sexta-feira, setembro 09, 2016

(V) O regresso do provocador

Uma das grandes exposições internacionais, que se anunciam para este outono, é a de Maurizio Cattelan, que estará no «Monnaie de Paris» entre 22 de outubro e 8 de janeiro.
O título da retrospetiva é “Not afraid of love” e constitui o regresso de um artista, de quem pouco se ouviu falar desde a sua grande exposição de 2011 no Guggenheim de Nova Iorque intitulada “All”. Para trás ficava um percurso artístico feito de obras que causaram escândalo, mas também divertiram na sua insolência.
Seguindo ele “a arte não precisa de nenhuma grande ideia, nem de amores inflamados, nem de desprezo, mas apenas de um requisito quotidiano: fazer. E, hoje, sinto o desejo de recomeçar e fazer.”
O que a exposição promete é um conjunto de obras, que nos irão surpreender, incomodar e fascinar, incluindo retratos irreverentes, caricaturas inesperadas, capazes de nos suscitarem reações contraditórias.
Os admiradores da obra de Cattelan afirmam que ele captura e sublima a condição humana, num hino em que traduz a sua decadência, fragilidade, contradição, paradoxo, criatividade e o seu lado destrutivo. E trata de uma questão pertinente: quem sou eu quando o individual se torna coletivo? 

quinta-feira, setembro 08, 2016

(O) A “Hypnosis Mariposa” de Paul Dusenne

Um dos compositores latino-americanos mais conceituados, Paul Desenne, teve a sua obra “Hypnosis Mariposa”, de 2014, a abrir o concerto que Dudamel dirigiu ontem no Grande Auditório da Gulbenkian e, que abriu verdadeiramente a temporada deste ano.
Antigo violoncelista da Orquestra Simon Bolívar, Desenne compôs esta peça como encomenda do próprio Dudamel e a partir de uma canção de Simon Diaz, conhecida de todas as crianças venezuelanas: “La vaca mariposa”.
Os doze minutos, que duram a peça, exemplificam as influências de Desenne, que tanto leva em conta a técnica do contraponto teorizada por Bach, como as músicas populares do seu país.  Por isso não admira que culmine num merengue, logo transformado numa rápida valsa festiva, que ilustra outra grande referência do compositor: a música do século XVI.
No clip que aqui se junta - de qualidade audiovisual limitada - assiste-se ao ensaio da orquestra para interpretar esta mesma peça nos Proms deste verão.

quarta-feira, setembro 07, 2016

Siza Vieira - O arquitecto e a cidade velha | Reabitar.pt - Reabi(li)tar

(V) Entre Kirk Douglas e o cinema falado em português

Retomando a nossa atenção para as salas de cinema em Lisboa onde se podem ver os melhores filmes - falo, obviamente, da Cinemateca! - prossegue o ciclo deste mês dedicado a Kirk Douglas.
À tarde apresenta-se «Spartacus», a grande produção assinada por Stanley Kubrick em 1960, com Danton Trumbo a assinar o argumento. Os atores são dos mais emblemáticos desse tempo, desde o homenageado até Laurence Olivier, de Charles Laughton a Tony Curtis, sem esquecer Peter Ustinov ou Jean Simmons. E a história já se sabe o que representa: a eterna luta dos explorados contra os seus exploradores.
A outra proposta com Douglas é de 1949 e assinada por Mark Robson: «O Grande Ídolo». O ator teve com este desempenho a sua primeira nomeação para o Óscar, que nunca viria a ganhar, e estaremos perante um dos mais reverenciados da época, de entre os que tinham o mundo do boxe como pano de fundo.
Do cinema luso contaremos com duas propostas. Uma delas, realizada por Catarina Alves Costa, sobre um projeto do arquiteto Siza Vieira na ilha de Santiago em Cabo Verde. «O Arquiteto e a Cidade Velha» tanto dá importância ao processo criativo do nosso primeiro galardoado com o Prémio Pritzker como ao olhar da população local para o restauro, que as afetará .
A outra proposta falada em português é dupla porque reúne duas custas metragens e a presença dos respetivos realizadores. Ora este tipo de sessões em que os criadores vêm explicar os fundamentos do que fizeram, constitui sempre algo interessante, sobretudo se com eles se criar um diálogo estimulante com a assistência.
«Ascensão» de Pedro Peralta  acompanha um grupo de camponeses ocupados em resgatarem um corpo de um poço e «Setembro», de Leonor Noivo, mostra o reencontro de uma mãe e de um filho com a terra donde tinham partido para a emigração.




(V) «Le Cose Belle» de Agostino Ferrente e Giovanni Piperno (2013)

Em Nápoles a expressão «cosi belle» usa-se como um cumprimento de despedida. Deseja-se com ela que o interlocutor conheça coisas boas.
Para Enzo, Silvana, Adele ou Fabio não é isso o que acontece entre 1999, quando os conhecemos como adolescentes ou em vias de se tornarem, e 2012 já na condição de adultos. E o que se perde nesse hiato é o sorriso. Não quer dizer que ele expressasse felicidade, quando eram miúdos, mas traduziam a vivacidade de quem imaginava ainda tudo lhes ser possível. Em adultos as ilusões esvaíram-se, o quotidiano é de permanente luta pela sobrevivência no meio de tantas dificuldades, e não se vislumbra qualquer luzinha brilhante ao fundo de tão negro túnel.
Adele queria ser modelo. Mas mostrava-se insatisfeita com a atenção dada prioritariamente ao irmão, entretanto transformado na transsexual Jessica sem quaisquer entraves preconceituosos por parte da mãe. Se se veio a aproximar do sonho foi para ganhar um complemento de ordenado a dançar no varão de clubes noturnos depois de passar os dias nas limpezas de quartos de hotéis.
Enzo queria ser cantor de músicas napolitanas e sonhava ir para o Conservatório. No entretanto, passava as noites a acompanhar o pai de restaurante em restaurante, ganhando umas moedas a afinar a voz em exibições fugazes. Anos depois, ganha a vida precariamente como vendedor de contratos para uma operadora telefónica, continuando a percorrer as ruas da cidade para ir batendo a todas as portas em busca de improvável sucesso.
Silvana vivia com o pai, depois de ter visto a mãe abandonar o lar. Passa o tempo a lavar o chão ou a loiça das refeições, mas tem como grande projeto chegar virgem ao casamento. Reencontramo-la, precocemente envelhecida, a apoiar a mãe doente, a visitar o irmão mais novo na prisão, continuando  nos mesmos gestos domésticos que lhe conhecêramos antes.
Fabio era o mais reguila de todos, com uma impetuosidade, que lhe pareceria adequada para abrir as portas de um futuro indefinido. Acompanhava, então, a mãe à lota, onde era a única mulher (e por isso suscitava reações misóginas dos demais) e adorava jogar à bola, embora já lhe tivessem dito não ter talento bastante para singrar por aí. O adulto em que se tornou é ensimesmado, quase apático, porventura devido ao assassinato do irmão mais velho a quem muito admirara. Agora vai tentando empregos circunstanciais, que detesta por se sentir explorado, e olhando sem esperança para os tempos que virão.
O filme em si vale mais pelo conceito do que pela forma como se concretizou, mas demonstra bem como as classes mais desfavorecidas não conhecerão qualquer acesso ao ascensor social se não forem instadas a, desde muito cedo, instruírem-se. Quando Silvana confessa não gostar da escola e já ter chumbado vários anos, sabemos que quaisquer sonhos lhe estarão vedados. E para essa estagnação, se não mesmo retrocesso no estatuto social, contribui igualmente a subcultura pimba em que todos eles mergulham, sem a consciência de residir nela um dos principais atilhos da sua ulterior condenação.
Sente-se, e muito!, a falta das antigas organizações populares - de que em nós a «Voz do Operário» constituiu exemplo lapidar - apostadas em elevar as capacidades e as competências desses estratos, libertando-os das grilhetas da ignorância e do preconceito.

terça-feira, setembro 06, 2016

(V) «Relatos Selvagens» de Damian Szifron (3)

Vi o meu primeiro Spielberg no há muito extinto cinema Apolo 70 e nunca mais o esqueci: «Duel» era a luta pela sobrevivência de um homem vulgar quando se via ameaçado por um enorme camião, ao transitar por uma estrada desértica.
O filme prestou-se, então, a muitas leituras, umas orientadas para a sua inserção no género fantástico, outras mais focalizadas na metáfora do indivíduo a contas com as ameaças de uma sociedade violenta.
O terceiro episódio do filme argentino, que temos vindo aqui a abordar, repete a situação, substituindo o camião por um chaço velho cujo condutor dificulta ao máximo a ultrapassagem por um carro de alta cilindrada. Ao consegui-lo o dono deste último faz-lhe o trivial sinal com os dedos sem adivinhar que, mais adiante, junto a uma ponte sobre um rio, iria ter um furo, vendo-se confrontado com a ira do outro.
Esta mudança de protagonistas leva-nos obrigatoriamente para o contexto da luta de classes e torna a história inequivocamente reacionária. O espetador identifica-se logo com o condutor mais abonado, olhando para o outro como o energúmeno que aparenta ser.
Depois é o que se imagina: uma luta corpo a corpo até ambos morrerem abraçados, levando a polícia,  entretanto chegada para constatar os homicídios, a tecer a tese cínica de se poder tratar de um crime passional.
A ironia deste final, cuja aparência não podia estar mais desfasada da que acabáramos de testemunhar, não nos impede de considerar quanto o realizador terá menosprezado as conclusões, que qualquer um tira de tal episódio: a desigualdade de rendimentos conduz a uma guerra social, motivada pela arrogância do rico e pela inveja do pobre. Melhor teria valido não se provocarem, nem guerrearem para nenhum deles acabar perdedor.
Ora isto não é mais do que uma reprodução do princípio salazarista da cooperação entre as classes «a bem da Nação», todos seguindo o principio de que «juizinho é que é preciso».
Não é, pois, o episódio que cinematograficamente, menos me tenha agradado, mas ideologicamente é-o decerto.

(L) «O Homem-Gargalhada» de J.D. Salinger

Em 1928, quando ainda era um miúdo, o narrador integrava um grupo de duas dúzias de «Comanches» no que constituía uma espécie de ATL depois de concluída a época escolar.
Joey, o Chefe, com vinte e poucos anos, levava-os para campos de basebol no Central Park ou a acamparem fora de Manhattan, sempre contando, em episódios palpitantes, as aventuras do Homem-Gargalhada. Este era um criminoso que descendia de um casal de missionários, aos quais bandidos chineses lhes tinham raptado o filho para o torturarem e deformarem o rosto, deixando-lhe porém intactas as capacidades para entender e ser entendido por animais, nomeadamente os lobos.
Esta especialização do personagem ficcional é bastante desconcertante, porque Joey escolhe para manter a atenção dos seus miúdos, um “herói”, que não deixa de ser um delinquente.
Esta escusa do maniqueísmo constitui, logo à partida, uma das curiosidades, que possibilitam leituras múltiplas deste conto, seja através das ferramentas da psicologia ou da psicanálise, seja através de outras áreas das Humanidades.
Naquele verão os «Comanches» vão acompanhando a história desse fascinante personagem, mas também, em paralelo, a evolução amorosa e desamorosa entre Joey e a belíssima Mary, que conseguira enorme empatia nos miúdos graças aos dotes no basebol.
Tratando-se de crianças em vias de chegarem à puberdade, e à consequente curiosidade pelas questões do sexo, essa narrativa colateral ganha tanta relevância como o fascínio entre elas e o monitor, ou como a estória que lhes serve de entretenimento.
Quando de omnipresente Mary se faz ausente, o verão está quase a acabar e o Homem-Gargalhada também chega à derradeira e fatal aventura.
Publicado originalmente no «New Yorker» de 19 de março de 1949, este conto de Salinger é particularmente interessante por ser a história da iniciação para alguns miúdos, ora confrontados com a extrema violência inerente às histórias do delinquente cujo rosto fora deformado mediante o seu aperto num torno, ora com a evolução do namoro do seu monitor. Mas também sobre a distância que vai entre a ficção e a realidade…
O próprio leitor, ao ser convocado para as suas próprias memórias, torna-se de algum modo num participante ativo das que, literariamente, o estimulam.
Em poucas páginas, o autor dá-nos uma notável lição de como complexificar uma intriga onde nada parece a mais. Nem uma palavra, nem uma frase, nem um mero episódio do que nesse verão ocorre.

segunda-feira, setembro 05, 2016

(V) «Relatos Selvagens» de Damian Szifron (2)

Prosseguindo com a abordagem do filme argentino, que os Almodovares produziram e foi sério candidato ao Óscar para a melhor proposta estrangeira, olhemos para o episódio, que dos seis menos me agradou.
Numa noite de chuva um cliente entra num daqueles restaurantes, que lembram os situados nas paragens dos autocarros Greyhound no lado norte do continente. Único cliente, logo a empregada o reconhece como um escroque que, na sua terra natal, era um agiota mafioso, que levara a família à miséria, o pai ao suicídio e a mãe a ter de se precaver do seu assédio sexual.
Transtornada, conta à cozinheira a razão dessa perturbação, e logo ela lhe propõe vingança, dando-lhe remédio dos ratos na comida.
Temerosa das consequências a rapariga nega-lhe tal sugestão e vai continuando a atender o biltre, que a não reconhece, apenas lhe estranhando o nervosismo.
Quando lhe serve a refeição pretendida, só ao chegar à cozinha é que a rapariga percebe como, contrariando-a, a outra levou por diante a sua proposta, alegando-lhe não ser tão má como dizem a vida na prisão, antes constituindo ambiente bem mais descansado do que aquele em que trabalham.
A necessidade de inverter a situação ainda se torna mais premente para a jovem, quando vê o filho do cliente chegar numa breve paragem do autocarro e servir-se das batatas fritas do progenitor.
Ao vê-lo a espumar pela boca, tira-lhe a travessa da frente, mas o pai, furibundo, interpõe-se por impedir o filho de se alimentar. E é nessa altura que a cozinheira surge por trás a esfaqueá-lo mortalmente.
Num conjunto de histórias, que encerram sempre um dilema moral, está em causa a legitimidade ou não de fazer justiça pelas próprias mãos. Um tema, que volta a ser abordado no quarto sketch, em que o protagonista é um engenheiro especializado em implosões em edifícios, que vê o carro rebocado por quatro vezes de locais de estacionamento não indicados como tal na cidade, no que parece ser um negócio mafioso de conluio entre o município e a empresa incumbida de retirar os veículos dos locais «proibidos».
Cioso de ser respeitado, Simon age em defesa desse imperativo e perde emprego e família, quando os jornais o dão como um delinquente, que põe em causa a ordem pública.
A explosão do próprio carro no local de parqueamento das viaturas apreendidas constitui a única reação que lhe resta contra a vigarice instituída e apoiada pelo poder. Acusado de terrorista vai preso, mas começa a ter a apoiá-lo um vigoroso movimento nas redes sociais, que o transformam num herói em quem se reconhecem tantos milhares de outros cidadãos indignados, suficientes para pôrem em causa a negociata em causa.
Só o final é demasiado exagerado, porque Simon recebe a mulher e a filha na prisão, vindas com um bolo a festejarem-lhe o aniversário, na companhia dos demais prisioneiros, que o adotaram como líder. Mas fica assim demonstrada a complacência com os atos terroristas como última alternativa contra o arbítrio.

(V) «Relatos Selvagens de Damian Szifron (1)

Produzido pelos irmãos Almodovar, e assumidamente influenciado pela série «Twilight Zone», este filme em seis episódios do argentino Damian Szifron foi incensado pela crítica internacional, premiado em diversos festivais (embora falhando o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro) e fulminado pelos exigentes cinéfilos nacionais.
Visto o filme, nem é caso para oito, nem para oitenta: não é nenhuma obra prima, mas cumpre agradavelmente a função de entretenimento inteligente, mesmo tornando-se frequentemente previsível na sua pretendida imprevisibilidade.
O primeiro sketch surge antes do genérico: estamos num avião (porventura o mesmo cenário de um dos mais recentes filmes de Pedro Almodovar) e com todos os passageiros a instalarem-se nos seus lugares.
De repente um cinquentão careca armado em galã mete conversa com a concupiscente vizinha do lado, que se confessa modelo de passerelle. A meio da conversa de engate, ela lembra depreciativamente um ex-namorado de nome Gabriel Pasternak.
O interlocutor não se contém no espanto: também ele conhecera esse jovem, que se submetera a exame no Conservatório onde era professor de música, e recebera rotundo chumbo devido à manifesta falta de talento.
A rapariga recorda ter-se tratado de um trauma, que muito o havia penalizado. Mas já outros passageiros se juntam à conversa, todos eles conhecedores desse Gabriel Pasternak e envolvidos em algo que o terá em tempos prejudicado: a professora de liceu que o reprovou, o amigo que lhe roubara a namorada, etc.
Depressa concluem que todos conheceram esse jovem que a assustada hospedeira informa ser o chefe de cabina, entretanto trancado no cockpit com os pilotos.
Um psicólogo, que lhe aumentara indevidamente os preços das consultas, tenta demovê-lo de qualquer propósito vingativo, porque a culpa estaria na forma como os progenitores o terão humilhado durante o processo educativo.
A última cena desta história mostra-nos um casal de idosos sentados em cadeiras no jardim, a lerem jornais e um avião a aproximar-se progressivamente até vir a com eles embater.
Trata-se, assim, de um tipo de intriga, que nos remete para os atentados do 11 de setembro ou para o caso do piloto alemão, que se suicidou de encontro a uma montanha alpina, levando consigo todos os passageiros do voo onde era copiloto .
O episódio serve ainda de pré-aviso para o que se seguirá: através de sucessivos personagens seremos confrontados com alguns dos nossos receios mais inconfessáveis, neste caso traduzido na aleatoriedade de sermos transformados em vítimas dos estados psicóticos alheios...

sexta-feira, setembro 02, 2016

(L) Voltar a ler Steinbeck

Uma das grandes descobertas literárias da minha adolescência foi a de John Steinbeck.  Estou convicto de ter tido em «Vinhas da Ira» um dos romances, que me ajudaram a criar uma orientação ideológica para a esquerda, que nunca mais conheceu qualquer inflexão. Cheguei ao 25 de abril com 17 anos e uma enorme vontade em ajudar a construir um mundo mais justo, onde a exploração do homem pelo homem viesse a ser, senão eliminada, pelo menos seriamente restringida.
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Foi bastante mais tarde que tomei conhecimento do lado obscuro da biografia do escritor: não tanto o apoio ao esforço de guerra do Pentágono no Vietname, que serviu apenas de confirmação dessa deriva progressiva da esquerda mais consequente para a direita radical, mas a história pouco conhecida de se ter oferecido à CIA como seu agente secreto durante os anos 50, já que a imagem anteriormente criada lhe tinha facilitado o acesso frequente aos países do Leste Europeu.
No fundo tratava-se do regresso a uma casa para que trabalhara durante a 2ª Guerra Mundial, embora ainda não tivesse adotado a sigla sinistra por que se tornaria depois mais conhecida.
Reler Steinbeck tem pois essa ambivalência latente quanto a quem ele seria verdadeiramente: o homem sensível à pobreza e às desigualdades sociais como aparentara nos anos 30 ou quem escreveria como última obra um requisitório contra a decadência moral da América? O espião imperialista ou o corajoso apoiante de Arthur Miller quando este se viu na fogueira da caça às bruxas mcCarthista?
Este verão as prateleiras das livrarias voltaram a disponibilizar a «Viagem com o Charley», que relata a longa viagem por ele feita pelo interior dos EUA apenas acompanhado pelo cão e a parar em motéis decadentes.
A verdade terá sido que, em mais de metade do caminho, contou com a companhia da mulher e que foram mais as noites passadas em hotéis de luxo do que no tipo de poisos de que se reivindica no livro. No fundo liberdades criativas de um autor, que ganhou o Nobel em 1962, num ano em que os académicos suecos se viram aflitos para, de entre os autores medíocres na liça, escolherem o que fosse menos mau... 

quinta-feira, setembro 01, 2016

(V) Olhar para a realidade

Uma das razões para me andar a agradar esta fase do cinema português é por, seja nas curtas, seja nas longas metragens, tratar quase sempre da realidade concreta, sem romantismos espúrios, nem a cínica mordacidade de troçar dos que poderiam ser tentadas a apresentar como feios, porcos e maus. Não é pois a dos bairros das supostas classes médias, que servem de cenário às acéfalas telenovelas, mas as dos bairros populares onde a luta pela sobrevivência diária é um desafio permanente.
Em «São Jorge», que agora é apresentado no Festival de Veneza, Marco Martins dá-nos um retrato do Portugal desgovernado por Passos Coelho e Paulo Portas, onde a esperança é inexistente, as pessoas vagueiam pelas ruas como se estivessem letárgicas e sem rumo e os pobres dos pobres agridem-se entre si por não terem outra solução para existirem. O personagem interpretado por Nuno Lopes é um homem endividado, cujo hobby era o boxe e que aceita fazer cobranças difíceis para conseguir pagar as suas contas.
Nas classes mais desfavorecidas, e também elas as ideologicamente mais incapazes de compreenderem as causas verdadeiras da sua condição, cumpre-se o preceito hobbesiano de ser o homem o lobo do homem. Com as consequências dramáticas, que isso provoca.
Porque há que dar voz a essas pessoas tão abandonadas pelos comuns meios de comunicação - que só a elas acorrem quando protagonizam episódios de faca e alguidar - Marco Martins e Nuno Lopes sentem-se tentados torná-las no foco das suas ulteriores colaborações. É que, para mudar o mundo - objetivo da atual maioria parlamentar! - há que saber quem são, de facto aqueles a quem prioritariamente as suas políticas serão destinadas, não só dignificando-os com rendimentos menos exíguos, mas dando-lhes as qualificações necessárias à sua merecida entrada no elevador social…
«São Jorge» será outro filme de visão obrigatória, quando se estrear nas salas portuguesas.