Não é dos
títulos mais representativos da obra de João Botelho, mas “Aqui na Terra” dá-nos
algo que vale por si: o reencontro com Pedro Hestnes, um dos rostos mais
injustamente esquecidos do cinema português.
Há atores
que o cinema absorve e depois larga sem explicação, e Hestnes é um desses casos
— presença magnética, contenção expressiva, aquela qualidade rara de habitar o
plano sem o solicitar.
O filme
conta duas histórias em contraponto. Na paisagem beirã, um jovem casal vê o
anseio de felicidade dificultado por um crime e pela consequente expiação — uma
narrativa de culpa e redenção filmada com o rigor formal que Botelho nunca
abandona, mesmo quando o argumento hesita.
Na
cidade, Luís Miguel Cintra oferece a habitual qualidade de quem nunca desilude,
fazendo render ao máximo uma personagem perturbada pela morte do pai de um modo
que o filme não explica inteiramente.
É aí que
o filme desarticula em ambas as direções: por que razão um administrador de
empresas fica tão transtornado pela morte paterna? Porque há-de o casal do
campo passar por tão grandes trabalhos para conquistar o direito à felicidade?
Botelho
propõe sem demonstrar, e há momentos em que a elipse é mistério e outros em que
é simplesmente lacuna.
E fica
ainda Inês de Medeiros, fazendo prova de competência cinematográfica que poderia
ter consolidado se não enveredasse pelo percurso político.

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