domingo, julho 26, 2020

(DL) Contos de Teresa Veiga, Julian Fuks e José Eduardo Agualusa


1. De Teresa Veiga já nada lia há alguns anos depois de lhe conhecer as primeiras obras há uns bons trinta anos. Em Le Cose Belle acompanhamos a atividade de uma clínica pró-vida, que vai-se transformando de acordo com o faro do seu proprietário, o dr. Pascual, para outros nichos rentáveis.  É assim que depressa há a decisão de fazer abortos nas irredutíveis grávidas dispostas a não levarem a gestação até ao fim ou implementar tratamentos inovadores para a impotência masculina. Não conhecendo limites o ousado empreendedor até acaba por criar um espaço de animado convívio para homens e mulheres de idade mais provecta, mas decididos a reavivarem os prazeres da carne num espaço  a meio caminho entre um clube para orgias ou um prostíbulo de terceira idade.
2. De Julian Fuks li, com muito prazer, o romance A Resistência onde as vicissitudes políticas no Brasil e na Argentina nos anos das respetivas ditaduras se entreligavam com as das complexas relações do narrador com um irmão adotado. Agora reencontro-o num conto da Granta em que o incipit dá logo o tom das três histórias, que o integram: “Todo homem é a ruína de um homem”.
E ele pode ser um bêbedo numa cadeira de rodas a quem o narrador é instado a pagar uma cachaça, mesmo devendo negar por isso um suco a uma criança, que também lho solicitara, mas para o qual não lhe sobravam trocos no bolso. Pode ser o pai no leito do hospital, acometido de uma infeção, que o inchou. Ou um refugiado sírio desejoso de partilhar, com quem se dispusesse a ouvi-lo, a história de como nunca mais vira a família desde o dia em que ganhara coragem para fazer um discurso político numa praça em Homs.
3. Singular o conto Vissolela de José Eduardo Agualusa em que o narrador é contactado para entrevistar uma transsexual particularmente excitante para os muitos clientes, que a procuram.  Mas foco de ódios de quem olha para essa conduta e a verbera, porque pecadora à luz da visão mais austera da religião. E, no entanto, acompanhando sucessivas notícias que lhe vão chegando da nova amiga o narrador acaba por concluir pela inesperada ambiguidade da imagem, que dela formara.

sábado, julho 25, 2020

(DIM) O Quadrado



Dos atuais realizadores escandinavos Ruben Östlund é o que tem apresentado obras mais estimulantes. Palma de Ouro em Cannes em 2017 e Óscar do Melhor Filme Estrangeiro no ano seguinte, O Quadrado enquadra-se perfeitamente nas intenções de colocar o espectador perante situações bizarras, que o levem a questionar-se sobre o que fariam se estivessem na pele do protagonista.
Neste filme conhecemos Christian, bem sucedido conservador num prestigiado museu de arte contemporânea em Estocolmo prestes a estrear uma exposição sobre altruísmo, que tem no quadrado o foco inspirador. Esse espaço de 4 x 4 metros, demarcado  no pavimento à entrada da instituição, deverá representar o sítio onde todos são iguais em direitos e deveres e quem necessitar de ajuda solidária a encontrará sem pejo. Mas não tarda que Christian se veja submetido a dura prova pessoal, quando se vê vítima de um grupo de carteiristas capazes de, sem disso se dar conta, espoliarem-no da carteira, do telemóvel e dos botões de punho herdados do avô. A diferença entre a teoria e a prática irá infernizar-lhe os dias seguintes...
A frustração de se ter visto enganado leva-o a duvidar das vantagens de confiar nos outros. E pior, quando o gps lhe localiza o telemóvel num edifício situado num dos bairros mais pobres da cidade, vai distribuir uma mensagem por todos os andares a dar 24 horas ao ladrão para devolver o que lhe fora roubado sob pena de o confrontar com as consequências do seu ato.
Tal como já constatáramos em Força Maior (2014), quando víamos o desmoronamento de uma família, após a fuga do pai da avalanche que ameaçava tragar a estância alpina onde passava férias, sem cuidar da salvação da esposa e dos filhos, Östlung repete em O Quadrado o exercício sociológico de interpretar a relevância do grupo nos comportamentos individuais. Põe, igualmente, em causa o mundo da arte contemporânea, com tantas obras semelhantes umas às outras, justificadas por conceitos quantas vezes difíceis de compreender, e na realidade nada tendo a ver com a vida das pessoas, nem lhes suscitando nada de particularmente relevante. A performance do artista russo, que mimetiza um descontrolado símio no jantar de angariação de fundos, fazendo com que os mecenas convidados se sintam ameaçados, se não mesmo agredidos, será determinante para que o futuro do protagonista fique em causa.
A crítica estende-se, igualmente, às mensagens publicitárias, iniciando-se a queda de Christian do pedestal, ao distrair-se do essencial e deixando que o museu surja associado a um filme promocional da próxima exposição onde se vê uma bonita criança loura de três ou quatro anos a explodir por efeito de uma bomba dentro do quadrado. Está em causa a forma como se procura obter a atenção dos jornais e das televisões, que não chegam a ajuizar os efeitos colaterais de certos conteúdos pensados para suscitarem a atenção dos que consomem as mensagens noticiosas e facilmente se enredam nas intenções pouco escrupulosas dos que as usam habilmente para satisfazerem as agendas de extrema-direita.
Óbvia igualmente a diferença entre a elite endinheirada a que Christian pertence e os pobres, que se veem por todo o lado, seja como sem-abrigos à beira dos edifícios públicos, seja como mendigos que tanto incomodam os transeuntes. A imagem de uma Suécia próspera, onde todos usufruíam excelentes condições socioeconómicas, desaparece perante uma realidade naturalmente associada à forma como as instituições públicas responderam à chegada de milhares de refugiados políticos ou emigrantes económicos, possibilitando o fortalecimento das forças políticas xenófobas e racistas. Christian não compreende porque não há quem se ocupe dos pedintes e dos que dormem nas ruas, livrando-o do incómodo de com eles ser forçado a preocupar-se.
Há, finalmente, o confronto com o miúdo que vem exigir-lhe um pedido de desculpas, porque tinha-o colocado em causa perante o pai, convencido de ser ele o ladrão. Nesse despique Christian precipita involuntariamente o miúdo pelas escadas abaixo do seu prédio, sendo-nos vedada a constatação de como ele ficara. E, quando no final, já desempregado e mal barbeado, vai procura-lo para cumprir o que lhe exigira já não o encontra. Um vizinho informa-o da mudança da família para endereço desconhecido, deixando Christian perante o remorso de não conseguir retratar-se.
Em menos de duas horas e meia de filme, Östlund congrega um conjunto significativo de questões merecedoras de demorada reflexão de quem as sente pertinentes. E consegue incomodar o suficiente para que não esqueçamos o quanto com elas nos vimos confrontados.

sexta-feira, julho 24, 2020

(P) Dudamel a dirigir a Dança Húnagra nº 1 de Brahms

(DIM) Maria, Rainha dos Escoceses


Há quem considere infeliz a coincidência da estreia deste filme com a de A Favorita, de Yorgos Lanthimos, que conseguiu sucesso mais substancial em torno do mesmo tema de conspirações e intrigas em cortes britânicas. No papel de Rainha Ana, Olivia Colman chegou ao Óscar de Melhor Atriz, o único que esse filme concorrente teve das dez categorias para que fora nomeado.
Recuando dois séculos o percurso de Maria Stuart é até mais interessante do que o da Rainha Ana, mesmo que mereça da estreante Josie Rourke uma abordagem pouco respeitadora da realidade histórica. Mas se entre esta e a lenda, escolhe-se a mais ajustada para que a intriga se torne palpitante como criticar o argumentista, o conhecido Beau Willimon, que já nos dera ensejo de apreciar-lhe o talento para congeminar traições e manipulações na série House of Cards?
Houve igualmente quem associasse o filme ao movimento MeToo, então no auge mediático por causa das acusações contra o produtor Harvey Weinstein. Assim, mais do que explorar as conjuras financiadas por Isabel I para derrubar a prima católica, a realizadora opta por as fazer protagonistas da luta contra os poderes patriarcais, que tendem a submete-las.
A cena inicial mostra como uma e outra, adotando estratégias diferentes, conhecem desenlaces opostos. A montagem justapõe Maria e Isabel a percorrerem corredores, uma encaminhando-se para o cadafalso, a outra enredando-se nas torturadas divagações de quem se negou a ser mulher e mãe como estratégia eficaz de sobrevivência perante uma corte, que despreza a sua condição feminina. No fim dessa justaposição de planos-sequência ambas olham para cima, uma para ver a neve pela última vez, a outra para conjeturar as consequências morais de ter assinado a ordem de execução da prima.
Oriunda do teatro, onde conquistou fama como encenadora, Josie Rourke revela-se demasiado académica na concretização do projeto: enquanto Isabel é, amiúde, iluminada pela luz solar, Maria está condenada a movimentar-se sob céus sombrios ou nos salões escuros de palácios, que não chegam a contagiar-se no aspeto lúgubre com a alegria das suas festas e brincadeiras com as aias. As paisagens escocesas ajudam a compor uma fotografia, que chega a ser magnífica, as interpretações irrepreensíveis, todo o cuidado com a reconstituição, quer dos cenários, quer do guarda-roupa é o que costumamos encontrar nas melhores produções britânicas. E há a banda sonora de Max Richter, quase por certo um dos melhores compositores de músicas para filmes nos dias atuais.
Há, porém, algo que sempre me incomoda, provavelmente por preconceito: ver cortesãos britânicos do século XVI com tez negra ou asiática. No teatro, com as suas convenções próprias, isso não me suscita reparo, mas num filme apostado em suscitar a verosimilhança de sugerir como aparentavam as épocas passadas, esse sintoma de modernidade tende-me a ver posta em causa a pretendida credibilidade.
Quando chegamos ao final, que já conhecíamos de antemão, podemos amplificar a análise concluindo que o poder assente numa só pessoa, tende a ser alvo de constantes conspirações, porque é próprio dos cortesãos tudo fazerem para conseguirem maiores proveitos do que os seus méritos justificariam. No fundo os argumentos religiosos ou sexistas mais não servem do que de alibis para que gente sem escrúpulos - e aqui são tantos os que rodeiam as duas rainhas! - se exceda em malignas ações.