No
prefácio ao primeiro volume da Fundação, Jaime Nogueira Pinto afirma,
com evidente satisfação, que na ficção científica clássica não surgem
democracias, apenas regimes autoritários, como se a imaginação do futuro
confirmasse a tese de que o poder concentrado é norma e a democracia exceção. A
frase pretende ser constatação, mas é enviesamento: confunde cenário narrativo
com diagnóstico histórico, e sobretudo ignora que muitos desses mundos
autoritários existem precisamente para denunciar o que acontece quando a
democracia falha.
A ficção
científica não descreve inevitabilidades, mas advertências. Os impérios de
Asimov, as hierarquias rígidas de Herbert, as corporações totalitárias de
Philip K. Dick, os sistemas de vigilância de Bradbury ou Orwell não são
celebrações do autoritarismo — são críticas. São construções que mostram o que
acontece quando o poder se autonomiza, quando a tecnologia se transforma em
instrumento de controlo, quando a política abdica da responsabilidade e entrega
o futuro à eficiência sem escrutínio. O autoritarismo aparece porque é ameaça,
não porque é destino.
Além
disso, a tese ignora que a ficção científica sempre imaginou formas
alternativas de organização democrática, mesmo quando não lhes dá o nome
explícito. As federações cooperativas de Ursula K. Le Guin, os modelos
comunitários de Kim Stanley Robinson, as sociedades pós‑escassez de Iain M.
Banks, os sistemas deliberativos de Octavia Butler — todos estes universos
trabalham a ideia de democracia expandida, experimental, adaptada a escalas que
o presente ainda não consegue sustentar. Não são aberrações; são
possibilidades.
O
equívoco nasce de uma leitura que confunde cenário com desejo. O facto de
muitos autores escolherem mundos autoritários não significa que os considerem
naturais; significa que os consideram perigosos. A ficção científica, quando é
séria, não projeta o futuro como fatalidade, mas como aviso. E o aviso, quase
sempre, é o mesmo: quando a democracia é desvalorizada, o autoritarismo ocupa o
espaço.
A tese de
Nogueira Pinto não descreve a ficção científica; descreve apenas a sua própria
preferência política.

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