segunda-feira, março 28, 2016

LEITURAS AVULSAS: Cientistas, deuses e filósofos

Ao sabor das leituras do fim-de-semana encontro algumas abordagens menos estereotipadas de alguns assuntos habitualmente cristalizados em interpretações tidas como definitivas. Ora a Ciência demonstra-nos que uma Verdade é-a até se provar a sua falência em proveito de uma outra hipótese mais convincente quanto à sua identificação com o que se investiga.
É assim que o historiador Henrique Leitão dá-nos no «Expresso» desta semana uma explicação muito interessante para se compreender como a Europa conseguiu dar um salto científico na época dos Descobrimentos, que deixou para trás as demais regiões do mundo, algumas das quais (a China, por exemplo) tinham-se-lhe antecipado em muitos domínios do saber até então: “o contacto entre níveis académicos altos, relativamente fechados e níveis de artesãos e de práticos”. Ou seja a concertação entre o saber fazer e o saber teórico!
Então “académicos, matemáticos, universitários, confrontaram-se com problemas da prática. E os homens práticos, por sua vez, começaram a perceber que havia um contexto teórico muito importante para aquilo que faziam”.
Foram, assim, as atividades náuticas a estarem na origem de uma Revolução Científica, que impulsionou o Renascimento e projetou a Europa para a modernidade.
Noutro texto de uma edição atrasada do mesmo semanário, Ricardo Marques lembra-nos o grande impacto teológico do Terramoto de Lisboa de 1755. Um acontecimento que fez estremecer toda a Europa das Luzes, porque acabou com a ilusão de haver um Deus eminentemente bom. Os que duvidavam da existência de tal tipo de transcendência encontraram nessa tragédia um bom argumento para concluírem da justeza da interpretação do mundo sem a interferência de qualquer divindade.  A negação, em suma de qualquer Paraíso ou Inferno.
Ora, nem mais! A propósito do que está a acontecer nesta altura na política brasileira, o jornalista Plínio Fraga recorda esta semana no mesmo jornal uma injustamente esquecida peça de Jean Paul Sartre («Huis Clos») onde o escritor francês dá a sua própria versão do que é realmente esse Inferno: um narcisista, um masoquista e um covarde chegam ao sítio onde se julgam condenados a prestar contas pelos pecados de toda a vida e veem-se trancados num quarto mobilado com antiguidades feias, sem espelhos, livros, escovas de dentes ou quaisquer  distrações. Depressa concluem que “cada um de nós é um carrasco para os outros. O inferno são os outros!”.
Concluo esta ronda por momentos de leitura mais estimulantes nestes dois dias com a evocação feita por Plutarco do diferendo entre Alexandre da Macedónia e Diógenes.
Em «Vidas Paralelas», o escritor romano relatou: “Reunidos no Istmo, os gregos decidiram declarar guerra à Pérsia e elegeram Alexandre chefe dos exércitos; e, como fossem muitos os homens de Estado e os filósofos que o visitavam e felicitavam, esperava ele que também o fizesse Diógenes, o de Sínope, que residia em Corinto. Mas este, sem dar importânáa a Alexandre, passava tranquilamente os dias no bairro de Craneto.
Alexandre foi procurá-lo. Diógenes, tranquilamente recostado, apanhava sol; e apercebendo-se da chegada de gente grada, fixou a vista em Alexandre, que o saudou, perguntando-lhe se precisava de alguma coisa.
‘De muito pouco”, respondeu Diógenes, “apenas que saias da frente do sol”.
Conta-se que Alexandre, perante tal  desinteresse, experimentou admiração pela grandeza de alma do filósofo; de tal modo que, ao afastar-se, quando os que o acompanhavam começaram a rir e a fazer troça, disse-lhes: “Pois eu, não sendo Alexandre, de bom grado seria Diógenes!”

domingo, março 27, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Whiplash - Nos Limites» de Damien Chazelle

Há uns anos largos vi um documentário sobre o maestro Sergiu Celibidache, que sempre foi conhecido pelo seu caracter irascível. Muito talentoso, substituiu  Wilhelm Furtwängler na Filarmónica de Berlim em 1945, quando este foi saneado e enviado para um processo de desnazificação. Mas em 1952, fartos de lhe aturarem os reparos, os músicos da orquestra votaram pela sua despromoção para primeiro violino e devolveram o lugar ao regenerado antecessor.
Nas décadas seguintes Celibidache dirigiu várias orquestras europeias e americanas e distinguiu-se, igualmente, como professor. No documentário viam-se algumas cenas em que formava novos maestros e eram confrangedoras aquelas em que humilhava e desqualificava os alunos. Sentia-se ali um temor, que me ficou como o exemplo de estratégia formativa, que nunca teria desejado conhecer.
Lembrei-me dessas imagens ao ver «Whiplash - Nos Limites»: invocando o exemplo de Charlie Parker, que só se converteu em Bird depois de Jo Jones lhe atirar um címbalo por causa da péssima execução, quase lhe cortando o pescoço, o professor Fletcher está decidido a fazer de Andrew um baterista de exceção. Por isso também não prescinde das humilhações, que configuram uma evidente demonstração do que significa o «assédio moral».
Com problemas identitários difíceis de gerir, o rapaz utiliza a ambição de chegar ao topo como forma de catarse para suprir o evidente desprezo com que é visto pela família.
Há quem afiance que o talento é feito de 5% de talento e 95% de trabalho árduo. Mas Fletcher acrescenta-lhe ainda mais um requisito: o de nunca desfocalizar do objetivo principal, mesmo quando tudo tende a dele distrair. É por isso que o filme é tão intenso, contando para tal com o talento do diretor de fotografia para registar os muitos momentos de execução de excelente jazz. E, obviamente, ao trabalho dos atores, que muito merecidamente foram referenciados como dos melhores do cinema norte-americano em 2014.

DIÁRIO DE LEITURAS: Biografar, autobiografando-se

O projeto para a criação deste romance biográfico surgiu a Rosa Montero, quando a desafiaram para se encarregar do prefácio do Diário escrito por Madame Curie nos meses subsequentes à inesperada morte do seu marido Pierre. Devastada pela forma como, de um dia para o outro, perdera o grande amor da sua vida, a prestigiada cientista isolara-se e encontrara algum consolo nesse encontro com as páginas em branco.
O convite a Rosa para contextualizar esse texto não fora inocente: a editora sabia-a igualmente sofrida pela perda recente de Pablo, o homem a quem amara anos suficientes para sentir a sua perda como algo de insuportável. Por isso, mais do que a encomenda, Rosa Montero vai ao encontro de Madame Curie para melhor exorcizar o seu próprio sentimento de solidão.
Nalguns aspetos o livro respeita alguns dos principais padrões do género biográfico: apesar de remeter muitas vezes para o que acontecerá no futuro ou recordar o que para trás ocorrera, existe o respeito por uma sequência cronológica: começamos por conhecer o ambiente em que a cientista nasceu e cresceu, bem como o seu primeiro amor, quando estava contratada como precetora das crianças de uma família abastada.

Ocorre aí um dos exemplos de como Rosa Montero aposta em ir bastante além do que mandam os cânones do género, porque equaciona possibilidades com o seu quê de pertinentes: o que teria sucedido se em vez de humilhada e ostracizada pela família do primeiro amante, Casimir, ela se visse aceite e fadada para a condição de dona-de-casa e mãe de família? Provavelmente a ciência desse início do século XX teria perdido uma das suas mentes mais geniais.
Há depois o sentido de sacrifício, que a leva a trabalhar anos a fio para pagar os estudos da irmã mais velha em Paris. Será só quando esta se forma em Medicina, que estará em condições de, por sua vez, financiar os estudos de Marie.
 Por essa altura estamos totalmente inteirados de duas características inabaláveis na sua personalidade: uma determinação inquebrantável e uma energia, que lhe permitem suportar os mais desafiantes esforços físicos.
Passamos pelos estudos brilhantes, pelo casamento com Pierre e pela descoberta comum do rádio. Contemplados com o Nobel, só ele irá a Estocolmo recebe-lo, porque a Academia Sueca ainda não estava capacitada para se livrar dos seus preconceitos de género.
A viuvez poderia ter quebrado o ânimo da cientista, mas não foi o caso: depois de uns meses de luto ela regressou ao laboratório, sucedeu a Pierre na cátedra da Sorbonne e dispôs-se a prosseguir os trabalhos, que ambos tinham deixado interrompidos.
É por essa altura, que ela volta a apaixonar-se, o que lhe vale a condenação pública de se ver como uma devassa capaz de roubar o marido a outra mulher. O efémero amante foi outro cientista com quem trabalhava, Paul Langevin, que conciliava o brilhantismo científico com uma inacreditável fraqueza de carácter.
O episódio permite à autora desenvolver o tema da fraqueza dos homens em comparação com a força de carácter das mulheres. Vale a pena citar aqui dois trechos retirados, respetivamente das páginas 120 e 121 da edição portuguesa:
Tenho para mim que o verdadeiro sexo fraco é o masculino. Não acontece com todos os homens e nem sempre acontece de todo, mas no que respeita a uma fraqueza genérica, os homens ganham-nos aos pontos - de qualquer maneira, nós achamo-los fracos e, por con seguinte, tratamo-los com atenções e com uma superproteção alu cinantes. Talvez seja consequência do instinto maternal, que é, sem dúvida, uma pulsão poderosa, mas o facto é que, com frequência, mimamos os homens como se fossem meninos e temos um cuidado enorme em não lhes ferirmos o orgulho, a autoestima, a sua frágil vai dade. Parecem-nos imaturos, inseguros, infinitamente necessitados de atenção, admiração e aplauso.” (…)
“Quantas vezes nós, mulheres, mentimos aos homens; em quan tas ocasiões fingimos saber menos do que sabemos, para que pareça que eles sabem mais; ou lhes dizemos que precisamos deles para alguma coisa, mesmo que não seja verdade, só para que se sintam bem; ou os adulamos à descarada para celebrar qualquer pequena vitória, e até achamos enternecedor constatar que, por mais exage rada que seja a lisonja, nunca se dão conta de que lhes estamos a dar graxa, porque na verdade precisam de ouvir elogios, como aqueles adolescentes que necessitam de apoio extra para poderem acreditar em si próprios. Sim, são capazes de ir para a frente combater em guerras pavorosas; de arriscar a vida subindo ao Evereste; de atra vessar selvas tormentosas para encontrar as fontes do Nilo; mas, no plano emocional, no sentimental, na realidade de cada dia, os ho mens, para falar com franqueza, parecem-nos #Fracos.”
Por sorte, e quando já estava em vias de ser estraçalhada pela campanha hedionda dos moralistas do costume, a Academia Sueca volta a atribuir-lhe outro Nobel, sem o ter de partilhar com mais ninguém!
Será, porém, a I Guerra a garantir-lhe a definitiva reconciliação com os franceses, ao organizar um serviço de ambulâncias, que percorriam as retaguardas dos campos de batalha para proceder às radiografias dos feridos, ajudando assim a minimizar os custos humanos do conflito.
A saúde começou, então, a deteriorar-se por causa da forma como manuseara o rádio. Até à morte, em 1934, ela já pouco trabalho adicional concretizou até por ter na filha Irene uma digna sucessora.
Toda esta evocação dos factos escolhidos por Rosa Montero para criar os vários capítulos pressupõem com razão, que Rosa Montero acaba por falar pouco da sua experiencia com Pablo. Existe nela um compreensível pudor em abordar a vida pessoal, sendo muito mais fácil sugeri-la através das sucessivas interpretações sobre o percurso da biografada.
Quando chegamos ao fim temos de concluir que passámos excelentes momentos com uma leitura empática e que nos faz compreender com rigor bastante o que foi a conjuntura em que Marie e Rosa perderam os respetivos companheiros e souberam dar a volta ao sofrimento de os saberem insubstituíveis.


sábado, março 26, 2016

LEITURAS AVULSAS: A crise económica e os seus efeitos

Ian Buruma é um historiador holandês, que vive em nova Iorque e assinou inúmeros ensaios de entre os quais «Ocidentalismo» (Publ. Europa América, 2005), «A Morte de Theo Van Gogh» (Presença, 2007) e «Domar os Deuses» (Edições 70, 2012).
O seu trabalho mais recente  - «Year Zero: a History of 1945» constitui uma análise desse ano charneira, que suscitou uma nova ordem internacional e permitiu concluir como, mesmo nas guerras justas - e a empreendida contra a Alemanha de Hitler era-o indubitavelmente! -, as consequências são devastadoras.
Numa entrevista concedida ao «L’Obs» ele relaciona os horrores atualmente praticados no Próximo Oriente com os da Guerra dos Trinta Anos, que arrasou com a Europa entre 1618 e 1648, devido ao fanatismo religioso instrumentalizado politicamente por potências rivais: as dos Habsburgos e dos Bourbons.
Ele recusa, pois, a leitura segundo a qual a disputa que incendeia todo o Médio oriente se restrinja a sunitas contra xiitas. A que lhe serve de padrão de comparação também esteve longe de ser apenas um conflito entre católicos e protestantes. Até porque Richelieu e o Vaticano puseram-se do lado dos protestantes!
Olhando para os movimentos de extrema-direita, que têm alavancado a sua importância com a crise dos refugiados e dos atentados terroristas, Buruma considera-os como meros oportunistas, que exploram vários medos: o do islão, o dos imigrantes, o da mundialização, o de perder os privilégios resultantes de sucessivas décadas de crescimento económico e de pleno emprego. Ademais, surgem a culpabilizar as supostas elites de esquerda, que pouco ou nada fizeram para criar este caldo de cultura.
Buruma critica os arquitetos da União Europeia por não terem prestado suficiente atenção à necessidade dos cidadãos em sentirem-se identificados com algo de concreto. Julgaram que chegaria dar a alguns tecnocratas bem intencionados a tarefa de desenharem o belo futuro da Europa a régua e compasso..
Enquanto as economias nacionais prosperaram e os cidadãos viram os rendimentos crescerem, ninguém pareceu aperceber-se das limitações políticas das instituições europeias. Agora as crises estão aí para durar e os povos passaram a exigir a ilusória segurança oferecida por uma comunidade nacional. E escasseiam soluções para que as emendas não saiam piores que os sonetos.


ARTES: O pintor e a atriz

Em 1933  o pintor Mário Eloy deixou a mulher e o filho na Alemanha e regressou a Portugal para viver uma paixão inflamadíssima com Beatriz Costa, com quem já namorara antes de demandar a boémia parisiense.
Embora ela estivesse nas filmagens de «A Canção de Lisboa» evaporou-se de Lisboa para desespero do realizador Cottinelli Telmo, que mandou procura-la por tudo quanto era sítio em Lisboa e arredores. Quando alguém associou esse desaparecimento ao do pintor recém-chegado a Lisboa, compreendeu-se o que se passara.
Dias depois o par regressou a Lisboa e soube-se que estivera em Madrid onde Eloy estivera a pintar uma enorme tela com o retrato da atriz. Mas, que resolvera estilhaçar em mil pedaços.
O arrebatamento ficou-se por aí, mas Beatriz Costa nunca deixaria de nele reconhecer um dos homens mais brilhantes e talentosos que conhecera, ajudando-o em diversas ocasiões futuras, quando ele não tinha dinheiro sequer para comprar telas ou tintas.
Tendo em conta a vocação de retratista de Eloy podemo-nos interrogar se a obra por ele destruída não seria uma das mais significativas de quantas dele conhecemos. Mas também é pertinente questionarmo-nos se «A Fuga», por ele criada cinco anos depois, e dentro de uma trilogia composta igualmente por «Amor» e «O Poeta» não terá algo da memória desse instante em que a felicidade não pôde ser concretizar-se devido aos demónios, que a doença em breve faria revelar de dentro de si. 

sexta-feira, março 25, 2016

IDEIAS: Para entender melhor a realidade captada pelo que vemos

Como reencontrar o mundo de que fazemos parte?, eis uma das questões que se colocam quanto lemos Merleau-Ponty, que é um filósofo trágico no sentido em que condena o homem a constituir um ser eminentemente interrogativo, que formula problemas para os quais nunca encontrará solução.  Por isso mesmo temos de aceitar a condição de nos conformarmos com o facto de nunca alcançarmos a resposta definitiva.
Enquanto os filósofos sempre tinham apostado em encontrar formas eficientes de traduzir uma representação do mundo, em Merleau-Ponty ocorre a conclusão de tal nunca ser possível pela cissiparidade entre quem vê e o que é visto.
O mundo não e um espetáculo e a consciência não faz dele o papel de legisladora. Outro erro que combate é a dos que olham para esse mundo como se fossem pequenos blocos de realidade, que se sobrepõem, sejam cores, sabores, odores, etc.
Merleau defende que o mundo não corresponde à adição desses pequenos blocos, porque, sobrepondo-se, sujeitam-se a um visível, que possui uma profundidade. O que se vê num determinado momento do tempo, está relacionado com um antes e um depois.
Em «L’Oeil et l’esprit» ele aborda o reflexo dos loureiros numa piscina, para considerar que ele existe efetivamente na piscina que o reflete. Nesse sentido afasta-se da lógica racional, que tenderia a confrontar-nos com os enganos de visibilidade conferidos pelas nossas sensações.
Há, pois, um movimento constante em que o Sujeito passa a Objeto e o Objeto passa a Sujeito. O objeto acabará sempre por ser contaminado por laivos da nossa subjetividade e o sentido vai prefigurar-se no real.
Porque é de leitura difícil, Merleau-Ponty demonstra a tese em como ler os filósofos significa aceitar, que não somos capazes de verdadeiramente os entender. E cada repetição da sua leitura vai-nos trazer novas chaves para acrescentar ao que apenas pressentíamos.
No livro atrás citado, Merleau-Ponty também dedica a sua atenção às várias representações da montanha Sainte-Victoire, que Paul Cézanne celebrizou.
Ela está nos quadros e quase nos explode na cara. Os que a veem começam por estar de fora do quadro datado do início do Impressionismo com sucessivos blocos de sensações. Não vemos, por exemplo, a representação de uma árvore, mas da sensação por ela transmitida. E assim o pintor passa a integrar o quadro na qualidade de criador das sensações suscitadas pelo que lhe foi visível. Há uma deiscência do sensível!
Merleau distancia-se, assim, do cartesianismo: Descartes pretende dominar as suas próprias origens, como se fosse possível fazer o parto de si próprio. Em Merleau-Ponty acontece o contrário: “aceito não ser a minha própria origem”. E essa capacidade para se distanciar do real, para melhor o analisar, explica porque foi marxista até ao fim dos seus dias...

DIÁRIO DE LEITURAS: «Segundo Queeney» de Beryl Bainbridge (2001)

Iniciei a leitura deste romance com alguma expetativa tendo em conta que havia quem afiançasse ter merecido Beryl Bainbridge integrar a lista dos cinquenta melhores escritores da Inglaterra no século XX. Ademais conseguira figurar na reservada seleção dos pré-candidatos ao Booker Prize, mesmo não o tendo chegado a receber.
Acresce que escolhera como protagonista o escritor e filósofo Samuel Johnson, que é tido como um dos mais brilhantes intelectuais do século XVIII, e sobre o qual encontrava oportunidade de o fazer sair da ignorância até agora assumida quanto à sua importância.
Duas centenas de páginas depois confesso algum desapontamento, porque nunca consegui empatia com a história nem com a forma de a desenvolver. Ter chegado ao fim exigiu alguma determinação, porque a vontade de desistir apareceu amiúde durante essa leitura.
Se quisesse informação ao nível do que me era acessível há cinquenta anos, quando estavam nas livrarias os títulos de uma coleção chamada «A Vida Quotidiana no Tempo de…», o romance de Beryl Bainbridge serviria às maravilhas: ela consegue demonstrar como era o dia-a-dia da alta burguesia inglesa, através do casal Thrale cuja fortuna se devera a uma fábrica de cerveja.
No romance eles apercebem-se da saúde problemática de Samuel Johnson e albergam-no na sua mansão de Streatham Park. Tão só recuperado, e embora já não ande longe da condição sexagenária, ele apaixona-se perdidamente pela anfitriã, Hester, muito embora nunca vá além do desejo platónico.
Ela apercebe-se dessa atração nunca consumada e, porque lhe satisfaz a vaidade, vai alimentando-o nos anos seguintes, nunca deixando de estar permanentemente grávida do marido e nem se furtando a flirts mais ou menos explícitos com outros potenciais amantes.
Vamos acompanhando os dezoito anos em que decorrem as permanentes festas, viagens e passeios dessa pequena corte de enfastiados ociosos através do olhar enciumado e muito crítico de Queeney, a filha mais velha de Hester, a quem nada passa despercebido.
Porque poucos acontecimentos ocorrem, o livro suscita o tédio, que evolui a par do dos personagens.
Quando Henry Thrale acaba por morrer, depois de anos de pantagruélicas refeições, Johnson ainda alimenta a possibilidade de, enfim, conseguir consorciar-se com a inacessível amada. Mas já ela anda perdida de amores pelo professor de canto de Queeney, dispondo-se a segui-lo para Itália mesmo deixando as filhas ao deus dará.
A lenta degradação física de Johnson acelera-se, quando vê desfeitas de vez as suas ilusões acabando por suscitar exéquias pomposas e oficiais, quando morre em 1784, aos 75 anos. 

quinta-feira, março 24, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «O Gabinete do Dr. Caligari»de Robert Wiene (1919)

Numa festa de aldeia por volta de 1830 há uma barraca onde o Dr. Caligari exibe César que, segundo alega, é capaz de prever o futuro, quando sujeito a hipnose. Dois estudantes consultam-no e um deles recebe a notícia de que estará morto antes do nascer do dia.
Nessa noite ele é assassinado. E logo uma das amigas também desaparece...
Estamos perante o primeiro filme de terror da História do Cinema e, igualmente, o que lança o movimento expressionista.
Projetado pela primeira vez em 20 de fevereiro em Berlim já anuncia muitas das técnicas de imagem e dos dispositivos narrativos do cinema que se seguiriam.
Compõe-se de um prólogo com dois homens a olhar para um parque, logo seguido de um flash back, com seis atos e um epílogo, que tudo inverte de forma surpreendente.
Todos os temas do expressionismo alemão estão aqui representados: o hedonismo, o narcisismo, a opulência em contraste com a fratura social.
O fascínio e, ao mesmo tempo, a repulsa face à loucura constitui o tema central em torno do qual todos os outros se secundarizam.
Ao princípio era Fritz Lang quem deveria assegurar-se da rodagem, mas como estava ocupado noutro filme, limitou-se ao papel de conselheiro.
Os cenários também respeitam o movimento artístico dos autores  com as suas falsas perspetivas em oblíquo, os ângulos agudos, as proporções falseadas: tudo para que resulte numa atmosfera de caos e irrealidade, que incomoda.
Manifestamente, e depois dos sucessos de Griffith nos EUA, o cinema europeu dava mostras de grande maturação.

ARTES: uma exposição de Anselm Kiefer

Sei que Paris não é por esta altura um sítio muito propício para fazer férias, tendo em conta a predileção dos islamitas para aí aumentarem o número de vítimas inocentes à custa das quais querem impor o seu Califado, mas, até 18 de abril, ainda está em exposição no Centro Pompidou uma retrospetiva ao alemão Anselm Kiefer, que é um dos artistas mais significativos da atualidade.
Numa área de 2000 m2 expõem-se 150 peças, entre quadros, objetos e instalações.
A obra de Kiefer coloca inúmeras questões a quem a visualiza porque põe em causa a História alemã, a reativação da memória, a dialética da destruição e da criação e o luto da cultura judaica. A tudo isso, ele decidiu acrescentar o interesse pela Alquimia e pela Cabala, que assumiu nos anos 90. Daí que a exposição parisiense comporte um conjunto significativo de objetos da época em que a indústria ainda tinha alguma relevância, como se integrassem uma reserva de possíveis à espera de redenção. São máquinas de um outro tempo, ferro velho, plantas, fotografias, objetos de chumbo.
Reconhece-se ao artista uma singularidade plástica e visual, que remete para as influências da escrita de Paul Célan e Jean Cocteau, da filosofia de Martin Heidegger ou para o Talmude.

quarta-feira, março 23, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: A viagem do elefante

Se ontem abordava a nova temporada dos programas de Paula Moura Pinheiro na RTP2, retomo-a porque o episódio dedicado aos elefantes, que suportam os túmulos de D. Manuel I, de D. João III e das respetivas rainhas no Mosteiro dos Jerónimos merece referência.
Francamente não me recordo se, em pretéritas visitas ao monumento de Belém, vislumbrei os animais em causa  e me interroguei sobre a sua razão de ser. Se aconteceu já foi há tanto tempo, que a sua memória esvaiu-se. Mas faz todo o sentido a explicação de António Camões Gouveia que relaciona esses pormenores arquitetónicos com a embaixada enviada ao papa Leão X pelo rei venturoso em 1514. Aquela que valeria aos portugueses o incómodo da duradoura má fama de «cravas» então ali deixada pelos seus antepassados.
Nessa altura havia uma enorme ambição em D. Manuel nessa ação de propaganda, que estava certo de impressionar o sumo pontífice por integrar um elefante: se Roma já reconhecera a Maximiliano I da Áustria o título de Imperador do Ocidente, o monarca sonhava com a possibilidade de ver-se reconhecido como o Imperador do Oriente. Até porque estava a abrir à Igreja Católica o acesso a novas latitudes onde a missionação poderia desenvolver-se, como não tardaria a suceder com os jesuítas e os franciscanos.
O sucesso da utilização do elefante foi tal que o rei seguinte, D. João III, também enviou outro numa embaixada a outro Maximiliano austríaco, seu primo, e que possibilitou a José Saramago uma das suas obras mais entusiasmantes.
Voltando à «Visita Guiada» ainda houve tempo para lembrar outra embaixada enviada por D. Manuel I ao mesmo papa, mas que acabou mal, porque o navio onde lhe enviava o rinoceronte, depois objeto de obra famosa de Albrecht Dürer, acabaria afogado num naufrágio na baía de Génova.
Se depois de tudo isto ainda possa haver saudosistas capazes de elogiar os programas de um antigo ministro de Salazar onde se inventava a História, mais do que se a ensinava, será matéria de estudo patológico.

DIÁRIO DE LEITURAS: «Babylon Babies» de Maurice Dantec (1999)

Maurice Dantec pertence à tradição literária em que os escritores projetavam-se no futuro por intermédio do romance, assumindo-se como visionários. Em 1997, dois anos antes de publicar «Babylon Babies», assinou um artigo  intitulado «A Ficção como laboratório antropológico experimental» na revista «Temps Modernes», em que já teorizava sobre as circunstâncias, que ditavam o ato literário, tendo em conta que “as sociedades são o corolário de uma mutação biológica”.
Em 1993 já publicara «La Sirène Rouge» cuja história era passada na guerra da Jugoslávia, seguido de «Les Racines du Mal» em 1995 sobre assassinos nos Alpes.
Hugo Cornelius Toorop, que protagonizara o primeiro daqueles títulos regressa em «Babylon Babies», situado num futuro próximo, quando a Humanidade está a conhecer uma intensa transformação biológica. Agora, no Cazaquistão,  ele vende os serviços de mercenário à mafia siberiana, depois de ter combatido na Resistência contra a China. A missão consistirá em acompanhar uma jovem chamada Marie Zoru até ao Canadá sem adivinhar que ela transporta em si uma poderosa bomba biológica na sua indisfarçável esquizofrenia. Mas quem a requisitou - uma seita norte-americana) - assusta-se com a arma  e o confronto armado é inevitável.
O livro insere-se na escola do cyberpunk, fundada por William Gibson e Bruce Sterling nos anos 80 para, através da mistura da ficção científica com o género policial, criarem do mundo uma perspetiva apocalítica.
Demasiado lento no arranque, quando começa por descrever o caos planetário, o romance ganha outro ritmo quando os protagonistas chegam aos arrabaldes de Montréal onde se confrontam várias máfias, tríades e outras seitas apostadas em apossarem-se de Marie Zoru.
Referindo-se a experiências biológicas interditas pela lei, Dantec mergulha-nos  num mundo onde as novas tecnologias alcançaram uma sofisticação assustadora: a «esquizomáquina» é uma inteligência artificial criada pelo neuropsiquiatra Darmanquier, que surgira no segundo romance do autor e destinado a curar Marie através do controle do seu ADN. Dantec explora a sua conhecida obsessão sobre os perigos das novas tecnologias.
A exemplo do que já sucedia em «Les Racines du Mal», este terceiro romance alimenta-se de muitos textos da Filosofia das Ciências desde Jeremy Narby até Gilles Deleuze, passando pelos xamãs índios, para equacionar o que resultaria da conjugação do cérebro humano com a inteligência artificial. E os esquizofrénicos seriam doentes mentais ou evoluções da Natureza para corresponder ao futuro humano?
O problema é que o livro não chega a ser exaltante, nem a divertir.  E a antevisão do mundo distópico não é propriamente o que a maioria dos leitores gostaria de encontrar.

terça-feira, março 22, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: A espantosa sagacidade de Paula Rego

Num recente episódio da «Visita Guiada» de Paula Moura Pinheiro, esta entrevistou José Manuel dos Santos dada a sua condição de ter sido um dos responsáveis pela encomenda de quadros a Paula Rego e destinados à capela existente no Palácio de Belém.
Na época essas obras revestiram-se de grande polémica com muitas vozes conservadoras a contestarem a forma como a artista representara momentos bíblicos tão icónicos como a Anunciação ou a Descida de Cristo da Cruz.
No primeiro caso a surpresa era ver a Virgem a ser alertada para a sua gravidez por um anjo nada semelhante à imagem canónica dos quadros dedicados ao mesmo tema.
Quando José Manuel Santos questionou a artista sobre o facto de ter dado a tal anjo o aspeto de uma mulher de avançada idade ela respondeu com toda a lógica ser inverosímil a possibilidade de a Virgem acreditar em tal notícia se transmitida por um anjo garboso e jovem. Só mediante os traços de alguém mais convincente ela poderia crer nessa insólita gravidez, ainda por cima de autoria divina.
No outro quadro, que mereceu a Santos o pedido de explicação à artista -  porque tinha o Cristo crucificado o aspeto de um adolescente? -, a artista revelou, igualmente, um discernimento inquestionável: “uma mãe que perde um filho, vê-o sempre como o seu menino!”.
Duas explicações notáveis, que revelam bem a simplicidade, mas também a lucidez de uma artista que, às vezes, nos confunde com a forma como consegue explicar os seus quadros.