quinta-feira, agosto 27, 2026

O mistério dos planos impossíveis

Há filmes que a história do cinema engoliu e depois devolveu, e Soy Cuba é um dos casos mais extraordinários desse fenómeno: rodado em 1964 por Mikhail Kalatozov, coprodução soviético-cubana que celebrava a revolução de Castro, foi ignorado à época por soviéticos e cubanos — demasiado experimental para uns, demasiado estetizante para outros — e só ressurgiu nos anos 90, quando Coppola e Scorsese o redescobriram e o relançaram.

Que Pedro Borges o estreasse na sala do Ideal Paraíso é acontecimento digno da atenção para os cinéfilos. Porque Soy Cuba é, antes de qualquer consideração política ou histórica, um prodígio técnico que continua a suscitar discussão: como é que Kalatozov e o seu diretor de fotografia Sergei Urusevsky criaram certos planos sem os recursos que hoje os tornariam fáceis?

O plano de abertura é o mais célebre — a câmara desce por um hotel de luxo, atravessa uma piscina subaquática, emerge do outro lado e continua sem corte aparente. Outro acompanha um cortejo fúnebre pelas ruas de Havana em travelling contínuo, subindo e descendo edifícios com uma fluidez que desafia a física. Numa época sem steadicam, drones, ou efeitos digitais, o que se vê é trabalho humano levado ao limite — engenho puro, gruas improvisadas, operadores de câmara pendurados em situações que hoje nenhum seguro cobriria.

Michael Cousins referencia-o nos seus documentários sobre a história do cinema com a justiça que merece: não como curiosidade histórica mas como obra que alargou o que era possível imaginar dentro de um plano.

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