Em 1961 Godard
chegou a Berlim com Uma Mulher é uma Mulher, um filme a cores, em CinemaScope,
filmado num apartamento parisiense e nas ruas do bairro de Pigalle, e o júri da
Berlinale ficou surpreendido com a frescura e a inventividade de tudo aquilo —
dando-lhe o prémio que ajudava a consagrar a Nouvelle Vague como o
movimento mais estimulante do cinema europeu do momento.
A
pergunta que o próprio filme faz — tragédia ou comédia? — é a chave de leitura.
As personagens interrogam-se em voz alta, dirigem-se à câmara, interrompem a
ficção para a comentar, e Godard deixa a questão sem resposta porque ela não
importa tanto como o facto de a pergunta existir. O cinema clássico separava os
géneros; a Nouvelle Vague misturava-os até à indistinção.
Angela —
Anna Karina filmada em todas as cores, em grandes planos ou panorâmicas,
"infame" ou une femme conforme o ângulo — quer engravidar.
Emile não quer. A solução é fazer-lhe ciúmes com Alfred, que não a larga com
vontade de a conquistar. A história é simples na complexidade — porque o
triângulo é apenas a superfície, e o que o filme realmente filma é Angela a existir,
a mover-se, sendo olhada, respondendo ao olhar.
Karina e
Godard casariam pouco depois. O filme é também um homem a filmar a mulher de
quem está a apaixonar-se — e essa intimidade atravessa cada plano.

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