domingo, agosto 23, 2026

Hestnes, Cintra e Inês de Medeiros

 


Não é dos títulos mais representativos da obra de João Botelho, mas “Aqui na Terra” dá-nos algo que vale por si: o reencontro com Pedro Hestnes, um dos rostos mais injustamente esquecidos do cinema português.

Há atores que o cinema absorve e depois larga sem explicação, e Hestnes é um desses casos — presença magnética, contenção expressiva, aquela qualidade rara de habitar o plano sem o solicitar.

O filme conta duas histórias em contraponto. Na paisagem beirã, um jovem casal vê o anseio de felicidade dificultado por um crime e pela consequente expiação — uma narrativa de culpa e redenção filmada com o rigor formal que Botelho nunca abandona, mesmo quando o argumento hesita.

Na cidade, Luís Miguel Cintra oferece a habitual qualidade de quem nunca desilude, fazendo render ao máximo uma personagem perturbada pela morte do pai de um modo que o filme não explica inteiramente.

É aí que o filme desarticula em ambas as direções: por que razão um administrador de empresas fica tão transtornado pela morte paterna? Porque há-de o casal do campo passar por tão grandes trabalhos para conquistar o direito à felicidade?

Botelho propõe sem demonstrar, e há momentos em que a elipse é mistério e outros em que é simplesmente lacuna.

E fica ainda Inês de Medeiros, fazendo prova de competência cinematográfica que poderia ter consolidado se não enveredasse pelo percurso político.

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