Não sei se Paul Klee terá imaginado a Tunísia como espaço suscetível de lhe provocar grandes expetativas. Nesse ano de 1914, em que a guerra não tardaria a impossibilitar grandes deambulações, decidira regressar a Itália em busca da inspiração, que lhe andava a falhar. Fazia-se acompanhar de dois amigos, August Macke e Louis Moilliet, também carentes de novas paisagens com que vissem estimulados os impulsos criativos.
Visitadas as cidades já conhecidas, quando aí estivera na viragem do século ao acabar os estudos em Belas Artes, avançara mais para sul ao encontro da Sardenha. E do outro lado do Mediterrâneo a Tunísia surgiu na continuidade do percurso até então cumprido.
A primeira cidade a que aportaram foi Sidi Bou Saïd, que logo deixou boquiaberto o futuro autor da Teoria das Cores. Porque foram elas, que logo lhe saltaram à vista, associadas à luz e às linhas arquitetónicas. Tratou-se de tal choque emocional, que viu tudo à volta incutir-lhe o encontro com uma profunda identidade apenas pressentida. E expressou-o no seu diário.

Kerouan é, porém, onde as emoções recolhidas pelos sentidos se expressa em superlativa dimensão. A cidade rodeada de muralhas, onde outrora se encontravam as caravanas dos comerciantes do deserto, imbuem-no no mistério de um tempo parado propício à reflexão.
No retorno a casa ele atribui à viagem pelo norte de África o detonador de algo de diferente em si: uma nova linguagem em que se funde com as cores em que se vira mergulhado e presentes nos tapetes cujos motivos também surgirão replicados, mesmo que convenientemente transformados nalgumas das telas futuras. As trinta aguarelas e os treze desenhos , que trouxera na bagagem serão uma espécie de memorandos de tudo quanto aprendera sobre si e tudo quanto vivenciara.
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