Um livro
e um filme – percorridos por estes dias! - mostram como a vida tantas vezes se
organiza em torno de promessas que não se cumprem.
Em O
Quarto de Giovanni, James Baldwin acompanha a travessia de um homem que
abandona os Estados Unidos para escapar ao racismo que o sufocava. Paris surge
como possibilidade de reinício, cidade onde a diferença poderia ser menos
punida. Mas a cidade devolve‑lhe o mesmo preconceito, apenas noutra forma, noutra
língua, noutra cortesia. A mudança de lugar não altera a estrutura que o
acompanha. O oceano, afinal, não é fronteira moral.
No filme On
Falling, de Leonor Carreira, a trajetória de Aurora repete esse desengano
noutra escala. A ida para a Escócia nasce da expectativa de uma vida mais
respirável, mas a precariedade instala‑se com a rapidez de quem não precisa de
pedir licença. Uma avaria no telemóvel transforma‑se em ameaça direta à
sobrevivência, porque o custo da reparação implica fome nos dias seguintes e
uma gestão financeira que se faz como quem equilibra o corpo sobre um fio. O
trabalho num armazém consome tudo: o tempo, o sono, a energia. Nada sobra para
o que não seja estritamente necessário.
Entre o
romance e o filme, a constatação é a mesma: a ideia de que mudar de lugar é
suficiente para mudar de vida raramente resiste ao primeiro embate com o real.
O preconceito viaja. A pobreza instala‑se onde houver brecha. A esperança,
quando não encontra estrutura que a sustente, transforma‑se em rotina exausta.
E o beco sem saída não é metáfora: é condição.
A arte,
quando se aproxima desta verdade, não oferece fuga. Oferece reconhecimento. E
esse reconhecimento, mesmo duro, é o que permite ver com alguma clareza o que
tantas vezes se prefere não enfrentar.

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