Vemos, ouvimos, lemos e experimentamos. Tanto quanto possível pensamos pela nossa própria cabeça...
segunda-feira, outubro 23, 2017
domingo, outubro 22, 2017
(DL) Coisas de livros (III): Alice Brito, Mega Ferreira e Dubravka Ugrešić
(1) Uma das iniciativas regulares da Associação Gandaia, da Costa da Caparica, consiste em convidar um escritor a apresentar obra recém-publicada perante a interessada audiência, que costuma acorrer a tais sessões. Nos últimos meses temos tido o privilégio de debater com Ana Margarida de Carvalho, Isabela Figueiredo, Valério Romão, Cristina de Carvalho entre muitos outros autores, que seria fastidioso aqui enumerar.
Na próxima quarta-feira a convidada é Alice Brito, que vem falar do seu romance «O Dia em que Estaline encontrou Picasso na Biblioteca». Entre Setúbal e Barcelona equacionam-se as utopias, que assinalaram os acontecimentos mais relevantes do século transato e os equívocos com elas relacionados. Temos personagens fortes, que conheceram a fome, a luta e a repressão, mas também a inquebrantável vontade de tudo transformar. E quem já o leu não poupou nos elogios para com uma história capaz de agarrar o leitor de fio a pavio.
No dia 25 de outubro pelas 21.30 está assim prometida mais uma estimulante noitada no Auditório do C.C. O Pescador. O convite fica aqui replicado para quem se disponha a passar um par de horas bem mais interessante do que acompanhar as parvoíces do José Gomes Ferreira na SIC.
(2) Nunca fui grande entusiasta da pintura abstrata apenas focalizada nos jogos das formas ou da cor. Se aprecio Malevich, Mondrian ou Rothko não é tanto pela beleza estética, mas por almejarem propósitos vanguardistas em rutura com os cânones anteriores.
Detesto o conceito da «arte pela arte», orgulhosamente assumida como superior nas intenções à que procura caução política, social, até mesmo religiosa.
Vem isto a propósito da viagem a Itália de António Mega Ferreira e da sua paragem em Bolonha para, entre outras razões, visitar a casa onde vivera o pintor Giorgio Morandi. Anos antes a apreciação indiferente da sua obra fora surpreendida pelo efeito suscitado numa retrospetiva das suas naturezas mortas e paisagens. Vistas em conjunto essas obras, quase todas semelhantes, porque tomavam por tema os mesmos motivos, tinham-no feito compreender a razão porque Morandi costumava percorrer o jardim da moradia com binóculos para ver aquilo que, a olho nu lhe escapava. Como se, para além do que estava mais acessível à sua atenção, houvesse todo um mistério por explorar. Daí a questão do que verdadeiramente se escondia por trás das mesmas jarras ou da mesma paisagem: mais do que a sua aparência, que mistério se ocultaria nas suas formas e cores?
(3) “A vida não passa de um álbum de fotografias. Só o que está no álbum existe. O que não está no álbum, nunca aconteceu.”
Dubravka Ugrešić conta a respeito desta frase do seu «O Museu da Rendição Incondicional» uma estória elucidativa: embora não apreciasse a fotografia por aí além decidiu comprar uma máquina barata para registar a iminente viagem ao estrangeiro. Quando regressou a casa tinha vários rolos com o que lhe parecera mais interessante captar. O paradoxal foi compreender que, tempos depois, quando recordava essa experiência só conseguia lembrar-se das coisas que fotografara, tendo-se apagado da memória tudo quanto deixara escapar à objetiva.
Mais adiante ela considera que “uma fotografia é uma redução do mundo infinito e intangível a um pequeno retângulo. Uma fotografia é a nossa medida do mundo. Uma fotografia é também uma memória. Recordar significa reduzir o mundo a pequenos retângulos. Ordenar os pequenos retângulos num álbum é autobiografia.”
A evidência dessa ilação aconteceu-lhe da primeira vez em que se viu a percorrer as ruas de Nova Iorque e, ao contrário do que esperava, nada sentia de extraordinário dentro de si. No entanto tudo mudou quando apanhou um táxi, cujo condutor tinha o rádio a transmitir música em som significativamente alto e as ruas começaram a desfilar perante si no para-brisas do carro. Como se carecessem dessa tradução através de um aparente ecrã para ganharem um impacto mais próximo do expectável...
sábado, outubro 21, 2017
(DL) O véu negro de Nathaniel Hawthorne
Em 1832 Nathaniel Hawthorne publicou «O Véu Negro» («The Minister’s Black Veil»), que depois surgiu com frequência nas antologias com as suas histórias mais curtas.
No início temos o sacristão a tocar os sinos da igreja de Milford, na puritana Nova Inglaterra, para o serviço religioso. Mas logo estaca surpreso, num sentimento logo partilhado por todos quantos para ali acorrem: o reverendo Hooper surge-lhes com um véu preto semitransparente a obscurecer-lhe os olhos, só deixando a boca e o queixo à vista.
Enquanto se dirige ao púlpito todos especulam sobre o significado daquela singular forma de se apresentar, mas ele parece querer corresponder-lhes através da prédica sobre supostos «pecados secretos». De quem: dos paroquianos? Dele próprio? Ninguém arrisca juízo definitivo embora tudo aponte para a natureza pecaminosa inerente a todos as pessoas. Nesse mesmo dia, oficiando um funeral durante a tarde e um casamento noite adentro, Hooper não se desfaz da nova indumentária, mesmo que pareça assombrar a futura felicidade dos noivos com tão anódina postura.
A teimosia de Hooper quanto à intenção de nunca mais se livrar do véu resiste à própria noiva, Elisabeth, que tenta demovê-lo, primeiro com jovialidade, depois mais a sério, quando, derrotada, se vê forçada a romper o noivado. Muitos anos decorrem, já com todos os crentes do povoado a aceitarem placidamente a originalidade de pastor. “Por fim, a morte atingiu aquele homem que descansava num torpor mental e exaustão física, com pulso impercetível e uma respiração cada vez mais leve, exceto quando uma longa e irregular inspiração pareceu ser o prelúdio para o voo do seu espírito.” Respeitando-lhe a vontade, sepultam-no com o véu a cobrir-lhe o rosto.
Contemporâneo do autor, Edgar Allan Poe assinou uma crítica sobre o conto, constatando que cada leitor é desafiado a encontrar a explicação sobre o caso, afinal não tão absurdo quanto possa parecer, porquanto Hawthorne inspirara-se no caso real de um clérigo de York, no Maine, que matara acidentalmente um amigo, quando era jovem, e nunca mais se libertara de véu semelhante desde o funeral até à morte. Aqui, porém, Hooper nega o olhar dos conterrâneos para nele não verem a essência pecaminosa, intenção que se revela arrogante, algo a que um bom cristão deveria furtar-se.
Temos, pois, questões como a natureza escondida da culpa, a comunhão dos pecadores e a moralidade. O mesmo Poe especulou que Hooper poderia ter cometido adultério com a jovem, cuja urna é instado a acompanhar no início da história, dado ser esse o dia em que começa a envergar o véu. Hawthorne dá um sinal dessa possibilidade, quando os coveiros são tomados de breve visão, que o mostra de mãos dadas com o espírito da defunta.
Outras leituras referem o véu associado à obsessão puritana com o pecado, que fundamenta o medo obsessivo da comunidade com a salvação pessoal, havendo sempre o medo de não se fazer o bastante para merecer o acesso ao céu.
Na minha perspetiva a mais pertinente é a da rapidez com que os paroquianos normalizam a surpresa inicial, assimilando-a e comportando-se depois como se nada de extraordinário constituísse. É a velha fórmula pessoana do primeiro estranha-se, depois entranha-se. Ora, graças a essa tendência humana de cariz quase universal, quantos absurdos aceitamos na nossa quotidianidade sem os questionarmos? No caso dos não ateus, como levá-los a ajuizarem criticamente o facto de aceitarem a existência de uma qualquer natureza divina...
sexta-feira, outubro 20, 2017
(DIM) Jacques Mayol, o Homem Golfinho
A primeira vez que vi o nome do mergulhador Jacques Mayol foi numa revista francesa, que me deu a conhecer a sua personalidade e a rivalidade com Enzo Maiorca, que o desafiara para saber qual dos dois conseguiria descer em apneia até cem metros de profundidade, meta considerada inalcançável pelos especialistas de então.
Mayol alcançou o almejado êxito ao largo da ilha de Elba em 1976 e, deparava-me no final do artigo com a notícia de que, uma dúzia de anos depois, Luc Besson preparava-se para estrear um filme sobre esse tema. Chamou-se «Le Grand Bleu», e tão só o tive disponível nos ecrãs de cinema, logo para eles me precipitei a consolidar o reconhecimento dessa ideia de sempre se atingirem metas, mesmo tidas como impossíveis, tão só nelas se aplicassem capacidades e determinação.
Jean-Marc Barr, que nesse filme, interpretava-lhe o papel, dá a voz a um documentário acabado de estrear - «Jacques Mayol, l’homme dauphin» de Lefteris Charitos - ainda mais elucidativo sobre quem ficou para a História como responsável de uma interação mais profunda do homem com o mar e o procurou concretizar através da busca de si mesmo, não enjeitando os contributos propiciados pelas religiões orientais e pelo ioga. O apelo a tais recursos não eram de estranhar em quem nascera, e crescera, na China costumando passar férias na costa japonesa onde as “ama” eram, há séculos, especialistas em apanharem ostras perlíferas em apneia. Ele recordava, igualmente, o momento em que vira golfinhos pela primeira vez: aos sete anos, quando num paquete colonial, viajava com os pais para França.
Chegado á idade adulta atravessou o oceano para os Estados Unidos para aí viver ao sabor das circunstâncias: andou por Hollywood a servir de motorista a estrelas de cinema - uma delas Zsa Zsa Gabor -, a caçar tesouros submarinos e a pescar lagostas nas Caraíbas. A epifania surgiu-lhe em 1957, quando trabalhava num delfinário de Miami e conheceu o golfinho Clown com quem conseguiu estabelecer uma empatia inesperada. O apelo pelas profundezas e pelos seus habitantes não mais o abandonaria. E, quando perdeu a companheira, Gerda, tragicamente assassinada, seria na meditação zen que encontraria fraco paliativo para essa incurável sensação de perda. Seria através dessa revolução interior, que justificaria o sucesso na disputa com Maiorca.
O pior foi o que ocorreu daí por diante: se a consagração internacional propiciada pelo filme de Bresson ainda o motivou para as causas ecológicas, de que se tornara porta-estandarte, a progressiva queda na depressão levá-lo-ia ao suicídio em 2001, cumprindo o tipo de comportamento conhecido nos golfinhos em que, os membros mais velhos e enfraquecidos, optam por se afastar das respetivas famílias para morrerem entregues a si mesmos.
quinta-feira, outubro 19, 2017
(EdH) As Guerras de Ocupação nas colónias africanas
Voltámos a ter o privilégio de assistir às aulas de História na RTP 2 numa série de programas intitulado «História a História África», que também pode ser visto na net: https://www.rtp.pt/play/p3951/historia-a-historia-africa .
No primeiro episódio, agora emitido, estiveram em causa as Guerras de Ocupação em África no final do século XIX, que culminaram na bravata de Mouzinho de Albuquerque em Chaimite, quando aprisionou o rei dos Vátuas, Gungunhane. Ora esse momento histórico era intensamente utilizado pelo salazarismo na época em que entrei para a Escola Primária no início dos anos 60: para justificar a ordem de seguir para Angola em força o único canal de televisão então existente apresentava com regularidade o filme que Jorge Brum do Canto rodara em 1953 com Jacinto Ramos no papel principal e música «heroica» de Joly Braga Santos. Não admira, pois, que aquele chefe africano fosse um dos mais detestados «maus da fita» da minha infância.
A importância desta série - que pena, mas ao mesmo tempo tão esclarecedor, não ser transmitida a hora de grande audiência no canal 1! - é dar-nos a oportunidade de melhor clarificarmos algumas das conclusões entretanto adquiridas sobre esse período da História portuguesa. Por exemplo que, ao contrário, do que o regime fascista nos pretendia convencer, a ocupação de África não datava do século XVI, mas do século XIX, porquanto até então existiam tão só as fortalezas e entrepostos polvilhados por toda a costa africana para aí garantirem o comércio de mercadorias para os portos europeus e, depois, sobretudo - quando elas consistiam em escravos -, para os litorais brasileiro, caribenho ou norte-americano.
A efetiva ocupação da «África portuguesa» não chegou a durar um século e à conta das Guerras de Pacificação em que os centuriões coloniais utilizavam carabinas e canhões contra as lanças e azagaias indígenas.
Rosas também lembra as razões porque os republicanos tinham tanto apreço pelas colónias: não só a discussão sobre a sua posse tinha desempenhado importância primordial na altura do Ultimato impulsionando-os como movimento político em irreversível ascensão, como as possessões africanas conseguiam conter as intenções anexionistas castelhanas, que funcionavam como ameaça sempre latente.
Acresce ainda outra tese interessante: as campanhas africanas do nosso Exército durante a Primeira Guerra Mundial, que se saldaram por humilhantes derrotas e um número bem superior de baixas às verificadas nas trincheiras da Flandres, foram a sequência natural dessas Guerras de Ocupação e de pacificação das etnias das várias colónias, que nunca aceitaram de bom grado o domínio branco.
Conclua-se, enfim, com outra evidência, que subjaz implicitamente à exposição de Fernando Rosas: vindo a beneficiar substancialmente com essas colónias, que utilizará não só enquanto proveito financeiro, mas sobretudo enquanto fator primordial da sua ideologia imperial, que poderemos entender ridícula em relação à capacidade para gerir e explorar tão amplos territórios, Salazar encontrou o trabalho todo feito em 1928, quando verdadeiramente começou a concretizar a estratégia, que o tornaria ditador absoluto nas décadas seguintes.
(DL) Coisas de livros (II): António Mega Ferreira e as suas viagens por Itália
1. No prefácio de «Itália - Práticas de Viagem», António Mega Ferreira cita uma frase de Péter Esterházy, que faz, hoje, todo o sentido: “o turista não viaja, apenas muda de lugar”.
A viagem é algo de demasiado sério para ser equiparado ao que fazem as hordas despejadas diariamente dos gigantescos paquetes chegados a porto e logo encarneiradas para excursões pré-definidas, onde o objetivo é chegarem-se a alguns monumentos ou paisagens idílicas e aí tirarem selfies a fim testemunharem para a posteridade o terem ali estado. Ou os que chegam a uma cidade, hospedam-se num hotel ou pensão, e só ousam dirigir-se aonde os seus guias de viagem recomendam que se vá.
No tempo de Goethe, que publicou um memorável relato da sua viagem por Itália entre 1786 e 1788, o objetivo era descobrir-se descobrindo, como se a permanente novidade estimulasse lugares recônditos do seu ser, dessa forma trazidos para a superfície. Era suposto que o viajante viesse a revelar-se melhor pessoa ao conhecer-se bem melhor do que antes.
Os turistas de hoje mudam de lugar, porque já trazem as cabeças formatadas nas suas certezas e nada as alterará. A viagem é um objeto de consumo, que se mastigue e deita fora sem que questione, impressione, deslumbre ou intimide quem a vive.
Estamos na era dos turistas quase sem espaço para que, entre eles, cirandem os viajantes.
2. Trieste é muita coisa, mas ficou conhecida por ser o ponto de encontro, ou de desencontro, das culturas existentes à sua volta. Todas desejosas de reterem para si o importante porto de acesso ao que se designou como Mitteleuropa.
Em 1914 um arruinado James Joyce chegou ali para se candidatar ao modesto posto de professor de uma escola de línguas, que lhe valeria o ordenado suficiente para sustentar a mulher e os dois filhos. E ficou amigo para a vida de Italo Svevo, um homem abastado com tanto talento para a escrita como falho de confiança quanto ao seu sucesso. Ao contrário do irlandês a quem não faltava prosápia quanto à sua genialidade, mas não conseguia quem o publicasse.
Nos catorze anos seguintes, mesmo com Joyce já estabelecido em Zurique, os dois homens mantiveram uma contínua ligação epistolográfica até Svevo espatifar-se com o automóvel e privar o amigo do seu nunca regateado apoio.
3. Mega Ferreira sente um fascínio inesgotável por uma tela de Carpaccio, datada de 1496, que revela bem a sofisticação, que estava a apossar-se de Veneza. A Ponte do Rialto ali representada, ainda era feita de madeira, não oferecendo qualquer segurança. Poucas décadas depois já ela era em pedra, subsistindo como tal até aos nossos dias. Mas há no quadro em causa a sensação de espreitar-se para um passado, que nunca será de nós conhecido.
4. Tintoretto e Ticiano eram rivais dado diferenciarem-nos as classes sociais originais. O primeiro era filho de um artesão, enquanto o segundo convivia com os poderosos, monopolizando-lhes as encomendas. E, no entanto, além de ser muito rápido a concluir as encomendas, dever-se-ia ao primeiro uma renovação substantiva dos métodos de trabalho e nos cânones estéticos da arte pictórica. Mas sabemos bem como os irreverentes não costumam ter vida fácil…
quarta-feira, outubro 18, 2017
(DIM) Andrei Tarkovsky ao espelho
No ciclo de cinema dedicado à comemoração do 100º aniversário da Revolução de Outubro é uma feliz coincidência sucederem-se dois filmes em que o protagonista não se vê, porque os seus olhos são os da câmara, incumbida de nos transmitir a sua narrativa.
Na semana passada vimos o realizador Alexander Sokurov a conduzir-nos através dessa «Arca Russa», que não era mais do que o atual Museu Hermitage, edifício de grande importância no acontecimento histórico agora em questão, por ter sido o símbolo da vitória bolchevique, quando ainda se denominava Palácio de Inverno. Durante noventa e seis prodigiosos minutos de um mesmo plano-sequência acompanhávamos alguns dos mais relevantes episódios da História Russa desde a criação da cidade de São Petersburgo por Pedro, o Grande, até à atualidade, com Valery Gergiev a dirigir a orquestra do Teatro Mariinsky.
Agora temos Andrei Tarkovsky a guiar-nos numa prodigiosa aventura sensorial, que a revista Sight & Sound não hesitou em classificar nos dez melhores filmes de todos os tempos. Numa entrevista o realizador esclareceu que “tinha decidido, neste filme e pela primeira vez, usar os recursos do cinema para falar de todas as coisas que me eram mais queridas, e que iria fazê-lo diretamente, sem usar quaisquer truques”.
Embora «O Espelho» fosse rodado em 1975, entre dois dos seus maiores êxitos («Solaris» e «Stalker»), Tarkovsky estava plenamente convencido que o cinema comercial era, com a sua desonestidade, o culpado pelo enfraquecimento da consciência do público. Por isso reconheceu ter sido “extremamente difícil explicar às pessoas que não há nenhum significado oculto no filme, que não há nada além do desejo de dizer a verdade”.
Essa é a dificuldade com que os espectadores podem começar por se confrontar: a montagem não obedece a uma lógica narrativa, porque respeita prioritariamente o que acontece nas cabeças, quando tentamos compreender a associação das ideias. Compreendemos que, pensando no passado, vemo-lo feito de recordações e sentimentos.
Daí que a estrutura do filme seja descontínua, não seguindo uma lógica cronológica, nem um enredo convencional. A exemplo da coca-cola de Fernando Pessoa, primeiro estranha-se, depois entranha-se a tal ponto que, quem se deixar conduzir pela sedução encantatória do filme, acaba por dele colher aquilo que muitos outros já confessaram com ele ter encontrado: um inexplicável fascínio.
Alexei, o alter ego do realizador, é um homem moribundo com cerca de quarenta anos, que faz o balanço do passado desde a infância até essa altura, recorrendo a sucessivos flash backs e filmes de arquivo. Revisitamos, pois, as suas memórias antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial e a pena de não ter conseguido ser tão dedicado à família quanto desejara ter sido. Tarkovski faz, aqui, o seu testamento, ainda que só viesse a falecer onze anos depois, com apenas 54 anos, e recorre para isso aos pais: a mãe faz o papel da idosa Maria e o pai declama poemas da sua própria autoria. Faz, pois, uma homenagem às origens e aos sítios onde cresceu, sem nada pretender ensinar ou insinuar, antes desafiando os espectadores para, assistindo a estas memórias, resgatarem também as suas.
Os críticos dedicaram-se a decifrar muitos dos significados possíveis de outras tantas cenas do filme, mas viram-se perdidos num autêntico labirinto. O verdadeiro fito de Tarkovski surgia explicito nos seus proclamados objetivos: “uma verdadeira imagem artística oferece ao expectador uma experiência simultânea dos sentimentos mais complexos, contraditórios e, por vezes, mutuamente exclusivos”.
Podem-se, porém, relevar a presença dos espelhos, que surgem por todo o lado numa singular conexão com outro filme recentemente exibido no Cineclube Gandaia («Relatório Minoritário» de Steven Spielberg), onde também alertáramos para a importância do acessório que dá título ao filme. Numa cena insuportavelmente longa, o filho de Alexei olha-se a si mesmo durante um minuto e vinte segundos. Mas, para além de se tratar de um filme sobre a importância de nos equacionarmos no que somos e fomos, ele tem nos espelhos o pretexto para mudar os planos do presente para o passado, da realidade para o sonho e vice-versa.
Questionar-se-á, porque razão escolhemos este filme para um ciclo sobre a Revolução Russa e daremos só duas razões: apesar de apelar para o coletivo, o regime soviético nunca conseguiu impedir os cidadãos de alimentarem, e orgulhosamente darem substância, ao que comummente se costuma designar como «alma russa». Não terá sido essa preservação da identidade individual uma das causas primitivas para a sucessiva deriva do regime para algo totalmente contrário do que deveria ser a sua pretendida revolução económica e social com a da preservação das liberdades fundamentais? Daí aquela cena elucidativa em que a mãe de Alexei comete um erro no seu ofício de revisora de imprensa, ao enganar-se a escrever Stalin, substituindo-o por «shralin» (excremento), e se a situação a diverte, também a atemoriza pelo que poderia colocar em risco a própria vida.
A segunda razão tem a ver com o facto de o regime bolchevique ter propiciado uma prodigiosa revolução artística nos seus primeiros anos, dando origem a novas estéticas na literatura, na música, no cinema ou nas demais artes visuais. Por muito que se sentisse desenquadrado do tipo de sociedade em que nasceu e desenvolveu quase toda a sua filmografia, Tarkovsky é um lapidar exemplo de como a tradição soviética possibilitou a expressão do genial talento de muitos dos seus intelectuais.
terça-feira, outubro 17, 2017
(DIM) O legado de Lyndon Johnson
Um dos acontecimentos políticos, que mais me marcou a infância foi o assassinato de Kennedy em Dallas. Tinha sete anos e a notícia impressionou-me tanto quanto os acontecimentos em Angola que tinham justificado a Salazar a ordem de mandar soldados para Angola e em força.
Terei perdido algo da minha inocência ao concluir que poderia vir a ser um daqueles soldados mandados para longe com o fito de matar e morrer, ao mesmo tempo que ficava exposta a evidência de nem sequer os homens mais poderosos do mundo escaparem à condição de alvo de uma carabina. A relatividade de tudo, até de um Deus, de cuja inexistência já começava a desconfiar, ganhava espaço determinante em quem viria a ser.
Curiosamente o realizador Jay Roach tinha mais ou menos a minha idade, quando o nome de Lee H. Oswald se nos tornou inesquecível. Admitamos que passou pela mesma ambivalência em relação a Lyndon Johnson, que eu próprio vivi, contaminado pela pergunta de muitos sobre que transformações teria conhecido a América se o antecessor não tivesse sido abatido. As décadas seguintes viriam a esclarecer-nos que não só Kennedy nada tinha do virtuoso revolucionário, que muitos queriam nele ver (ainda que tenha tido o mérito de ser odiado por Salazar, o que nos obriga a dar-lhe o crédito de alguma simpatia!), nem Johnson se poderia reduzir à imagem do bronco texano, que o protocolo da Casa Branca tentava controlar nas suas intempestivas reações.
A peça «All the Way», que Robert Schenkkan escreveu e Bryan Cranston protagonizou nos palcos da Broadway, teve tal sucesso, que Steven Spielberg achou oportuna a sua passagem ao cinema. Não conseguiu que ela tivesse tal expressão, mas produziu-a em forma de telefilme e com indesmentível mérito para o já referido Jay Roach. Porque a imagem, que nos faculta de Johnson é a de ter vivido os primeiros anos de presidência sob o fogo cruzado das diferentes forças apostadas em empurrá-lo nesta ou naquela direção. Luther King pretendia a concretização plena da Lei dos Direitos Cívicos prometida por Kennedy, os senadores e congressistas democratas do Sul dos EUA nem queriam ouvir falar da possibilidade de ver os negros equiparados aos brancos, o FBI de Hoover prosseguia a cruzada anticomunista e a indústria militar pretendia ver o Exército no Vietname o mais rapidamente possível. No meio do sucessivo apagamento de fogos, conseguindo um voto aqui e outro acolá para compensar os que ia perdendo à medida que se aproximava a data da sua própria eleição para legitimar o mandato, que as circunstâncias lhe tinham dado sem o esperar, Johnson só pretendia concretizar a sua própria visão política, que passaria por políticas mais assertivas contra o empobrecimento e o analfabetismo.
Apreciamos mais uma excelente interpretação de Cranston, secundado por um enorme lote de secundários (Melissa Leo, Frank Langella, Ray Wise, entre outros), e ficámos bem mais inteirados sobre o que foram esses anos em que os EUA continuavam a atirar combustível para essa inquietante fogueira, que era a Guerra Fria.
(DL) As Primeiras Coisas de Bruno Vieira do Amaral
A Literatura Portuguesa está de boa saúde e recomenda-se como se depreende da leitura proposta pelos sucessivos galardoados com o Prémio José Saramago.
Bruno Vieira do Amaral recebeu a distinção em 2015 e logo confirmou a justeza de ser dos autores mais estimulantes de quantos traduzem em matéria literária as respetivas reflexões sobre o estado atual das coisas que vivemos.
Em «As Primeiras Coisas» travamos conhecimento com um narrador na casa dos trintas, que saiu de casa como corolário da deterioração afetiva com Sara. Não porque fosse essa a sua intenção, mas porque a tal se viu obrigado.
Sem outro sítio para onde ir regressa aonde crescera, no outro lado do rio. É o Bairro Amélia, muito semelhante àquele que o próprio autor conheceu na Moita. É ali que a mãe tem casa e onde, desempregado, poderá viver uma pausa antes de renascer. Porque essa é uma das primeiras conclusões a retirar do romance: se queremos dar a volta às contrariedades importa retomar o espaço anterior àquele onde se verificou a crise presente, porque dali se transitará para novo ciclo.
Como se entrasse numa espécie de Divina Comédia, o filho pródigo arranja um guia na pessoa de um Virgílio fotógrafo, que pode esclarecê-lo sobre todos os hiatos estabelecidos nas vidas dos que conhecera e tinham desaparecido ou dos que, aparentando ser os mesmos, tinham mudado significativamente nesse tempo de ausência. Recorrendo à ordem alfabética cada capítulo é uma espécie de ficheiro organizado em função das pessoas, dos espaços ou das situações, que ali testemunha. De forma fragmentada - mas não é assim que o «disse disse» em que muitas dessas informações lhe chegam ? -, começamos a criar do Bairro Amélia uma visão global em mosaico, que o fazem assemelhar a todos os subúrbios onde a sobrevivência é questão de todos os dias e muitas vezes extravasa os cânones da legalidade.
Há abortos e raparigas que desaparecem, homicídios em assaltos de incauto amadorismo, velhos que sonham com as perdidas vastidões africanas, poetas fracassados, empregadas de café concupiscentes e esperançosos futebolistas traídos por acidentes infortunados. Conhecem-se todas essas personagens e elas ajustar-se-iam facilmente a tantos outros arrabaldes da capital, mas o que releva do romance é o quanto está bem escrito e construído, tornando da sua fruída leitura um grato prazer.
(EdH) Três portugas na Revolução Russa
Se por um passe de mágica o Steven Spielberg me aparecesse à frente, qual génio da lâmpada, a dizer-me estar a Amblin carregada de dinheiro para uma superprodução e não ter qualquer estória interessante para passar a filme, eu tiraria logo da manga a da incrível experiência vivida pelo nosso diplomata Jaime Batalha Reis na Rússia czarista e revolucionária entre 1912 e 1918, culminada sobretudo no turbulento regresso a Portugal.
Com os meios habitualmente mobilizados por Hollywood para as suas mais ambiciosas produções poderíamos ver o diplomata a chegar a São Petersburgo para representar a jovem República no jubileu do ano seguinte quando, com todo o fausto dourado típico da corte russa, o czar Nicolau II pretendia comemorar o tricentenário da dinastia dos Romanov.
Logo à chegada Batalha Reis teria uma surpresa: ao apresentar credenciais aos soberano este confidenciou-lhe ter almoçado nesse mesmo dia na propriedade de Tsarkoe-Selo com o exilado D. Manuel II. Mas, temendo reação antipática do anfitrião, logo pode descansar, porque este acrescentou que o derrubado rei português o qualificara como homem muito sábio.
Se a estadia deveria ser curta para que o diplomata concluísse a carreira de embaixador em Madrid, então topo de tal carreira, a guerra de 1914 reteve-o junto ao Báltico na companhia das duas filhas solteiras, que com ele continuavam a viver e lhe governavam as preocupações domésticas desde que a mãe as deixara órfãs.
Começam então as privações, porque o conflito europeu e, depois, aqueles meses confusos entre fevereiro e outubro de 1917 dificultaram a aquisição dos alimentos essenciais e a lenha com que se podiam aquecer. Mas essas dificuldades não teriam qualquer paralelo com as conhecidas após a vitória bolchevista, quando Batalha Reis e as filhas decidiram abandonar a capital soviética na direção de Murmansk, depois de falhada a opção Helsínquia (por a própria Finlândia estar acossada em violenta guerra civil!), atravessando regiões inóspitas, sofrendo fome, sede, frio e sobretudo medo sempre que se cruzavam com patrulhas do exército Vermelho, até conseguirem apanhar um barco para Newcastle.
Embora se tratasse de argumento onde a componente romântica tivesse de ser inventada (que tal o namoro de uma das balzaquianas com um oficial da Cavalaria czarista vítima dos façanhudos revolucionários?) teria tudo para ser oscarizável: cenários majestosos, grandes dramas humanos e um final feliz, que mandaria os espectadores felizes e contentes para casa. Até se lhe poderia acentuar a visão habitualmente maniqueísta do cinema norte-americano sobre os comunistas apresentando estes como mauzões da pior espécie e mostrando os derrubados soberanos como simpáticas e incompreendidas vítimas das circunstâncias históricas.
Digam-me lá se não é uma ideia de estalos? Seria um daqueles casos em que as bilheteiras não tinham cofres que bastassem para guardar tão prodigiosas receitas.
segunda-feira, outubro 16, 2017
O Segredo das Meias
Situação complicada a vivida por Emilia e Angiolo, quando já tinham dobrado o cabo dos sessentas: a fábrica têxtil na Toscânia, que constituíra todo o seu projeto de vida, faliu deixando-os com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. O que fazer, quando tudo parecia virar-se contra eles? Só lhes restou o convite de uns clientes, que os contrataram para, durante dez anos, dirigirem uma nova fábrica em Yiwu, na província de Zhejiang, transmitindo os conhecimentos, particularmente no controlo de qualidade, aos operários locais.
Nicola Contini começou a filmar este documentário, quando o casal preparava o regresso definitivo a casa, já com ela sozinha na metrópole asiática e ele a organizar o espaço em que viveriam na condição de reformados. Por isso mesmo, mais do que um filme sobre a resiliência ou a crise económica, responsável pela desindustrialização europeia, «O Segredo das Meias» aborda igualmente a solidão e a difícil adaptação a costumes e valores que não os da protagonista. Mesmo se, às tantas não pareciam sentir-se bem em lado nenhum: em Itália suspiravam pela China e vice-versa.
Não falando senão o italiano, a septuagenária recorria a tradutores para se fazer entender junto dos operários e seus encarregados, reagindo assertivamente se deparava com bom produto final ou zangando-se quando ele desiludia as suas expetativas. Em causa surge, às tantas, o tema da família e o quanto ela distava em quilómetros, que não em afeto. Como compensação Emilia procurava ser uma espécie de avó para as suas operárias.
Nos tempos livres procurava acomodar-se ao espaço, ora integrando turmas de tai chi, ora procurando nos mercados as vitualhas, que lhe permitissem imitar o mais possível as receitas italianas. Mesmo se lhe falhavam o forno ou as frigideiras para alcançar uma refeição tão próxima quanto possível do objetivo.
Há também a relação com Angelo a quem reconhece faltarem dotes de dançarino, mas que força a apurá-los sempre que possível, seja na China, seja em Itália, onde já os vemos definitivamente instalados nas cenas finais. Precisamente as que alternam com filmes antigos, em super 8, que os revela tal qual eram cinquenta anos atrás. E há sempre algum estremecimento ao constatar como é tão repentina a súbita passagem da juventude, quando todo o horizonte à nossa frente parece alcançável, e essa velhice onde só resta aproveitar o cada vez mais escuro crepúsculo, que culmina nos inevitáveis epitáfios.
(EdH) A Revolução cem anos depois (III): A infância de Lenine
Quem em 1870 assistisse ao nascimento de Vladimir Oulianov em Simbirsk, uma pequena cidade à beira do rio Volga, dificilmente poderia imaginar que ele viria a mudar significativamente o rumo da Rússia e do mundo em geral. É que a família, ali estabelecida há pouco meses, porque o seu patriarca, Ilya, fora para ali nomeado como inspetor escolar, pertencia à elite local sem qualquer ligação a quem mais torcia o nariz à ordem social então prevalecente.
Ilya provinha de uma família de camponeses de Astrakan, os Oulyanine, que haviam mudado o nome para Oulianov. Mas outras fontes dão-nos como provenientes da região de Nijni Novgorod e misturas com outras etnias - a tatar, a kalmouke ou a kirghize.
Apesar de omitidas décadas a fio pelas autoridades soviéticas a família do lado materno tinha raízes judaicas embora as não praticassem: Moshe Blank, o bisavô materno tinha rompido com a comunidade em Vlhynie e tomado posteriormente posições bastante críticas a seu respeito. Daí que o avô de Vladimir se tivesse convertido ao cristianismo ortodoxo tendo ganho assim o acesso à carreira de medicina e à função pública. Em 1847, já como inspetor dos hospitais de Zlatooust, vira-se designado conselheiro do Estado, ascendendo com tal cargo à nobreza.
Vassili, o bisavô paterno de Vladimir, era um servo, que ganhara a alforria muito antes da extinção dessa realidade nos campos russos em 1861. O avô fora alfaiate em Astrakhan propiciando ao filho a licenciatura em Matemática, que lhe permitira a nomeação como professor em Penza. Fora aí que conhecera Maria Alexandrovna Blank com quem casou em 1863 e lhe daria oito filhos nos quinze anos seguintes, embora só seis sobrevivessem. Quando mudaram para Simbirsk o casal já tinha dois filhos: Anna, que nascera em 1864 e Alexandre dois anos mais novo. Vladimir era o terceiro e nasceu em 22 de abril de 1870.
Batizado na Igreja Ortodoxa, Vladimir tinha 4 anos, quando o pai foi nomeado conselheiro de Estado pelo czar Alexandre II. Vivia anos de grande felicidade, porque contrariamente à maioria dos concidadãos, condenados a atroz miséria, os Oulianov não passam por privações. Apesar de irrepreensível fidelidade ao czar, a família aderiu aos ideais mais liberais e progressistas, quanto à educação a transmitir aos educandos. Ilia revelou-se um ativo reformador das leis imperiais, abrindo novos estabelecimento de ensino por toda a região para que as minorias não russas pudessem ser ensinadas nas respetivas línguas maternas.
Vladimir, ou Volodia, foi aluno brilhante, aprendendo várias línguas, incluindo o latim e o grego clássicos. Curiosamente o reitor do liceu onde estudou era o pai de Aleksandr Kerenski, seu futuro adversário político.
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