domingo, fevereiro 12, 2006

LUTAR PELO DIREITO DE SE DIZER O QUE SE PENSA...

Na televisão revejo esse crime irreversível, que constituiu a destruição dos Budas afegãos. Um regime inculto e intolerante reduziu a pó os vestígios de uma civilização milenar.
É inevitável a relação entre essas imagens e as dos últimos dias, com turbas em fúria a protestarem contra a liberdade de expressão dos cartoonistas dinamarqueses. Mesmo aceitando-se que na génese desses desenhos tenha estado a estratégia de confrontação da extrema-direita para com pessoas diferentes - e, então, no seu significado próprio, eles não obedeceriam a nenhuma inocente demonstração de uma ideia - as reacções políticas de alguns responsáveis europeus não me merecem acordo. Não só porque tenho bem presente o preceito voltairiano de uma supremacia da liberdade de expressão do pensamento sobre todos os demais direitos, mas sobretudo, porque, tal como Edmund Burke, acredito que a barbárie afirma-se, quando o Homem civilizado peca por inacção.
É evidente que existem riscos em fazer o jogo da direita, ajudando ao tal choque de civilizações de que fala Huntington. Mas é preocupante a evidente ascensão dessa forma de fascismo islâmico, que ainda vem sendo crismada de fundamentalismo. O que acaba de se consagrar como força política maioritária na Palestina e vem ganhando influência crescente por todos os países do Médio Oriente e da Ásia…
É claro que, sem descurar culpas dos presidentes anteriores, foi George W. Bush quem mais contribuiu para essa situação: combatendo ditaduras até então laicas, como as de Saddam Hussein ou de Najibullah criou todo o ensejo de dominação dos mollahs e ayattollahs. A tanto o conduziu a cegueira pelo domínio dos poços do petróleo, que encarou como a melhor estratégia para impor uma dominação imperialista já mais que afirmada…
Nesse sentido, nós europeus, somos como que vítimas colaterais de culpas alheias? Porque, incapazes de repetirem os atentados de Nova Iorque, os terroristas vêm atacando capitais europeias aonde a imigração proveniente dos países islâmicos nunca constituíra problema.
Quando as posições xenófobas começam a encontrar um tal eco nas opiniões públicas, que Le Pen consegue atrair um quinto do eleitorado francês e que os neofascistas italianos conseguem integrar o Governo de Roma, pode-se considerar que o Homem Civilizado tem estado demasiado apático perante a realidade, que ameaça transformar o seu quotidiano em novas formas de genocídio.
A esquerda tem de mostrar uma enorme lucidez nas posições, que vier a assumir. Não pode ficar prisioneira de dogmas, que a realidade vai desmentindo. Mas não pode conotar-se com outras posições, que a privem dos seus princípios fundamentais.
Parece lógico que a União Europeia tome posições muito firmes quando milhões de muçulmanos são arregimentados para a ameaçarem com as piores consequências da sua não cedência aos ultimatos fascizantes dos fundamentalistas.
E onde não pode haver qualquer cedência é no respeito pelo direito de qualquer dos cidadãos exprimir o que lhe vai na alma...

terça-feira, janeiro 31, 2006

ACIDENTES DE PERCURSO

Está, hoje, em causa este modelo de sociedade baseado numa filosofia ultra-liberal, que retira ao Estado quase todos os meios de intervenção, confiando na sagacidade equilibradora dos investimentos privados.
A velha crença num socialismo libertador, solidário e fraterno parece teoria há muito condenada pela História.
E, no entanto, a América Latina, de Norte a Sul, é varrida por sucessivas vitórias de candidatos de esquerda, como se os seus povos viessem a vingar-se dos efeitos terríveis das ditaduras dos anos 70.
Mas será essa orientação política bem sucedida, ou um efémero fluxo antes de ver seca a fonte que a alimentou? É uma questão, que encontrará resposta daqui a não muitos anos. Porque num processo revolucionário, como o empreendido na Venezuela pelo Presidente Chavez, só há duas soluções: vitória ou morte!
A vitória é possível, mas as dificuldades são imensas, se pensarmos em todo o ascendente do poderoso vizinho do norte. Aonde, porém, o Presidente está a contas com um fogo cerrado dos opositores, finalmente com meios de prova suficientes para denunciar as suas derivas totalitárias e os sinais de uma corrupção intensa fomentada pelos lobbistas.
Pessoalmente mantenho-me na convicção de que existem potencialidades na doutrina comunista, momentaneamente condenada pelos acontecimentos históricos mais recentes.
Se a queda do Muro de Berlim foi um indesmentível passo atrás, o fundamento em que a oposição dos seus regimes assentou - o de eleições pluripartidárias e livres - encontra agora uma surpreendente reviravolta com a vitória do Hamas na Palestina. Repetindo-se o já ocorrido há alguns anos na Argélia: para o Ocidente há eleições democráticas e eleições democráticas.
Na maioria dos casos, a sua influência precipita a vitória dos seus preferidos (e isso ainda há pouco sucedeu na Ucrânia ou na Geórgia). Mas, quando ganham aqueles com quem o Ocidente nunca desejaria contactar, a democracia acaba por revelar-se um regime com muitas limitações.
É assim, que se desmascara por si mesma a hipocrisia dos regimes ocidentais. Que semeiam ventos, de que resultarão futuras tempestades…
Uma sociedade diferente e mais justa pode ser construída. SE assente na racionalidade de uma divisão mais justa dos lucros decorrentes da actividade económica...

domingo, janeiro 29, 2006

DESFRUTAR AINDA A LENTIDÃO DO TEMPO

Jean Échenoz é um dos escritores franceses mais interessantes de entre os que regularmente vão publicando os seus livros de testemunho deste tempo de mudança. Ora, mudanças é o que ele ainda só pressentiu nas margens do Mékong foi a possibilidade ainda desfrutar a lentidão do tempo nesse Laos, aonde o rio é crismado de «Mãe das Águas» e as mulheres protagonizam rituais nas margens, quando uma viagem por ele se prepara.
O elefante é o animal emblemático deste país. Está no escudo nacional, mas, principalmente se é branco, indicia prosperidade, boa sorte. Por isso é tão cobiçado, que quem um deles consegue capturar, encarrega-se de o esconder num refúgio seguro, aonde esteja a coberto de algum roubo.
Se existem mudanças, elas são particularmente notórias nos «spreed boats», ou seja lanchas a motor, extremamente velozes, que levam, meia dúzia de passageiros sem disponibilidade para apreciar o desfile de pessoas e paisagens ao ritmo dos barcos mais tradicionais.
O rio fertiliza os arrozais enche de peixe as redes. Por isso camponeses e pescadores vão alternando enquanto o barco, que transporta o narrador, prossegue a sua rota com um carregamento de que foi incumbido. Mas a alimentação não se limita ao arroz ou ao peixe. Tudo quanto se mexa é para comer, sejam ratos, macacos ou morcegos. Nalguns casos, referem-se as virtudes benfazejas de alguns órgãos mastigados no aumento da potência sexual.
À noite os barcos param na margem para prosseguirem caminho ao dealbar do dia. Às vezes a Lua eclipsa-se. Fazendo crescer a inquietação destas populações que temem vê-la tragada em definitivo pela Grande Noite.
Perto da antiga capital - Luang Prabang - os monges budistas recebem arroz nas suas malgas, distribuídas por mulheres apostadas em conquistar os bons auspícios dos seus deuses. São eles quem dá vida aos pagodes e aos templos, que rodeiam o antigo e esplendoroso palácio real.
Vencida essa etapa o rio torna-se demasiado turbulento com os seus rápidos, que se julga constituírem morada de caprichosos génios. Ou da garimpagem do leito do rio aonde as jovens camponesas procuram ouro com os seus coadouros. Mas as poucas gramas assim obtidas à custa de intenso labor, terão vindo do rio em si ou das embarcações que, todos os anos se afundam a montante? Uma pergunta que fica em aberto…
O rio é tão perigoso, que as famílias vêm anualmente a umas grutas a juzante de Luang Prabang para entregarem as suas oferendas aos sacerdotes. Que encenam os conhecidíssimos ciclos de reencarnação, procurando vir a habitar o corpo de um bicho bem menos sujeito a agressões ou de extermínio.
Hoje, à beira rio, as raparigas continuam a banhar-se , enquanto vão passando os barcos com mercadorias para a China ou para o Vietname. Muitas vezes pilotados por marido e mulher…
Quando os acidentes levam estas frágeis barcaças é comum a crença de que as mulheres afogadas transforma-se em pássaros, enquanto os homens adoptam a personalidade de um golfinho. Que, por este motivo, não são há muito incomodados...

quinta-feira, janeiro 26, 2006

RECORDAR FALKENAU


Impressionante o documentário de Emil Weiss sobre o filme rodado por Samuel Fuller no campo de concentração de Falkenau no dia 9 de Maio de 1945.
É o próprio realizador norte-americano, já desaparecido em 1997, quem faz o relato em off das imagens por si então colhidas com uma câmara de amador.
Nos dias anteriores ele participara naquele que terá sido o último combate da II Guerra Mundial. Ocorrido nos Sudetas, exactamente no mesmo local, aonde sete ou oito anos antes, Neville Chamberlain proclamara ao mundo, que a paz estava garantida… Como se a História fosse caprichosa e destinasse o epílogo de uma tragédia ao local aonde ela se iniciara…
Uma tragédia, cuja dimensão mais terrível traduzida nos cadáveres abandonados à pressa pelos muitos campos de concentração, já começava a ser negada pelos que insistiam em encontrar explicações para a loucura criminosa de Hitler e dos seus comparsas.
Precisamente ali, em Falkenau, os notáveis da cidade atreveram-se a negar essa evidência ao capitão Richmond dessa mítica divisão Big Red One, que protagonizara esse derradeiro combate.
Foi esse militar, que instou o jovem Samuel a filmar o que se seguiria: esses notáveis foram «convidados» a retirarem os cadáveres esqueléticos das vítimas mais recentes dos crimes ali praticados ao lado das suas casa burguesas, a vesti-los, a alinhá-los por cima de lençóis brancos e, enfim, a enterrá-los numa vala comum. Depois de os transportarem pelas ruas quase desérticas de uma cidade envergonhadamente refugiada na ostensiva indiferença a um cortejo, que a acusava de cumplicidade passiva ou activa com os criminosos...

terça-feira, janeiro 24, 2006

REMOTO PASSADO

Já remoto passado parece a eleição de Cavaco Silva para Presidente da República. E, no entanto, só foi ontem…
No emprego ainda houve quem aludisse ao meu eventual desagrado com o resultado, mas a minha reacção cortou qualquer hipótese de prolongar esse desconforto:
- Quase nos cinquenta anos já vivi o suficiente para perceber que às derrotas de hoje se sucedem as vitórias de amanhã e vice-versa!
Essa relativização de algo que, ainda há pouco tempo, me causaria tamanha instabilidade emocional é outro dos ganhos desta maturidade conferida pelas rugas, que se vão acentuando no rosto…
Mas é óbvio o meu contentamento com as vitórias de Michelle Bachelet no Chile ou de Evo Morales na Bolívia. Ou o regresso de Lula da Silva à liderança das sondagens. Quando é a esquerda a vencedora iludo-me com a possibilidade de estarmos no limiar de uma sociedade mais justa e fraterna. Porém, as reportagens sobre as pessoas que votaram no novo Presidente elucidam-nos bem de como esse limiar é uma meta bastante distante. Quer numa aldeia em que os 61 eleitores deram 100% a Cavaco, quer em Grândola aonde há quem se mostre indigno do símbolo representado por tal burgo, os alegres apoiantes do vencedor revelam-se velhos em idade e em ideias, iletrados e boçais. Sem qualquer semelhança com essa gente de qualidade, que surge normalmente associada às candidaturas de esquerda, sejam elas mais intelectuais como no caso dos socialistas ou dos bloquistas, ou mais genuinamente populares no caso dos comunistas.
A vitória de Cavaco não vai significar nenhum drama, mas é o Portugal mais avesso aos caminhos da História, que acaba de pôr em Belém um político em quem é difícil reconhecer convincentes qualidades...

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Uma rapariga santa?

Há objectos assim: como que vindos de outros planetas e a aterrarem no nosso para surpreenderem, para nos confrontarem com as nossas rotinas, as nossas certezas.
«La Niña Santa» é um filme argentino realizado por Lucrécia Martel, mas igualmente com os Almodovares no genérico a título de produtores executivos. Mas a forma como aborda os temas concebidos pela sua criadora nada têm a ver com um cinema europeu e, muito menos, norte-americano.
A história é simples: num hotel termal da província v0lta a reunir-se um Congresso de Medicina, que leva até aí umas dezenas de participantes.
Um deles é o dr. Jano, que vive angustiado entre os seus desejos e a imagem social. Os primeiros dedica-os a uma rapariga adolescente, que surpreende no espectáculo de rua de um músico capaz de fazer sair sons dos seus movimentos e de um sintetizador electrónico. È no meio da multidão de espectadores, que ele aproveita para se encostar a Amália e a excitar-se com essa presença do seu traseiro encostado ao seu sexo. Sem saber que ela é a filha da dona do hotel, essa Helena despeitada por saber o ex-marido em vias de ser pai de dois gémeos e ansiosa por encontrar uma nova relação afectiva, que a retire do seu vazio sentimental.
Há, pois, um triângulo amoroso, que se esboça entre mãe e filha e esse homem de meia-idade, que vem de fora.
E as contradições de cada um deles: se o médico foge de Amália, quando ela o assedia, a rapariga vive a rebeldia para com uma religião católica quase fundamentalista, que procura assimilar nos rituais sem lhe conseguir corresponder nos preceitos.
A sociedade argentina tal qual surge aqui representada é surpreendente: cheia de preconceitos relacionados com essa influencia clerical, mas a rebentar por todas as costuras desse espartilho de aparências. O hotel termal é, a esse título, um microcosmos elucidativo quanto a essa revolução de valores e de costumes: por muito que uma funcionária passe o tempo a desinfectar os quartos e os salões ou uma promotora de uma empresa farmacêutica seja despedida por passar a noite com um dos médicos organizadores do Congresso, há um desejo omnipresente em quase todos os personagens: até na cozinheira, que foge da cozinha para aproveitar a sua função de fisioterapeuta para contactar com a pele dos que a ela recorrem para massagens. Ou a melhor amiga de Amália e sus condiscípula no colégio religioso, que não hesita em se deixar sodomizar pelo primo sempre que tem oportunidade, apesar de decidida a preservar a virgindade até ao casamento. Uma outra forma de demonstrar como, à falta de poderem assumir o desejo pelo sexo do outro e arcarem com as consequências - a gravidez - os personagens optam por opções de substituição.
Inteligente, e a contra-corrente de um cinema imaturo, feito para adolescentes, o filme de Lucrécia Martel opta por um final em aberto: apesar de estar iminente o desmascaramento da perversão de Jano, o filme acaba antes disso acontecer. Permitindo-nos todas as possibilidades de recriação deste universo e do que ele evoluirá a partir daí. Porque em sociedade tão condicionada é pela via do escândalo, que ela pode ver estilhaçados todos os seus fundamentos reaccionários. Libertando quem nela se frustrava para horizontes bem mais abertos…
Mas comecei por comparar este objecto a um autêntico alien. Porque, em aparência, todo este ambiente já nos parece tão distante: o salto dado em Portugal nos últimos trinta anos foi de tal monta, que muitos destes espartilhos parecem longe de nós. A revolução sexual parece instalada desde que a vitória de quem defendia o divórcio contra a regra do casamento para toda a vida passou a possibilitar que o amor passasse a ser eterno … apenas enquanto durasse.
E veio depois a condenação social de quem insiste em criminalizar a prática do aborto, ou o progressivo respeito pelos direitos à diferença de lésbicas ou de homossexuais.
Mas as histórias de pedofilia e de outras agressões contra as crianças mostram que existe ainda um potencial muito grande de frustração sexual, que vitimiza os mais novos e desprotegidos.
O que «La Niña Santa» explicita é a incompatibilidade de uma igreja, que não seguiu a via imprevisível, mas prometedora do Concílio Vaticano II e decidiu retomar uma visão do mundo, que é a da sociedade campesina da época pré-industrial. Cavando, mais e mais, o abismo entre si e uma sociedade aonde o desejo de felicidade ainda se confunde fundamentalmente com a expressão mais física das emoções…
A Argentina de Lucrécia Martel não estará muito distante de um certo Portugal, que conhecemos nas nossas infâncias. Quando a Igreja do Monte ainda se enchia para a missa de Domingo e os desejos refreados dos que nela se recolhiam eram expressados em histórias de bruxedos e de possessões demoníacas.
A imagem final - aquela em que as duas amigas flutuam na piscina - é por si mesma eloquente quanto à mensagem final do filme: as adolescentes alheiam-se dos dramas dos adultos de cujas teatralidades só lhes chegam os ecos e mantém-se à superfície, expostas de frente para o futuro e não de costas como os medos e preconceitos ligados ao passado as terão até ali imposto.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

A DIFERENÇA ENTRE O ESTEREOTIPO E A CRIATIVIDADE

O «Público» designou «Million Dollar Baby» como o melhor filme do ano. Uma oportunidade para identificar os seus leitores com uma entrevista dada por Clint Eastwood a Peter Bogdanovitch. Que recorda o que, já em 1968, Don Siegel dizia a propósito daquele que se tornou num dos principais realizadores norte-americanos dos nossos dias: «Clint Eastwood tem uma fixação no anti-herói. É o seu credo na vida e em todos os filmes que fez até agora insiste em ser o anti-herói. Nunca trabalhei com um actor menos preocupado com a sua imagem».
Ao seu entrevistador, Clint Eastwood conta como alcançou o aspecto visual do seu premiadíssimo filme: «Disse ao director de fotografia, Tom Stern: ‘Vamos tratar deste filme como se fosse a preto-e-branco. Se tivesse coragem filmaríamos a preto-e-branco.’ Falámos de sombras e então o que fiz, quando acabámos, foi garantir que o laboratório dessaturava a cor até ao limite. Retirei a cor, especialmente para o terceiro acto, quando vamos para o hospital, as paredes brancas, os lençóis, a nudez. Queria um ‘look’ dos anos 40. Disse ao responsável pelo guarda-roupa: ‘Vamos filmar isto como se fosse a preto-e-branco, não quero o ‘Feiticeiro de Oz’, quero que a cor seja imperceptível.»
O filme de Clint Eastwood foi um dos que, independentemente, das suas qualidades, não conseguiu evitar o decréscimo progressivo do número de espectadores nas salas de cinema: 2005 foi um ano de grande crise na indústria cinematográfica e no seu sector de exibição em particular. Os problemas agora evidentes nas salas do Paulo Branco são reflexo dessa crise.
Sobre ela escreve João Mário Grilo no mesmo «Público»:
«A questão do cinema como experiência de continuidade pode estar em risco. Hoje os norte-americanos já trabalham para filmes que integram dentro de si essa rotina de tempos fortes e tempos fracos. Ninguém aguenta uma hora e meia de montanha-russa, é preciso que ela suba e depois desça, e os filmes têm essa lógica onde há momentos em que se pode largar um pouco a atenção. O ‘King Kong’, desse ponto de vista, é um filme exemplar. Tem os intervalos metidos lá dentro: dez minutos de grande espectáculo, depois um intervalo - e esse intervalo não é um intervalo em concreto, é a parte mais humana da história, onde uma pessoa pode sair para ir comprar água, pipocas e regressar para dentro do cinema. E por aí adiante.
As coisas estão a avançar mais depressa do que as pessoas estão a ser capazes de digerir. O cinema foi a arte que mais mudou em menos tempo. E nenhuma outra arte experimentou isso.»
«Odete», filme de João Pedro Rodrigues, agora igualmente em Lisboa, não tem, por certo, essas tácticas de manipulação dos seus espectadores. Basta ler o que diz o realizador em entrevista ao mesmo jornal:
«Eu gosto do lado do cinema de observar, vem da ornitologia - a minha formação é de biologia e eu queria estudar ornitologia quando era mais novo. Por um lado, ver o tempo que demora a acção; o que tento captar sempre em cada cena e em cada emoção é o momento-chave… Gosto de filmes que nos dão a ver , por exemplo, como é que o corpo se mexe num determinado espaço. Um filme também é isso: como é que um actor vai do ponto A ao ponto B e como é que esse percurso pode ser mais ou menos interessante, contando determinadas coisas, exprimindo uma determinada emoção. Tento que haja sempre em cada plano e de um plano para o outro, uma tensão, que se passem coisas. Podem ser pequenas coisas, ínfimas, mas que sejam interessantes. (…) Para mim, os meus filmes não são uma seca. Porque acho que há uma tensão que pode estar na lentidão e não na velocidade. A coisa mais difícil no cinema é o ritmo - - as pessoas estão habituadas a ver num minuto trinta planos, em que o ritmo é dado pela montagem, e eu acho que o ritmo não é dado pela montagem. É dado pela tensão interna de cada plano, ou pela que cria com o seguinte ou com o anterior. Tento sempre ir no sentido de uma simplicidade: ter uma ideia e tentar encontrar o cerne dessa ideia, de uma maneira simples, mas que talvez não seja óbvia.»
Quem, no ano transacto, foi premiado por uma atitude de rejeição das ideias dominantes foi Harold Pinter, o drmaturgo inglês, que ganhou o Nobel. E que, desassombrado, acusou Bush e Blair de serem criminosos. «Deviam ser julgados no Tribunal Penal Internacional» pela invasão do Iraque. «Mas Bush foi esperto. Não ratificou o Tribunal Penal Internacional.»
Sobre ele escreve-se, ainda, no mesmo «Público»:
«Aos 75 anos, debilitado fisicamente por um cancro, mas com a vitalidade mental bem acesa, o dramaturgo inglês falou do seu teatro político dizendo que a objectividade era essencial, acusou os políticos de não estarem interessados na verdade mas na manutenção do poder e atacou como nunca a política externa norte-americana: ‘Os Estados Unidos apoiaram e em muitos casos engendraram todas as ditaduras militares de direita do mundo depois da II Guerra Mundial. Refiro-me à Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador e, claro, Chile (…) Os crimes dos Estados Unidos foram sistemáticos, viciosos, sem remorsos, mas muito poucas pessoas falam deles. (…) Exerceram no mundo um tipo de manipulação clínica do poder, disfarçado como uma força do bem universal. É um acto de hipnose brilhante, até perspicaz, muito bem sucedido’».
De outra forma de crime imperialista fala o realizador austríaco, Hubert Sauper, cujo documentário «O pesadelo de Darwin» substituiu «Aurora» no Nimas. Um filme aonde se demonstra uma tese muito forte: «É incrível como seja lá onde for que sejam descobertas matérias-primas os habitantes locais morram na miséria, os seus filhos se tornem soldados e as suas filhas prostitutas.»
Talvez por tudo isto, a fadista Aldina Duarte, que lança agora mais um disco, escolhe muito bem o pequeno núcleo de pessoas com quem se identifica. «São pessoas que numa época de grande barulho arriscam fazer coisas de grande intimidade - é uma forma de nos humanizar.». Ela diz que procura gente assim - tipo Tom Waits - porque lhe «faz confusão viver num mundo em que ninguém nos faz pensar».
O que essa gente faz «é uma espécie de alerta, algo que vai contra a maré».
De Clint Eastwood até à ex-mulher de Camané passámos pelo discurso de muita gente que continua a prezar um mundo às avessas das ideias estabelecidas. Seja pela estética - no caso daquele realizador norte-americano ou do de «Odete» - seja pelas ideias - no caso de Pinter - é reconfortante sentir que continua a haver quem resista, quem teime em mudar o que parece tão cristalizado, tão estagnado. Mas se, como demonstrava Galileu, até a Terra se move, muito mais se movem os homens, que nela continuam apostados em descobrir os caminhos da sua felicidade.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

UMA QUESTÃO DE MANIPULAÇÃO...

Num comentário a um dos posts, inserido no meu Blog, a G. coloca a questão de existir manipulação nas imagens, que nos precipitam para a compaixão para com as vítimas do tsunami em detrimento das desprezadas vítimas do Paquistão ou da Cachemira.
E é claro, que devemos reconhecê-lo: todas as imagens, sejam elas quais forem, carregam em si o estigma de uma manipulação. Porque nunca são objectivas nem, na maioria, inocentes. Elas transportam, implícitas, o ponto de vista de quem as captou, as montou, as realizou.
Seres permeáveis a todas as mensagens que nos rodeiam, podemos assumir uma certa proactividade, que nos permita ser manipulados pelas que mais nos convenham: quando compro o jornal A em vez do jornal B, quando prefiro parar o zapping no canal C em vez do canal D ou quando opto pelo filme E do cinema F em vez do filme G do cinema H, estou sempre a optar por entre as diversas manipulações com que me procuram condicionar num ou noutro sentido.
É por isso que a questão da propriedade dos meios de comunicação é muito mais relevante do que cingi-la à mera discussão da liberdade de expressão. Em Itália, por exemplo, há em aparência o respeito por esse pressuposto embora a realidade, condicionada pelo poder exagerado de Berlusconi nas televisões e nos jornais, seja bem diversa. Dirão alguns que isso não impedirá a sua previsível derrota nas próximas eleições mas, a acontecer, ela não se medirá na sua mais adequada dimensão quanto aos méritos ou deméritos das propostas políticas colocadas aos eleitores. Apesar de muito negativa para a ampla maioria dos eleitores, a lista comandada pelo cavalieri é capaz de ser derrotada por uma margem muito inferior à merecida…
É possível estabelecer um paralelo com o que se passará com as eleições presidenciais do próximo mês: foram os jornais e as televisões dominadas por quem detém o poder económico e pretende colher maiores dividendos do parcelamento da riqueza nacional, quem incensou um político medíocre, cuja governação foi um fiasco apenas escamoteado pelos então lautos subsídios comunitários, e que agora se apresenta como salvador da pátria.
Uma clássica operação de manipulação para vender gato por lebre. E que assusta os próprios infractores: depois de escorregar com a óbvia intromissão na área de intervenção do Governo ao propor um secretário de Estado para tomar conta do capital estrangeiro, ele foi obrigado a despir a máscara de quem nunca tem dúvidas e raramente se engana. E a dar o dito por não dito numa atitude muito pouco presidenciável…
Por isso há quem tema o que se irá passar nas próximas semanas, como se detecta nalguns colunistas dos jornais económicos mais relacionados com esse poder económico, que nele aposta para «temperar» as preocupações sociais do Governo: e quem admita a possibilidade de ver esfumar-se este favoritismo inquestionável se José Sócrates entrar em força na campanha…
A eventual divulgação da imagem de um político em ascensão - cuja determinação e sentido de Estado estão a produzir resultados, mesmo contra as egoísticas reivindicações das diversas corporações - ao lado do candidato Mário Soares poderá criar o efeito manipulador pretendido por quem se assume de esquerda. E virar por completo a relação de forças entre as várias alternativas surgidas nestas eleições...

quarta-feira, dezembro 28, 2005

ELEFANTES NO RIO DE AREIA

Um documentário, que marca o dia é o da BBC sobre os elefantes da Namíbia. Porque se a vida é difícil para tantos povos e animais nas mais diversas latitudes, os elefantes do deserto da Namíbia sobrevivem em condições extremas.
Durante anos é capaz de não chover, reduzindo o leito do Rio de Areia, aí existente, a uma paisagem de pedras e de terra cinzenta rodeada pela cor marciana das montanhas adjacentes.
A morte não é difícil de encontrar por estes lados: bastará a opção errada por um trilho, que conduz a coisa nenhuma, para mãe e cria se verem condenadas.
Ademais as viagens destes nómadas sob o sol inclemente são a única solução para o facto de existirem poços de água num local e vegetação comestível noutro muito distante.
Ainda se os seus estômagos tivessem a capacidade do dos rinocerontes, que tudo devoram, mesmo as plantas carregadas de veneno! Mas não: o desafio da sobrevivência cria engenhos, que não são assim tão alargados…
Vale o facto de, quando a situação parece mais desesperada, a chuva cair e transformar em leitos caudalosos o caminho de pedras do dia anterior. Mas é uma água efémera, porque a terra sequiosa bebe-a voraz. Só dando tempo a que as sementes, em hibernação há muitos meses, criem breves campos floridos.
Ao ver essas imagens cabe perguntar quais os efeitos do aquecimento global do planeta na alteração dos ecossistemas mais inóspitos. Apesar de terem vida distribuída por todos os seus cantos, a subida de um grau centígrado poderá causar um morticínio de que nem sequer tomemos imediata consciência… E, então os cem rinocerontes da região, os não muitos mais elefantes, os chacais, os palhaços do deserto (lagartos, que executam uma dança singular para não sobreaquecerem as patas), as gazelas e outros animais aí ainda livres, poderão ser contabilizados à conta das espécies extintas.

terça-feira, dezembro 27, 2005

UM ANO DEPOIS DO TSUNAMI

Passado um ano sobre o tsunami, que varreu as costas do Sudoeste Asiático, as televisões foram pródigas em imagens sobre essa devastação.
Na maioria já as conhecíamos, mas há sempre uma certa atracção mórbida por revê-las, ao constituírem uma forma de exorcizarmos o nosso medo da morte, as nossas próprias inseguranças perante tudo quanto nos ultrapassa...
Estamos, de facto, num tempo de contínua obsessão com tantas fragilidades íntimas. Longe, muito longe, vai o passado em que nos acreditávamos invencíveis, irresistíveis, imortais. Em que os nossos desejos pareciam transformar-se em realidades.
Não foi assim. Crescemos, amadurecemos e encontrámo-nos reduzidos à dimensão de meros peões num xadrez planetário, aonde os reis e as rainhas é quem mandam…
E sentimos crescer o medo de sofrer.
Quando vemos o sucedido com este tipo de catástrofes, impressiona-nos a pequenez do homem perante a força dos elementos. Que se revelam cada vez mais mediáticas nas suas expressões diversas.
Inundações com as de Nova Orleães ou terramotos como o da Cachemira, só vieram confirmar que, em matéria de cataclismos, não há fronteiras humanas bem definidas: quer os países ricos, quer os mais pobres, são espaço privilegiado para as explosões de um planeta, que aposta em confundir as mais primárias explicações metafísicas.
Somos, pois, pequenos demais neste planeta de que somos hóspedes quase sempre abusadores dos seus equilíbrios.
Não adianta invocar um qualquer deus, nem acreditar no facto de serem coisas que acontecem só aos outros. Por que pode suceder-nos, quando menos esperamos.
Daí a questão natural: o que faria eu se estivesse ali?
É também por isso que revisitamos estas imagens: com elas acaba-se sempre por se aprender algo de possível, mesmo que remota, utilidade num futuro indefinido: por exemplo, como se detecta um tsunami através da perturbação dos animais ou do recuo das águas até para além da linha da maré baixa. Ou de como muitas mortes teriam sido evitáveis se, passada a primeira onda, a curiosidade não tivesse impelido para a praia muitos dos que a ela tinham sobrevivido. Um erro, que estivera, aliás, na origem de muitas das mortes do terramoto de 1755…

MOZART: O ARTISTA COMO SIMULADOR

No conjunto de textos sobre Mozart, que o «Nouvel Observateur» publica, o de Jacques Drillon é, não só o primeiro como um dos que melhor situa a personalidade do criador sem cuidar dos seus momentos cronológicos. O texto, que se segue é uma montagem dos trechos mais significativos desse artigo:

“O pai, Leopold, ensinou-lhe tudo. Por exemplo que o mundo é governado pelos ricos, que o dinheiro dá poder, mas não inteligência, nem talento; que é preciso admitir com o torcionário católico e romano, que a Terra não roda em torno do Sol, e a sorrir à marquesa analfabeta.
Mozart não leu nada, mas aprendeu tudo. Há pessoas assim. Talvez ele tenha aprendido isso tudo através da música? A música traz e recebe, abandona e conserva. Em troca do muito, que ela lhe ensinou, Mozart muito terá ensinado à musica.
A educação, que o pai lhe transmite tem um fundamento elementar: é preciso ser rico; para ser rico, quando se nasceu pobre, é preciso ganhar dinheiro; para ganhar dinheiro (sem o roubar) é preciso ter de que vender; para ter de que vender, é preciso ter feito algo; para ter feito algo é preciso saber fazê-lo; em suma: ao trabalho.
O estado natural de um objecto é o repouso, a estabilidade. Um lápis pousado sobre uma mesa; a mão de um homem, pelo esforço que ele efectua, mantém seguro o lápis num equilíbrio artificial. Depois, larga-o. O lápis procura a sua posição própria de equilíbrio, como se a desejasse. É assim, que o objecto vai variando de repouso em repouso, como o Sol vai do crepúsculo matinal ao crepúsculo do fim da tarde, confundindo-se numa única imagem, arroxeada, lânguida e plana. A melodia mozartiana é assim: descontraída, tensa, descontraída. Quase sempre tem a forma geral de um sino, que se eleva e volta a cair, como a luz da «Jovem Rapariga do Turbante» de Vermeer. Mozart segue à letra a curva dos fenómenos naturais: repouso, desejo, prazer, repouso; nascimento, vida, morte, e assim sucessivamente.
Amamos Mozart, que sentiu, mais do que reflectiu, parque o seu verde é o da erva, o seu azul é o do céu, e o seu perfil o das montanhas.
Se nunca se conseguiu explicar Mozart é porque se procurou a solução do seu génio pelo lado das suas qualidades. Pareceria lógico fazê-lo. Mas talvez fosse preferível procurá-lo pelo outro lado. O da sombra, aonde se escondem os vícios, os defeitos, as cobardias.
Como o homem de negócios contorna a lei em seu proveito, aparentando respeitá-la, Mozart torneia a lei paterna. A palavra ‘encomenda’, que, em francês, significa tanto a ordem de compra, como a obra encomendada, parece ter sido fabricada para ele. Em Mozart tudo é sabotado. Porque o Outro é o maior obstáculo, aquele que deverá ser enganado, rodeado. Então Mozart faz de conta que respeita a encomenda, mas subverte-a. Os instrumentos, os cantores, os chefes de orquestra, sabem que, nele, a simetria só é fachada. Tudo é curto em demasia ou mais longo do que o exige a norma…
Mozart apresenta-se a uma luz, que não é a sua, faz o contrário do que diz, oculta a perspectiva. Depois, mostra, depois esconde, e cada confissão tem por preço um mistério.”

A EXTENSÃO ABUSIVA DA MEMÓRIA

Jacques Julliard, na mesma revista, aborda os «venenos da memória». E trata a história de uma forma mais aprofundada, sem qualquer concessão à facilidade dos exemplos primários. Ele constata que “a história não é a moral. A projecção das normas éticas do presente sobre os acontecimentos passados é uma insensatez histórica, uma regressão intelectual, uma aberração científica, directamente proveniente do ‘politicamente correcto’ em voga em certas universidades americanas.”
O que vem a propósito, quando está a pretender-se empolar o êxito literário de um romance sobre Mao Zedong, apresentado como um ser execrável, todo caracterizado pelos piores defeitos, sem sequer dele se considerar a habilidade e a inteligência para mudar o mundo de uma forma tão significativa. Porque, seja a seu respeito, seja sobre outros casos lapidares como Staline ou Fidel de Castro, analisa-se um tempo histórico pelo crivo dos valores e do contexto político e económico do presente. O que é uma verdadeira desonestidade intelectual.
Mas Julliard prossegue a sua dissertação sobre a relação entre os assuntos religiosos e os assuntos de Estado: “como dizia Péguy, não basta fazer a separação entre a Igreja e o Estado; é preciso fazer igualmente a separação entre a metafísica e o Estado, e mesmo entre a ciência e o Estado”. Tese que não é seguida por quem procura impor limites à investigação científica através de leis estatais fundamentadas em preconceitos religiosos…
Os preconceitos, que importa marginalizar, sob pena de pôr termo à desejável laicidade do Estado: “ a extensão abusiva da memória em detrimento da história propriamente dita está em vias de se converter numa ameaça, quer para a liberdade de investigação, quer para a própria coesão nacional. Se se continua a mostrar a actual complacência, poder-se-iam ver, em breve, os protestantes a reclamarem justiça por causa da noite de S. Bartolomeu, os descendentes dos Cátaros pela cruzada contra os albigenses, e assim por diante. Para além de um certo prazo cronológico, é necessário curvarmo-nos perante a virtude amnistiante da história.”

segunda-feira, dezembro 26, 2005

UMA REALIDADE A CONTRACORRENTE

O «Nouvel Observateur» entrou de férias e, por isso, decidiu publicar um número duplo para abarcar duas semanas de leitura. Por sinal, um dos melhores exemplares desta revista desde há já vários meses. Com Mozart como chamariz de capa, mas com muitas outras matérias de interesse. A começar pelos editoriais dos principais colunistas, que procuram situar alguns dos episódios mais recentes da política francesa no rescaldo do cenário de guerra civil nos subúrbios.
Jean Daniel, por exemplo, reconhece que, “segundo uma sondagem realizada pelo «Le Monde» (…) um francês em quatro declara-se de acordo com as ideias de Jean Marie Le Pen, nomeadamente no que diz respeito à defesa dos valores tradicionais, da segurança, da situação nos subúrbios e da emigração. Mais grave, ainda, um francês em cada três considera que a Frente Nacional não representa qualquer perigo para a democracia”.
Contestando a leitura demasiado apressada dessa sondagem por extrair conclusões de perguntas contextualizadas de uma forma demasiado abrangente, Jean Daniel reconhece, ainda assim, “que a tendência actual de uma parte dos franceses é de fechar-se em si mesmo e rejeitar o outro”.
Essa sensação de se perfilharem certas ideias a contracorrente de uma realidade aparentemente adversa, surge, igualmente, na constatação pelo mesmo Jean Daniel de que, hoje em dia, “os Estados Unidos têm uma taxa de crescimento, que ultrapassa os 3,6%. Criam 200 mil empregos por mês. O consumo raramente foi tão forte e a inflação é nula.”

domingo, dezembro 18, 2005

UM VOTO BEM DEFINIDO

Uma semana de debates entre candidatos presidenciais deu para confirmar a opção cedo tomada enquanto eleitor:
Cavaco continua a ser personagem sinistro, que ameaça muito mais enquanto símbolo do lado troglodita do país do que pelos eventuais poderes presidenciais passíveis de serem por si utilizados.
Alegre confirma ter entrado na corrida por mera vaidade pessoal, encerrando-se hoje no seu labiríntico quadrado de que nem sequer descortina qualquer porta de saída.
Jerónimo tem a firmeza dos seus ideais, a simpatia da sua forma simples de se exprimir e a graça de algumas fórmulas de fácil apreensão pelo tipo de eleitores a quem se dirige.
Louçã é o mais bem preparado dos candidatos, dotado de uma visão ampla da realidade, mas demasiado cingido a uma radicalidade, que intelectualmente seduz, mas não consegue amplo apoio dos cidadãos.
E há, enfim, esse verdadeiro animal político, que é Mário Soares. Sem os conhecimentos de economia de Louçã, mas com a mesma visão global de um mundo em mudança em que se sente capaz de imprimir a sua marca.
Não é preciso dar grandes explicações sobre a minha opção. Vinte anos depois de aderir ao Partido Socialista está na hora de corresponder por inteiro à sua orientação quanto ao voto a colocar na urna…

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Exterminadores Implacáveis

Faz algum sentido a visão de um filme menor de Clint Eastwood na mesma semana em que o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, recusou-se a poupar a vida de Stanley Tookie Williams.
Este último liderara um gang de rua, quando era adolescente. Mas vinte e quatro anos depois do seu encarceramento, o homem maduro, agora executado, era uma pessoa tão diferente, que chegara a ser ponderado para Nobel da Paz nos anos mais recentes.
O filme «True Crime» (1999) em si é linear, maniqueísta e inverosímil nalguns dos seus desenvolvimentos, mas acaba por ser interessante enquanto veículo da ideia de existir sempre a possibilidade de se executarem inocentes para os quais não haverá jamais possibilidade de remissão das consequências de eventuais erros judiciais.
Os aspectos mais contestáveis do filme é Eastwood assumir a pele de um garanhão capaz de pôr na horizontal quase todas as mulheres, que deseja. Um papel à medida das preocupações andropáusicas do realizador.
Outro é a salvação in extremis de um condenado à morte, inocentado pela avó do assassino, que já está morto e enterrado, mas se predispõe a contra como ganhara o fio roubado do pescoço da grávida por ele morta. Sem que ninguém, aliás, o visse no local do crime…
E ainda há a exagerada utilização do sentimentalismo para forçar a identificação do público com o inocente em vias de ser injectado letalmente. Convenientemente convertido ao catolicismo e transformado em responsável chefe de família…
Mas se o filme tem todos estes defeitos consegue uma dinâmica eficaz na forma como coloca os espectadores a torcerem pela não execução do réu, pela crítica a um padre assaz contraditório com os princípios da sua fé e a uma testemunha particularmente entusiasmado com o protagonismo mediático conferido pela sua presença no local do crime. Ficando colateralmente aflorada a questão como a justiça é diferente se dirigida de acordo com a cor da pele dos seus suspeitos.
A recente ultrapassagem da barreira dos mais de mil executados nos EUA desde o regresso das penas de morte apenas enfatizou o aspecto bárbaro de uma forma de castigo, que só mancha quem a ela recorre. Se até a mais que ambígua Áustria se prepara para retirar o nome de Schwarzenegger no estádio de Graz aonde ele era homenageado, fica evidenciada uma vez mais a distância civilizacional entre a Europa e os EUA.
Somando a esta clara divergência a confissão de Bush, já nesta semana, em como reconhece 30 mil mortos no Iraque desde a ocupação norte-americana e a falta de fundamento na questão das armas de destruição maciça, fica demonstrado em como, na questão dos valores, é a Velha Europa quem se deve assumir como a defensora dos padrões humanistas contra a persistência da barbárie alimentada pela mentira e pela cobiça imperialista...

segunda-feira, dezembro 12, 2005

JEAN CHRISTOPHE RUFIN: «A SALAMANDRA»


EXTRACTOS DE UMA ENTREVISTA COM O AUTOR
Os leitores que me conhecem sabem que fiz, até agora, calhamaços, seja sobre temas históricos, seja sobre temas contemporâneos, objecto de muito trabalho. Com este romance aconteceu algo de diferente: era para constituir uma novela, que acabou por se tornar mais comprida do que era suposto. À partida eu só queria que fosse um conto, que viesse a integrar um livro com outros de tamanho reduzido. Um livro diferente do que estava habituado.
A história era verdadeira e tinham-ma contado no Brasil. Doravante ela passou a obcecar-me, a perturbar-me, a dar-me vontade de a escrever. Um caso muito simples: uma mulher vai viver para o Brasil e conhece um rapaz na praia. Vivendo uma paixão, que vai terminar ao mesmo tempo mal e bem. Ora, a verdade é o que há de mais difícil para ser tratado num romance.
A verosimilhança é diferente da verdade. Abordamos uma história e a verdade é como as pedras, não se as pode esculpir, mas sim polir , mantendo-lhes a forma. E com esta história foi parecido.
As coisas evoluem muito gradualmente. Em cada vida há sempre pequenas progressões em vez de grandes decisões. Uma série de pequenas coisas que vão conduzi-la a um estado irreversível.
É a última vez que farei um livro assim, já que prefiro protagonistas felizes. É a primeira vez que faço um livro onde se vive algo de duro. Quis aqui mostrar como se operava uma sedução, apesar do horror e da violência.
O livro tenta revelar o rosto escondido do terceiro mundo, de o mostrar tal qual é. Bem distante da vitrina exótica ou do mito revolucionário. Este tema do encontro entre os ocidentais e o seu terceiro mundo fantasiado, com o terceiro mundo real, percorre todos os meus romances. Tento ultrapassar a visão idealizada desse terceiro mundo para chegar a algo de muito mais ambíguo, e, segundo penso, muito mais real.
Um mundo ambivalente, ao mesmo tempo feito de riqueza e de violência, repulsivo e atraente, doce e duro, que está no eixo desta narrativa.
Tento não me repetir de livro para livro. Mas é verdade que aqui se volta a abordar a riqueza e a pobreza. Há aqui alguém que é mais rico que o outro, mas que no seu país - a França - é igual à maioria das outras pessoas . Catherine até vem de uma família pobre, e continua-o a ser de alguma maneira já que vive só… Pelo contrário Gil é pobre mas é rico em humanidade.
Através dessas duas pessoas dá-se o encontro entre dois mundos. A sua relação inverte-se e o que é interessante é que essa posição cruza-se, muda e transforma-se. Os personagens deixam de ser exóticos, para surgirem tal qual são: egoístas, duros, avaros por dinheiro. A atracção, que eles então exercem não enfraquece, mesmo que mude de natureza.
O Brasil é um país aonde se confia. Pode-se ter este tipo de percurso. Aliás muitos turistas acabam por ter aí problemas por não se darem conta de como o perigo pode surgir com cores muito sorridentes. A proximidade entre o extremo conforto, o extremo desejo, o lado paradisíaco, é muito grande. De repente pode-se ficar numa situação insustentável. Enquanto noutros países o perigo é mais perceptível.

UMA OPINIÃO PESSOAL

Há livros incómodos de ler. Porque, quando se trata de romance convencional existe - por muito que se o queira evitar - a natural identificação do leitor com alguns dos personagens. Ora Catherine, a protagonista deste livro, incomoda pelo que de irracional se revela no seu comportamento. O de quem julga ver o Sol e quer a ele ascender com umas asas feitas de cera. Despenhando-se com o mesmo fragor do infeliz Ícaro.
Ao princípio situamo-la como uma funcionária mediana de um não menos mediano escritório parisiense e com um passado tão cinzento como a cor desses dias, que deixa para trás, ao partir para o Recife, aonde um casal amigo lhe dá breve guarida.
Já passados os quarenta anos, Catherine nunca conhecera as alegrias do amor e, muito menos, as que o corpo pode prodigalizar. Por isso ela vai ter uma descoberta fascinada junto de um jovem gigolo, Gilberto, que lhe dá prazer e a cumula de atenções.
Mesmo adivinhando-lhe maior interesse no seu dinheiro do que nela própria, Catherine não consegue libertar-se da escravatura de sentimentos, que ele nela gera. E por isso não hesita em regressar muito brevemente a Paris para conseguir um razoável pecúlio com a venda do seu apartamento e com a rescisão amigável do seu contrato de trabalho, e voltar para os braços de Gil. Com a convicção de comprar-lhe a quase exclusividade dos afectos com tal maquia - suficiente para ele almejar à compra de um bar de onde poderá ver garantido o seu futuro.
Catherine não compreende que está a criar condições para se ir afundando de degradação em degradação. Primeiro ao ter de suportar os amigos do amante, ainda mais mal encarados do que ele próprio. Depois, participando com eles no roubo de umas telas, que eles não têm qualquer pejo em vandalizar, quando se torna evidente a dificuldade em as retirar das molduras. E, enfim, sendo por eles espoliada de todo o dinheiro, que lhe restava num precário esconderijo.
Sem dinheiro, ela vê-se abandonada, entregue a si própria no ambiente equívoco do Carnaval. Mas descobrindo aonde Gil vive com outra mulher, vai aí procurá-lo no propósito de se humilhar uma vez mais, pedindo-lhe migalhas de um amor, que sabe impossível.
Mas ele pontapeia-a, rega-a com gasolina, pega-lhe fogo.
É uma mulher seriamente queimada, que o cônsul francês no Recife vai encontrar no hospital. E por quem sente uma enorme compaixão. Mas nada poderá fazer por ela, já que, mesmo desfigurada, ela recusa-se a inculpar Gil em tribunal. O seu louco amor é feito de uma entrega incondicional, mesmo sem nada receber em troca.
E ela substituirá a também deformada Conceição na baiuca da praia aonde conhecera Gil, tornando-se na patroa de um conjunto de miúdos, que vendem bebidas a quem vem para a praia e não imagina os dramas, que moram ali ao seu lado...

domingo, dezembro 11, 2005

«LA SALAMANDRE» de JEAN CHRISTOPHE RUFIN

Existe no céu astral uma constelação pouco conhecida e quase invisível: a do Camaleão. Ao abrir o ultimo livro de Rufin antes de pensar na salamandra é ao camaleão, que se é forçado a pensar. Como ? Passar com uma tal facilidade do ensaio político para o romance histórico, do romance histórico para a ficção científica e, depois, desta para o romance sentimental! Há nele uma frescura à moda de Pagnol: como não sabe que é impossível, fá-lo. E com que talento!
«A Salamandra» é, pois, um romance sentimental, uma harmónica que Rufin ainda não experimentara. Catherine, a sua nova heroína, é uma francesa de 46 anos. Na iminência da menopausa, ela afoga-se em trabalho até a empresa quase a obrigar a meter férias.
Primeiro contacto com o calor: as férias decorrerão no Brasil! Viva o Recife e a sua praia. Aonde Catherine se sente renascer...
Segundo golpe de calor: ela conhecerá um jovem brasileiro, um gigolo, que ela aceitará tal qual ele é.
Ela irá deixar-se - numa terceira etapa abrasadora - queimar com ele na paixão dos jogos carnais. No que se transformará em elucidativa parábola…
Mas voltemos a esse animal enigmático, que dá pelo nome de salamandra: ela vive no ou do fogo?
Até onde o ser humano precisará de um objecto de desejo? Até onde se poderá dizer, que é autónomo?
É claro que se pode criticar em Rufin a inexistência de uma qualquer inovação formal. Que o seu livro em nada contribuirá para a História da Literatura.
Não faz mal, porque que capacidade narrativa. Que coragem, igualmente, para assumir uma sensibilidade feminina até a uma dimensão de que o julgaríamos incapaz.
Um Rufin íntimo, que regressa ao Brasil, já não como o do «Rouge Brésil», o continente do século XVI, então um paraíso terrestre povoado de canibais mais sábios do que os cristãos.
Em «A Salamandra» não há justiça, pelo menos de acordo com as convenções da lei. O paraíso dos canibais transformou-se numa favela.
De que estrela caiu a salamandra?
(Lire)

sábado, dezembro 10, 2005

MORRER DE AMOR...

Em 10 de Maio de 1936, uma mulher japonesa, de nome Sada, é presa numa rua de Tóquio, quando levava consigo o pénis do amante, com quem passara os últimos dias num quarto de hotel. A obsessão sexual latente nesse episódio tinha por fundo a ascensão do militarismo no país do Sol Nascente. Ora Nagisa Oshima, que abordou esse caso no seu filme «O Império dos Sentidos», considera a indissociável relação entre a sexualidade e a política. Foi por o ter compreendido, que reorientou a sua filmografia para essa interligação a partir de fase adiantada da sua carreira criativa.
No Japão a sexualidade não pode ser vista pelo habitual filtro ocidental, que não consegue livrar-se dos valores judaico-cristãos. Não admira que, ao invés do Ocidente, a sexualidade seja mais ostentatória, como o demonstram os mangas. Mesmo apesar da censura …
Mas Tóquio cataliza em si grandes contrastes: apesar de oficialmente proibida a prostituição existe em certos bairros da cidade…
As proibições terão tido, por sinal, um efeito de reacção: mesmo não se podendo mostrar o púbis, o cinema erótico japonês conhece um fulgor assinalável. É o «pink cinema».
Koji Wakamatsu é um dos seus mais significativos autores. Em 1967 o seu filme «Os Anjos Violados» causou escândalo em Cannes. Era a história de um rapaz, que conseguia entrar num apartamento aonde viviam diversas enfermeiras e a todas matava excepto a uma delas, após uma orgia de sexo e de sangue…
Nagisa Oshima confessaria a influência desse filme, quando cuidou de rodar o seu primeiro «Império».
Filmes de pequeno orçamento, rodados em poucos dias, os «pink» dão uma enorme liberdade aos seus realizadores, que fazem aí tirocínio antes de passarem para o cinema mais convencional.
Takahisa Zeze é o realizador de «Tokyo x Erótica», de 2001, em que a Morte vem buscar o amante de uma rapariga não prescindindo de o sodomizar à sua frente. Evoluindo em sucessivos ambientes temporais, o filme conclui-se com o suicídio da própria rapariga. Eros e Tanatos aparecem, pois, scontinuamente associados.
Takashi Miike opta por um Sado-masoquismo e pelo carácter ambivalente da Mulher: ora doce, ora extremamente perigosa. Em «Audição», uma mulher vinga-se dos abusos de que fora sujeita, torturando os amantes dentro do princípio de que só existe sinceridade na dor.
Mas estas questões não se cingem ao cinema: em «Out» a escritora Natsuo Kirino fala da rotina entediante de algumas mulheres, que trabalham numa linha de produção da industria alimentar. Quando uma delas mata o marido, corta-o aos bocados e invoca a ajuda de uma das colegas para conseguir escamotear o cadáver.
Numa entrevista a escritora assume o seu interesse pelos perdedores e pelo tema da violência decorrente da sexualidade. Por isso os seus livros estão pejados de violações e outras formas de violência.
Mas numa sociedade marcada pelo budismo zen a morte tem pouca importância: é a própria civilização quem classifica de efémero tudo o que existe.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

UM BAILE ...

Um autêntico baile o que Francisco Louçã deu a um atarantado Cavaco Silva, que revelou, uma vez mais, a sua incapacidade para ter respostas à altura do candidato presidencial do Bloco de Esquerda.
Cavaco foi incapaz de olhar o seu opositor olhos nos olhos, o que revela uma óbvia cobardia.
Cavaco foi incapaz de disfarçar o nervosismo de quem só tem fórmulas gastas para rebater a números concretos de um doutorado em Economia a quem foi incapaz de demonstrar o respeito devido, procurando achincalhá-lo com o tratamento de «deputado Louçã», apesar de se ver tratado de «senhor professor» por quem tem o mesmo grau académico que ele.
Cavaco não se conseguiu dissociar das posições muito bem denunciadas por Louçã a respeito de algumas das mais pertinentes evidências colhidas nas afirmações dos seus apoiantes: Ulrich, que defendia o corte de 10% nas remunerações de todos os trabalhadores; os «iluminados» do «Compromisso Portugal», que defendiam o despedimento puro e duro, sem qualquer entrave para a entidade patronal.
Mas onde Cavaco esteve pior, em tudo quanto de mal se lhe revelou, foi na incapacidade de contrariar o que é a memória dos seus anos de (des)governação:
- a forma como desperdiçou os muitos milhões vindos da Comunidade Europeia para modernizar o país e qualificar os portugueses e se perderam nos muitos exemplos de corrupção então vividos;
- a forma como foi ele quem criou o tal monstro no funcionalismo público, hoje tão difícil de tornear;
- a forma como sempre conviveu com défices orçamentais, que se catalizaram nos extremos agora obrigatoriamente a equilibrar pelo Governo de José Sócrates.
Todos sabemos que cada povo merece os políticos que tem. Mas se a opção dos portugueses for pelo filho do gasolineiro, que não suporta a pressão do debate e todo ele se exprime na tremura das mãos e dos olhos, é caso para ficar descoroçoado com o nosso estado das coisas: em vez da herança dos nossos mais lúcidos antecessores, estaremos antes ao nível dos que nos afundaram nos períodos mais negros da noss História.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

A FORÇA DAS CONVICÇÕES

«Shalimar, o Palhaço» é o título do mais recente romance de Salman Rushdie. Passado na Cachemira, ele tem por protagonista um homem incapaz de fazer mal a uma mosca, que se tornará num assassino, quando vê a mulher trocá-lo pelo embaixador norte-americano na região.
Num longo processo de transformação pessoal, ele irá até ao continente norte-americano para, aí se fazer contratar como motorista pelo homem, que lhe suscitara tal infelicidade.
Será perante a enteada resultante dessa ligação amorosa, que o mortificou, que ele assegurará a sua vingança.
Para Rushdie foi importante demonstrar que o autor de um acto terrorista não é um ser diabólico, movido por intento irracional. As razões de Shalimar serão suficientemente fortes para explicar o seu acto. A exemplo dessa Cachemira donde ele provém: o escritor ainda se lembra como esse era um canto paradisíaco do planeta há duas ou três décadas.
Hoje, pelo contrário, cheira a pólvora, a sangue, a guerra permanente…