Há filmes que a história do cinema engoliu e depois devolveu, e Soy Cuba é um dos casos mais extraordinários desse fenómeno: rodado em 1964 por Mikhail Kalatozov, coprodução soviético-cubana que celebrava a revolução de Castro, foi ignorado à época por soviéticos e cubanos — demasiado experimental para uns, demasiado estetizante para outros — e só ressurgiu nos anos 90, quando Coppola e Scorsese o redescobriram e o relançaram.
Que Pedro
Borges o estreasse na sala do Ideal Paraíso é acontecimento digno da atenção para
os cinéfilos. Porque Soy Cuba é, antes de qualquer consideração política
ou histórica, um prodígio técnico que continua a suscitar discussão: como é que
Kalatozov e o seu diretor de fotografia Sergei Urusevsky criaram certos planos
sem os recursos que hoje os tornariam fáceis?
O plano
de abertura é o mais célebre — a câmara desce por um hotel de luxo, atravessa
uma piscina subaquática, emerge do outro lado e continua sem corte aparente.
Outro acompanha um cortejo fúnebre pelas ruas de Havana em travelling
contínuo, subindo e descendo edifícios com uma fluidez que desafia a física.
Numa época sem steadicam, drones, ou efeitos digitais, o que se vê é
trabalho humano levado ao limite — engenho puro, gruas improvisadas, operadores
de câmara pendurados em situações que hoje nenhum seguro cobriria.

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