domingo, agosto 23, 2026

A memória contra a fantasia

 


O primeiro volume das Histórias da Pide, de José Pedro Castanheira, devolve ao presente o período em que Salazar mandava sem contestação, e a leitura ganha peso numa altura em que há quem suspire pela ditadura como quem suspira por uma ordem perdida, esquecendo sustentar-se essa ordem na violência metódica de uma polícia política que não hesitava em transformar suspeita em culpa e culpa em sentença.

O livro não dramatiza; expõe. E essa exposição basta para desmontar qualquer nostalgia.

Alguns episódios são conhecidos, como o assassinato de Humberto Delgado, que permanece como ferida aberta na memória democrática. Outros surgem com a estranheza do improvável, como a noite em que Agostinho Lourenço decidiu prender Calouste Gulbenkian na António Maria Cardoso, gesto de birra que quase fez a fortuna do milionário arménio abandonar o país.

A arbitrariedade não era exceção; era método. E este traduziu-se em números que não se diluem: quase trinta mil interrogados, torturados ou mortos só no continente, vidas esmagadas por uma máquina que se alimentava da ideia de que se protege o Estado perseguindo.

A importância deste tipo de livro cresce quando a memória pública começa a falhar. Não porque falte informação, mas porque falta atenção.

A ditadura regressa sempre primeiro como fantasia: a promessa de disciplina, de estabilidade, de silêncio. Castanheira mostra o que esse silêncio custava, o que significava viver num país onde a polícia política não era rumor, era presença. E lembra que Spínola, no dia seguinte ao 25 de Abril, ainda tentou manter essa estrutura, convencido de que a repressão podia sobreviver à Revolução.

Não sobreviveu. O ódio popular era demasiado fundo, antigo e justo.

A leitura devolve proporção ao debate contemporâneo. Não há ditadura benigna, não há repressão pedagógica, não há nostalgia inocente. Há apenas esquecimento — e o esquecimento é sempre o primeiro passo para a repetição.

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