O cinema
tem uma relação incómoda com a representação das classes. Ettore Scola mostrou
os de baixo feios, porcos e maus — e ficou a dever uma explicação. O coreano
Bong Joon-ho, em Parasitas, deu-os habilidosos e sem escrúpulos,
enquanto os ricos eram apenas ingénuos — e também ficou a dever.
Karim
Aïnouz em Rosebush Pruning inverte o ângulo: aqui são os ricos a não
terem valores, a não ser o da cupidez e o da preservação dos privilégios.
A família
privilegiada que o filme retrata é bela, malcriada e gananciosa — e Aïnouz não
lhes concede a ingenuidade que Bong Joon-ho oferecia aos seus. São conscientes
do que são e do que fazem, o que os torna mais perturbadores e menos
simpáticos. A denúncia é clara e o realizador brasileiro não a disfarça.
Fica,
porém, a questão a que o filme não responde inteiramente: para além da
denúncia, o que tem este retrato a dizer-nos neste momento?
A crítica
aos ricos sem escrúpulos é um tema tão antigo como o cinema social, e a
eficácia de um filme sobre ela mede-se não pela justeza da acusação — que aqui
é inquestionável — mas pela complexidade com que a desenvolve. Personagens
reduzidas à sua função de classe, sejam ricas ou pobres, tendem a confirmar o
que o espectador já sabia antes de entrar na sala.
O melhor
cinema de denúncia não nos dá razão — perturba-nos.

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