sexta-feira, dezembro 11, 2009

Le Silence de Lorna

O que se revela uma constante no cinema dos irmãos Dardenne é o recurso a temáticas «pesadas», pouco atraentes para quem do cinema tem a pretensão de colher mero entretenimento.
Por outro lado não deixa de ser singular que provenha da Bélgica do tenebroso Dutroux a insistência no perigo iminente para as crianças nos seus filmes mais recentes: em «O Filho», um miúdo é colocado em reabilitação na oficina de mecânica cujo proprietário é o pai do miúdo que matou. Em «A Criança» um jovem adolescente decide vender o filho, que teve com a namorada. Em «O segredo de Lorna» o bebé supostamente existente na barriga da jovem albanesa, até então envolvida no tráfico dos «casamentos brancos», arrisca-se a ser abortado ou morto com ela, se ambos não conseguirem escapar às máfias em causa.
Não se encontram, pois, ambientes glamourosos como os habitualmente criados nos estúdios de cinema. Os personagens dos Dardenne vivem miseravelmente, sempre no fio da navalha, e procuram utilizar os expedientes mais à mão para continuarem a despertar para cada novo dia.
E os realizadores não facilitam a vontade que acompanha cada espectador no sentido de sair aliviado da sala escura à pala de um final feliz. Mesmo que os personagens consigam escapar fisicamente incólumes às suas experiências de vida algo extremas, acompanhá-los-á as marcas evidentes dos traumas por que são obrigados a passar…

terça-feira, dezembro 08, 2009

Entre a verdade e a lenda

Em tempos que já lá vão uma empresa armadora para que trabalhei contava com um mítico comandante conhecido pelas histórias estapafúrdias contadas à mesa de refeições dos oficiais.
Foi inevitável lembrá-lo numa revisão do «Big Fish» de Tim Burton por, também aqui, aparecer quem se entedia com a realidade o suficiente para dela relatar o seu lado mais colorido. Como refere um personagem, parafraseando um célebre filme de John Ford, entre a realidade e a lenda mais valerá optar pela segunda.
Poder-se-á alegar o facto de se tratar de uma escolha entre a verdade e a mentira. Mas será que as fronteiras entre uma e outra são assim tão definíveis? E a magia é algo de que estamos tão carenciados no prosaico mundo de hoje…
Uma magia que é feita de bruxas e de lobisomens, de gigantes e de siamesas, mas sobretudo de amores eternos declarados em campos amarelos de narcisos.
E é também um belíssimo exemplo de homenagem aos pais, mesmo que ausentes, mas capazes de suscitarem curiosidade nos rebentos, que deles careciam mais atenção, mas não deixam de ao seu sortilégios e renderem.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

A Ponte das Flores

Vida difícil a da família Ahir, cujo quotidiano acompanhamos naquele que é considerado o país mais pobre da Europa: a Moldávia.
«A Ponte das Flores» do romeno Thomas Ciulei (2008) mostra as consequências de, tão só  obtida a independência do antigo império soviético, a Moldávia decaiu tanto, que um quarto da sua população foi constrangida a emigrar. E foi isso o que aconteceu com esta família: para pagar as dívidas, assegurar uma boa educação aos filhos e reparar a casa, a matriarca partiu para Itália. Donde não pode voltar porque não arranja, ou diz não ter ainda arranjado, a devida autorização de residência.
Passaram já mais de três anos desde que a mulher de Costica Ahir partiu, passando a enviar regularmente dinheiro para complementar os magros recursos obtidos por ele na sua pouco rentável actividade de agricultor. A relação com a família passou a reduzir-se a cartas, a alguns telefonemas e a algumas encomendas abertas com ansiedade.
O rude Costica bem se esforça por dar uma vida normal aos filhos, controlando-lhes os trabalhos de casa, o corte dos cabelos, ou lendo-lhes histórias ao deitar… mas também implicando-os nas difíceis tarefas campesinas para as quais não bastam os seus esforços.
Conseguirá, de alguma forma, colmatar as feridas abertas pela ausência dessa mãe tão distante?
Fica a dúvida num filme, que vai atravessando as várias estações do ano para demonstra que a beleza da Natureza pode conviver com uma enorme tristeza das almas...

sábado, dezembro 05, 2009

Medea Cherubini Maria Callas

Quando se pensa em Maria Callas considera-se que ela fez com que reportórios anódinos atingissem as dimensões do drama wagneriano. Embora só no início da sua carreira tenha experimentado as árias do compositor de Bayreuth.
Mas a sua lenda resultou de uma célebre noite de 1953, no Scala de Milão, aonde dirigida por Bernstein e acolitada por cantores menos impressionantes do que os de outra célebre gravação em Londres, ela teve um desempenho inesquecível.
Já de si o maestro cuidara de estilhaçar o academismo de Cherubini, levando a sua orquestra para uma ambiência mais pr´xima da de Richard Strauss ou de Beethoven.
Mas, segundo narra Vincent Agrech, bastaram trinta minutos do último acto para compreender até onde o som pode assumir uma violência física, uma tensão nervosa próxima do insuportável, quando uma enraivecida orquestra parece precipitar-se no assalto à solista e é por ela rechaçada com todo o seu corpo e voz.
Callas nunca mais viria a ser a leoa indomável, que então se viu. Compreende-se, pois, porque, quem então a ouviu, tenha ficado ofuscado por tal momento até ao resto dos seus dias...

terça-feira, dezembro 01, 2009

Antigos pioneiros (2)

Prosseguindo o percurso de Vitalij Manskij  pelos seus antigos companheiros de escola no Grupo Gagarine de Pioneiros de Lvov deparamo-nos com Sasha, que está incorporado no exército israelita.
A sua base militar é frequentemente alvo de tiros e morteiros palestinianos. O que se compreende: aquelas terras agora ocupadas pelos invasores era anteriormente uma aldeia rodeada de pomares. O roubo sionista tem um preço, o de viver continuamente à beira do precipício.
Mas ele preferira esta alternativa a uma vida sem perspectivas na antiga Rússia.
Quem aí decidiu viver foi Zoia, que não desiste de se naturalizar enquanto cidadã russa. Apesar de casada há vinte e um anos com um ucraniano e da posse de uma autorização de residência, que lhe garante quase todos os direitos dos demais vizinhos. Mas ela pensa, sobretudo, no futuro incerto das suas duas filhas…
Vida completamente diferente, já que é um dos privilegiados do regime, Kostia reformou-se da tropa depois de anos a servir na unidade encarregada das honras fúnebres de militares mortos em combate. Também militar, mas do exército ucraniano, há Serguei, medalhado pelo próprio presidente e orgulho da sua atenta esposa. Com ela pelo braço vai, fardado, assistir ao fogo-de-artifício da sua cidade.
Voltamos a Israel para conhecer Boria, que se tornou num ortodoxo hebreu particularmente empenhado nos rituais da sua religião.
Da sua turma fora o primeiro a partir para o estrangeiro consorciando-se com uma marroquina de quem teve, entretanto, dois filhos. Agora as suas convicções são ameaçadas pelas explosões resultantes de atentados, que sacodem as suas noites.
Nos EUA ainda está Jenia, que era o orgulho da escola e, agora, acaba de deixar o posto de vice-presidente de conhecida empresa farmacêutica. Vitalij procura-o em Chicago, mas ele já partira para o Milwaukee. Quase in extremis de o não conseguir ver, Vitalij tem com ele um breve encontro nas margens do lago Ontário. Para ele lhe contar quanto está a viver um momento delicado da sua vida de que pede sigilo.
Num toque pessoal, Vitalij vai visitar a mãe à Ucrânia acompanhando-a a o cemitério aonde ela não teve condições de enterrar a própria mãe. Porque seria demasiado caro para as suas posses...

Antigos pioneiros (1)

Que estranho fenómeno levará alguns realizadores russos a partirem à procura do passado soviético através do reencontro com quem conviveram em tempos idos?
«Nós, os Pioneiros do Grupo Gagarine» de Vitalij Manskij (2005) passou por cá num DOCLisboa, mas repete projecto já visto noutro documentário de um compatriota seu: olhar para as fotografias dos condiscípulos numa escola primária e descobrir no que se tornaram quase quarenta anos passados.
A turma em questão era a de uma escola modelo de Lvov aonde Vitalij tinha trinta e dois colegas de ambos os sexos. São pois esses homens e mulheres, que convergiram uns anos naquele canto do que é hoje a Ucrânia e daí se dispersaram para diversas direcções.
A primeira paragem de tal percurso ocorre nessa Ucrânia em que Sveva lhe manifesta a total descrença num país aonde se sente desintegrada. O marido é ucraniano, mas ela ainda teimou em dar aos filhos uma educação bilingue até se render e lhes falar definitivamente na língua local. Apesar de lhe desagradar a vida de vendedora num mercado e lhe faltar a ilusão de um chefe, de um futuro.
A segunda escala é na Califórnia aonde Ella e o marido, igualmente russo, se tornaram nos mais prestigiados e bem remunerados oftalmologistas da sua cidade. E ela recorda como o projecto de sair da União Soviética já era muito antigo, recolhido do próprio pai que a levava a correr perto do estádio de Lvov e a procurava convencer de se aproximarem cada vez mais de Itália  - o primeiro objectivo para a emigração - no final de cada treino.
Larissa também ficou na Ucrânia e subscreve o desencanto de Sveta. Aquela que fora a primeira aluna da escola a ousar a utilização da minissaia aceita a contragosto que a filha parta em busca de melhor vida para o estrangeiros, desde que não imite os rapazes seus conhecidos cuja participação na guerra do Iraque tinha por ambição angariarem dinheiro para o casamento e tinham regressado em caixões.
Com Vita compreendemos que a rodagem do filme ocorre durante a chamada Revolução Laranja, que levaria o fantoche dos americanos, Youchtchenko, à presidência. «Será que o Exército vai obedecer a este bandido?» questiona-se a antiga colega do realizador, que se exaspera com a falta de consciência política da filha, uma estudante de Direito.
Por não reconhecer precisamente a Ucrânia como identidade nacional independente Dima foi viver para a Rússia com o pai, um velho comunista ainda pejado de recordações da guerra contra os nazis.  Para ambos o desprezo pelos compatriotas é absoluto: os ucranianos estariam nessa altura a viverem a dúvida de se curvarem ainda não sabiam a quem.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Recordando Kieslowski


Krzysztof Kieslowski já desapareceu há quase catorze anos, quando contava apenas 54 anos. O que significa que terá sido demasiado cedo para rematar uma obra já pejada de títulos muito interessantes: a trilogia das cores («Azul», «Branco» e «Vermelho»), «A Dupla Vida de Veronique» ou «Decálogo».
Para definir o seu cinema há uma célebre cena de um cubo de açúcar a ficar obscurecido durante cinco segundos ao tocar numa chávena de café enquanto a protagonista pondera e acaba por rejeitar a proposta do seu ex-amante.
A precisão do detalhe, o significado de cada gesto - eis aspectos fundamentais para apreciar devidamente cada título de um criador injustamente esquecido.

domingo, novembro 22, 2009

Um Bruto Muito Feio

Castle Rock é a cidade imaginária situada algures na Nova Inglaterra ou no Maine aonde Stephen King, sujeita os seus personagens a experiências extremas da ordem do sobrenatural.
«The Sun Dog», título muito mais interessante do que a sua tradução portuguesa («Um Bruto Muito Feio»), data de 1990 e tem um miúdo de quinze anos como protagonista. Kevin Delevan acaba mesmo de os comemorar, recebendo como prenda uma Polaroid Sun 660 com a qual logo decide começar a praticar o seu gosto pela fotografia. O pior é que a máquina traz consigo uma característica muito peculiar: em vez do que se coloca em frente à sua objectiva, o que as imagens revelam é um cenário sempre igual, aonde um cão de aspecto inquietante se começa a aproximar.
Para esclarecer tão estranho fenómeno, Kevin procura Pop Merrill, o proprietário de uma loja de quinquilharia, a Emporium Galorium, conhecido pela sua sovinice, pela capacidade de enganar forasteiros e por compreender os mais estranhos mecanismos mecânicos.
O que Kevin desconhece é a outra vertente da actividade de Pop: clandestinamente costuma emprestar dinheiro às enrascadas pessoas da cidade, que o detestam, mas nele sempre procuraram a bóia de salvação, quando se encontravam à beira de se afogarem. Muitos anos atrás, no início da sua vida de casado, também John Delevan, o pai de Kevin, procurara solução para a situação delicada em que se encontrara, quando, pela última vez, fizera uma aposta ao jogo.
Agora, sem Kevin o compreender, Pop está a congeminar a possibilidade de fazer um óptimo negócio com a câmara de Kevin, porquanto conhece uns quantos lunáticos, excitados com tudo quanto cheire a sobrenatural, e dispostos a pagarem-lhe dezenas de milhares de dólares por um objecto como aquele. Ao contrário o rapaz, à medida que vai tirando fotografias, só se pode inquietar com a aproximação cada vez mais intimidante do cão em causa de quem tira a fotografia. Daí que, acompanhado do pai, vá uma noite a casa de Pop disposto a estilhaçar a máquina no cepo, que aquele tem nas traseiras. É precisamente nessa noite que Pop troca a máquina de Kevin por outra, entretanto adquirida no armazém em frente, iludindo pai e filho quanto ao efectivo destino do diabólico aparelho.
O engano de Merrill é que ninguém lhe comprará o objecto e ele vê-se progressivamente possuído de um sortilégio maligno a partir do mundo sobrenatural de onde aquele cão (ou será um lobisomem?) estará prestes a emergir.
Por seu lado, Kevin tem sucessivos pesadelos, que o levam a concluir pela ilusão em que, com o pai, caíra: a máquina continua a manter o potencial de destruição, que tanto o assustara. Sem se darem conta disso, Pop enganara-os.
Quando Kevin e o pai voltam ao Emporium Galorium, eles são vistos pelo usurário, que se esconde num beco. E já é tarde demais: ele tirou a foto final e trouxe a besta para esta dimensão da realidade.
Numa sequência horrível Pop morre com queimaduras nas mãos suscitadas pela polaróide, que nelas se lhe derrete e acaba mesmo decapitado. Mas Kevin, que quase sem compreender para quê, convencera o pai a comprar outra câmara igual, consegue aprisionar o monstro na imagem oportunamente captada nesse instante. Pelo menos por ora, o monstro regressa à bidimensionalidade.
No epílogo Kevin recebe um novo computador no seu 16º aniversário. Altura em que conclui não se ter livrado da ameaça, porquanto o texto saído do processador respectivo é completamente diferente do por ele teclado. E avisa-o quanto à iminência do regresso do bruto muito feio...

Novo massacre de baleias

A ocasião era demasiado boa para ser desaproveitada por quem sempre estivera a contracorrente da História: na Islândia, a crise financeira e toda a crise de empregos subsequente levou os defensores da caça à baleia a retomar a actividade sob o falacioso argumento de se tratar de uma prática tradicional e de criar postos de trabalho.
Valha o facto de a União Europeia exigir o respeito pela moratória em vigor se acaso os islandeses quiserem integrar a comunidade.
Eis, pois, um argumento bastante válido para justificar alguns aspectos positivos da integração europeia, por muito que à frente da sua Comissão continue tão medíocre arrivista.
Por isso talvez este regresso dos baleeiros islandeses ao mar possa ter o sabor amargo de um derradeiro fôlego para um comportamento criminoso quase unanimemente condenado pelos cidadãos dos 27 países da União. E por  muito que 76% dos islandeses defendam tal massacre, desejamos que a economia os force a inflectirem essa opinião...

sábado, novembro 21, 2009

A Sinfonia 80 de Haydn

Em 1784, Joseph Haydn compõe uma das suas obras menos conhecidas por a ela faltar o título, que noutras das suas Sinfonias, lhes conferem acrescida identidade.
A Sinfonia nº 80 em ré menor, já que é dela que se trata, acaba, no entanto, por ter um interesse significativo na obra do compositor. Porque, se nos dez anos anteriores, Haydn aligeirara as suas composições depois de ter dado largas aos excessos emotivos do «sturm und drang», nesta sinfonia, e logo no seu começo, encontramos uma agitação febril, quase verdiana. Teria ela algo a ver com a agitada vida amorosa do compositor, então ainda a viver a relação extraconjugal com a pouco talentosa cantora de ópera Luigia Polzelli, que, a exemplo do amante, fora contratada juntamente com o seu legítimo violinista para abrilhantar os espectáculos musicais da família Esterhazy no seu célebre palácio?
Ou teria a ver com as turbulentas relações conjugais com Maria Anna Keller, quando se aproximavam as bodas de prata de uma união infeliz, já que marcada pela preferência inicial de Haydn pela sua mais jovem cunhada Theresa, enviada a contragosto para um convento?
Fosse qual fosse a razão do dramatismo desta sinfonia ela espelha bem o género romântico tão caro ao compositor.

quarta-feira, novembro 18, 2009

When Time Ran Out(1980)

O Dia em que o Mundo Acabou

Que sentido fará ver um filme como «O Dia em que o Mundo Acabou» de James Goldstone, quase trinta anos depois de ter sido realizado com a colaboração de alguns intérpretes famosos na época? Além de Paul Newman e de Jacqueline Bisset, surgem os inevitáveis secundários de então (Ernest Borgnine, Burgess Meredith) ou actores mais ou menos conhecidos de séries televisivas (James Franciscus, Verónica Hamel, Red Buttons) todos conjugados naquilo que costumava ser uma das principais características dos filmes catástrofe: a participação de actores e actrizes muito conhecidos, capazes de arrastarem multidões e dispostos a traduzirem um conjunto de estereótipos mais ou menos comuns aos vários títulos do género: há o herói cínico mas de coração piegas capaz de se inflamar pela bela de serviço; acrescenta-se-lhe o ganancioso imprevidente por quem a tragédia acaba por se precipitar; e depois, nos mais secundários, há a proxeneta de bom coração, a mulher enganada até ao último momento, os pais das criancinhas que ficarão órfãs, o velho casal prestes a partilhar a sua derradeira viagem, o falsário arrependido e o policia bronco, etc, etc., muitos eteceteras.

A estrutura do enredo também é a mais comum: um início prazenteiro com paisagens de excepção e toda a gente feliz da vida. Depois, os primeiros sinais de alarme, levados a sério por uma minoria e desprezados por todos os outros. O perigoso trajecto para a salvação com muitas vítimas pelo meio e algumas vicissitudes concebidas para levar o espectador ao paroxismo da emoção. E o happy end final com o retorno à tranquilidade do início do filme.
Passados todos estes anos o filme de Goldstone serve para rever Paul Newman e lembrarmo-nos da sua participação nuns quantos «barretes» e lembrar como as plateias de há trinta anos ainda se deixavam sugestionar por histórias inverosímeis, mesmo que ilustradas pelo que de melhor se conseguia então a nível de efeitos especiais...

domingo, novembro 15, 2009

Um maestro diferente

Quando se trata de documentário sobre música erudita sabe-se que a assinatura de Bruno Monsaingeon é sinónimo de qualidade garantida. Como o demonstram os seus antológicos filmes com Glenn Gould.
Em 2003 ele assinou um filme com o maestro russo Gennady Rozhdestvensky, que é aliciante na forma como ele expõe a sua arte.
Logo de início ele lembra as três coisas em que Tolstoi não acreditava: na medicina, nas tarefas escolares e na direcção de orquestra. Ora, não é pelos movimentos dos braços ou pelos olhares, que Rozhdestvensky assume a direcção das orquestras: é pela irradiação de um estado de espírito algo inexplicável, que ele se define.
Nos anos vinte o regime soviético testou uma orquestra sem quem a dirigisse, mas era algo de falacioso, porquanto o primeiro violino acabava por assumir essa função. Ora, num artista, que nem sempre foi bem tratado por tal regime (era tido como demasiado formalista devido à sua preferência pela música contemporânea) é insuspeita a opinião quanto à preferência por uma certa forma de ditadura: ao contrário da que é estúpida na sua repressão odiosa, há mérito na condução persuasiva, aquela que faz crer ao dirigido a capacidade de ter livre arbítrio, mas em que as suas potencialidades são orientadas pelo director.
Atitude igualmente interessante a dele perante os ensaios das orquestras que dirige: para além de só os iniciar depois de ter as partituras na cabeça o que procura não é a reprodução do que virá a ser o concerto, porquanto deverá guardar algo de surpreendente, de improvisação para esse momento de particular intensidade emotiva.
Mas o que mais surpreende em Rozhdestvensky é a sua mímica, muito diferente da dos demais maestros: ele dá colorido ao que a orquestra toca, complementando-lhe a leitura. E aos alunos a quem procura transmitir a sua forma de interpretação no que os questiona é na essência mesma do que dizem e fazem…
Pouco conhecido no Ocidente, Rozhdestvensky muito fica a dever à inteligência com que Monsaingeon o retrata.

Leningrad Philharmonic Tchaikovsky 4th Symphony Rozhdestvens

A derradeira vingança de Caim

E assim se chega ao fim do livro de Saramago com o revoltado Caim armado em serial killer a despachar todos os companheiros humanos de Noé na mítica Arca destinada por deus a reiniciar a humanidade depois de tão lamentáveis provas por aquela dada até aí.
Será a próxima humanidade melhor do que anterior?, pergunta Caim com justeza. Porque o que está verdadeiramente em causa é esse criador caprichoso capaz de fazer os justos pagar pelos pecadores e sujeitando mesmo os seus mais fidelíssimos crentes, como Job, a tormentas indizíveis.
Incapaz de pôr termo a tão odiosa personalidade, resta a Caim anulá-lo pela eliminação da sua obra. O que equivale a uma outra forma de aniquilação de uma entidade suficientemente imerecedora para se reduzir à sua insignificância.
Extremamente bem escrito, o mais recente romance de Saramago não é dos que dele prefiro, mas é decerto um título maior de uma já de si superlativa obra literária.

sábado, novembro 14, 2009

ARTISTAS UNIDOS: «ANA»

No seu site, os Artistas Unidos descrevem assim o tema da sua peça agora estreada no CCB:
Uma mulher, Ana, e um homem, Paulo, em casa, num dia de descanso. Ele, apesar de tudo, irrequieto, parece que assustado, não se sabe ao certo com o quê. Ela resolve fazer um chá que o acalme mas quando voltar a entrar encontrará já outro homem, um que vem de trás, de outro tempo. E o tempo, motor de Ana, continuará a baralhar à medida que formos avançando pelos Três Dias que fazem por estruturar uma narrativa que se estilhaça e abre.
Para o final, uma mulher sozinha, chamando pelo seu próprio nome, à procura de alguém ao seu lado que justifique a existência.
No programa, que apoia a apresentação da peça, diz-se que nada se compreende de facto se se perceber o que se passa em palco. E, de facto, a obra de João Maria Vieira Mendes mistura tempos e personagens para dar dos homens uma imagem timorata perante os que se passa lá fora ou insegura perante uma mulher passível de se converter numa infiel.
Por seu lado a mulher é a figura terna, compreensiva, que busca resistir a todos os obstáculos interpostos na relação amorosa, mesmo que inevitavelmente condenada. Aonde ela se sente, de facto, insegura, é perante a filha, que se prepara para cortar definitivamente as amarras.
O cenário é básico, a representação escorreita destacando-se Sylvie Rocha no papel principal. Mas convenhamos que este é o tipo de peça que começa a desajustar-se de um tempo presente. Porque virada para o umbigo dos personagens em vez de questionar e sugerir caminhos para o que os rodeia. Nesse sentido pode-se considerar que rapidamente se esquecerá este trabalho por muito que ele se dê ao respeito próprio de quem honestamente o construiu.

sábado, novembro 07, 2009

Um deus malvado

Onde, em «Caim», deus prova a sua essência maligna é quando promete a Abraão que poupará sodoma e gomorra se nela existirem dez inocentes e depois as destrói pelo fogo sem atender ao facto de as crianças o serem sem qualquer dúvida. Ou quando manda Moisés matar três mil homens numa noite só porque, impacientes pela sua morosa estadia de quarenta dias e quarenta noites na montanha, se tinham posto a adorar um bezerro de oiro.
Ou, enfim, quando torna a guerra num negócio bastante rentável ao incumbir Moisés de fazer guerra a uma tribo rival. Os despojos em animais, em objectos e em escravas são pecúlio, que esse deus malvado não deixa de exigir em parcela leonina.
Diz Saramago no fim de um dos capítulos do seu romance que esse deus era tão lesto em aparecer a Adão no início da criação do mundo e tão avesso a dar-se a conhecer nestes tempos históricos mais próximos. Será pela vergonha de tudo quanto terá sido entretanto responsável?

OS GATOS DO HERMITAGE

Os gatos do Hermitage assentaram aí arrais desde que uma czarina do século XVIII decidiu trazer os valorosos espécimes de Kazan para cuidarem dos numerosos ratos do palácio. Desde então eles tornaram-se presença obrigatória nos corredores e nos jardins do museu, sendo cuidados pelos seus guardas e empregados. Excepto durante o lendário cerco de quase três anos  - entre 1941 e 1944 - quando, a exemplo de todos os demais quadrúpedes da cidade, serviram de alimento aos seus esfaimados habitantes humanos.
Lindíssimos, eles acabam por constituir uma das mais singulares imagens de marca de um museu de que só conheci o exterior, já que, quando a ele me dirigi, levei duas horas a andar ao longo dos canais da antiga Leninegrado até lá chegar, as mesmas que faltavam para a prevista hora de partida do paquete aonde então passava os dias e aonde era forçoso regressar...

um deus intolerante

Na recente polémica de Saramago com os seus detractores veio ao de cima um dos momentos do romance «Caim» em que o autor classifica deus de filho de uma senhora pouco dada às virtudes, devido ao seu comportamento brutal em sucessivos episódios bíblicos: quando leva Abrãao a quase sacrificar o único filho só para lhe testar a obediência cega aos seus ditames ou quando põe todos os construtores de Babel a desentenderem-se para não levarem por diante o ambicioso projecto de levarem a sua torre até ao céu.
Temos, pois, um deus intolerante, ao nível do alá mais fundamentalista, que tudo exige sem nada dar senão a promessa de um além mais aprazível.
Poderá ser uma leitura demasiado restrita do texto bíblico, mas nenhum crente poderá negar que Saramago desrespeita o que ali se narra. A não ser o de dar-se a liberdades criativas como a de fazer de Caim o verdadeiro salvador de Isaac, já que o anjo destinado por deus a impedir o homicídio acabara por chegar atrasado ao lugar do sacrifício.
Mas, precisamente por se tratar de Literatura - com L bem grande - ao escritor não se poderá atirar com uma pouco cristã pedra: a construção criativa é feita precisamente de quanto seja necessário alterar para dar maior substância à obra em si. E Caim acaba por se tornar num personagem bem mais interessante desde que engravidou a bela lilith ou salvou o frágil Isaac…

domingo, novembro 01, 2009

«CAIM»: AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Há muito tempo, que leio cada novo romance de José Saramago sem precisar do estímulo de um qualquer escândalo.
Umas vezes mais encantado, outras vezes apenas satisfeito, chego sempre à conclusão do merecimento de um Nobel que outros prefeririam ver atribuído a um rival, quase tão talentoso, mas de feitio assaz desagradável no que revela de invejoso, de mau perdedor.
Não admira que, na mesma manhã, em que foi posto à venda, «Caim» foi a primeira venda do dia na livraria aonde me costumo abastecer de leituras.
Na altura não me passou despercebido o olhar inquisitorial de uma senhora (das tais senhoras que nunca mais, nem nunca mais… no dizer de um célebre poema declamado por Mário Viegas), que me terá execrado com uma fórmula do tipo «vade retro».
Não precisei, pois, de ouvir a Saramago a opinião de como «a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo do pior da natureza humana» para me interessar pela leitura do seu novo romance.
Até porque, no meu ateísmo inabalável, não deixo de reconhecer que «ao longo da História, todas as religiões, sem excepção, fizeram à humanidade mais mal que bem. Todos o sabemos, mas não extraímos daí a conclusão óbvia: acabar com elas.»
A religião como ópio do povo, eis uma fórmula feliz, sobre a qual não poderia estar mais de acordo. De facto «o cérebro humano é um grande contador de absurdos e Deus é o maior deles».
Infelizmente foi forçoso reconhecer que entre as posições cretinas de uns - um anónimo deputado europeu do PSD ou de um Vasco que nunca foi P
pulido nem valente - e as incompreensíveis de outros (porque se veio misturar Zimmler neste assunto? - «Caim» arrisca-se a ser mais escalpelizado enquanto motivo de um escândalo literário do que como obra de grande valia como as primeiras setenta páginas já mo estão a demonstrar.
Honra seja feita a alguns clérigos, que contestando teologicamente as interpretações saramaguianas, não deixaram de o ler o romance e até de o considerarem muito bem escrito. Na realidade a maioria dos detractores do nosso mais ilustre escritor são tão incultos, que se mostram capazes de condenar algo sem sequer se informarem do que dele consta.
Nessas setenta páginas já houve tempo para deus expulsar Adão e Eva do paraíso, como se não estivesse nos seus poderes a capacidade de ter evitado essa queda do par humano no pecado ou para instigar o assassinato de Abel por Caim ao aceitar do primeiro as oferendas e recusado as do segundo, suscitando assim o pecado da inveja.
Mau carácter, sem dúvida. Nada daquela imagem benemérita, que nos quiseram vender sob o manto da bondade extrema. Pelo contrário estranhos desígnios, que acarretaram tantos crimes e tanta injustiça à sua pala.
Valerá a Caim o negócio feito com o seu cúmplice no cenário do crime ao partir para uma errância, que o levará ao país de Nod, aonde começará como pisador de barro e acabará a emprenhar Lilith no seu leito de dona da cidade, escapando-se pelo meio à conspiração de Noah, o marido enganado, que acabará por adoptar como seu o filho assim gerado.
Será um dos melhores Saramagos? Quase a chegar a meio desconfio que não: o «Memorial» ou o «Ensaio Sobre a Cegueira» estão num patamar muito superior. Até mesmo o recente «A Viagem do Elefante».
Mas que não desmerece do que de melhor tem a obra do autor, lá isso não!