O
primeiro volume das Histórias da Pide, de José Pedro Castanheira,
devolve ao presente o período em que Salazar mandava sem contestação, e a
leitura ganha peso numa altura em que há quem suspire pela ditadura como quem
suspira por uma ordem perdida, esquecendo sustentar-se essa ordem na violência
metódica de uma polícia política que não hesitava em transformar suspeita em
culpa e culpa em sentença.
O livro
não dramatiza; expõe. E essa exposição basta para desmontar qualquer nostalgia.
Alguns
episódios são conhecidos, como o assassinato de Humberto Delgado, que permanece
como ferida aberta na memória democrática. Outros surgem com a estranheza do
improvável, como a noite em que Agostinho Lourenço decidiu prender Calouste
Gulbenkian na António Maria Cardoso, gesto de birra que quase fez a fortuna do
milionário arménio abandonar o país.
A
arbitrariedade não era exceção; era método. E este traduziu-se em números que
não se diluem: quase trinta mil interrogados, torturados ou mortos só no
continente, vidas esmagadas por uma máquina que se alimentava da ideia de que se
protege o Estado perseguindo.
A
importância deste tipo de livro cresce quando a memória pública começa a
falhar. Não porque falte informação, mas porque falta atenção.
A
ditadura regressa sempre primeiro como fantasia: a promessa de disciplina, de
estabilidade, de silêncio. Castanheira mostra o que esse silêncio custava, o
que significava viver num país onde a polícia política não era rumor, era
presença. E lembra que Spínola, no dia seguinte ao 25 de Abril, ainda tentou
manter essa estrutura, convencido de que a repressão podia sobreviver à
Revolução.
Não
sobreviveu. O ódio popular era demasiado fundo, antigo e justo.
A leitura
devolve proporção ao debate contemporâneo. Não há ditadura benigna, não há
repressão pedagógica, não há nostalgia inocente. Há apenas esquecimento — e o
esquecimento é sempre o primeiro passo para a repetição.

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