), a tentação de cada um ser convidado a participar no espetáculo mediático e a facilidade com que a ordem social é destruída pelas hordas caóticas, que a conseguem profanar.
Em vez da América da solidariedade entre vizinhos, é a do cada um por si e contra todos, que acaba por sobressair, E essa é uma mensagem perturbadoramente conservadora por servir de alibi ao que de pior se vai processando no quotidiano da grande nação de Obama - as armas disponíveis para grande parte da população, a inexistência de propostas solidárias, que não passem pelas ilusórias crenças religiosas, e a infantilização suscitada pelos “milagres” e preconceitos , que conferem sustentabilidade a trapaças de lucro garantido.
No final temos o reconfortante happy end: depois de passar pelas mais vicissitudes mais surpreendentes, Garvey regressa a casa e reencontra a família recomposta e a prometer-lhe a almejada proteção... 

quarta-feira, dezembro 09, 2015

COSMOS: O nosso Universo poderá ser um Holograma?

Será o nosso Universo um holograma cósmico? Eis uma pergunta singular, que o professor Craig Hogan da Universidade de Chicago e do Fermilab perspetiva como possibilidade hipotética derivada da Teoria das Cordas.
Como pretendia testar experimentalmente esse Princípio Holográfico criou um instrumento de medição capaz de comprovar que vivemos numa superfície a duas dimensões, e nos dá a ilusão da tridimensionalidade. Só teria, assim, de captar pixéis de informação onde se constatasse a descontinuidade do espaço-tempo.
Construído num túnel do Fermilab o Holómetro consiste num conjunto de espelhos e de lasers com uma sensibilidade sem precedentes para medir movimentos com apenas um milionésimo de segundo de duração a distâncias inferiores a um único protão.
Acaso conseguisse resultados, que coincidissem com a sua expetativa, Hogan, concluiria que o espaço e o tempo podem deixar de ser contínuos, com o Universo a corresponder a uma espécie de imagem digital com um número limitado de informação a ser nele contido.
Frustrando o intento da equipa de cientistas, ao fim de um ano os resultados obtidos  permitem concluir que o holómetro não detetou a quantidade de ruído holográfico previsto no modelo predefinido.
Bastou este fracasso para que Hogan e os seus colaboradores se rendessem à evidência de não se confirmar o Princípio Holográfico? Claro que não até por existirem muitos colegas a considerarem impossível  a eficiência do holómetro na sua demonstração. Não seria a tese sem si a estar em causa, mas a ferramenta inventada para a comprovar!
Segundo Hogan ainda se vive o início de uma longa história com futuros capítulos porventura mais compensadores.
No imediato a equipa continuará com as suas medições  estudando os ruídos detetados pelo aparelho.
O desafio para estudar o espaço e o tempo com mais precisão consiste em eliminar todas as outras fontes de movimento até restar uma flutuação que não possa ser explicada pelas teorias atuais.
Se um desses ruídos não conseguir ser eliminado ele poderá constituir o primeiro exemplo de um “átomo de espaço” ou seja uma pequena parcela do Universo passível de ser codificada em pacotes de duas dimensões. Que validaria, então, o modelo do prof. Hogan. 

terça-feira, dezembro 08, 2015

DIÁRIO DE LEITURA: Os fantasmas escondidos nas caves da nossa História

Há muito tempo que sabemos o quanto a nossa História tem pouco que se coadune com a aprendida no tempo do Estado Novo, quando nela só cabiam heróis e mártires defensores da Fé e do Império.
A Inquisição, sobretudo quando sobre ela António José Saraiva escreveu obra influente em 1955, mostrou o nível de intolerância do poder clerical capaz de programar assassinatos em massa para garantir a submissão dos irreverentes e apossar-se-lhe dos bens.
Três anos antes, Aquilino Ribeiro publicara «Príncipes de Portugal: suas Misérias e Grandezas», que dava conta das estórias de alcova de reis e rainhas, muito dados ao adultério, ao incesto e à homossexualidade.
Mais recentemente fomos conhecendo o tráfico de escravos, que muita riqueza garantia à Coroa, desde que o Infante D. Henrique promoveu o seu primeiro leilão em Lagos.
Mas a ignomínia relacionada com este comércio vai-se consubstanciado com novas conclusões trazidas a lume por quem vai estudando os documentos da época. Aquela, agora anunciada no «Expresso» desta semana, em como no Paço Ducal de Vila Viçosa se promovia a criação de escravos como se de cavalos se tratassem - com um pequeno número de “garanhões” a copularem coercivamente um grande número de escravas de modo a engravida-las para que as “crias” fossem vendidas por trinta ou quarenta escudos - é o melhor exemplo da desumanização a que se sujeitavam outras pessoas, apenas por serem negras. O que até nem sequer era o caso de alguns exemplares que, devido à miscigenação forçada com os negreiros, conseguiam ter tez mais esbranquiçada do que os seus “proprietários”.
Que ninguém venha, pois, falar dos grandes feitos da Nação, porque das suas caves continuam a aparecer fantasmas assustadores.

DIÁRIO DE LEITURA: Os fantasmas escondidos nas caves da nossa História

Há muito tempo que sabemos o quanto a nossa História tem pouco que se coadune com a aprendida no tempo do Estado Novo, quando nela só cabiam heróis e mártires defensores da Fé e do Império.
A Inquisição, sobretudo quando sobre ela António José Saraiva escreveu obra influente em 1955, mostrou o nível de intolerância do poder clerical capaz de programar assassinatos em massa para garantir a submissão dos irreverentes e apossar-se-lhe dos bens.
Três anos antes, Aquilino Ribeiro publicara «Príncipes de Portugal: suas Misérias e Grandezas», que dava conta das estórias de alcova de reis e rainhas, muito dados ao adultério, ao incesto e à homossexualidade.
Mais recentemente fomos conhecendo o tráfico de escravos, que muita riqueza garantia à Coroa, desde que o Infante D. Henrique promoveu o seu primeiro leilão em Lagos.
Mas a ignomínia relacionada com este comércio vai-se consubstanciado com novas conclusões trazidas a lume por quem vai estudando os documentos da época. Aquela, agora anunciada no «Expresso» desta semana, em como no Paço Ducal de Vila Viçosa se promovia a criação de escravos como se de cavalos se tratassem - com um pequeno número de “garanhões” a copularem coercivamente um grande número de escravas de modo a engravida-las para que as “crias” fossem vendidas por trinta ou quarenta escudos - é o melhor exemplo da desumanização a que se sujeitavam outras pessoas, apenas por serem negras. O que até nem sequer era o caso de alguns exemplares que, devido à miscigenação forçada com os negreiros, conseguiam ter tez mais esbranquiçada do que os seus “proprietários”.
Que ninguém venha, pois, falar dos grandes feitos da Nação, porque das suas caves continuam a aparecer fantasmas assustadores.

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Pedagogias polémicas

Dirigidas por Lotta Rajalin, as escolas primárias Nicolaigården e Egalia, em Estocolmo, foram das primeiras a aplicar a pedagogia neutra em 1998, data em que o governo sueco lançou uma campanha de luta contra os estereótipos de género na educação.
Este método destinado a promover a igualdade entre os sexos desde bebés recorre, por exemplo, ao uso do pronome indiferenciado “hen” para substituir “ele” ou “ela”.
Desde a primeira reunião, quando acolhe os pais pela primeira vez, os realizadores do documentário «Ele, Ela, Hen» procuram captar os fundamentos desta pedagogia, mas também as reticências, senão mesmo as polémicas que suscita, ao acompanhar algumas das crianças na sua vida familiar. Entre elas, Justus de 5 anos, que gosta de se vestir de menina, ou Lou, que tem duas mamãs…
Vestir uma saia a todos para que dancem, propor cores, brinquedos e roupas às crianças sem qualquer distinção de sexo e, sobretudo preconizar o emprego do pronome neutro “hen”.
O documentário de Chantal Simon e Philippe Lagnier mostra como ao tentar “neutralizar” os géneros impostos pelas nossas sociedades, pais e educadores entram em conflito com preconceitos e tradições.
Aponta igualmente alguns efeitos perversos deste método - como o dessa rapariga, que quer vestir-se exclusivamente de cor-de-rosa - e sublinha as reações, muitas vezes, virulentas, que suscita. Como acontece com uma emissão da televisão australiana, que troça abertamente do método, ou pior, as múltiplas cartas de ameaças recebidas nas escolas com acusações aos educadores - insultados como “feministas talibãs” - de pretenderem homossexualizar as crianças... 

DIÁRIO DE LEITURA: Quando o cenário se faz protagonista da ação

“James Lovelock não teve sucesso com a hipótese Gaïa. Ao designar com este velho mito grego o sistema frágil e complexo pelos quais os fenómenos vivos modificam a Terra, julgou-se que ele falava de um organismo único, de um termostato gigante, até mesmo de uma Providência Divina.
Nada disso correspondia ao seu conceito: Gaïa não é o Globo, nem a Terra-Mãe, nem sequer uma deusa pagã ou a Natureza tal qual se a imaginava no século XVII, enquanto símbolo da subjetividade humana. A Natureza constituía o plano recuado das nossas ações.
Ora, os efeitos imprevistos da história humana, aquilo que empurrávamos para o papel de cenário, impõe-se agora enquanto plano principal. O ar, os oceanos, os glaciares, o clima, os solos, tudo o que considerávamos instável, vem interagir connosco. Entrámos no ciclo da geohistória. É a época do Antropoceno, com o risco de uma guerra de todos contra todos.
A antiga natureza desaparece e dá lugar a um ser que é difícil prever como se manifesta. Esse ser, em vez de ser estável e fiável, parece feito de círculos de retroações em contínua turbulência e Gaïa é o nome que melhor se lhe aplica. Explorando as milhentas figuras de Gaïa descrever tudo quanto a noção de Natureza confundira: uma ética, uma política, uma estranha conceção das ciências e, sobretudo, uma economia e uma espécie de teologia.”
Esta longa versão apressada da apresentação do livro do filósofo e sociólogo Bruno Latour no site da editora La Découverte, sintetiza-lhe bem o conteúdo. 
Para o autor nós estamos numa espécie de regresso ao século XVII: há guerras de religiões, incertezas sobre o papel do Estado e a descoberta de um mundo novo (a Terra em vez da América), deixando-nos surpreendidos com tudo quanto vemos passar-se à nossa volta sem que lhe consigamos perceber muito bem as suas verdadeiras dimensões.
O que Latour pretende com as oito conferências aglutinadas no seu livro é abater as placas tectónicas de ideias feitas, que mantemos nos nossos cérebros.  E uma delas é, precisamente, essa falsa ideia sobre o conceito de Gaïa, que está longe de ser todo o planeta, mas se limita tão só a ser a sua pequena faixa superficial onde se joga o futuro da nossa sobrevivência.

domingo, dezembro 06, 2015

DIÁRIO DE LEITURA: Cunhal nos anos 60

O quarto volume de «Álvaro Cunhal - uma Biografia Política» suscita-me particular interesse por se orientar para a década em que iniciei a curiosidade pela realidade, que via desenrolar-se à minha volta e os verdes anos não me permitiam entender: a audição clandestina da BBC em português, os alertas para o que se dissesse na presença de um tio suspeito de ligações pidescas, o sobressalto causado pela notícia da morte de Humberto Delgado, as palavras ciciadas a respeito do Mariano da Azinhaga a quem tinham vindo buscar numa noite escura e nunca mais voltou.
Ecoaram então os acontecimentos das barricadas de Paris em maio de 68 e a morte de Robert Kennedy, razões mais do que estimulantes para me tornar leitor assíduo de uma revista minimamente decente dentro da imprensa censurada de então: a «Vida Mundial».
O livro de Pacheco Pereira dá um justificado enfoque à fuga de Peniche em 6 de janeiro de 1960, quando Cunhal saiu da prisão com dez companheiros e foi cuidar da alteração da linha do Partido, que Júlio Fogaça tinha tornado fiel seguidora das teses do célebre XX Congresso.
Porque a negação de Estaline terá estado na origem do declínio e quase desaparecimento dos partidos comunistas ocidentais, depois das variantes mais ou menos mal sucedidas de “eurocomunismo” e da “perestroika”, a questão ainda me suscita atenção por ter sido pertinente para o militante da extrema-esquerda que fui no final dos anos 70, e me envolvi na cogitação dos benefícios e malefícios do discurso de Nikita Khrushchov .
Mas o livro também demonstra que o PCP continua a ser um partido com um grande pragmatismo, sabendo-se moldar às circunstâncias: se começou por olhar para Humberto Delgado como o general coca-cola, logo se lhe colou ao ver a adesão popular por ele conseguida na chegada à estação de São Bento, forçando então a desistência do seu próprio candidato, Arlindo Vicente.
A Primavera de Praga irá demonstrar aos demais dirigentes do Movimento Comunista Internacional, que Cunhal personificara a “linha justa” ao emitir reticências ao antecessor de Brejnev, sem se render aos ventos de leste soprados de Pequim.
Pacheco Pereira até descortinou o fascínio, ou pelo menos o interesse de Cunhal por experiências políticas diferentes das do Politburo do PCUS, como sucedeu com as visitas feitas à Jugoslávia de Tito ou à Checoslováquia de Dubcek, mas delas acaba sempre por se dissociar mantendo-se firme nalguns princípios, que tinham por sumula a ideia de uma viragem revolucionária em Portugal por meios violentos, sem o recurso a alianças de carácter reformista com as demais forças da oposição. Mas, igualmente, sem alinhar nos voluntarismos estéreis de Delgado, que conduziram às derrotas da intentona de Beja ou do próprio assassinato do general.
Cunhal é, indubitavelmente, um dos nomes maiores do século XX português e estudar-lhe o percurso com grande abertura de espírito só nos poderá ajudar a compreender melhor o que se joga no presente e no futuro próximo.

DIÁRIO DE LEITURA: O primeiro caso de Kurt Wallander

«A Facada», a primeira das novelas contidas na antologia «La Faille Souterraine», permitiu a Henning Mankell explicar aos seus leitores como Kurt Wallander apareceria divorciado no primeiro dos romances da série por ele iniciada em «Assassino sem Rosto» em 1991. Nessa altura, muito mais relevante do que Mona, a ex-mulher, surge Linda, a filha de ambos, uma adolescente de forte personalidade, que evoluirá à medida da passagem dos anos e iremos depois encontra-la a substituir o pai na esquadra de Ystad, ganhando autonomia própria em romances por si protagonizados.
A Mona que aparece em 1969, quando Kurt tem apenas 22 anos é ajudante de cabeleireira em Malmö e não aceita de bom grado a ocupação do namorado, que falha sistematicamente todos os encontros aprazados.
Apesar de se sentir bastante enamorado por ela, Kurt sente a precaridade de uma relação com tudo para correr mal.
Outra das características de Kurt Wallander já está bem definida: a forma obsessiva como procura resposta para as causas de um crime. O que o leva a alhear-se dos protocolos, incorrendo por isso mesmo em situações assaz perigosas. A facada do título é, precisamente, o que lhe ocorre, quando anda sozinho a procurar um suspeito num jardim frequentado por gente pouco recomendável.
Curiosamente a intriga não é muito verosímil, por iniciar-se com a morte por suicídio de um vizinho de Wallander que, na autópsia, aparece com uma apreciável quantidade de diamantes no estômago. Tratava-se de um antigo embarcadiço, que deles se teria apossado muitos anos atrás em São Luís, no Brasil, a meias com um colega logo ali aprisionado por homicídio.
Agora, regressado do outro lado do Atlântico, esse antigo parceiro vem à procura da parte da fortuna, que lhe caberia. Mas ele matara-se antes de ser alvo da fúria vingativa do homicida.
Julgando que os diamantes poderiam estar com a amante brasileira do morto, também a procura e a mata sem conseguir sucesso no seu projeto.
Mankell mostra uma Suécia muito diferente da que costumávamos associar ao país de Olof Palme, com os pobres a revelarem uma cupidez e uma falta de escrúpulos na exata dimensão de encararem o futuro sem qualquer esperança de nele encontrarem melhores condições de vida. Não é, pois, o tipo de retrato, que se esperaria proveniente de um escritor bem conhecido pelas suas ideias de esquerda, a menos que ele se inserisse na tradição de outros criadores como o do cineasta italiano Ettore Scola, conhecido pelo retrato dos mais pobres como sendo feios, porcos e maus.
No final da história podemos perguntar-nos: para que é que o suicida quisera os diamantes se durante anos a fio tivera uma existência quase miserável? Porque preferira matar-se do que tentar uma eventual partilha do pecúlio com o seu antigo cúmplice?
Embora de leitura agradável, «A Facada» poderá ter padecido da razão de ser destes romances: servirem de textos de base para a criação de guiões televisivos. Para as séries,, que na Suécia tiveram muito sucesso com atores locais, mas nossas conhecidas na versão inglesa, que tinha Kenneth Branagh no papel de Wallander.

ROTEIROS: entre a arte flamenga e Escher

Sempre que vimos à Holanda é obrigatória a viagem no tempo, que resulta da visita a alguns dos seus museus.
Desta feita, em Haia, essa oportunidade foi suscitada pelo Mauritshuis, o museu com uma belíssima coleção de arte dos séculos XVI e XVII, instalada naquela que foi a casa do antigo governador da Brasil a mando da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.
Não tendo a dimensão dos grandes museus de Amesterdão - o Rijks, o Van Gogh e o Stedelijk - esta casa de Maurício de Nassau deu-nos a oportunidade de termos ali à nossa frente «A Rapariga Brinco de Pérola» de Vermeer ou «A Lição de Anatomia do dr. Tulp» de Rembrandt, embora não faltassem também muitas obras de Rubens, Brueghel, van Dike, Jan Steen e outros grandes pintores da escola flamenga.
Olhando para os rostos dos retratados ou as cenas passadas na neve, nas lidas dos campos ou nas igrejas, foi inevitável a sensação de termos ali algo desse passado só conhecido dos livros de História, mas que correspondeu ao período áureo da história deste pequeno país.
A água, mais precisamente os mares e oceanos por onde navegaram os navios holandeses, está oportunamente presente num dos lados da Casa que, vista da perspetiva da praça adjacente, parece nela mergulhada.
Experiência diferente, mas igualmente aliciante, foi a vivida noutro museu distante do anterior apenas duzentos metros e onde pudemos apreciar a obra de um artista, que há muito apreciamos: Escher.
A coleção de obras está distribuída pelos três pisos do antigo palácio da Rainha Emma, que aqui viveu com Guilherme III nos finais do século XIX. Sobrevivendo-lhe, ela viveu até à morte neste palácio, pouco depois dos nazis terem chegado ao poder no país vizinho e futuro ocupante.
É claro que de Escher preferimos aquelas gravuras engenhosas em que há escadas a subir para baixo e passagens que se interligam em estranhas combinações onde não é possível adivinhar-lhes o início nem o fim. Mas todas as obras têm uma meticulosidade e um engenho, que nos obriga a olhá-las demoradamente para lhes captar tudo quanto nelas comportam.
O artista trabalhou intensamente as noções de perspetiva, ora colocando o ponto de fuga demasiado abaixo ou demasiado acima do centro da imagem. As deformações causadas pelos reflexos foram outras das experiências visuais, que explorou.
No último piso os criadores do museu proporcionam um espetáculo visual, que integra a mesma lógica da obra do artista, constituindo um bálsamo para os martirizados pés aqueles minutos sentados no pequeno anfiteatro a deixar os olhos perderem-se em efeitos com o seu quê de estroboscópico.
Da visita aos dois museus é fácil concluir que sem a dimensão dos seus congéneres de Amesterdão, Haia também possui excelentes argumentos para estimular as vivências de quem aqui aporta...


quarta-feira, dezembro 02, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: o trailer de «Mia Madre» de Nanni Moretti

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Moretti a contas com o seu luto

Enquanto rodava «Habemus Papa», Nanni Moretti perdeu a mãe, uma professora de latim muito reconhecida por quantos tinham sido os seus alunos.
Agora, quatro anos depois, o realizador italiano concretiza a catarse dessa dor com o seu novo título, «Mia Madre», que tem a sua amiga Margherita Buy como protagonista. Ela é uma realizadora, que percorre o quarto materno e se vai reapossando de cada uma dos seus objetos, antes de os ver definitivamente perdidos muito em breve. É que a mãe, Ada, está no hospital e as hipóteses de dele sair, antes do funesto desiderato, são nulas.
O filme abriga um outro dentro de si, porque Margherita é, ela própria, realizadora de cinema a braços com um projeto sobre a luta dos trabalhadores de uma fábrica em vias de mudar de dono.
Para a ajudar nesse projeto ela conta com um ator americano (John Turturro), que se mostra demasiado preguiçoso para decorar o texto, suscitando assim as cenas mais divertidas do filme.
Como de costume, Nanni Moretti também assume um dos papéis, o de Giovanni, irmão de Margherita, que a tenta ajudar na lenta aceitação de um luto iminente.
Nunca deixando de trazer subjacente uma abordagem dos problemas sociais e políticos mais candentes, Moretti consegue torna-los ainda mais pertinentes através do convite do espectador para se identificar com os protagonistas, sujeitos a desafios com que todos se acabam por confrontar: os de terem que aceitar o desaparecimento dos que mais afetos lhes mereceriam. 

terça-feira, dezembro 01, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: as contradições entre o progresso humano e a Natureza

Outro dos filmes imperdíveis do Porto/Post/Doc é «Behemoth» é o filme de Zhao Liang, realizador que já conhecíamos de outros títulos assaz interessantes sobre o inferno burocrático das instituições públicas chinesas ou na forma como a Sida tem sido atacada no país de Mao Zedong.
Desta feita surgem as belíssimas paisagens da Mongólia Interior destruídas pelo avanço do chamado progresso industrial, numa reflexão sobre a contradição insanável entre a Natureza e a sua transformação pelo homem. Tema pertinente nesta altura, quando decorre a Conferência sobre o Clima em Paris e muitas das discussões aí havidas têm subjacentes muitas catástrofes ambientais já ocorridas ou previsíveis num futuro próximo.
Uma vez mais se podem equacionar as incompatibilidades entre um capitalismo ganancioso e o respeito pela sustentabilidade ambiental. Muito embora os países supostamente comunistas também possuam currículo comprometedor na matéria como se comprova neste filme de Zhao Liang. 


DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: O Acontecimento registado por Loznitsa

Um dos filmes exibidos no Porto/Post/Doc, que está agora a decorrer é «The Event», com que Sergei Loznitsa montou as imagens recolhidas em 1991, quando alguns dirigentes do Partido Comunista procuraram reverter a dinâmica criada pela glasnost de Gorbatchev.
Sobre a implosão da União Soviética estou muito distante do discurso oficial, inclusivamente do meu próprio partido. Porque acredito na existência de uma conspiração. provavelmente criada em Fort Langley, que começou por criar insurreições sucessivas nos diversos países do Pacto de Varsóvia para culminar na destruição da herança, mesmo que equívoca , do legado bolchevique.
O capitalismo internacional, com os seus múltiplos clubes de Bildeberg queria pôr fim à relação relativamente equilibrada de forças entre os seus títeres e os milhões dos que nada têm senão a força do seu trabalho, e que fora uma das mais significativas conquistas da social-democracia.
Para isso era importante acabar com o mito de uma Europa oriental onde os trabalhadores possuíam direitos inerentes a um Estado Social, que os seus parceiros ocidentais exigiam  através dos seus sindicatos. Não admira que, desde a queda do muro de Berlim, esses direitos tenham sido sucessivamente reduzidos e a relação dos salários entre os administradores e os administrados das empresas tenham conhecido um distanciamento cada vez mais obsceno. E, então, quando consideramos os dividendos dos acionistas, o escândalo ainda assume maior dimensão.
Tendo em conta que a nova orientação pró-capitalista dos antigos países de leste implicou dramas terríveis aos que “compraram” a ideia de um paraíso ocidental à sua espera, quando vejo os desfiles de tantos dos futuros desiludidos nas imagens de Loznitsa pergunto-me quantos desses rostos esperançosos ter-se-ão transformados em caricaturas marcadas pelo alcoolismo e a miséria. Porque o mais sinistro em toda esta maquinação capitalista, é conseguir que sejam as suas vítimas a servirem-lhes de exército batedor…
Essa é a grande interrogação, que me fica do filme de Loznitsa.