terça-feira, agosto 25, 2026

Os Ricos Também Não Prestam

 


O cinema tem uma relação incómoda com a representação das classes. Ettore Scola mostrou os de baixo feios, porcos e maus — e ficou a dever uma explicação. O coreano Bong Joon-ho, em Parasitas, deu-os habilidosos e sem escrúpulos, enquanto os ricos eram apenas ingénuos — e também ficou a dever.

Karim Aïnouz em Rosebush Pruning inverte o ângulo: aqui são os ricos a não terem valores, a não ser o da cupidez e o da preservação dos privilégios.

A família privilegiada que o filme retrata é bela, malcriada e gananciosa — e Aïnouz não lhes concede a ingenuidade que Bong Joon-ho oferecia aos seus. São conscientes do que são e do que fazem, o que os torna mais perturbadores e menos simpáticos. A denúncia é clara e o realizador brasileiro não a disfarça.

Fica, porém, a questão a que o filme não responde inteiramente: para além da denúncia, o que tem este retrato a dizer-nos neste momento?

A crítica aos ricos sem escrúpulos é um tema tão antigo como o cinema social, e a eficácia de um filme sobre ela mede-se não pela justeza da acusação — que aqui é inquestionável — mas pela complexidade com que a desenvolve. Personagens reduzidas à sua função de classe, sejam ricas ou pobres, tendem a confirmar o que o espectador já sabia antes de entrar na sala.

O melhor cinema de denúncia não nos dá razão — perturba-nos.

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