O centenário de Marcelo Caetano serviu de pretexto para um conjunto de reportagens televisivas e de artigos de jornal sobre a sua condição de ditador derrubado pela Revolução de Abril de 1974.
Se em muitos desses trabalhos não se iludiu o carácter reaccionário do seu pensamento político - excelente, por exemplo, o ensaio de Vasco Pulido Valente no «Público - noutros enfatizou-se em demasia o papel do ditador enquanto professor de Direito.
Eu que vivi todo o seu consulado numa altura fundamental para a minha formação enquanto indivíduo, não posso esquecer a personificação em Marcelo de tudo quanto, então, sentia de repressão, de castração mesmo do que, enquanto jovem, aspirava.
É com ele que conoto essa ameaça de partir para uma Guerra Colonial para a qual não sentia a mínima predisposição.
É com ele que conoto todo um fascismozinho doméstico em que a moral e os bons costumes contrariavam a mais natural emoção amorosa. O Portugal maledicente, que se alimenta de boatos e de mentiras, não nasceu com as actuais revistas de coscuvilhices: estas mais não aproveitam, que uma herança larvar, ainda bem presente na cabeça de muitos portugueses.
É com ele - um hipócrita ateu, que se usava do obscurantismo religioso difundido pela Igreja - que se continuou a fomentar o misticismo em torno de Fátima na expectativa de distrair os cidadãos de outras crenças mais eficazes.
Foi no tempo de Marcelo, que prosseguiram as investidas da Polícia de Choque ao campus universitário do Campo Grande, sob a égide de gente sem escrúpulos como o eram e são José Hermano saraiva ou Veiga Simão.
É com ele que Ribeiro Santos é assassinado e que muitos caixões continuaram a vir de África.
É com ele que o Padre Sobral era frequentemente levado para Caxias, só voltando passadas semanas.
É com ele que o país estava «orgulhosamente só» e ser identificado como português no estrangeiro era motivo de vergonha.
Cem anos passados sobre o seu nascimento podemos lembrá-lo como protagonista das negras páginas vividas em Portugal na viragem dos anos 60 para os anos 70. Mas é-nos impossível homenageá-lo ou celebrá-lo como pretendem alguns.
Há crimes, que não merecem perdão. E Marcelo foi responsável por muitos eles...
Vemos, ouvimos, lemos e experimentamos. Tanto quanto possível pensamos pela nossa própria cabeça...
sábado, agosto 19, 2006
quarta-feira, agosto 16, 2006
«War Photographer», um documentário sobre James Natchwey
James Natchwey leva à letra aquilo que Robert Capa dizia: «If your pictures aren’t good enough you’re not close enough». Por isso ele quase se cola às pessoas, que se transformam em protagonistas das suas imagens.
Christiane Amanpour, a conhecida jornalista da CNN define-o como um grande solitário, que é de uma obstinação extrema no seu trabalho.
Christian Frei, o realizador do documentário, acompanha o fotógrafo e
nquanto ele capta imagens da mulher bósnia, que chora a perda dos seus familiares, seguindo-a mesmo até dentro do seu casebre. E, na redacção da «Stern» acompanha a discussão entre o chefe de redacção e outros colaboradores sobre as imagens dele recebidas dos Balcãs. Aonde se constata uma óbvia alteração no conceito de guerra, tal qual existia antes da queda do Muro de Berlim: se os conflitos costumavam acontecer entre países, passaram desde então a ocorrer entre povos do mesmo país. Mesmo que com recurso a meios muito menos sofisticados, como ocorreu no Ruanda.
Mas o problema com os fotógrafos de guerra («que foram ver a fuzilaria», como diria António Gedeão), a questão impõe-se: não existirá uma certa pornografia na forma como exploram a violência? Nomeadamente nessa forma abusiva como se aproximam de quem sofre?
Em entrevista Natchwey conta que decidiu ser fotógrafo nos inícios dos anos 70, quando se vicia a guerra do Vietname e era óbvia a dissonância entre o que as imagens revelavam e o discurso dos responsáveis políticos norte-americanos. Foi quando entendeu a capacidade das imagens para se tornarem em testemunhos do que acontece a pessoas vulgares, quando apanhadas no turbilhão de acontecimentos extraordinários.
Embora tenha sentido a dificuldade de acreditar nesse percurso, quando o empreendeu, a partir dos anos 80, foi na convicção de encontrar na disciplina do enquadramento o conhecimento aprofundado do mundo em que vivia.
Mas o documentário deixa dúvidas sobre a capacidade para evitar a manipulação de quem faculta o acesso aos locais a fotografar: em Velika Krusa, ele e Christiane Amanpour vão ao local aonde estão acumulados duzentos corpos de fuzilados. Mas, envoltos em plástico, quem nos diz da veracidade dessa condição de vítimas de um genocídio recente? E as crianças que, oportunamente, aparecem a trazer flores para homenagear esses mortos não protagonizam, involuntariamente, uma forma de acentuar esse horror?
Natchwey reconhece só lhe serem possíveis as suas imagens com a cumplicidade activa de quem ele capta. Quanto mais por isso, o fotógrafo não consegue ser uma testemunha imparcial da História já que depende dessa cumplicidade com os fotografados. Que dele se servem, conscientemente, enquanto veículo de denúncia perante o mundo das injustiças de que estão a ser vítimas…
Hans Hermann Klare, chefe de redacção da «Stern», reconhece que Natchwey mudou desde que o conheceu, muito por efeito dos horrores visitados pela sua objectiva. Por exemplo os do Ruanda, que o levam a interrogar-se sobre o que poderá inspirar tanto ódio. Algo que ultrapassa qualquer entendimento…
Tanto mais que, semanas depois de fotografar os efeitos dos massacres no país sobre os tutsis, ele dirigiu-se aos campos de refugiados de Goma aonde os hutus estavam a ser dizimados aos milhares por uma epidemia de cólera. Como se ali tivessem tomado o expresso em direcção ao Inferno…
Na Indonésia ele fotografa pessoas, que construíram abrigos precários ao longo da via férrea. É outra vertente da sua actividade: testemunhar a pobreza dos mais desvalidos de entre os desvalidos deste mundo. Gente que veio do campo em busca de sustento nas grandes cidades e que só arranja trabalhos miseráveis, insuficientes para lhes garantir condições mínimas de sobrevivência. O caso dos respigadores das lixeiras de Jacarta. Ou dos que trabalham nas irrespiráveis minas de enxofre a céu aberto.
Mesmo nos países supostamente elogiados pela sua «recuperação económica», uma parcela significativa da população em nada dela beneficia. Por isso o interessou tanto o derrube de Suharto. Porque as multidões que, nas ruas, exigia o seu afastamento, estava eivada da emoção de quem se pretende libertar de uma pesada canga repressiva.
Do tempo passado em África, Natchwey traz uma certeza: a fome é uma forma primitiva, mas bastante eficaz, de genocídio. E as fotografias terríveis obtidas em campos de refugiados até não dão toda a dimensão dessa tragédia: como seriam as que seriam obtidas em sítios aonde não existem essas formas de apoio às vítimas desse flagelo?
Mas para o repórter de guerra a divulgação das suas imagens está cada vez mais difícil: vivemos numa época hedonista aonde o que vende são as imagens glamourosas de artistas e de moda. Quem paga publicidade nas revistas não quer ver o que nelas possa incomodar os seus potenciais consumidores.
E, no entanto, é urgente olhar a realidade de frente. Fazer qualquer coisa para a modificar.
A esperança, para Natchwey, é que as suas imagens contribuam para essa candente evolução...
Christiane Amanpour, a conhecida jornalista da CNN define-o como um grande solitário, que é de uma obstinação extrema no seu trabalho.
Christian Frei, o realizador do documentário, acompanha o fotógrafo e

Mas o problema com os fotógrafos de guerra («que foram ver a fuzilaria», como diria António Gedeão), a questão impõe-se: não existirá uma certa pornografia na forma como exploram a violência? Nomeadamente nessa forma abusiva como se aproximam de quem sofre?
Em entrevista Natchwey conta que decidiu ser fotógrafo nos inícios dos anos 70, quando se vicia a guerra do Vietname e era óbvia a dissonância entre o que as imagens revelavam e o discurso dos responsáveis políticos norte-americanos. Foi quando entendeu a capacidade das imagens para se tornarem em testemunhos do que acontece a pessoas vulgares, quando apanhadas no turbilhão de acontecimentos extraordinários.
Embora tenha sentido a dificuldade de acreditar nesse percurso, quando o empreendeu, a partir dos anos 80, foi na convicção de encontrar na disciplina do enquadramento o conhecimento aprofundado do mundo em que vivia.
Mas o documentário deixa dúvidas sobre a capacidade para evitar a manipulação de quem faculta o acesso aos locais a fotografar: em Velika Krusa, ele e Christiane Amanpour vão ao local aonde estão acumulados duzentos corpos de fuzilados. Mas, envoltos em plástico, quem nos diz da veracidade dessa condição de vítimas de um genocídio recente? E as crianças que, oportunamente, aparecem a trazer flores para homenagear esses mortos não protagonizam, involuntariamente, uma forma de acentuar esse horror?
Natchwey reconhece só lhe serem possíveis as suas imagens com a cumplicidade activa de quem ele capta. Quanto mais por isso, o fotógrafo não consegue ser uma testemunha imparcial da História já que depende dessa cumplicidade com os fotografados. Que dele se servem, conscientemente, enquanto veículo de denúncia perante o mundo das injustiças de que estão a ser vítimas…
Hans Hermann Klare, chefe de redacção da «Stern», reconhece que Natchwey mudou desde que o conheceu, muito por efeito dos horrores visitados pela sua objectiva. Por exemplo os do Ruanda, que o levam a interrogar-se sobre o que poderá inspirar tanto ódio. Algo que ultrapassa qualquer entendimento…
Tanto mais que, semanas depois de fotografar os efeitos dos massacres no país sobre os tutsis, ele dirigiu-se aos campos de refugiados de Goma aonde os hutus estavam a ser dizimados aos milhares por uma epidemia de cólera. Como se ali tivessem tomado o expresso em direcção ao Inferno…
Na Indonésia ele fotografa pessoas, que construíram abrigos precários ao longo da via férrea. É outra vertente da sua actividade: testemunhar a pobreza dos mais desvalidos de entre os desvalidos deste mundo. Gente que veio do campo em busca de sustento nas grandes cidades e que só arranja trabalhos miseráveis, insuficientes para lhes garantir condições mínimas de sobrevivência. O caso dos respigadores das lixeiras de Jacarta. Ou dos que trabalham nas irrespiráveis minas de enxofre a céu aberto.
Mesmo nos países supostamente elogiados pela sua «recuperação económica», uma parcela significativa da população em nada dela beneficia. Por isso o interessou tanto o derrube de Suharto. Porque as multidões que, nas ruas, exigia o seu afastamento, estava eivada da emoção de quem se pretende libertar de uma pesada canga repressiva.
Do tempo passado em África, Natchwey traz uma certeza: a fome é uma forma primitiva, mas bastante eficaz, de genocídio. E as fotografias terríveis obtidas em campos de refugiados até não dão toda a dimensão dessa tragédia: como seriam as que seriam obtidas em sítios aonde não existem essas formas de apoio às vítimas desse flagelo?
Mas para o repórter de guerra a divulgação das suas imagens está cada vez mais difícil: vivemos numa época hedonista aonde o que vende são as imagens glamourosas de artistas e de moda. Quem paga publicidade nas revistas não quer ver o que nelas possa incomodar os seus potenciais consumidores.
E, no entanto, é urgente olhar a realidade de frente. Fazer qualquer coisa para a modificar.
A esperança, para Natchwey, é que as suas imagens contribuam para essa candente evolução...
«Local Angel»: fragmentos políticos e teológicos de Udi Aloni
Com uma piscadela de olho Deus criou uma multidão de anjos, condenados a cantar louvores e, depois, a desaparecerem. Para escapar a esta triste sorte um anjo pode adoptar um humano e disfarçar-se de anjo da guarda.
Mas cansa-se depressa porque é angélico e o homem cheio de vícios. Nessa altura só lhe resta a vontade de cantar os louvores ao Senhor e desaparecer. Mas o homem não quer deixá-lo partir. O anjo tornou-se o seu pequeno Deus pessoal e ama-o tanto que está disposto a tudo - a súplicas, a manha, se necessário à força.
Oito anos atrás Udi Aloni trocou Israel por Nova Iorque. Um mergulho numa espécie de capitalismo visual cheio de néo
ns e de grandes cartazes nas fachadas. Um contexto muito adequado para a sua própria estética pictórica de grandes dimensões, protagonizada por anjos a afastarem-se do seu passado. Pejado de ruínas relacionadas com massacres, genocídios e outras formas de injustiça. Como a da Shoah, sentida como herança incontornável de uma identidade contraditoriamente sentida.
No regresso a Israel ele tenta compreender o momento político à luz da tradição talmúdica, que atribui uma particular veneração ao Monte do Templo, local emblemático da tradição judaica porque associado ao mítico sacrifício frustrado de Isaac por ordem divina. Ora, ocupado agora pela Mesquita Al Aqsa, os sionistas não têm condições para venerarem como desejariam esse símbolo da sua tradição. Por isso substituíram essa veneração ao Monte do Templo pelo mesmo sentimento em relação ao seu Estado, a quem respeitam enquanto ferramenta de Conhecimento e de Revelação. Um Estado apocalíptico, sempre à beira do abismo, como se a sua perspectiva futura não fosse a destruição, mas a reconstrução.
Udi Aloni também questiona uma célebre profecia do sábio Gersham Sholam que, em 1926, alertava quanto aos riscos de expansão da língua hebraica, porquanto ela perderia, dessa forma, o seu carácter simbólico.
Numa abordagem mais prosaica do que é o judaísmo de hoje, Udi leva-nos a conhecer a mãe, que fundou o Movimento dos Direitos do Homem, em Israel, para dar apoio a quem dele careça. Judeus, árabes ou de qualquer outra origem racial.
Ela execra os rabinos, que se orgulham da sua fé e defendem a destruição criminosa dos que a não professam.
Uma das amigas da mãe, aqui entrevistada, é a antiga ministra Hanan Ashrawi, que se vive hoje numa época muito perigosa devido à tentativa inimiga de desumanizar os palestinianos, arrasando-lhes as casas, como se eles tivessem culpa de existir.
Nas conversas com a mãe ou com Arafat, Udi Aloni defende o princípio de dois Estados independentes a viverem lado a lado, cumprindo o plano original de seis décadas atrás. E escandaliza os seus compatriotas ao solicitar perdão ao defunto líder palestiniano por cinquenta anos de sucessivas agressões israelitas nos últimos cinquenta anos.
Para ele não existe qualquer dúvida: o fundamentalismo palestiniano alimenta-se do próprio fundamentalismo israelita. A tragédia foi essa transição para o campo religioso de uma abordagem racional, só possível numa perspectiva laica.
Mas a esperança numa solução pacífica é logo condicionada pela diferença de opiniões entre Udi e a mãe a respeito do direito de retorno dos palestinianos desalojados em 1948. Mesmo progressista a anciã recusa essa hipótese que, por razões demográficas, depressa poria um ponto final ao Estado judaico. Ora Udi evolui o seu pensamento ao longo documentário ponderando na exequibilidade de existir apenas um Estado binacional onde todos se respeitem nas suas diferenças.
Para as mães de um e de outro lado a urgência é pôr um fim ao sacrifício dos filhos…
Mas cansa-se depressa porque é angélico e o homem cheio de vícios. Nessa altura só lhe resta a vontade de cantar os louvores ao Senhor e desaparecer. Mas o homem não quer deixá-lo partir. O anjo tornou-se o seu pequeno Deus pessoal e ama-o tanto que está disposto a tudo - a súplicas, a manha, se necessário à força.
Oito anos atrás Udi Aloni trocou Israel por Nova Iorque. Um mergulho numa espécie de capitalismo visual cheio de néo

No regresso a Israel ele tenta compreender o momento político à luz da tradição talmúdica, que atribui uma particular veneração ao Monte do Templo, local emblemático da tradição judaica porque associado ao mítico sacrifício frustrado de Isaac por ordem divina. Ora, ocupado agora pela Mesquita Al Aqsa, os sionistas não têm condições para venerarem como desejariam esse símbolo da sua tradição. Por isso substituíram essa veneração ao Monte do Templo pelo mesmo sentimento em relação ao seu Estado, a quem respeitam enquanto ferramenta de Conhecimento e de Revelação. Um Estado apocalíptico, sempre à beira do abismo, como se a sua perspectiva futura não fosse a destruição, mas a reconstrução.
Udi Aloni também questiona uma célebre profecia do sábio Gersham Sholam que, em 1926, alertava quanto aos riscos de expansão da língua hebraica, porquanto ela perderia, dessa forma, o seu carácter simbólico.
Numa abordagem mais prosaica do que é o judaísmo de hoje, Udi leva-nos a conhecer a mãe, que fundou o Movimento dos Direitos do Homem, em Israel, para dar apoio a quem dele careça. Judeus, árabes ou de qualquer outra origem racial.
Ela execra os rabinos, que se orgulham da sua fé e defendem a destruição criminosa dos que a não professam.
Uma das amigas da mãe, aqui entrevistada, é a antiga ministra Hanan Ashrawi, que se vive hoje numa época muito perigosa devido à tentativa inimiga de desumanizar os palestinianos, arrasando-lhes as casas, como se eles tivessem culpa de existir.
Nas conversas com a mãe ou com Arafat, Udi Aloni defende o princípio de dois Estados independentes a viverem lado a lado, cumprindo o plano original de seis décadas atrás. E escandaliza os seus compatriotas ao solicitar perdão ao defunto líder palestiniano por cinquenta anos de sucessivas agressões israelitas nos últimos cinquenta anos.
Para ele não existe qualquer dúvida: o fundamentalismo palestiniano alimenta-se do próprio fundamentalismo israelita. A tragédia foi essa transição para o campo religioso de uma abordagem racional, só possível numa perspectiva laica.
Mas a esperança numa solução pacífica é logo condicionada pela diferença de opiniões entre Udi e a mãe a respeito do direito de retorno dos palestinianos desalojados em 1948. Mesmo progressista a anciã recusa essa hipótese que, por razões demográficas, depressa poria um ponto final ao Estado judaico. Ora Udi evolui o seu pensamento ao longo documentário ponderando na exequibilidade de existir apenas um Estado binacional onde todos se respeitem nas suas diferenças.
Para as mães de um e de outro lado a urgência é pôr um fim ao sacrifício dos filhos…
segunda-feira, agosto 07, 2006
As infelizes circunstâncias
«A Casa Quieta» do Rodrigo Guedes de Carvalho foi uma boa surpresa, agora que o acabámos de ler.
A princípio a influência do António Lobo Antunes condicionou a nossa apreciação: afinal um seguidor raramente se pode comparar a quem o inspirou. Mas, passadas as primeiras páginas, as opções estilísticas do autor foram-se definindo e dissociando de uma lógica de pastiche.
A história é muito simples: Mariana vai morrer de cancro, depois de uma vida quase inteira passada ao lado de Salvador.
Teria sido uma relação perfeita se existissem filhos (mesmo que só tardiamente os procurassem) ou se um incidente de vinte anos atrás não acinzentasse tudo quanto depois haviam vivido. Uma confissão de infidelidade de Salvador quando escalavam Nova Iorque antes de visitarem as irmãs de Mariana no Canadá.
Esse episódio voltará a mostrar-se pertinente quando, em vésperas da sua morte, Mariana exigirá dele a revelação da identidade dessa fortuita amante. E, não o conseguindo, invectiva-o por ter sido um verdadeiro salafrário, que tudo deitara a perder…
Mas Salvador era perdedor em muitos outros tabuleiros. Por exemplo, enquanto arquitecto, jamais conseguira criar uma casa sua, dispersando pelas muitas saídas do seu estirador os pormenores daquela virtualidade.
Não conseguira, igualmente, ajudar o irmão, António, condenado à irreversível loucura muitos anos passados sobre os traumas acumulados na experiência colonial.
Frustração, enfim, com um pai quase obsessivo na forma como orientara toda a sua vida e com quem jamais entabulara uma conversa franca nos jantares marcados para o mesmo restaurante de sempre.
«A Casa Quieta» acaba por ser um romance de amores infelizes. Porque dependiam de realizações profissionais, que jamais haviam ultrapassado a dimensão mediana dos talentos limitados. Mas, sobretudo, porque Salvador e Mariana perderam pelo caminho a capacidade para fazerem do seu Amor a obra de arte mais perfeita...
A princípio a influência do António Lobo Antunes condicionou a nossa apreciação: afinal um seguidor raramente se pode comparar a quem o inspirou. Mas, passadas as primeiras páginas, as opções estilísticas do autor foram-se definindo e dissociando de uma lógica de pastiche.
A história é muito simples: Mariana vai morrer de cancro, depois de uma vida quase inteira passada ao lado de Salvador.
Teria sido uma relação perfeita se existissem filhos (mesmo que só tardiamente os procurassem) ou se um incidente de vinte anos atrás não acinzentasse tudo quanto depois haviam vivido. Uma confissão de infidelidade de Salvador quando escalavam Nova Iorque antes de visitarem as irmãs de Mariana no Canadá.
Esse episódio voltará a mostrar-se pertinente quando, em vésperas da sua morte, Mariana exigirá dele a revelação da identidade dessa fortuita amante. E, não o conseguindo, invectiva-o por ter sido um verdadeiro salafrário, que tudo deitara a perder…
Mas Salvador era perdedor em muitos outros tabuleiros. Por exemplo, enquanto arquitecto, jamais conseguira criar uma casa sua, dispersando pelas muitas saídas do seu estirador os pormenores daquela virtualidade.
Não conseguira, igualmente, ajudar o irmão, António, condenado à irreversível loucura muitos anos passados sobre os traumas acumulados na experiência colonial.
Frustração, enfim, com um pai quase obsessivo na forma como orientara toda a sua vida e com quem jamais entabulara uma conversa franca nos jantares marcados para o mesmo restaurante de sempre.
«A Casa Quieta» acaba por ser um romance de amores infelizes. Porque dependiam de realizações profissionais, que jamais haviam ultrapassado a dimensão mediana dos talentos limitados. Mas, sobretudo, porque Salvador e Mariana perderam pelo caminho a capacidade para fazerem do seu Amor a obra de arte mais perfeita...
domingo, agosto 06, 2006
O mito da inocência infantil
No balanço do que foi e será este ano de 2006, quando se equacionar o ocorrido na Justiça será bem negra a página em cujo rodapé figurar a sentença do caso do transexual assassinado no Porto.
A pena aplicada aos criminosos deveria levantar um coro de indignação que, infelizmente, não se faz ouvir neste país encerrado para férias.
A decisão do Tribunal acaba por insultar o sofrimento da vítima e por desculpar a perversidade dos homicidas. A quem a idade serve de desculpa …
Ora, já se encarara com este cenário no caso de pedofilia na Casa Pia em que as crianças foram sacralizadas como vítimas inocentes e os seus clientes diabolizados e sujeitos a ostracismo colectivo.
E assim se criou um mito em nada consonante com a realidade, que traduz a realidade numa perspectiva maniqueísta em que as crianças são sempre inocentes e os adultos culpados, ora de serem diferentes (no caso de Gisberta), ora de se socorrerem do sexo pago para se satisfazerem.
A realidade é, claramente, outra. As crianças podem ser adoráveis e ternurentas, mas também conseguem ser odiosas e viciosas.
E se provém de origens sociais em que a desestruturação do quadro familiar suscita uma negação dos valores comummente aceites, temos delinquentes em potência, que não olham a meios para satisfazerem os seus desejos. Que podem ser sexuais - porque nem o inefável dr. Pedro Strecht conseguirá negar existirem na criança desde que nasce - ou de mera aquisição de bens de consumo.
Embora desconhecendo qualquer das alegadas vítimas desse caso de pedofilia, conjecturo a possibilidade de algumas delas até nem terem sentido problemas de consciência em prostituírem-se para auferirem roupas de marca ou gameboys.
E, no caso de Gisberta, pode-se sentir alguma complacência por quem torturou outro ser até à morte?
Que tipo de adultos irão ser, quando a idade já não lhes servir de álibi?
A solução engendrada por um partido parlamentar - imputar condenações severas a partir de uma idade mais baixa - não servirá para evitar recorrências de tragédias deste tipo.
Se fosse assim os violadores e os homicidas pensariam melhor antes de executarem os seus crimes …
A solução passa, pois, por uma sociedade diferente, que exija sentido de responsabilidade a quem decide ter filhos.
Só avançando para esse projecto com a garantia de se desejar, de facto, gerar um novo ser como corolário de uma relação amorosa perspectivada como perdurável, se evitarão verdadeiros
«monstros sociais» condenados a, mais tarde ou mais cedo, apodrecerem nas prisões…
Daí a importância da despenalização do aborto. O autor de «Freaknomics» já demonstrou, estatisticamente, como uma mudança legal nesse sentido fazia diminuir os índices de criminalidade vinte anos depois.
Parecendo difícil achar relação causa-efeito entre essas duas realidades não é difícil adivinhar passados afectivos problemáticos nessas crianças atiradas para instituições do tipo da Casa Pia ou das Oficinas de S. José. Que se traduzirão em comportamentos associais em muitos deles, quando chegam à vida adulta!
Ou muito antes disso mesmo acontecer como se viu no crime do Porto…
A pena aplicada aos criminosos deveria levantar um coro de indignação que, infelizmente, não se faz ouvir neste país encerrado para férias.
A decisão do Tribunal acaba por insultar o sofrimento da vítima e por desculpar a perversidade dos homicidas. A quem a idade serve de desculpa …
Ora, já se encarara com este cenário no caso de pedofilia na Casa Pia em que as crianças foram sacralizadas como vítimas inocentes e os seus clientes diabolizados e sujeitos a ostracismo colectivo.
E assim se criou um mito em nada consonante com a realidade, que traduz a realidade numa perspectiva maniqueísta em que as crianças são sempre inocentes e os adultos culpados, ora de serem diferentes (no caso de Gisberta), ora de se socorrerem do sexo pago para se satisfazerem.
A realidade é, claramente, outra. As crianças podem ser adoráveis e ternurentas, mas também conseguem ser odiosas e viciosas.
E se provém de origens sociais em que a desestruturação do quadro familiar suscita uma negação dos valores comummente aceites, temos delinquentes em potência, que não olham a meios para satisfazerem os seus desejos. Que podem ser sexuais - porque nem o inefável dr. Pedro Strecht conseguirá negar existirem na criança desde que nasce - ou de mera aquisição de bens de consumo.
Embora desconhecendo qualquer das alegadas vítimas desse caso de pedofilia, conjecturo a possibilidade de algumas delas até nem terem sentido problemas de consciência em prostituírem-se para auferirem roupas de marca ou gameboys.
E, no caso de Gisberta, pode-se sentir alguma complacência por quem torturou outro ser até à morte?
Que tipo de adultos irão ser, quando a idade já não lhes servir de álibi?
A solução engendrada por um partido parlamentar - imputar condenações severas a partir de uma idade mais baixa - não servirá para evitar recorrências de tragédias deste tipo.
Se fosse assim os violadores e os homicidas pensariam melhor antes de executarem os seus crimes …
A solução passa, pois, por uma sociedade diferente, que exija sentido de responsabilidade a quem decide ter filhos.
Só avançando para esse projecto com a garantia de se desejar, de facto, gerar um novo ser como corolário de uma relação amorosa perspectivada como perdurável, se evitarão verdadeiros
«monstros sociais» condenados a, mais tarde ou mais cedo, apodrecerem nas prisões…
Daí a importância da despenalização do aborto. O autor de «Freaknomics» já demonstrou, estatisticamente, como uma mudança legal nesse sentido fazia diminuir os índices de criminalidade vinte anos depois.
Parecendo difícil achar relação causa-efeito entre essas duas realidades não é difícil adivinhar passados afectivos problemáticos nessas crianças atiradas para instituições do tipo da Casa Pia ou das Oficinas de S. José. Que se traduzirão em comportamentos associais em muitos deles, quando chegam à vida adulta!
Ou muito antes disso mesmo acontecer como se viu no crime do Porto…
segunda-feira, julho 24, 2006
UMA CARTA PARA O «PÚBLICO» NÃO INSERIR NAS SUAS PÁGINAS
Serão as ideias de Miguel Portas coincidentes com as do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad?
Com uma falta de elegância, que se deve assinalar, sobretudo por se tratar de quem, enquanto director do jornal, tem responsabilidades acrescidas no respeito por uma deontologia de carácter, o senhor José Manuel Fernandes não contrariou fundamentadamente nenhuma das teses do conhecido historiador e político.
Embora não me identifique com muitas dessas teses, o que dele li no artigo sobre a actual situação no Médio Oriente tinha as características de seriedade expectável em quem possui uma formação académica significativa naquela matéria. E contribuiu para complementar o painel de opiniões, que sobre ela vêm sendo publicadas.
O que parece irritar o director do «Público» ao ponto de avançar pelo insulto soez é a contínua demonstração do erro em que insiste lavrar. Para ele e outros antigos militantes da extrema-esquerda, quando muito jovens, a maturidade atirou-os para um reposicionamento ideológico claramente oposto. Um fenómeno, que deveria merecer uma tese de doutoramento, para que pudéssemos entender o que, psicologicamente, socialmente e politicamente, possa justificar tão estranha mutação.
Mas, tal como nesse passado distante, o director do «Público», mas também a Helena Matos, o João Carlos Espada e outros paladinos das teses dos neo-conservadores norte-americanos, assumem idêntico convencimento da bondade das suas ideias presentes. Como se o mundo se continuassem a dividir entre bons e maus, só variando com os anos quem são uns e outros.
No caso da guerra no Líbano, estes comentadores não conseguem explicar como é que um país democrático, com um Governo reconhecido internacionalmente, se vê agredido pelo vizinho do Sul mediante um álibi - o dos soldados tomados como reféns - que recorda os argumentos de Hitler para invadir a Polónia ou a Checoslováquia no início da 2ª Guerra Mundial.
Mas, mesmo reconhecendo o direito de Israel para salvaguardar a vida dos seus três soldados raptados pelo Hamas e pelo Hezbollah, que legitimidade tem o governo de Olmert para, em contraponto, tirar a vida a centenas de libaneses, muitos deles mulheres e crianças, que apenas desejavam viver pacificamente no seu País há tão pouco tempo saído de uma nefasta guerra civil?
E, vindo um pouco mais atrás, e partindo do princípio que os valores democráticos são para respeitar, o que torna menos legítimo o Governo eleito do Hamas do que saiu do Knesset? Não foram ambos designados a partir de processos eleitorais considerados como irrepreensíveis pela comunidade internacional?
E, olhando para outras latitudes, poder-se-á dizer que a vida das populações iraquianas e afegãs melhorou alguma coisa com o contínuo intervencionismo norte-americano?
E encontrarão esses comentadores alguma justificação para o escândalo de Guantanamo, que nem o Supremo Tribunal norte-americano conseguiu legitimar?
Compreende-se a falta de discernimento de José Manuel Fernandes. Mas, francamente, será que o insulto será doravante a única arma argumentativa, que lhe resta’
Com uma falta de elegância, que se deve assinalar, sobretudo por se tratar de quem, enquanto director do jornal, tem responsabilidades acrescidas no respeito por uma deontologia de carácter, o senhor José Manuel Fernandes não contrariou fundamentadamente nenhuma das teses do conhecido historiador e político.
Embora não me identifique com muitas dessas teses, o que dele li no artigo sobre a actual situação no Médio Oriente tinha as características de seriedade expectável em quem possui uma formação académica significativa naquela matéria. E contribuiu para complementar o painel de opiniões, que sobre ela vêm sendo publicadas.
O que parece irritar o director do «Público» ao ponto de avançar pelo insulto soez é a contínua demonstração do erro em que insiste lavrar. Para ele e outros antigos militantes da extrema-esquerda, quando muito jovens, a maturidade atirou-os para um reposicionamento ideológico claramente oposto. Um fenómeno, que deveria merecer uma tese de doutoramento, para que pudéssemos entender o que, psicologicamente, socialmente e politicamente, possa justificar tão estranha mutação.
Mas, tal como nesse passado distante, o director do «Público», mas também a Helena Matos, o João Carlos Espada e outros paladinos das teses dos neo-conservadores norte-americanos, assumem idêntico convencimento da bondade das suas ideias presentes. Como se o mundo se continuassem a dividir entre bons e maus, só variando com os anos quem são uns e outros.
No caso da guerra no Líbano, estes comentadores não conseguem explicar como é que um país democrático, com um Governo reconhecido internacionalmente, se vê agredido pelo vizinho do Sul mediante um álibi - o dos soldados tomados como reféns - que recorda os argumentos de Hitler para invadir a Polónia ou a Checoslováquia no início da 2ª Guerra Mundial.
Mas, mesmo reconhecendo o direito de Israel para salvaguardar a vida dos seus três soldados raptados pelo Hamas e pelo Hezbollah, que legitimidade tem o governo de Olmert para, em contraponto, tirar a vida a centenas de libaneses, muitos deles mulheres e crianças, que apenas desejavam viver pacificamente no seu País há tão pouco tempo saído de uma nefasta guerra civil?
E, vindo um pouco mais atrás, e partindo do princípio que os valores democráticos são para respeitar, o que torna menos legítimo o Governo eleito do Hamas do que saiu do Knesset? Não foram ambos designados a partir de processos eleitorais considerados como irrepreensíveis pela comunidade internacional?
E, olhando para outras latitudes, poder-se-á dizer que a vida das populações iraquianas e afegãs melhorou alguma coisa com o contínuo intervencionismo norte-americano?
E encontrarão esses comentadores alguma justificação para o escândalo de Guantanamo, que nem o Supremo Tribunal norte-americano conseguiu legitimar?
Compreende-se a falta de discernimento de José Manuel Fernandes. Mas, francamente, será que o insulto será doravante a única arma argumentativa, que lhe resta’
domingo, julho 23, 2006
«A DUPLA» de RAOUL RUIZ
Tem oito anos, foi rodado no Canadá e reflecte alguns dos temas mais do agrado do chileno, que o realizou. Em «A Dupla», Anne Parillaud é, em simultâneo, duas pessoas diametralmente opostas, mas com o mesmo nome: Jessie Ford.
Uma delas é uma assassina profissional contratada para eliminar por contrato, quem os seus clientes lhe indicam.
Outra é uma mulher jovem muito vulnerável, acabada de sair de uma cura psiquiátrica subsequente a uma agressão sexual e agora recém-casada com um jovem, que a leva de lua-de-mel para a Jamaica.
A questão amiúde colocada ao longo do filme é óbvia: quem é a verdadeira Jessie? A assassina ou a noiva? E o que é a outra? Uma sua réplica onírica ou um clone?
A verdade é que, na Jamaica, ela continua a sentir-se ameaçada: o seu violador não a terá seguido até ali para continuar a agredi-la ? E porque é que a bela Paula Quinn, encontrada no hotel, parece tão íntima do seu Brian?
Para encontrar alguma resposta ela vai consultar-se com uma suposta vidente, que tudo sabe: Isabel. Que, através de um chá, lhe propicia sonhos em que se vê atropelada perante a impassibilidade de quem testemunha essa cena.
Por seu lado, Brian começa a revelar um interesse óbvio pela herança por ela recebida do seu defunto pai. Que desejaria investir em negócios rentáveis para os quais lhe não faltariam ideias…
Jessie começa a inquietar-se com sucessivas situações de perigo em que se vê, enquanto está com o marido: uma queda por uma falésia ou um afogamento no mar evitados no último instante.
Igualmente a sua vertente de assassina começa a encarar Brian como um alvo potencial: é a ele que uma tal Laura pretende ver morto, contratando para tal os serviços dela. Ora, em última instância é ela quem acaba de descobrir em Brian a verdadeira identidade do violador de Nova Iorque.
Mas a Jessie mais vulnerável não quer acreditar e insurge-se contra a sua dupla. Erradamente, claro, já que Brian e a sua amante Paula preparam-lhe o «suicídio com barbitúricos» por forma a ficarem com o campo aberto para os seus projectos de felicidade a dois.
Esse desiderato é evitado in extremis, acabando Jessie por acordar numa clínica em Seattle ao fim de vários meses. Mas, agora elucidada, quanto à personalidade de Brian procura-o em Nova Iorque aonde ele estava em jantar romântico com Paula. E atraindo-o à casa de banho é aí que o elimina ...
Uma delas é uma assassina profissional contratada para eliminar por contrato, quem os seus clientes lhe indicam.
Outra é uma mulher jovem muito vulnerável, acabada de sair de uma cura psiquiátrica subsequente a uma agressão sexual e agora recém-casada com um jovem, que a leva de lua-de-mel para a Jamaica.

A verdade é que, na Jamaica, ela continua a sentir-se ameaçada: o seu violador não a terá seguido até ali para continuar a agredi-la ? E porque é que a bela Paula Quinn, encontrada no hotel, parece tão íntima do seu Brian?
Para encontrar alguma resposta ela vai consultar-se com uma suposta vidente, que tudo sabe: Isabel. Que, através de um chá, lhe propicia sonhos em que se vê atropelada perante a impassibilidade de quem testemunha essa cena.
Por seu lado, Brian começa a revelar um interesse óbvio pela herança por ela recebida do seu defunto pai. Que desejaria investir em negócios rentáveis para os quais lhe não faltariam ideias…
Jessie começa a inquietar-se com sucessivas situações de perigo em que se vê, enquanto está com o marido: uma queda por uma falésia ou um afogamento no mar evitados no último instante.
Igualmente a sua vertente de assassina começa a encarar Brian como um alvo potencial: é a ele que uma tal Laura pretende ver morto, contratando para tal os serviços dela. Ora, em última instância é ela quem acaba de descobrir em Brian a verdadeira identidade do violador de Nova Iorque.
Mas a Jessie mais vulnerável não quer acreditar e insurge-se contra a sua dupla. Erradamente, claro, já que Brian e a sua amante Paula preparam-lhe o «suicídio com barbitúricos» por forma a ficarem com o campo aberto para os seus projectos de felicidade a dois.
Esse desiderato é evitado in extremis, acabando Jessie por acordar numa clínica em Seattle ao fim de vários meses. Mas, agora elucidada, quanto à personalidade de Brian procura-o em Nova Iorque aonde ele estava em jantar romântico com Paula. E atraindo-o à casa de banho é aí que o elimina ...
quinta-feira, julho 20, 2006
UMA GUERRA NO MÉDIO ORIENTE
A situação agudizada na guerra do Médio Oriente, confronta-me com algumas contradições difíceis de dissipar: por um lado reconheço as razões dos palestinianos e dos libaneses perante uma violação tão flagrante das leis internacionais, tanto mais que acompanhada de uma anti-democrática falta de reconhecimento da vitória do Hamas nas eleições recentemente ocorridas.
Mas, é também verdade a identificação mais fácil dos nossos valores com os israelitas do que com os muçulmanos. Bastará o tratamento dado pelos regimes islâmicos às mulheres para se justificar uma opção civilizacional.Porque, mesmo não o sendo inicialmente, o conflito israelo–palestiniano acaba por representar o tal choque de civilizações de que falava Huntington. E comporta os riscos de ver prejudicado o nosso bem-estar ao levar os preços de petróleo para uma espiral descontrolada.
E se ainda agora aparecem os indícios de uma recuperação económica, há sempre o risco de os ver evaporarem-se nesta depressão c
olectiva.
Sem não termos contribuído em nada para tal peditório, podemos sofrer na pele os efeitos nefastos de dois mandatos de George W. Bush na Casa Branca. É que se eles bastaram para desmistificar as ideias absurdas dos neo-conservadores, para quem a supremacia imperialista da América passava pela exportação de uns ideais de democracia, nada de bom acarretaram para o nosso bem-estar ou para a criação de uma confortável sensação de confiança perante o futuro.
Por tudo isso, mesmo neste cantinho à beira-mar plantado, existe uma ansiosa expectativa pela emergência de uma paz para todos honrosa ...
Mas, é também verdade a identificação mais fácil dos nossos valores com os israelitas do que com os muçulmanos. Bastará o tratamento dado pelos regimes islâmicos às mulheres para se justificar uma opção civilizacional.Porque, mesmo não o sendo inicialmente, o conflito israelo–palestiniano acaba por representar o tal choque de civilizações de que falava Huntington. E comporta os riscos de ver prejudicado o nosso bem-estar ao levar os preços de petróleo para uma espiral descontrolada.
E se ainda agora aparecem os indícios de uma recuperação económica, há sempre o risco de os ver evaporarem-se nesta depressão c

Sem não termos contribuído em nada para tal peditório, podemos sofrer na pele os efeitos nefastos de dois mandatos de George W. Bush na Casa Branca. É que se eles bastaram para desmistificar as ideias absurdas dos neo-conservadores, para quem a supremacia imperialista da América passava pela exportação de uns ideais de democracia, nada de bom acarretaram para o nosso bem-estar ou para a criação de uma confortável sensação de confiança perante o futuro.
Por tudo isso, mesmo neste cantinho à beira-mar plantado, existe uma ansiosa expectativa pela emergência de uma paz para todos honrosa ...
segunda-feira, julho 10, 2006
BECKETT POR DESCOBRIR?
Será uma falha minha, mas nunca me senti atraído pela dramaturgia de Samuel Beckett. Porque o associo a poucos actores em cena e a muitas palavras disparadas de forma quase meteórica. Apesar de sobrar grande importância para as pausas, para os silêncios.
É, porventura, uma questão de maturidade. Como sucedeu com a música clássica, ainda há uns anos ouvida com frequência, mas sem paixão e, hoje, à beira do meio século de vida me leva a militante devoção.
Porque os temas de Beckett só agora começam a preocupar-me a sério: as angústias, as inseguranças, as frustrações de quem teceu ideais de felicidade, que se realizaram em grande parte mas não na sua mais utópica totalidade. Havendo um fim irremediável a ameaçar tolher as oportunidades remanescentes para conseguir esse tal pleno.
Talvez daqui a não muito tempo eu confesse aqui o emergente fascínio pela obra mais filosófica, que meramente teatral do dramaturgo irlandês…
É, porventura, uma questão de maturidade. Como sucedeu com a música clássica, ainda há uns anos ouvida com frequência, mas sem paixão e, hoje, à beira do meio século de vida me leva a militante devoção.
Porque os temas de Beckett só agora começam a preocupar-me a sério: as angústias, as inseguranças, as frustrações de quem teceu ideais de felicidade, que se realizaram em grande parte mas não na sua mais utópica totalidade. Havendo um fim irremediável a ameaçar tolher as oportunidades remanescentes para conseguir esse tal pleno.
Talvez daqui a não muito tempo eu confesse aqui o emergente fascínio pela obra mais filosófica, que meramente teatral do dramaturgo irlandês…
terça-feira, junho 27, 2006
O ENTERRO DE NATE
Nas últimas semanas temos assistido fielmente ao desenlace da série «Sete Palmos de Terra». Vemo-la como se fôssemos vizinhos, ou mesmo familiares daqueles personagens, que ilustram outros tantos estereótipos - mas bem complexos - da diversidade humana.
Os episódios desta quinta temporada são, porventura, ainda mais intensos, que os das anteriores. Como se, perante a inevitabilidade da morte de um dos protagonistas - esse Nate que,
no primeiro episódio da série, regressava a casa, oriundo de Seattle (a terra do seu idolatrado Kurt Cobain), para participar do funeral do pai - todos os demais personagens refinassem os traços do seu carácter.
Uma dessas personagens, que mais nos tem interessado, é a mãe. Ruth passou pela viuvez, por diversos amores, pelo prazer, e depois pela angústia da solidão, até desembocar neste drama de não ter estado presente, quando o seu filho preferido cedia a um aneurisma.
Apesar de sempre apreciarmos o desempenho de outros dos grandes actores da série - particularmente o que faz de David, o irmão homossexual de Nate, mas também todos os demais, capazes aqui e além de grandes momentos interpretativos, este tipo de séries leva-nos sempre de encontro às personalidades mais ou menos fortes das progenitoras.
Como não lembrar a perfídia da mãe de Tony Soprano nessa ânsia de muito se fazer amada, sem sequer retribuir?
No caso de Ruth a caracterização sai menos maniqueísta: ela consegue comover com a sua ingenuidade perante os que a pretendem seduzir, irritar com essa incapacidade de encontrar um caminho bem definido para se realizar; ou odiar, quando trata o seu mais recente companheiro, George, com a crueldade de quem se mostra incapaz de aceitar os acessos de loucura dele.
Acabará por ser esse mesmo George quem , nos discursos perante o corpo, proferirá um discurso elucidativo: Nate esforçara-se por ser um homem bom dentro do seu idealismo, mas nunca deixara de ser igual a qualquer outro dos presentes: tão imperfeito quanto qualquer outro…
E é nessa aceitação das nossas próprias imperfeições que, num fenómeno de conveniente identificação, somos capazes de exorcizar muitas das nossas zangas connosco mesmos...
Os episódios desta quinta temporada são, porventura, ainda mais intensos, que os das anteriores. Como se, perante a inevitabilidade da morte de um dos protagonistas - esse Nate que,

Uma dessas personagens, que mais nos tem interessado, é a mãe. Ruth passou pela viuvez, por diversos amores, pelo prazer, e depois pela angústia da solidão, até desembocar neste drama de não ter estado presente, quando o seu filho preferido cedia a um aneurisma.
Apesar de sempre apreciarmos o desempenho de outros dos grandes actores da série - particularmente o que faz de David, o irmão homossexual de Nate, mas também todos os demais, capazes aqui e além de grandes momentos interpretativos, este tipo de séries leva-nos sempre de encontro às personalidades mais ou menos fortes das progenitoras.
Como não lembrar a perfídia da mãe de Tony Soprano nessa ânsia de muito se fazer amada, sem sequer retribuir?
No caso de Ruth a caracterização sai menos maniqueísta: ela consegue comover com a sua ingenuidade perante os que a pretendem seduzir, irritar com essa incapacidade de encontrar um caminho bem definido para se realizar; ou odiar, quando trata o seu mais recente companheiro, George, com a crueldade de quem se mostra incapaz de aceitar os acessos de loucura dele.
Acabará por ser esse mesmo George quem , nos discursos perante o corpo, proferirá um discurso elucidativo: Nate esforçara-se por ser um homem bom dentro do seu idealismo, mas nunca deixara de ser igual a qualquer outro dos presentes: tão imperfeito quanto qualquer outro…
E é nessa aceitação das nossas próprias imperfeições que, num fenómeno de conveniente identificação, somos capazes de exorcizar muitas das nossas zangas connosco mesmos...
segunda-feira, maio 29, 2006
CARLOS REYGADAS: «JAPAN», UM FILME SOBRE O SUICÍDIO
Há a viagem de carro da cidade para a periferia. Aonde a crueldade é perceptível sobre os animais: um miúdo apanha um pássaro e, como não o consegue matar, pede ao protagonista para que lhe torça o pescoço. O que ele faz, sem grandes estados de alma…
Mas este homem de meia-idade, que se arrasta com a ajuda de uma bengala, é um pintor a contas com um drama íntimo: o seu desejo é o de encontrar a morte na pequena aldeola escondida no fundo de um canyon.
A câmara abandon
a-o muitas vezes enquanto personagem e cola-se aos seus olhos, transmitindo-nos a sua progressão por caminhos e carreiros, que reiteram a austeridade de uma paisagem, que imita a rudeza dos rostos marcados por profundas rugas.
A senhoria em cuja casa ele se hospeda é Ascen, uma velha viúva cujos gestos de aproximação - a oferta de uma taça de chá, por exemplo - são rechaçados. Mas, como se essa rejeição lhe desse má consciência, o forasteiro mostra-lhe os seus quadros e inicia-a na marijuana.
Quem constitui uma ameaça, bem diversa da generalizada simpatia com que ele se vê acolhido na aldeia, é Juan Luís, o sobrinho de Ascen que, depois de passar pela penitenciária, está agora ansioso por espoliar a tia da casa, que fora do seu avô.
As tentativas do pintor para sair da sua letargia não são bem sucedidas - não são bem sucedidas nem as tentativas de se masturbar, nem as de se matar.
A impotência torna-se uma explicação cada vez mais óbvia para esse desejo em acabar consigo mesmo - quando vê uns miúdos rirem-se de um velho cavalo incapaz de copular com uma égua, ele sente alguma identificação com o animal.
Em desespero, no dia em que o sobrinho de Ascen virá subtrair-lhe a casa, ele consegue dela a oferta do corpo para inflamar a sua arrefecida libido. Mas em vão …
A morte é inevitável, já que nada mais justificará a continuidade dos seus dias sempre iguais na incapacidade de lidar com tão indizível desespero...
Mas este homem de meia-idade, que se arrasta com a ajuda de uma bengala, é um pintor a contas com um drama íntimo: o seu desejo é o de encontrar a morte na pequena aldeola escondida no fundo de um canyon.
A câmara abandon

A senhoria em cuja casa ele se hospeda é Ascen, uma velha viúva cujos gestos de aproximação - a oferta de uma taça de chá, por exemplo - são rechaçados. Mas, como se essa rejeição lhe desse má consciência, o forasteiro mostra-lhe os seus quadros e inicia-a na marijuana.
Quem constitui uma ameaça, bem diversa da generalizada simpatia com que ele se vê acolhido na aldeia, é Juan Luís, o sobrinho de Ascen que, depois de passar pela penitenciária, está agora ansioso por espoliar a tia da casa, que fora do seu avô.
As tentativas do pintor para sair da sua letargia não são bem sucedidas - não são bem sucedidas nem as tentativas de se masturbar, nem as de se matar.
A impotência torna-se uma explicação cada vez mais óbvia para esse desejo em acabar consigo mesmo - quando vê uns miúdos rirem-se de um velho cavalo incapaz de copular com uma égua, ele sente alguma identificação com o animal.
Em desespero, no dia em que o sobrinho de Ascen virá subtrair-lhe a casa, ele consegue dela a oferta do corpo para inflamar a sua arrefecida libido. Mas em vão …
A morte é inevitável, já que nada mais justificará a continuidade dos seus dias sempre iguais na incapacidade de lidar com tão indizível desespero...
segunda-feira, maio 08, 2006
«A GAIVOTA»: PARADIGMAS REVOLUTOS
Há Irina Nicolaevna Arkadina, superlativamente interpretada por Rita Loureiro.
É uma conhecida actriz de teatro, que detesta ver-se envelhecer. Por isso o filho de vinte e cinco anos coloca-lhe um sério dilema: enquanto mãe deve amá-lo, mas a sua simples presença é bem demonstrativa de como já está longe do fulgor da sua juventude. Por isso é infeliz e semeia infelicidade à sua volta, quer inferiorizando os esforços criativos de Costia, quer negando-lhe o dinheiro, que o poderia ajudar a uma melhor inserção social.
E, quando o próprio amante a deixa em benefício de uma actriz mais jovem, ela não hesita em recebê-lo de volta, porquanto vive muito mais das aparências do que das realidades afectivas.
Numa peça em que quase todos são in
felizes por viverem na frustração de não alcançarem os seus objectivos, Irina poderia personificar a felicidade do sucesso. Mas não: apesar da riqueza, apesar da beleza, apesar do sucesso junto do público, ela sente escoar-se por entre os dedos tudo quanto poderia dar-lhe o contentamento de ter chegado a algum lado…
O filho é Konstantin Gavrilovich Treplev, ou simplesmente Kostia. Na interpretação esforçada de Duarte Guimarães. Vinte anos depois seriam destes Kostias, que a Revolução de Outubro emergiria. Porque eles cresceram na burguesia e não têm dinheiro. E porque, em termos artísticos, aspiram a formas novas e já não suportam todos os academismos, que fundamentavam as obras passadas.
Por isso há uma peça estranha, que só ao médico Dorn sensibilizará. E há a ânsia de uma amor profundo, que se revelará impossível. Por isso a frustração é tanta que, sem razão aparente, ele disparará sobre a gaivota, que dá título à peça. Uma vítima inocente e colateral a todo o sofrimento colectivo.
E, sem se dar conta disso, Kostia será, afinal, a verdadeira gaivota dos dramas a que assiste. Porque viver sempre também cansa e as armas são objectos, que até se mostram bastante disponíveis.
A paixão impossível de Kostia incidira em Nina Mihailovna Zarechnaia. Uma renovada oportunidade para apreciar as qualidades de Rita Durão em papéis, que exijam a explicitação de uma diáfana fragilidade.
É ela - a rapariga rejeitada pela família, que parte para Moscovo em busca do sonho impossível (o amor de Trigorin, o sucesso nos palcos) - quem reivindica a condição de gaivota.
Mas ela é tão só uma mulher infeliz nas suas opções afectivas e incapaz de se entregar ao único homem, que lhe deseja dar todos os impossíveis.
Será a sua frivolidade, que a levará a aproximar-se demasiado do sol em que se pretende translacionar e a aí perder as penas.
Num papel bem mais secundário, mas afinal tão relevante, porque ilustrativo, pelo exagero, do percurso de Nina, temos Masha, a filha do feitor, numa interpretação contida de Teresa Sobral.
Sempre vestida de negro em luto pela própria vida, ela persegue o sonho impossível de ser amada por Kostia, embora ceda ao realismo de se casar com o mestre-escola. Uma opção, que acabou por não a recompensar, porque essa relação dá-lhe uma criança, mas não a afasta dos seus óbvios desejos. E por isso bebe e cheira rapé numa procura catártica de compensações, que nunca se revelam satisfatórias.
A mãe dela, Polina Andreevna, na prodigiosa interpretação da imensa Márcia Breia, viveu a relação clandestina com o médico, que hoje a afasta sucessivamente, ora porque os seus encantos já desapareceram, ora porque ele próprio, aos cinquenta e cinco anos, já deixou de ser o bem sucedido sedutor de todas as mulheres das redondezas.
Mas, viajado, este Yevgeny Aleksievich Dorn, interpretao por Luís Lima Barreto, é o único a encarar todo aquele drama com a lucidez de quem sabe confrontar-se com forças, que o extravasam.
Na arte de Kostia ele pressente o novo, que o fascina, mas sem saber bem porquê. Talvez, porque ao fazer parte dos privilegiados, ele se sinta incapaz de entender o fulgor revolucionário, que se vislumbra à distância...
Quem representa a arte decadente de uma sociedade em crise é Boris Aleksievich Trigorin, interpretado por Ricardo Aibéo.
Ele é o típico escritor, que olha para a realidade com a caneta e o bloco de apontamentos sempre preparados para anotar possíveis hipóteses de ficção.
No resto do tempo ele queda-se à beira do lago, de cana de pesca estendida à espera de alguma perca.
A sua relação com Irina tem mais de conformismo do que de exaltação.
Ela serve-se do seu prestígio para ilustrar a sua imagem de actriz de sucesso, bela e adulada pelos homens, enquanto a ele o interessam as pessoas com quem ela o põe em contacto nas suas estadias na casa de campo.
De entre os demais personagens secundários desta história, que alguns consideraram a mais autobiográfica de quantas Tchekov escreveu, ainda se deve evocar a veterania competente de José Manuel Mendes no papel do feitor, a sobriedade de Dinis Gomes no de mestre-escola, e sobretudo, a sapiência de Luís Miguel Cintra no do tio Piotr Nicolaievich Triplev. Muito envelhecido, este antigo conselheiro do Czar perde a alma no campo, quando sempre fora urbano por natureza. Mas o dinheiro desaparece completamente na conservação daquela quinta e a irmã recusa-lhe, através de Kostia, o empréstimo necessário para recuperar a sua prestigiada posição social.
A esse título ele representa a velha aristocracia, que os bolcheviques iriam erradicar violentamente, já que se revelava incapaz de compreender as urgências da História humana. Ao contrário do velho príncipe Salinas, os Piotr Triplevs degeneravam fisicamente, depois de há muito a alma lhes ter acinzentado.
Ainda assim, e a exemplo de Dorn, há nele uma ternura pelo sobrinho, que nada tem a ver com os seus conceitos ideológicos ou estéticos. É uma mera atracção pela juventude definitivamente perdida.
Em balanço é uma peça notável nas leituras possíveis de quanto revelam os seus personagens e bem actual nesta época, que parece ser a do fim de um conjunto significativo de paradigmas.
É uma conhecida actriz de teatro, que detesta ver-se envelhecer. Por isso o filho de vinte e cinco anos coloca-lhe um sério dilema: enquanto mãe deve amá-lo, mas a sua simples presença é bem demonstrativa de como já está longe do fulgor da sua juventude. Por isso é infeliz e semeia infelicidade à sua volta, quer inferiorizando os esforços criativos de Costia, quer negando-lhe o dinheiro, que o poderia ajudar a uma melhor inserção social.
E, quando o próprio amante a deixa em benefício de uma actriz mais jovem, ela não hesita em recebê-lo de volta, porquanto vive muito mais das aparências do que das realidades afectivas.
Numa peça em que quase todos são in

O filho é Konstantin Gavrilovich Treplev, ou simplesmente Kostia. Na interpretação esforçada de Duarte Guimarães. Vinte anos depois seriam destes Kostias, que a Revolução de Outubro emergiria. Porque eles cresceram na burguesia e não têm dinheiro. E porque, em termos artísticos, aspiram a formas novas e já não suportam todos os academismos, que fundamentavam as obras passadas.
Por isso há uma peça estranha, que só ao médico Dorn sensibilizará. E há a ânsia de uma amor profundo, que se revelará impossível. Por isso a frustração é tanta que, sem razão aparente, ele disparará sobre a gaivota, que dá título à peça. Uma vítima inocente e colateral a todo o sofrimento colectivo.
E, sem se dar conta disso, Kostia será, afinal, a verdadeira gaivota dos dramas a que assiste. Porque viver sempre também cansa e as armas são objectos, que até se mostram bastante disponíveis.
A paixão impossível de Kostia incidira em Nina Mihailovna Zarechnaia. Uma renovada oportunidade para apreciar as qualidades de Rita Durão em papéis, que exijam a explicitação de uma diáfana fragilidade.
É ela - a rapariga rejeitada pela família, que parte para Moscovo em busca do sonho impossível (o amor de Trigorin, o sucesso nos palcos) - quem reivindica a condição de gaivota.
Mas ela é tão só uma mulher infeliz nas suas opções afectivas e incapaz de se entregar ao único homem, que lhe deseja dar todos os impossíveis.
Será a sua frivolidade, que a levará a aproximar-se demasiado do sol em que se pretende translacionar e a aí perder as penas.
Num papel bem mais secundário, mas afinal tão relevante, porque ilustrativo, pelo exagero, do percurso de Nina, temos Masha, a filha do feitor, numa interpretação contida de Teresa Sobral.
Sempre vestida de negro em luto pela própria vida, ela persegue o sonho impossível de ser amada por Kostia, embora ceda ao realismo de se casar com o mestre-escola. Uma opção, que acabou por não a recompensar, porque essa relação dá-lhe uma criança, mas não a afasta dos seus óbvios desejos. E por isso bebe e cheira rapé numa procura catártica de compensações, que nunca se revelam satisfatórias.
A mãe dela, Polina Andreevna, na prodigiosa interpretação da imensa Márcia Breia, viveu a relação clandestina com o médico, que hoje a afasta sucessivamente, ora porque os seus encantos já desapareceram, ora porque ele próprio, aos cinquenta e cinco anos, já deixou de ser o bem sucedido sedutor de todas as mulheres das redondezas.
Mas, viajado, este Yevgeny Aleksievich Dorn, interpretao por Luís Lima Barreto, é o único a encarar todo aquele drama com a lucidez de quem sabe confrontar-se com forças, que o extravasam.
Na arte de Kostia ele pressente o novo, que o fascina, mas sem saber bem porquê. Talvez, porque ao fazer parte dos privilegiados, ele se sinta incapaz de entender o fulgor revolucionário, que se vislumbra à distância...
Quem representa a arte decadente de uma sociedade em crise é Boris Aleksievich Trigorin, interpretado por Ricardo Aibéo.
Ele é o típico escritor, que olha para a realidade com a caneta e o bloco de apontamentos sempre preparados para anotar possíveis hipóteses de ficção.
No resto do tempo ele queda-se à beira do lago, de cana de pesca estendida à espera de alguma perca.
A sua relação com Irina tem mais de conformismo do que de exaltação.
Ela serve-se do seu prestígio para ilustrar a sua imagem de actriz de sucesso, bela e adulada pelos homens, enquanto a ele o interessam as pessoas com quem ela o põe em contacto nas suas estadias na casa de campo.
De entre os demais personagens secundários desta história, que alguns consideraram a mais autobiográfica de quantas Tchekov escreveu, ainda se deve evocar a veterania competente de José Manuel Mendes no papel do feitor, a sobriedade de Dinis Gomes no de mestre-escola, e sobretudo, a sapiência de Luís Miguel Cintra no do tio Piotr Nicolaievich Triplev. Muito envelhecido, este antigo conselheiro do Czar perde a alma no campo, quando sempre fora urbano por natureza. Mas o dinheiro desaparece completamente na conservação daquela quinta e a irmã recusa-lhe, através de Kostia, o empréstimo necessário para recuperar a sua prestigiada posição social.
A esse título ele representa a velha aristocracia, que os bolcheviques iriam erradicar violentamente, já que se revelava incapaz de compreender as urgências da História humana. Ao contrário do velho príncipe Salinas, os Piotr Triplevs degeneravam fisicamente, depois de há muito a alma lhes ter acinzentado.
Ainda assim, e a exemplo de Dorn, há nele uma ternura pelo sobrinho, que nada tem a ver com os seus conceitos ideológicos ou estéticos. É uma mera atracção pela juventude definitivamente perdida.
Em balanço é uma peça notável nas leituras possíveis de quanto revelam os seus personagens e bem actual nesta época, que parece ser a do fim de um conjunto significativo de paradigmas.
segunda-feira, maio 01, 2006
«LISBOETAS» de SÉRGIO TRÉFAUT
Eles estão aí no meio de nós. São brancos (muito claros, porque eslavos), são negros, são amarelos. De todas as cores e de todas as latitudes. Mas lisboetas de facto, porque aqui procuram esse paraíso na Terra, que lhes escapou no lugar onde nasceram.
E temos a concretização de tudo quanto de pior encontramos na emigração e nos escusamos de olhar.
A exploração, por exemplo. Há um negro, que trabalhou doze horas de seguida para só receber 25 euros. Ou o engajador, que nem quer continuar a conversa, quando lhe acenam com a exigência de contrato de trabalho.
As condições de
miséria. A pernoita em quartos minúsculos e caros, quando não mesmo em frágeis abrigos na rua. A tentação do alcoolismo, quando não se tem qualquer família e apenas se encontra socorro para a doença na carrinha, apenas dotada do suficiente para os cuidados mais básicos.
A dificuldade de comunicação. Que se procura debelar no difícil manejar do português em aulas aonde se aprende a dizer «aldrabão» ou «coçar-se. Ou quando nos Serviços de Emigração são inexistentes os tradutores, que pudessem facilitar a compreensão quanto aos (muitos) papéis a preencher como forma de se legalizarem. Ainda assim existem jornais apostados em servirem de veículo facilitador dos passos perdidos desses homens e mulheres nos caminhos da cidade.
A religião. Que é uma forma de identidade, seja ela ortodoxa, muçulmana, protestante ou qualquer outra. Aonde as pessoas se encontram e trocam experiências, sentindo-se menos sós neste sítio, que se julgou recheado de gente rica e, afinal, tão diferente do que, lá longe, se imaginara.
Mas há também o contraponto: os telefonemas para casa como forma de mitigar saudades, os bailes animados ou as idas à praia para encontrar o fascínio do oceano. No limite há quem se arrisque a ter filhos, apostando num futuro bem mais próspero do que este presente de empregos inseguros e mal pagos.
O filme do Sérgio está à medida do que dele conhecemos: sensível e fraterno para com esses desvalidos de todos os continentes a quem a pobreza empurrou para a aventura tremenda de buscar a sobrevivência entre nós.
Que os olhamos desconfiados, como se não fizessem parte integrante da sociedade, que é a nossa...
E temos a concretização de tudo quanto de pior encontramos na emigração e nos escusamos de olhar.
A exploração, por exemplo. Há um negro, que trabalhou doze horas de seguida para só receber 25 euros. Ou o engajador, que nem quer continuar a conversa, quando lhe acenam com a exigência de contrato de trabalho.
As condições de

A dificuldade de comunicação. Que se procura debelar no difícil manejar do português em aulas aonde se aprende a dizer «aldrabão» ou «coçar-se. Ou quando nos Serviços de Emigração são inexistentes os tradutores, que pudessem facilitar a compreensão quanto aos (muitos) papéis a preencher como forma de se legalizarem. Ainda assim existem jornais apostados em servirem de veículo facilitador dos passos perdidos desses homens e mulheres nos caminhos da cidade.
A religião. Que é uma forma de identidade, seja ela ortodoxa, muçulmana, protestante ou qualquer outra. Aonde as pessoas se encontram e trocam experiências, sentindo-se menos sós neste sítio, que se julgou recheado de gente rica e, afinal, tão diferente do que, lá longe, se imaginara.
Mas há também o contraponto: os telefonemas para casa como forma de mitigar saudades, os bailes animados ou as idas à praia para encontrar o fascínio do oceano. No limite há quem se arrisque a ter filhos, apostando num futuro bem mais próspero do que este presente de empregos inseguros e mal pagos.
O filme do Sérgio está à medida do que dele conhecemos: sensível e fraterno para com esses desvalidos de todos os continentes a quem a pobreza empurrou para a aventura tremenda de buscar a sobrevivência entre nós.
Que os olhamos desconfiados, como se não fizessem parte integrante da sociedade, que é a nossa...
sábado, abril 29, 2006
A ILUSÃO DE UM MUNDO ESQUIZOFRÉNICO
O que mais surpreende no testemunho de Traudl Junge é a sua complexidade enquanto personalidade envolvida em acontecimentos históricos, que a transcenderam. Secretária de Hitler, ela simpatizou com esse homem simpático em quem não adivinhava o monstro depois revelado pelos acontecimentos. E só se viria a perdoar desse comprometimento emotivo com ele já muito tarde, quando a vida a estava a abandonar. Porque, durante cinquenta anos, ela rejeitara qualquer abordagem de quanto vivera no bunker de Berlim.
Ora, a propósito desse inglório epílogo do nazismo, ela tornou-se uma das sobreviventes capazes de retratarem o ambiente singular desses dignitários de um regime à beira da derrocada. Por exemplo ela brincou com os filhos do casal Goebbells antes de Martha envenenar os filhos para que estes não fossem obrigados a viver numa «Alemanha que os não mereceria». Ou seria a ela própria, que Adolf Hitler ditaria o seu testamento, antes de se suicidar com Eva Braun.
Mas a própria his
tória pessoal de Traudl não deixa de ser curiosa: educada sem pai e com as maiores dificuldades, ela encontraria em Hitler e na aparente segurança do bunker de Berlim, essa substituição de uma carência íntima, que lhe obnubilaria uma análise racional de quanto ocorria à sua volta.
O que não a impediria de reconhecer que a sua juventude não justifica a miopia perante tão gravosos sintomas de um mal estar perceptível em pequenos episódios da corte hitleriana: ela presenciara a queda em desgraça da esposa de von Schirach por lamentar as condições em que os judeus eram embarcados em Amesterdão a caminho dos campos de concentração…
Sophie Scholl, por exemplo, surge-lhe como uma rapariga da sua geração, que optara por um percurso totalmente oposto ao do seu…
Traudl confessa que só após a Segunda Guerra Mundial, no decorrente processo de desnazificação, é que as ilusões semeadas pelo defunto regime foram desfeitas. E que viver em liberdade não apresentava os perigos outrora aludidos pelo antigo patrão.
É uma mulher octogenária reconciliada consigo própria, que se vislumbra nas imagens do documentário hoje apresentado pelo canal 2. Que deixa como alerta os riscos de nos comprometermos com algo tão atraente quanto perverso na sua essência intrínseca ...
Ora, a propósito desse inglório epílogo do nazismo, ela tornou-se uma das sobreviventes capazes de retratarem o ambiente singular desses dignitários de um regime à beira da derrocada. Por exemplo ela brincou com os filhos do casal Goebbells antes de Martha envenenar os filhos para que estes não fossem obrigados a viver numa «Alemanha que os não mereceria». Ou seria a ela própria, que Adolf Hitler ditaria o seu testamento, antes de se suicidar com Eva Braun.
Mas a própria his

O que não a impediria de reconhecer que a sua juventude não justifica a miopia perante tão gravosos sintomas de um mal estar perceptível em pequenos episódios da corte hitleriana: ela presenciara a queda em desgraça da esposa de von Schirach por lamentar as condições em que os judeus eram embarcados em Amesterdão a caminho dos campos de concentração…
Sophie Scholl, por exemplo, surge-lhe como uma rapariga da sua geração, que optara por um percurso totalmente oposto ao do seu…
Traudl confessa que só após a Segunda Guerra Mundial, no decorrente processo de desnazificação, é que as ilusões semeadas pelo defunto regime foram desfeitas. E que viver em liberdade não apresentava os perigos outrora aludidos pelo antigo patrão.
É uma mulher octogenária reconciliada consigo própria, que se vislumbra nas imagens do documentário hoje apresentado pelo canal 2. Que deixa como alerta os riscos de nos comprometermos com algo tão atraente quanto perverso na sua essência intrínseca ...
sábado, abril 22, 2006
VINTE ANOS DEPOIS DE TCHERNOBYL
Daqui a uns dias cumprir-se-á mais um aniversário sobre o desastre de Tchernobyl. Sempre atenta a ARTE transmitiu um documentário interessante de Christoph Boekel que, na primeira pessoa, relacionou o seu próprio drama - a viuvez da sua mulher, a quem um cancro levou antes dos quarenta anos - com o de quantos perderam a vida ou estão muito doentes como consequência da radiação recebida nas semanas subsequentes a esse acidente. Uma atenção particular é por ele dada a Dima, um jovem soldado, de grande vocação artística, a quem as funções de limpeza de uma zona próxima da Central, causou a morte em 2002.
Estão em causa os erros de construção da Central, os erros dos seus operadores e a inexperiência, se não mesmo ignorância, dos responsáveis pelas operações de contingência. O resultado não tardou a manifestar-se: as mortes, em atroz sofrimento, de quantos se sacrificaram para conter as radiações através da construção do sarcófago em betão.
Numa época em que a União Soviética via falidos os seus esforços expansionistas na guerra do Afeganistão, a explosão de Tchernobyl anunciava a implosão próxima do regime fundado por Vladimir Lenine.
No documentário desta alemão, que casara com uma rapariga ucraniana, quando procurara seguir a peugada do pai, que participara na Segunda Guerra nas fileiras do exército nazi, e a contratara como tradutora, importam os rostos das pessoas: o desse pintor, cujos quadros exultavam de cores vivas antes dessa experiência, e dela viera apostado em só ilustrar os terrores da radiação através de cores cinzentas. Os dos amigos, que o tinham conhecido na escola, e dela evocam a singularidade das suas preocupações artísticas. Os dos técnicos de cinema ou do jornalista, que percorreram a zona sinistrada nos dias seguintes à explosão para tentarem compreender o como e o porquê da sua ocorrência. Ou a da mãe desse mesmo Dima, que considera uma vergonha tudo quanto aconteceu na época e nos anos subsequentes, quando os poderes políticos se eximiram de qualquer responsabilidade quanto ao sucedido.
Vinte anos depois a evocação deste acidente ganha particular relevância numa altura de requentados fervores pró-nuclearistas de quem vê em tal forma de energia a oportunidade de ganhar significativas mais-valias sem atender às consequências do que nela possa correr mal…
Estão em causa os erros de construção da Central, os erros dos seus operadores e a inexperiência, se não mesmo ignorância, dos responsáveis pelas operações de contingência. O resultado não tardou a manifestar-se: as mortes, em atroz sofrimento, de quantos se sacrificaram para conter as radiações através da construção do sarcófago em betão.
Numa época em que a União Soviética via falidos os seus esforços expansionistas na guerra do Afeganistão, a explosão de Tchernobyl anunciava a implosão próxima do regime fundado por Vladimir Lenine.
No documentário desta alemão, que casara com uma rapariga ucraniana, quando procurara seguir a peugada do pai, que participara na Segunda Guerra nas fileiras do exército nazi, e a contratara como tradutora, importam os rostos das pessoas: o desse pintor, cujos quadros exultavam de cores vivas antes dessa experiência, e dela viera apostado em só ilustrar os terrores da radiação através de cores cinzentas. Os dos amigos, que o tinham conhecido na escola, e dela evocam a singularidade das suas preocupações artísticas. Os dos técnicos de cinema ou do jornalista, que percorreram a zona sinistrada nos dias seguintes à explosão para tentarem compreender o como e o porquê da sua ocorrência. Ou a da mãe desse mesmo Dima, que considera uma vergonha tudo quanto aconteceu na época e nos anos subsequentes, quando os poderes políticos se eximiram de qualquer responsabilidade quanto ao sucedido.
Vinte anos depois a evocação deste acidente ganha particular relevância numa altura de requentados fervores pró-nuclearistas de quem vê em tal forma de energia a oportunidade de ganhar significativas mais-valias sem atender às consequências do que nela possa correr mal…
sexta-feira, abril 14, 2006
UM FILME SOBRE A CHINA DE HOJE
Passaram oito anos sobre os meus quase cinquenta dias em Xangai: uma experiência inesquecível pelo que me trouxe de vivido sobre uma realidade tão candente quanto o é a evolução da sociedade chinesa nesta sua transição de um comunismo puro e duro para uma terceira via, que procura melhores soluções do que a lamentável «perestroika» russa.
Independentemente da abordagem mais aprofundada de críticas do «Público» algumas páginas à frente, «O Mundo», de Jia Zhang-Ke reflecte três aspectos singulares dessa evolução:
Existe enquanto evidência mais óbvia a incapacidade de se encontrar a felicidade na realidade pequinense de hoje. Mesmo mergulhadas no sonho virtual representado por este parque de atracções, os que nele trabalham não sentem quaisquer outras aspirações para além das da mais prosaica sobrevivência.
Noutra vertente pode-se encarar o parque como um universo concentracionário, idêntico em qualquer outra latitude por muito que se parta de avião à procura de novas realidades. Não vem a russa Anna revelar a impossibilidade de se encontrar lá fora algo de diferente em relação aos vários tipos de tráfico, que a acabará por enredar?
Finalmente, e numa abordagem mais directamente política, pode-se concluir que se o comunismo não deu felicidade aos seus protagonistas, o capitalismo - com o advento do trabalho escravo - não significa nenhuma melhoria.
O filme de Jia Zhang Ke frustra quem o vê porque só identifica razões de tristeza e de infelicidade, mas não adivinha portas de saída.
Em tempos de atroz pessimismo, ele prossegue na mesma onda...
Independentemente da abordagem mais aprofundada de críticas do «Público» algumas páginas à frente, «O Mundo», de Jia Zhang-Ke reflecte três aspectos singulares dessa evolução:
Existe enquanto evidência mais óbvia a incapacidade de se encontrar a felicidade na realidade pequinense de hoje. Mesmo mergulhadas no sonho virtual representado por este parque de atracções, os que nele trabalham não sentem quaisquer outras aspirações para além das da mais prosaica sobrevivência.
Noutra vertente pode-se encarar o parque como um universo concentracionário, idêntico em qualquer outra latitude por muito que se parta de avião à procura de novas realidades. Não vem a russa Anna revelar a impossibilidade de se encontrar lá fora algo de diferente em relação aos vários tipos de tráfico, que a acabará por enredar?
Finalmente, e numa abordagem mais directamente política, pode-se concluir que se o comunismo não deu felicidade aos seus protagonistas, o capitalismo - com o advento do trabalho escravo - não significa nenhuma melhoria.
O filme de Jia Zhang Ke frustra quem o vê porque só identifica razões de tristeza e de infelicidade, mas não adivinha portas de saída.
Em tempos de atroz pessimismo, ele prossegue na mesma onda...
segunda-feira, março 20, 2006
AS CRIANÇAS DE RUA DE DAKAR
O filme é a preto e branco, não só por opção estética, mas porque os recursos decerto não abundavam. A urgência do que se mostra não se compadece com pruridos artísticos, tão obscena se revela uma realidade afrontosa para todos quantos têm os meios para a transformar. Papisthione, que assina a realização, perfaz o que lhe é possível: dar a ver a vida miserável das crianças de rua em Dakar. Se Karl Marx dizia, que à realidade não bastava interpretá-la, sendo necessário transformá-la, «Da Vida das Crianças no século XXI» corresponde a um libelo impressionante para quem perfilhe aquele conceito ideológico. 
Logo nas primeiras imagens quem está por trás da câmara interroga uma rapariga, que se prostitui. Entregue a si mesma, ela ainda consegue emitir palavras de esperança em relação a um futuro melhor. Com a ajuda de Deus, sugere! Mas os próprios olhos traem-lhe o verbo: ela sabe que, mais do que fiar-se na Virgem, é obrigada a correr. Para sobreviver…
«Como vão as crianças?». A legenda aparece a separar sucessivos quadros, qual deles o mais incómodo para quem procurasse entretenimento nas imagens.
Na seguinte há corpos espalhados, amontoados, num casebre: o sono, provocado pelo cansaço, ou pela inspiração de colas e outros recursos alucinogéneos, constitui o paliativo para enfrentar a dura realidade da vigília. É a fuga possível às injustiças, que leva um dos miúdos, de olhos esbugalhados a emergirem do seu rosto de esfomeado a perguntar: «Mas já não há leis neste país?»
Injustiças feitas de diversas formas de violência, que lhes acentuam as marcas de cicatrizes por todo o corpo, sobrepondo-se ao encardido da porcaria ou às feridas deixadas por parasitas, que lhes sugam o sangue….
Há tanta tristeza naqueles rostos, que ainda é possível o espanto ao vê-la adensar-se, quando a chuva cai e os ensopa, forçando-os a escolherem refúgios de circunstância aonde o espaço ainda se mostra mais apertado… Ou quando um pequeno cão morre à nascença e força lágrimas, que se julgariam definitivamente esgotadas nas suas glândulas.
O cinema deve ser assim: não deixar indiferente quem o vê. Mas depois de sacudida a letargia para que nos empurra a letargia dos dias, que se pode fazer em alternativa? Acentuar a nossa consciência social? Reagir ao deparar-se-nos na rua quem é irmão gémeo destas crianças porventura já provavelmente mortas e substituídas por outras, que lhes imitam os mesmos traumas seis anos depois?
Uma coisa é certa: o hoje nunca nos pode satisfazer conquanto persista em nos demonstrar diariamente que, à falta de Deus, cabe ao Homem a transformação do inferno terrestre numa aceitável forma de purgatório...

Logo nas primeiras imagens quem está por trás da câmara interroga uma rapariga, que se prostitui. Entregue a si mesma, ela ainda consegue emitir palavras de esperança em relação a um futuro melhor. Com a ajuda de Deus, sugere! Mas os próprios olhos traem-lhe o verbo: ela sabe que, mais do que fiar-se na Virgem, é obrigada a correr. Para sobreviver…
«Como vão as crianças?». A legenda aparece a separar sucessivos quadros, qual deles o mais incómodo para quem procurasse entretenimento nas imagens.
Na seguinte há corpos espalhados, amontoados, num casebre: o sono, provocado pelo cansaço, ou pela inspiração de colas e outros recursos alucinogéneos, constitui o paliativo para enfrentar a dura realidade da vigília. É a fuga possível às injustiças, que leva um dos miúdos, de olhos esbugalhados a emergirem do seu rosto de esfomeado a perguntar: «Mas já não há leis neste país?»
Injustiças feitas de diversas formas de violência, que lhes acentuam as marcas de cicatrizes por todo o corpo, sobrepondo-se ao encardido da porcaria ou às feridas deixadas por parasitas, que lhes sugam o sangue….
Há tanta tristeza naqueles rostos, que ainda é possível o espanto ao vê-la adensar-se, quando a chuva cai e os ensopa, forçando-os a escolherem refúgios de circunstância aonde o espaço ainda se mostra mais apertado… Ou quando um pequeno cão morre à nascença e força lágrimas, que se julgariam definitivamente esgotadas nas suas glândulas.
O cinema deve ser assim: não deixar indiferente quem o vê. Mas depois de sacudida a letargia para que nos empurra a letargia dos dias, que se pode fazer em alternativa? Acentuar a nossa consciência social? Reagir ao deparar-se-nos na rua quem é irmão gémeo destas crianças porventura já provavelmente mortas e substituídas por outras, que lhes imitam os mesmos traumas seis anos depois?
Uma coisa é certa: o hoje nunca nos pode satisfazer conquanto persista em nos demonstrar diariamente que, à falta de Deus, cabe ao Homem a transformação do inferno terrestre numa aceitável forma de purgatório...
sexta-feira, março 10, 2006
EXEMPLOS DO NOSSO CONTRADITÓRIO VIVER
A discussão sobre os «cartoons» relativos a Maomé e sobre as reacções em todo o mundo islâmico, continua na ordem do dia. Porque continua difícil o estabelecimento da fronteira entre a liberdade de expressão e a sensibilidade ferida de toda uma camada de crentes. No «Público», o José Vitor Malheiros procura situar esse ponto de eventual convergência:
Há quem tente comparar o comportamento do cartoonista que não aceita ser calado, ao do «muçulmano» que não aceita ser ofendido. A analogia está ferida, porque os comportamentos não são simétricos. Enquanto a acção do muçulmano nesta parábola pretende forçar o cartoonista e restringir os seus movimentos, a acção do cartoonista não força nem limita o muçulmano. E esse respeito da liberdade (de ambos os interlocutores neste confronto) é, nas democracias liberais, mais importante que o risco de ser ofendido. É que a única maneira de evitar a possibilidade de ser ofendido é aceitar a certeza de ser escravizado.
Volta a constituir um problema a questão religiosa, sobretudo pelo fanatismo de quem procura assumir uma estratégia proselitista em relação aos que não crêem nas suas convicções. De um lado está esse mundo islâmico, com um crescimento demográfico, que coloca muitos dos seus jovens sem esperança de conseguirem os empregos necessários para auferirem do direito a alguma esperança de normalidade e do outro esse Ocidente envelhecido e consumidor obsessivo de bens invejáveis em vias de se fechar em torno dos seus próprios labirintos.
Neste lado da trincheira, a questão divina está eivada de respostas cépticas, desde a radical rejeição da existência de qualquer forma de transcendência até à complacente aceitação de rituais, que se cumprem por rotina em certas ocasiões específicas da vida, como é o caso dos casamentos e dos baptizados.
Foi neste cenário, que o filósofo francês Quentin Meillassoux escreveu o seu ensaio «Après la finitude», que adopta como subtítulo «Ensaio sobre a necessidade da contingência». E essa contingência é um Deus, que ainda não existe, mas a ser inventado à força de tantas vezes invocado. Sobretudo, porque é a única possibilidade de tornar sustentável uma certa forma de imortalidade assente na ressurreição dos mortos de acordo com uma perspectiva laicizada.
Perante o caos mental inerente à revolta por tanta morte precoce de crianças de tão tenra idade ou de quem ainda tanto haveria a esperar em termos criativos, resta consolidar a ideia de uma crença messiânica derivada do desejo da sua existência.
Essa crença permite ordenar esse caos mental de quem se sente perturbado pela contínua mudança das referências circundantes. Tanto mais, que neste mundo sem Deus, existe uma aparente ordem por cima desse caos vigente. Leis contingenciais, que possam ser o sustentáculo desse devir por elas condicionado, por elas ordenado…
A tese tal qual assim se apresenta não parece sólida para um ateu empedernido, como é o meu caso. Mas, para quem tem verdadeira necessidade de acredita num sentido qualquer para explicar o que não parece ter qualquer justificação, até nem desmerece de tantas outras hipóteses metafísicas…
Sobre a morte existe também a questão da eutanásia, que divide apoiantes e opositores em nome, uma vez mais, de princípios religiosos. Para Nicola Bardola o assunto apresenta uma perspectiva pessoal: os pais, através da organização «Exit» a que ele próprio pertence, decidiram suicidar-se, quando a doença de um deles já estava demasiado avançada para suportar a dor, optando por essa via definitiva em conjunto. Num romance recente ele procura contribuir para um debate desapaixonado sobre o assunto, mas realçando a coragem dos suicidas, condenando a interpretação psiquiátrica de uma eventual irresponsabilidade de quem toma essa opção e caracterizando muitas das actuais práticas médicas como sendo passíveis de prolongar a agonia sob a aparente vontade de aumentar o tempo de vida.
Atitude de ruptura com os valores vigentes foi, também, a de Jun Xing. Hoje ela é a diva da dança moderna em Xangai, mas em 1967, quando nasceu na Manchúria, enquanto filho de um militar aí colocado, Jun Xing era um rapaz.
Muito cedo o seu desejo de dançar leva-o ao exército aonde essa vontade é correspondida pelos espectáculos artísticos de propaganda. Razão para a sua rápida ascensão até ao posto de coronel enquanto reconhecimento pela sua condição de melhor bailarino chinês.
Em Nova Iorque conhecerá as opções mais vanguardistas da dança contemporânea ganhando aí idêntico reconhecimento enquanto bailarino de excepção. Até tomar conhecimento de uma nova técnica, desenvolvida no seu país, para pessoas como ele a contas com problemas de identidade sexual. A mudança de sexo fá-lo mulher, resolvendo esse desajustamento antigo entre o que sentia e o que dizia o seu bilhete de identidade. Seria a primeira operação de mudança de sexo na República Popular da China.
Hoje, casada com um alemão e mãe de três crianças adoptivas, Jun Xing procura sacudir o conservadorismo artístico de um regime, que também procura a forma de se transformar num projecto viável no futuro…
Um pouco ao norte dessa China em mudança, Lee Chang Dong é reconhecido como um dos seus intelectuais mais estimulantes, sobretudo enquanto realizador de cinema. «Oásis», um filme posterior à sua curta passagem pelo Governo, enquanto Ministro da Cultura, apresenta um homem simples, explorado pela família e condenado injustamente por um crime, que não cometera.
Trata-se de um filme sobre as fronteiras do que separa cada um de nós dos outros, mormente dos que apresentam deficiências mentais dos que aparentemente não as têm. O protagonista tentará violar uma mulher com esse tipo de deficiência, antes de por ela se procurar fazer amar…
Está-se entre o Bem e o Mal, entre carrascos e vítimas, numa metáfora à atitude esquizofrénica dos próprios coreanos, que continuam separados pela fronteira do paralelo 38.
Perante os seus temas, sejam eles literários e/ou cinematográficos, Lee Chang Dong confessa-se visitado, amiúde, por certas imagens, como se vivesse entre dois mundos.
Ora não é esse o destino do Homem Contemporâneo? Do que atrás fica explicitado não sobram muitas dúvidas. Todos nós vivemos entre dois mundos: entre o Ocidente e o Islão, entre a exegese religiosa e o mais radical ateísmo, entre a Vida e a Morte, entre a identidade masculina e a feminina, entre a loucura e a «normalidade»…
Tantos exemplos deste nosso contraditório viver...
Há quem tente comparar o comportamento do cartoonista que não aceita ser calado, ao do «muçulmano» que não aceita ser ofendido. A analogia está ferida, porque os comportamentos não são simétricos. Enquanto a acção do muçulmano nesta parábola pretende forçar o cartoonista e restringir os seus movimentos, a acção do cartoonista não força nem limita o muçulmano. E esse respeito da liberdade (de ambos os interlocutores neste confronto) é, nas democracias liberais, mais importante que o risco de ser ofendido. É que a única maneira de evitar a possibilidade de ser ofendido é aceitar a certeza de ser escravizado.
Volta a constituir um problema a questão religiosa, sobretudo pelo fanatismo de quem procura assumir uma estratégia proselitista em relação aos que não crêem nas suas convicções. De um lado está esse mundo islâmico, com um crescimento demográfico, que coloca muitos dos seus jovens sem esperança de conseguirem os empregos necessários para auferirem do direito a alguma esperança de normalidade e do outro esse Ocidente envelhecido e consumidor obsessivo de bens invejáveis em vias de se fechar em torno dos seus próprios labirintos.
Neste lado da trincheira, a questão divina está eivada de respostas cépticas, desde a radical rejeição da existência de qualquer forma de transcendência até à complacente aceitação de rituais, que se cumprem por rotina em certas ocasiões específicas da vida, como é o caso dos casamentos e dos baptizados.
Foi neste cenário, que o filósofo francês Quentin Meillassoux escreveu o seu ensaio «Après la finitude», que adopta como subtítulo «Ensaio sobre a necessidade da contingência». E essa contingência é um Deus, que ainda não existe, mas a ser inventado à força de tantas vezes invocado. Sobretudo, porque é a única possibilidade de tornar sustentável uma certa forma de imortalidade assente na ressurreição dos mortos de acordo com uma perspectiva laicizada.
Perante o caos mental inerente à revolta por tanta morte precoce de crianças de tão tenra idade ou de quem ainda tanto haveria a esperar em termos criativos, resta consolidar a ideia de uma crença messiânica derivada do desejo da sua existência.
Essa crença permite ordenar esse caos mental de quem se sente perturbado pela contínua mudança das referências circundantes. Tanto mais, que neste mundo sem Deus, existe uma aparente ordem por cima desse caos vigente. Leis contingenciais, que possam ser o sustentáculo desse devir por elas condicionado, por elas ordenado…
A tese tal qual assim se apresenta não parece sólida para um ateu empedernido, como é o meu caso. Mas, para quem tem verdadeira necessidade de acredita num sentido qualquer para explicar o que não parece ter qualquer justificação, até nem desmerece de tantas outras hipóteses metafísicas…
Sobre a morte existe também a questão da eutanásia, que divide apoiantes e opositores em nome, uma vez mais, de princípios religiosos. Para Nicola Bardola o assunto apresenta uma perspectiva pessoal: os pais, através da organização «Exit» a que ele próprio pertence, decidiram suicidar-se, quando a doença de um deles já estava demasiado avançada para suportar a dor, optando por essa via definitiva em conjunto. Num romance recente ele procura contribuir para um debate desapaixonado sobre o assunto, mas realçando a coragem dos suicidas, condenando a interpretação psiquiátrica de uma eventual irresponsabilidade de quem toma essa opção e caracterizando muitas das actuais práticas médicas como sendo passíveis de prolongar a agonia sob a aparente vontade de aumentar o tempo de vida.
Atitude de ruptura com os valores vigentes foi, também, a de Jun Xing. Hoje ela é a diva da dança moderna em Xangai, mas em 1967, quando nasceu na Manchúria, enquanto filho de um militar aí colocado, Jun Xing era um rapaz.
Muito cedo o seu desejo de dançar leva-o ao exército aonde essa vontade é correspondida pelos espectáculos artísticos de propaganda. Razão para a sua rápida ascensão até ao posto de coronel enquanto reconhecimento pela sua condição de melhor bailarino chinês.
Em Nova Iorque conhecerá as opções mais vanguardistas da dança contemporânea ganhando aí idêntico reconhecimento enquanto bailarino de excepção. Até tomar conhecimento de uma nova técnica, desenvolvida no seu país, para pessoas como ele a contas com problemas de identidade sexual. A mudança de sexo fá-lo mulher, resolvendo esse desajustamento antigo entre o que sentia e o que dizia o seu bilhete de identidade. Seria a primeira operação de mudança de sexo na República Popular da China.
Hoje, casada com um alemão e mãe de três crianças adoptivas, Jun Xing procura sacudir o conservadorismo artístico de um regime, que também procura a forma de se transformar num projecto viável no futuro…
Um pouco ao norte dessa China em mudança, Lee Chang Dong é reconhecido como um dos seus intelectuais mais estimulantes, sobretudo enquanto realizador de cinema. «Oásis», um filme posterior à sua curta passagem pelo Governo, enquanto Ministro da Cultura, apresenta um homem simples, explorado pela família e condenado injustamente por um crime, que não cometera.
Trata-se de um filme sobre as fronteiras do que separa cada um de nós dos outros, mormente dos que apresentam deficiências mentais dos que aparentemente não as têm. O protagonista tentará violar uma mulher com esse tipo de deficiência, antes de por ela se procurar fazer amar…
Está-se entre o Bem e o Mal, entre carrascos e vítimas, numa metáfora à atitude esquizofrénica dos próprios coreanos, que continuam separados pela fronteira do paralelo 38.
Perante os seus temas, sejam eles literários e/ou cinematográficos, Lee Chang Dong confessa-se visitado, amiúde, por certas imagens, como se vivesse entre dois mundos.
Ora não é esse o destino do Homem Contemporâneo? Do que atrás fica explicitado não sobram muitas dúvidas. Todos nós vivemos entre dois mundos: entre o Ocidente e o Islão, entre a exegese religiosa e o mais radical ateísmo, entre a Vida e a Morte, entre a identidade masculina e a feminina, entre a loucura e a «normalidade»…
Tantos exemplos deste nosso contraditório viver...
domingo, fevereiro 12, 2006
LUTAR PELO DIREITO DE SE DIZER O QUE SE PENSA...
Na televisão revejo esse crime irreversível, que constituiu a destruição dos Budas afegãos. Um regime inculto e intolerante reduziu a pó os vestígios de uma civilização milenar.
É inevitável a relação entre essas imagens e as dos últimos dias, com turbas em fúria a protestarem contra a liberdade de expressão dos cartoonistas dinamarqueses. Mesmo aceitando-se que na génese desses desenhos tenha estado a estratégia de confrontação da extrema-direita para com pessoas diferentes - e, então, no seu significado próprio, eles não obedeceriam a nenhuma inocente demonstração de uma ideia - as reacções políticas de alguns responsáveis europeus não me merecem acordo. Não só porque tenho bem presente o preceito voltairiano de uma supremacia da liberdade de expressão do pensamento sobre todos
os demais direitos, mas sobretudo, porque, tal como Edmund Burke, acredito que a barbárie afirma-se, quando o Homem civilizado peca por inacção.
É evidente que existem riscos em fazer o jogo da direita, ajudando ao tal choque de civilizações de que fala Huntington. Mas é preocupante a evidente ascensão dessa forma de fascismo islâmico, que ainda vem sendo crismada de fundamentalismo. O que acaba de se consagrar como força política maioritária na Palestina e vem ganhando influência crescente por todos os países do Médio Oriente e da Ásia…
É claro que, sem descurar culpas dos presidentes anteriores, foi George W. Bush quem mais contribuiu para essa situação: combatendo ditaduras até então laicas, como as de Saddam Hussein ou de Najibullah criou todo o ensejo de dominação dos mollahs e ayattollahs. A tanto o conduziu a cegueira pelo domínio dos poços do petróleo, que encarou como a melhor estratégia para impor uma dominação imperialista já mais que afirmada…
Nesse sentido, nós europeus, somos como que vítimas colaterais de culpas alheias? Porque, incapazes de repetirem os atentados de Nova Iorque, os terroristas vêm atacando capitais europeias aonde a imigração proveniente dos países islâmicos nunca constituíra problema.
Quando as posições xenófobas começam a encontrar um tal eco nas opiniões públicas, que Le Pen consegue atrair um quinto do eleitorado francês e que os neofascistas italianos conseguem integrar o Governo de Roma, pode-se considerar que o Homem Civilizado tem estado demasiado apático perante a realidade, que ameaça transformar o seu quotidiano em novas formas de genocídio.
A esquerda tem de mostrar uma enorme lucidez nas posições, que vier a assumir. Não pode ficar prisioneira de dogmas, que a realidade vai desmentindo. Mas não pode conotar-se com outras posições, que a privem dos seus princípios fundamentais.
Parece lógico que a União Europeia tome posições muito firmes quando milhões de muçulmanos são arregimentados para a ameaçarem com as piores consequências da sua não cedência aos ultimatos fascizantes dos fundamentalistas.
E onde não pode haver qualquer cedência é no respeito pelo direito de qualquer dos cidadãos exprimir o que lhe vai na alma...
É inevitável a relação entre essas imagens e as dos últimos dias, com turbas em fúria a protestarem contra a liberdade de expressão dos cartoonistas dinamarqueses. Mesmo aceitando-se que na génese desses desenhos tenha estado a estratégia de confrontação da extrema-direita para com pessoas diferentes - e, então, no seu significado próprio, eles não obedeceriam a nenhuma inocente demonstração de uma ideia - as reacções políticas de alguns responsáveis europeus não me merecem acordo. Não só porque tenho bem presente o preceito voltairiano de uma supremacia da liberdade de expressão do pensamento sobre todos

É evidente que existem riscos em fazer o jogo da direita, ajudando ao tal choque de civilizações de que fala Huntington. Mas é preocupante a evidente ascensão dessa forma de fascismo islâmico, que ainda vem sendo crismada de fundamentalismo. O que acaba de se consagrar como força política maioritária na Palestina e vem ganhando influência crescente por todos os países do Médio Oriente e da Ásia…
É claro que, sem descurar culpas dos presidentes anteriores, foi George W. Bush quem mais contribuiu para essa situação: combatendo ditaduras até então laicas, como as de Saddam Hussein ou de Najibullah criou todo o ensejo de dominação dos mollahs e ayattollahs. A tanto o conduziu a cegueira pelo domínio dos poços do petróleo, que encarou como a melhor estratégia para impor uma dominação imperialista já mais que afirmada…
Nesse sentido, nós europeus, somos como que vítimas colaterais de culpas alheias? Porque, incapazes de repetirem os atentados de Nova Iorque, os terroristas vêm atacando capitais europeias aonde a imigração proveniente dos países islâmicos nunca constituíra problema.
Quando as posições xenófobas começam a encontrar um tal eco nas opiniões públicas, que Le Pen consegue atrair um quinto do eleitorado francês e que os neofascistas italianos conseguem integrar o Governo de Roma, pode-se considerar que o Homem Civilizado tem estado demasiado apático perante a realidade, que ameaça transformar o seu quotidiano em novas formas de genocídio.
A esquerda tem de mostrar uma enorme lucidez nas posições, que vier a assumir. Não pode ficar prisioneira de dogmas, que a realidade vai desmentindo. Mas não pode conotar-se com outras posições, que a privem dos seus princípios fundamentais.
Parece lógico que a União Europeia tome posições muito firmes quando milhões de muçulmanos são arregimentados para a ameaçarem com as piores consequências da sua não cedência aos ultimatos fascizantes dos fundamentalistas.
E onde não pode haver qualquer cedência é no respeito pelo direito de qualquer dos cidadãos exprimir o que lhe vai na alma...
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