terça-feira, junho 29, 2010

Filme: PROMESSAS De Emir Kusturica (2007)

Desilusão é a palavra adequada para classificar a reacção ao filme, que Kusturica realizou em 2007.
Aquilo que era a marca de originalidade nos seus filmes dos anos 90 está a converter-se numa estratégia repetitiva a que falta nomeadamente o lado poético então detectável.
Há, obviamente, um conteúdo político bem evidente em quem jamais se conformará com o fim da Jugoslávia, mas esse tipo de mensagem peca agora por inócuo numa realidade, que deixou de ter essa possibilidade como credível.
Quanto à história em si é simples: um adolescente recebe do avô, com quem vive, a incumbência de ir à cidade vender uma vaca e, com o dinheiro, comprar o ícone de São Nicolau, uma lembrança e uma mulher.
Apesar de começar por ser espoliado do animal pelo gangue do mafioso Bajo, o rapaz consegue a providencial ajuda dos irmãos Krivokapic, netos do melhor amigo do seu avô. E eles tornam-se fraternos protectores das suas deambulações. Sobretudo, quando se apaixona por Jasna, uma rapariga, que Bajo pretende pôr a prostituir no seu bar de alterne.
Depois de muita música e de sucessivas vicissitudes burlescas, Tsane regressa a casa com Jasna no dia em que o avô também se prepara para casar com Bossa, a vizinha do lado.
São dois os casamentos, que se celebram, enquanto fora da igreja impera um clima de guerra civil, porquanto o bando de Bajo irá ser finalmente destroçado pelos irmãos Krivokapic.
Mas, ao fim de duas horas de filme, fica a sensação de um enorme vazio.

sexta-feira, junho 25, 2010

Filme: ABEL FERRARA: «HISTÓRIAS DE CABARET»

«Go Go Tales» tem, logo à partida, um excelente naipe de actores, que credibilizam o projecto de Ferrara: Willem Dafoe, Bo Hoskins, Mathew Modine e Asia Argento.
Dafoe é Ray Ruby, um gerente do «Ray Ruby’s Paradise», clube nocturno do tipo alterne, que está em risco de iminente falência. Há já várias rendas atrasadas à irascível senhoria e as strippers têm salários em atraso. Embora continuem a actuar com o devido profissionalismo para os escassos clientes. A arriscada estratégia de Ray passa, então, por algo de inimaginável: apostar todos os cêntimos e dólares, que lhe restam, na compra de bilhetes da lotaria. No entretanto vai iludindo quem o pressiona num jogo de malabarismo permanente, que nem sempre convence os desconfiados interlocutores.
Os problemas sucedem-se: uma das bailarinas, que engravida e quer parar de actuar. Johnny, o irmão cabeleireiro e financiador do negócio, que quer desistir de uma aposta cada vez mais falhada. Ou um cliente, que descobre a mulher no elenco de strippers.
No entanto, o inimaginável acontece: Ray e o seu sócio ganham a lotaria, mas esquecem-se do paradeiro do bilhete.
O desastre parece iminente, mas ainda há o ensejo para o espectáculo de todas as quintas-feiras à noite, quando o Paradise despe a sua aparência de bar de alterne para se travestizar num palco de exibições artísticas de diversas artes cénicas.
Quando anuncia o seu fracasso e comenta «As pessoas adoram ver os outros falhar», Ray descobre o almejado bilhete no bolso interior do seu casaco, acabadinho de chegar da lavandaria.
E da alegria extrema o seu rosto logo se transforma num esgar de decepção quando sabe da obrigatória partilha do prémio com o fisco. Vale-lhe que, na semana seguinte, poderá voltar a jogar.

domingo, junho 13, 2010

Outpost (2008) British Trailer

Filme: «Outpost - O Exército Fantasma» de Steve Barker

Europa de Leste na actualidade. Um pequeno grupo de comandos percorre um cenário de ruínas, uma terra de ninguém sempre a mudar de mãos entre as forças governamentais e as rebeldes. São sete mercenários contratados num bar para garantirem a protecção de um engenheiro, Hunt, cujo objectivo confessado será o de averiguar o estado de uma mina adquirida pela sua empresa para vir a ser explorada, quando a paz se concretizar.
Mas a realidade com que deparam é outra: o que Hunt pretende é a entrada num bunker nazi da II Guerra Mundial aonde existe uma máquina capaz de manipular o campo magnético unificado, resultante do desenvolvimento das teorias de Einstein. E que poderá deslocar corpos no espaço e no tempo.
O desiderato dessa experiência nazi, que não chegara a dar azo à pretendida reviravolta dos acontecimentos em 1944, é a existência de mortos-vivos sob a forma de fantasmas vocacionados para matarem. E, um a um, todos os elementos da expedição são eliminados de forma particularmente sangrenta para almas impressionáveis.
Tempos depois uma nova expedição irrompe pelos subterrâneos sem suspeitar da armadilha em que está a cair.
 Evocando diversos filmes da história do cinema norte-americano (do «Planeta Proibido» de Fred Wilcox ao «Nevoeiro» de Carpenter), «Outpost» ostenta argumentos de produção, que ajudam a  credibilizar uma história estapafúrdia. A fotografia lembra a da «Zona» de Tarkovski, outro título com que este filme de Steve Barker se chega a assemelhar.
Mas depressa se dilui no interesse de uma história que, metaforicamente, prometia bastante, mas acaba por se satisfazer com o seu lado mais sangrento…
Afinal aquele que se adequa ao seu público alvo!

domingo, junho 06, 2010

Tokyo Sonata (2008) Trailer [ENG SUB]

Filme: «Sonata de Tóquio» de Kyoshi Kurosawa

Em «Sonata de Tóquio», do japonês Kyoshi Kurosawa, temos a versão japonesa de muitos dos dramas vividos numa Europa donde deslocalizam muitas das suas fabricas, deixando quadros técnicos entre os 40 e os 55 anos na inevitabilidade do desemprego definitivo.
É isso mesmo, que sucede com Ryuhei Sasaki, que era director administrativo da Companhia Tanita. E é com ele e todos os elementos do seu núcleo familiar, que iremos estar acompanhados durante todo o filme.
Com Kenji, o seu filho mais novo, que não hesita em denunciar perante a aula o professor, que o injustiçou por estar a passar um manga, quando ele próprio folheia um porno-manga, quando vai no transporte de regresso a casa. Ou Takashi, o filho mais velho da família Sasaki, que, por falta de alternativas de emprego, acaba por se alistar como voluntário do Exército norte-americano.
Mas a primeira opção errada de Ryuhei é esconder a sua nova realidade da família, saindo todos os dias de casa, como se fosse para o emprego.
Encontra, assim, outros nas mesmas condições e com quem vai partilhando o almoço na sopa dos pobres ou as sucessivas entrevistas de emprego.
Se, ao princípio, lhe apareciam oportunidades minimamente aceitáveis, mesmo que muito abaixo do seu estatuto, não terá outro remédio, passadas algumas semanas, do que aceitar um emprego nas limpezas de um centro comercial.
A vida para a recatada Sra. Sasaki vai-se tornando insuportável, à medida que pressente o desastre iminente, quer pelas reacções intempestivas do esposo contra os filhos  - expulsando o primogénito de casa e proibindo o mais novo de ir a lições de piano - , mas, sobretudo, quando dá com ele na fila para a comida de graça ou no seu novo trabalho no centro comercial.
É por isso que, quando raptada por um ladrão fracassado com quem passa umas horas, ela decide não voltar para casa, almejando começar tudo de novo.
Nessa mesma noite toda a família se parece esfrangalhar: Ryuhei é atropelado e fica inconsciente na valeta,  enquanto Kenji passa uma noite na prisão ao ser apanhado como passageiro clandestino no autocarro aonde esperava partir para longe.
Na manhã seguinte, mais ou menos sujos, eles encontram-se em casa para um novo recomeço. Que até não será assim tão negativo: quatro meses depois, Ryuhei continua a limpar sanitas e pavimentos na catedral de consumo, mas vai com a esposa ver o filho interpretar «Clair de Lune» de Debussy nas provas de admissão Escola de Música aonde poderá aprimorar o seu elogiado talento. 
Na singeleza da sua tragédia, «Sonata de Tóquio» acaba por dar ênfase à importância da honestidade pessoal dentro da família e à superação das dificuldades conjunturais procurando minimizá-las dentro do possível

quinta-feira, junho 03, 2010

COMBAS Robert

Filme : OLIVIER TAÏEB, «PAROLES PEINTES»

Durante quase duas horas o pintor  Robert Combas pinta uma tela para ficar assim registado o seu processo criativo.
Recorrendo às cores dos boiões comercializados (e que não mistura para garantir outras, que pudessem expressar igualmente a sua sensibilidade), Combas começa por verbalizar intensamente as suas intenções  num discurso ininterrupto.
Mas isso só ocorre no início: à medida que o  seu trabalho avança, ele silencia-se e o único som ouvido é o dos pincéis a deslizarem na tela ou o pigarrear frequente do pintor incomodado pelas emissões gasosas das tintas.
Impressiona a desenvoltura perante um enorme espaço a preencher  - e se ele o preenche completamente  - com o seu imaginário, povoado de seres de olhos imensos em poses com algo de erótico associado.
Opção do realizador é a inserção de «mementos» - únicas ocasiões para se  ouvir uma banda sonora musical - em que se revêem os momentos determinantes de cada uma das cinco fases em que o quadro evolui.
Um documentário muito actual, não só pelo tema, mas por ter sido produzido já em 2010.

sábado, maio 22, 2010

Livro: «L'Horizon» de Patrick Modiano

E eis que Jean Bosmans chega a provecta idade obcecado pelas suas recordações. De nomes, de lugares  e outras referências de um passado, que lhe chegam caoticamente à mente. O que o obriga a estruturá-las, mediante a sua descrição detalhada no moleskine, que o acompanha.
Tais fragmentos de recordações correspondiam aos anos em que a vida lhe parecia uma sucessão de cruzamentos entre tantas alternativas quantas as que lhe suscitavam o embaraço da escolha. Por exemplo, Mérovée, um colega da sua namorada de então, Margaret le Coz, que costumava animar um grupo de foliões auto-designado de «bando alegre». E a quem voltaria a ver à beira de um passeio, muito mais velho e menos animado, quando, anos mais tarde,  passava num táxi. Bosmans pensara então que o destino insiste algumas vezes. Cruza-se duas, três vezes com a mesma pessoa. E se não se lhe fala, tanto pior.
Mas as recordações levam-no a focalizar-se nessa Margaret Le Coz a quem conhecera por mero acaso, dando razão a algo que lera a propósito dos primeiros encontros, definidos como uma espécie de ferida. E no seu caso com ela fora-o literalmente, porquanto se tinham agarrado um ao outro num dia de súbito fluxo de manifestantes acossados pela polícia de choque nos corredores do metropolitano aonde ambos transitavam. Margaret ganhara de tal experiência uma pequena lesão numa das sobrancelhas.
Do pouco que ficara a saber dela nesse primeiro encontro, Bosmans retivera que, apesar de bretã, ela nascera em Berlim e trabalhava como secretária na firma Richelieu Interim.
Olhando agora para esse passado, Jean Bosmans retém a sensação de asfixia nesse mergulho de ambos no seio da destrambelhada multidão. Mas também a iminência de uma ameaça terrível, que deixava ambos num estado de permanente inquietação. Para Margaret o receio provinha de um homem do seu passado com quem jamais dormira, mas decidido a assediá-la de formas progressivamente mais ameaçadoras.
E Jean conta com maus encontros com a detestada mãe e seu amante, que sempre se traduziam na espoliação de todo o dinheiro, que consigo transportasse.
Como de costume em Modiano temos em Bosmans e em Margaret dois solitários, que unem esforços num meio urbano hostil donde as agressões podem surgir sem aviso.
À medida que avançam, as evocações do sexagenário, vão acumulando novos dados sobre ele e a tal namorada da sua juventude. Por exemplo o trabalho dele numa livraria dedicada ao ocultismo e onde os clientes rareavam tanto, que lhe davam ensejo de escrever o seu primeiro romance. Ou sobre a estadia anterior de Margaret na Suiça aonde fora governanta de um tal Bergherian, com serviço de ama seca dos filhos e de amante nas noites bem bebidas.
Na segunda metade do romance desfocalizamo-nos de Jean e acompanhamos Margaret através de novas revelações: o seu nascimento como resultado de uma efémera relação da mãe de quem se distanciaria, quando ela lhe arranjara um padrasto execrável na pessoa de um garagista. Ou a juventude passada em Annecy, aonde conhecera o inquietante Boyaval no Café da Estação, quando o frequentava a desoras para iludir a solidão na companhia silenciosa de outros desadaptados.
O namoro de Jean e de Margaret durara alguns meses até ela conhecer involuntários problemas com a polícia graças às actividades ilícitas do casal de osteopatas, de cujo filho se tornara preceptora. A fuga apressada num comboio em direcção à Alemanha funcionara como a única alternativa viável.
Decidido a reencontrá-la e avançando na sua investigação até a identificar em Berlim aonde parece gerir uma pequena livraria, Jean move-se no sentido de um reatamento com o passado, aonde algo de essencial como é o amor, lhe ficara interrompido…
Como se vira no início do romance, o destino deverá ser forçado, sempre que se justifique...

domingo, maio 16, 2010

BOBBY CASSIDY»

Ao princípio havia um miúdo atormentado pela mãe alcoólica. Que lhe arranja um padrasto tão odioso como ela. Ambos lhe vaticinam continuamente um futuro de fracassado ao mesmo tempo, que não se poupam a dar-lhe violentas tareias.
Aos dez anos o miúdo Bobby só queria morrer.
Mas cresce e envereda pelo boxe a conselho de quem lhe quer evitar os problemas de uma delinquência quase inevitável no seu percurso posterior.
E a modalidade, que pode ser execrada pelo que tem de violento e de corrupto, correspondeu à bóia de salvação a que Bobby se agarrou com determinação nos dezoito anos seguintes. Sempre com grande sucesso, muito embora lhe fique a mágoa de não ter conseguido competir para o título de campeão do mundo de meios pesados.
O filme de Bruno Almeida, datado de 2009, é um belíssimo retrato deste homem, que fez da educação dos filhos o seu percurso de redenção, dando-lhes o tipo de infância a ele negado.
Duas terão sido, então, as razões para esse longo calvário de Bobby face a temíveis adversários: a sua afirmação perante essa mãe e esse padrasto, que ainda o viriam ver nalguns combates, fazendo-se de tardios fãs de quem tanto tinham desprezado. E propiciar aos dois filhos o melhor futuro possível e com uma dose superlativa de carinho. Objectivos, que conseguiu cumprir em pleno.
Mas os dez rounds em que Bruno de Almeida divide o seu filme não escamoteia o lado mais ambíguo de Bobby, aquele que o leva a cumprir ano e meio de prisão por envolvimento com a Mafia logo após ter abandonado os ringues. Mas, também o outro lado, o de actor capaz de um desempenho irrepreensível no monólogo retirado de um filme dos anos 50, e referente a um personagem quase caracterizável como seu possível alter ego.
O filme alterna as entrevistas com as imagens desses memoráveis combates em que, não raro, os adversários de Bobby caem no tapete. Mas o que fica é o olhar magoado de um homem para quem nenhum sucesso conseguiu debelar essa profunda tristeza de nunca ter sido devidamente apreciado, quando lhe era tão importante sê-lo.
Bruno de Almeida conforma-se como realizador a quem convirá estar doravante atento...

Fotograma - "Bobby Cassidy" de Bruno de Almeida

terça-feira, maio 11, 2010

Documentário: «O Mistério das Abelhas Desaparecidas» de Mark Daniels

No dia 18 de Maio a ARTE exibe um documentário sobre o mistério do desaparecimento das abelhas, um pouco por todo o mundo.
Para o entomologista Bernard Vaissière a crise é paradoxal, porquanto há cada vez mais superfícies cultiváveis a necessitar do efeito polinizador desses insectos e, quer na Europa, quer nos EUA, os apicultores constatam uma mortalidade de 30 a 80% nas suas colmeias.
As abelhas polinizam 80% das flores selvagens e 76% das principais espécies cultiváveis no mundo -  o que corresponde a 35% da produção agrícola vegetal, que consumimos. Poderemos estar, pois, à beira de uma terrível catástrofe ecológica e agrícola.
A maioria dos estudos atribuem a responsabilidade pelo desaparecimento das abelhas aos novos pesticidas, à multiplicação das culturas intensivas e ao surgimento de novos parasitas e predadores.
Em suma estamos perante as consequências de uma lógica produtiva mundializada, estimulada pelo crescimento populacional e pelas novas necessidades alimentares.
Infelizmente a solução defendida por muitos dos que sugerem respostas a este problema, é a de criar uma mutação genética nas abelhas domésticas de forma a que resistam melhor aos factores de risco. O que significaria escamotear as verdadeiras causas do problema (a sobrepopulação num planeta incapaz de assegurar sustento a tanta gente) em proveito da criação de um monstro à medida dos novos frankensteins dos laboratórios científicos.
O documentário de Mark Daniels é deste ano e tem 90 minutos de duração, começando com colmeias desertas, sem cadáveres de abelhas à vista, mas com uma rainha saudável no interior, rodeada de larvas viáveis e de um punhado de jovens adultos enfraquecidos. Mas quanto ás obreiras, viste-las!
Trata-se de um sindroma fulminante, que dizima as colmeias norte-americanas desde 2006 e que, lentamente, se alastra a todo o mundo, agudizando uma decadência, que se vinha sentindo desde o pós-guerra.
Ora, sejam domésticas, sejam selvagens, as abelhas desempenham um papel insubstituível na biodiversidade e na agricultura humana. Sem estas sentinelas da natureza, não há polinização das flores, nem frutos, nem legumes.
Nos laboratórios franceses, americanos ou alemães, investigações convergentes demonstram a interacção de uma multiplicidade de factores na mortalidade anormal das abelhas. Não se pode, por exemplo, inculpar exclusivamente os pesticidas como nos anos 90, mas em compensação, se eles forem combinados com um vírus ou com um cogumelo, o efeito de certos produtos desmultiplica-se.
O que muitos investigadores propõem é a criação urgente de uma agricultura mais respeitadora do ambiente em vez de se pensar numa abelha transgénica...



domingo, maio 02, 2010

Filme: Heddy Honigmann: «O Amor Natural» (1996)

Descoberta curiosa a que o Festival Indie nos proporcionou com esta homenagem ao universo poético de Carlos Drummond de Andrade e, em particular, à sua poesia erótica só divulgada depois da sua morte e aqui comentada e lida por cariocas de provecta idade.
O que ressalta de todo o filme é a descontracção de todos estes brasileiros para quem o sexo e o prazer são realidades perfeitamente naturais e usufrui-lo constitui uma verdadeira bênção. São eles quem melhor se identificam com as descrições pormenorizadas de Drummond a propósito do sexo heterossexual em todas as suas vertentes possíveis...
É certo que nem todos são apreciadores incondicionais da arte do poeta: duas mulheres num eléctrico não hesitam em realçar-lhe o lado misógino, ainda que superiormente bem escrito. Mas aonde o poeta conhece entusiásticos apoiantes é nos que lembram os seus tempos de boémia com nostalgia ou nos que evocam o poeta como o paradigma de um tipo de pessoas já completamente desaparecidas do Rio. Sobretudo desde que o golpe militar de 1964 instituiu a ditadura fascista e reprimiu os sinais mais interessantes de uma libertinagem até então existente.
Se alguém se incomoda com o tipo de escrita aqui em causa é uma rapariga muito jovem, cujo olhar reprova com veemência as revelações de um velho de 84 anos sobre um passado marcado por várias namoradas e amigas. Como se a descomplexada abordagem do prazer sexual deixasse de estratificar posições a partir de uma posição de género, para o fazer numa clara distanciação entre gerações.
Divertido, «O Amor Natural» constituiu, pois, uma boa descoberta relativamente a uma cineasta, que merecerá uma análise bem mais aprofundada da sua forma de transmitir a sua própria interpretação sobre o mundo que a rodeia.


sexta-feira, abril 30, 2010

Livro: O AMIGO DA MORTE de Pedro António Alarcon


Para Gil Gil o azar parece acompanhá-lo desde a nascença: embora o seu verdadeiro pai seja o conde de Rionuevo, quem figura como seu progenitor oficial será o sapateiro Juan Gil, que se consorciara com a já grávida Crispina Lopez, que o não tardará a deixar viúvo.
Cabe ao jovem órfão de mãe aprender o ofício do pai, que também não dura muitos mais anos.
Pobre e desvalido o rapaz conhece e apaixona-se por Elena de Monteclaro, jovem nobre de quem nem sequer se poderá aproximar, quando lhe desaparece a protecção do seu verdadeiro pai, também ele levado pela morte.
Num conto em que esse desenlace fatal  está sempre a suceder, não chegamos a admirar-nos, que ela se corporize numa figura sinistra, mas ainda assim protectora de Gil Gil, quando ele se prepara para o suicídio libertador da sua incontornável condição social.
Mas, de repente, o pacto com essa personagem só lhe traz regalias: a morte da pérfida condessa de Rionuevo, que sempre conspirara para o perder. A nomeação enquanto médico da Corte ao anunciar a Filipe V, que entre aspirar à coroa de Espanha aonde estava a reinar  o filho Luís I, ou a de França, aonde mandava o sobrinho, Luís XV, seria à primeira que deveria apontar porquanto seria aquele o primeiro a morrer.
Tanta coisa boa parece acontecer a Gil Gil, que nós passamos a desconfiar de tanta boa aventurança. Tanto mais que a traiçoeira aliada ainda não desvendou o seu preço….
Mas a reviravolta produzida nesta novela novecentista não deixa de surpreender: afinal o suicídio de Gil Gil acontecera e, agora, em pleno século XXIV ele é chamado dos seus sonhos para uma viagem maravilhosa pelos céus estrelados de todos os continentes até lhe ser garantida a presença eterna ao lado da sua amada Elena.
E assim se afunda o protagonista numa encantadora perspectiva...
Para o conservador Jorge Luis Borges, que integrou esta história na sua colecção Babel, esta história tem o carácter moralista e respeitador das hierarquias, que tão bem prezava, mesmo sendo um génio da escrita.
E não se pode deixar de reconhecer a Alarcon o seu papel primordial na literatura espanhola do seu tempo...

segunda-feira, abril 26, 2010

Livro: «A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS» de valter hugo mãe

Já existe um livro emblemático sobre o que é viver num asilo de velhos, graças ao romance mais recente de valter hugo mãe. «A Máquina de Fazer Espanhóis» constitui, de facto, um testemunho eloquente sobre a vivência de um viúvo com oitenta e quatro anos, desde o seu internamento nesse tipo de instituição até à sua morte.
António Silva, assim se chama ele, sempre primou por passar a vida na maior das simplicidades. Bastava-lhe o amor de Laura, cuja morte numa noite de grande tempestade, é por ele sentida como uma tremenda injustiça. Ademais, e porque não acredita em transcendências, ele nem sequer encontra a quem culpar por essa solidão a que se vê condenado.
Poderia olhar para o passado e encontrar alguma paga dos seus actos. E se ele cometera inconfessável ignomínia ao denunciar à pide um jovem opositor do regime, a quem escondera em dia de inaudita audácia e que se tornara nos nove anos seguintes um cliente fiel da sua barbearia.
Mas, mesmo condenando-o a uma provável morte, António Silva não se sente comprometido com esse acontecimento: é que entre o conforto singelo de Laura e os riscos inerentes ao da militância do seu cliente, ele nem sequer hesita.
As primeiras semanas de António no Feliz Idade são de silenciosa revolta, recusando-se ao contacto com quem quer que seja. Mas depressa começa a congregar um grupo de amigos com quem alimenta crescente empatia, embora não aceite para aquele convívio a designação de amizade. O que mais disso se aproxima é Pereira que, de alguma forma, o apresenta aos outros. Nomeadamente ao velho Esteves, que não é mais do que o célebre personagem do poema de Fernando Pessoa sobre a Tabacaria. Há também o outro Silva, o da Europa, cerca de vinte anos mais novo e seu conhecido da noite no hospital em que Laura lhe morrera. Ou Anísio, o antigo responsável do Museu das janelas verdes e que não tardará a arranjar namoro com outra das residentes.
Mas há também os seus ódios de estimação: a dona Marta, a quem ele escreverá cartas de amor, como se fossem emitidas pelo marido dela, um homem mais novo, que lhe ficara com a fortuna antes de para ali a abandonar. Ou uma fanática admiradora do F.C. Porto desde o dia em que passara uma tarde já distante em fogosos enlaces com o seu jogador Cubillas.
António revolta—se com a sua família remanescente: à filha, Elisa, acusa de o ter retirado de sua casa para o pôr ali. Ao filho, radicado na Grécia, imputa o total alheamento em relação à morte da mãe, a cujo funeral nem sequer comparecera.
Redigido com grande qualidade e no estilo que o tem caracterizado nas suas obras exteriores, «A Máquina de Fazer Espanhóis» mostra como se torna paranóico o modelo de pensamento das pessoas encerradas em ambientes concentracionários como o são os aqui tratados. E nesse delírio contínuo em que se sucedem os capítulos, deixamos de saber com rigor o que acaba por ser verdade ou o que é fruto da imaginação do seu narrador.