domingo, junho 15, 2014

HISTÓRIA: Crimes na corte dos Médici

No século XVI os Médici eram os donos incontestados da Toscânia e influenciavam todas as cortes europeias graças a uma hábil política matrimonial.
Catarina de Médicis tornou-se na esposa do futuro rei francês Henrique II, na mesma altura em que Cosme foi coroado duque de Florença em 1537.
O poder da família está no seu auge mas, ávidos de poder, os seus membros irão perder-se em querelas impiedosas.
A cripta da Igreja de São Lourenço abriga quarenta e nove túmulos, muitos dos quais anónimos. Terão sido Médicis caídos no esquecimento ou a quem se tenha pretendido apagar da história familiar?
Graças às técnicas da polícia científica, historiadores e bio arqueólogos reconstituem a história movimentada dos domnatio memoriae, ou seja, dos banidos da memória.
Três dos filhos de Cosme terão ficado mais conhecidos na História. A filha favorita, Isabella, era culta, poliglota, música e mecenas, merecendo uma assinalável liberdade em relação ao que eram os costumes do seu tempo e para escândalo dos irmãos: Francisco, o primogénito e sucessor do pai, e Ferdinando, o mais novo, que, enquanto cardeal velava pelos interesses da família na corte pontifícia.
Com a morte de Cosme em 1574 tudo muda: quando a brilhante Isabella morre dois anos depois, ela é esquecida e o seu cadáver desaparece.
Terá sido por acidente ou por crime urdido pelo marido ciumento e pelos seus invejosos irmãos? A análise do ADN e a reconstituição facial permitirão identificar os restos mortais, até então, anónimos, de uma mulher de cerca de trinta anos, encontrados na cripta.
Em 1578 o duque Francisco, que sucedera ao pai e governara Florença com mão-de-ferro, enviúva de Joana de Áustria, quando esta vivia o parto do seu oitavo filho. Ocasião que, para grande escândalo dos Habsburgos com quem por casamento, selara importante aliança, ele aproveita para casar com a amante, a veneziana Bianca Cappello.
Em 1587 o casal morre, supostamente de malária, e com poucas horas de intervalo. O ambicioso Ferdinando torna-se no grande duque da Toscânia, sucedendo ao irmão, em cuja morte, dizem os rumores, terá intervindo mediante a aplicação de um eficaz veneno.
Para resolver o enigma os investigadores seguem duas pistas: a análise toxicológica dos pelos da barba encontrados no sarcófago de Francisco e a busca pelo corpo de Bianca, que fora enterrada longe do esposo e cujos restos só foram encontrados quatro séculos mais tarde...

Nota - texto decorrente do documentário homónimo assinado por Judith Voelker e Alexander Hogh (2012)

DOCUMENTÁRIO: «The Vivian Maier Mystery» de John Maloof (2014)

Nos anos 50 existia uma mulher que percorria a cidade de Chicago para acorrer ao emprego de ama seca, mas que nunca se separava da sua máquina fotográfica. Durante as quatro décadas que se seguirão ela tirou cerca de cem mil fotografias, que ordena em 200 pastas. Mas esse esforço era ignorado por todos quantos a rodeavam.
Em 2007 o historiador amador John Maloof entrou num antiquário da mesma cidade e encontrou uma caixa de sapatos cheia de negativos de fotografias. Naquele momento não percebeu o tesouro, que tinha nas mãos e quanto ele iria mudar a sua própria vida. Mas, sete anos depois já realizou um documentário muito premiado e apaixonou-se pela fotografia, inspirado por essa mulher que nunca conheceu, mas cujo nome apenas encontrara numa pequena inscrição, que acompanhava esses negativos: Vivian Maier.
Quem era ela e porque nunca deu a conhecer as suas fotografias a ninguém?, interrogou-se John Maloof.
A sua investigação resultou precisamente nesse documentário intitulado, «The Vivian Maier Mystery» recentemente exibido na Berlinale.
Trata-se de uma pesquisa de tipo policial em torno do mistério de uma das mais talentosas fotógrafas de rua do século XX.



sábado, junho 14, 2014

LITERATURA: a escrita audiovisual de Jean Échenoz

Embora esteja publicado em português, Jean Échenoz é quase um desconhecido entre nós. E, no entanto, não seria difícil suscitar agrado com um desses romances onde acompanhamos a forma como Maurice Ravel vai tendo consciência da irreversível demência, que o distancia de quanto acumulara na memória.
É verdade que a sua prosa tem uma sonoridade em francês, difícil de reproduzir na tradução, mas a forma depurada como desenvolve os seus temas em romances pouco maiores do que contos longos, constitui um estilo facilmente a ele associável.
A obra mais recente, «Caprice de la Reine» acaba de surgir e contém novelas sobre um general, uma rainha, a Flórida e Heródoto. Mas, até por estarmos em ano de centenário, faz todo o sentido recordar o seu «14» em que aborda os acontecimentos de então a partir de uma pequena aldeia francesa, enfatizando a fadiga, os pequenos prazeres dos soldados, os prazeres mais irreprimidos e o crescente pânico.
Numa entrevista recente ele reconhece a importância da influência do cinema na forma como escreve: “como enquadrar a imagem, a técnica da montagem e a utilização dos diversos formatos para que as descrições sejam tão visuais e acústicas quanto possível. Tanto quanto seja capaz, tento escrever num estilo audiovisual!”.


MÚSICA: O Quarteto Ébéne visita a Bossa Nova com as vozes de Stacey Kent e Bernard Lavilliers

Com o seu décimo álbum o Quarteto Ébéne descobre os sons sul-americanos. Acompanhados pelos seus instrumentos os dois violinistas, o violoncelista e o violetista do grupo aterraram na praia de Copacabana e contaram com as participações das vozes de Stacey Kent, e Bernard Lavilliers.
«Brazil»  tem 26 minutos de puro prazer por parte de uma formação mais experimentada na música erudita, mas que não enjeita testar novas sonoridades, que a aproximam mais do jazz e das bandas sonoras para cinema.



quinta-feira, junho 12, 2014

CINEMA: Catherine Deneuve continua sublime!

(a propósito do filme «Ela Está de Partida» de Emmanuelle Bercot)
Houve um tempo em que se ia ao cinema para ver um filme por causa do realizador (um Bergman, um Antonioni, um Godard) ou mesmo por causa de um ator ou atriz (um Bogart, uma Magnani).
Foi um passado, que já não volta mais, perdida a mística desse gesto cultural pela multiplicação de alternativas onde os filmes passaram a ser vistos: primeiro a televisão, depois os vídeos e os DVD’s e, para já, a internet.
As salas de cinema transformaram-se em locais de consumo de pipocas e de coca-cola e, uma a uma, as salas lisboetas onde se podia assistir a cinema com C grande foram desaparecendo. Primeiro o Quarteto, depois o Londres, mais recentemente o King e os coros fúnebres não se quedarão por aí. Sobrevive a Cinemateca enquanto a falta de cultura dos governos de direita ainda a tratar como filho enjeitado.
Tudo isto porque ainda está nos ecrãs lisboetas um filme que lembra esse passado: «Ela Está de Partida» vale a pena ser visto porque tem como protagonista uma Deneuve, que continua a ser sublime no seu desempenho.
Ao interpretar uma sexagenária que empreende uma viagem em busca de uma derradeira hipótese de felicidade depois de perder o amante e ver falido o seu restaurante, ela demonstra porque ainda justifica a razão para se imaginarem filmes destinados a ilustrar o seu talento. E a realizadora Emmanuelle Bercot rodeia-a de uma panóplia de personagens secundários, que são bem mais do que estereótipos e merecem ser apreciados pelo que e como o representam.
Hélas, que no meio de tanto lixo visual e da intoxicação dos noticiários com o futebol e a guerra declarada pelo (des) governo ao Tribunal Constitucional, o filme acabe por passar completamente despercebido a quem o poderia e deveria apreciar...

Sobre ele escreveu o crítico francês Pierre Murat:
Um cigarro? O que não se faria por um cigarro?
Num súbito impulso Bettie deixa a mãe, a sua casa das bonecas e o quase falido restaurante para agarrar no carro e pôr-se a andar não sabe para onde.
Não irá longe que o carro logo avaria, pondo-a a implorar boleia sem sucesso aos raros automobilistas. Aterrorizados por tal aparição eles fogem o mais depressa que fogem.
Bettie vai então até á aldeia vizinha, mas é domingo e as lojas nem sequer abertas estão já que não existem.
Ei-la obrigada a pedir um cigarro a um senhor tão idoso quanto tremelicante: com os dedos deformados ele bem tenta depositar o tabaco na mortalha: «Chega! Já a posso fumar!».
Mas o gentil e imperturbável cavalheiro não desiste de levar a tarefa até ao fim!
Sempre à procura do cigarro, Bettie prossegue o caminho: num bar encontra apreciadoras de cerveja, um tipo que imita o som do javali e um jovem em cuja cama acorda na manhã seguinte sem saber muito bem como tal sucedeu.
Pressionada por um pedido urgente da filha a quem já não vê há anos, toma conta do desconhecido neto durante umas horas, levando-o consigo a uma gala de Misses envelhecidas, que, como ela, tinham sido em tempos Miss Bretanha…
Estamos, pois, num road movie, dirigido pela rara e sempre provocadora Emmanuelle Bercot,que já assinara «La Puce»(sobre a perda de virgindade de uma rapariga) e «Clément» ( a paixão de uma mulher por um pré-adolescente).
Durante a primeira hora de «Ela Está de Partida» temos uma mistura surpreendente de ironia e de sensibilidade. Os personagens andam em permanente fuga, como se se desencontrassem tão facilmente quanto se tinham encontrado. E a montagem subtil e abrupta acentua essa sensação de lufa-lufa e de amarras sempre em rutura.
Tudo se complica quando Bettie fica com o neto. È que já vimos muitos miúdos hostis, carentes de atenção, depressa conquistados pela afeição dos avós. Ainda assim Emmanuelle Bercot tenta não derrapar nessa súbita transição da inquietação para a harmonia.
Numa casa onde os rumores do mundo à volta perdem importância ela acaba por reunir, sem qualquer lógica, os seus dispersos heróis para usufruírem de um momento de pausa. Esses fugitivos estacionam numa breve pausa, sem se pacificarem, mas também sem guerrearem entre si.
Então, numa derradeira tarde, a mãe de Bettie entoa uma cantilena do passado, que costumava ser interpretada pelas prostitutas do «Prazer» de Max Ophuls. A realizadora filma os olhares que se entrecruzam, os amores que se esboçam. Subitamente, nessa fugaz quietude, como que arrancada do tempo, até o improvável se torna possível.
E há a sempre brilhante Catherine Deneuve, que chora de desgosto ao volante do carro. Que ri desbragadamente ouvindo o seu jovem sedutor seduzi-la. Que, entre risos e lágrimas, vai bebendo uma cerveja, enquanto conta ao guarda-noturno do armazém de móveis o lamentável fim do seu marido: asfixiado por uma asa de frango e socorrido pelo médico de que ela era amante e cuja mulher era por seu lado a amante do morto.



quarta-feira, junho 11, 2014

MÚSICA: «Sinfonia do Novo Mundo» de Dvorak

O quarto andamento da Sinfonia do Novo Mundo de Dvorak, interpretada pela Orquestra de Câmara Mahler, dirigida por Daniel Harding.