quarta-feira, janeiro 21, 2009

EXPULSEM O DEMÓNIO

Em Nova Orleães testemunhamos a mobilização dos habitantes de um dos seus devastados bairros para salvarem a paróquia, que constitui o símbolo dos que sempre são esquecidos.
Em «Shake the Devil Off», o realizador Peter Entell ilustra esse combate colectivo alimentado pela fé, pela cólera e pela música.
Quando somos convidados a entrar no bairro de Treme, o furacão Katrina já quase o destruíra seis meses atrás. A maioria dos seus habitantes perdeu pelo menos um membro da sua família, para além da casa ou do emprego. E a revolta omnipresente tem a ver com o abandono das autoridades que, em Agosto de 2005, falharam rotundamente na organização da evacuação da população e na urgente ajuda às suas necessidades.
Quem não poupou esforços para apoiar os seus desnorteados paroquianos foi o padre Jerome LeDoux, que lhes transmitiu o sentido da esperança. Ora, quando o bispo decide transferir o padre e fechar a paróquia, subitamente reduzida na sua importância pela fuga de muitos dos seus antigos fiéis, o bairro revolta-se. De imediato gente de todas as cores e confissões - incluindo as dos ritos africanos - reúnem-se na igreja disposta a resistir. Tanto mais que não estavam longe do local aonde, no século XIX, brancos e negros se reuniram em conjunto pela primeira vez para louvarem o Senhor.
Também por ali terá nascido o jazz, sempre ali presente em todos os cantos do bairro e até durante a missa.
Estão criados os condimentos para uma revolta apoiada por voluntários vindos de todas as direcões.
O realizador Peter Entell é um norte-americano radicado na Suiça, que filmou este documentário a convite de uma das suas amigas residentes no bairro em causa. Adoptando os melhores enquadramentos, Entell mostra-se cúmplice de um quotidiano trepidante onde lágrimas e risos podem perfeitamente coexistir enquanto antídoto aos traumas causados pelo furacão.
À indiferença do Bispo e do Governo Federal os revoltosos de Treme respondem com um hino de luta, cujo título é o do próprio filme. Entell confessa pouco ter realizado de acordo com o seu planeamento prévio, já que a Equipa entregou-se completamente ao turbilhão de acontecimentos do qual resgata momentos de eleição: como quando o padre LeDoux transita pelo cemitério aonde deverá dar missa.

terça-feira, janeiro 20, 2009

O 1º DIA DO PRESIDENTE OBAMA

Hoje é o primeiro dia da Presidência de Barack Obama. Há quem o considere um dia tão histórico nas nossas vidas como o foi o da chegada de Neil Armstrong à Lua ou o da Revolução do 25 de Abril, ou o do 11 de Setembro nas Torres Gémeas de Nova Iorque, sem esquecer a derrocada do Muro de Berlim.
Poderá ser, de facto, o advento de um novo tempo. O do retomar de uma esperança definhada durante décadas pelo militarismo do Pentágono e pela supremacia dos conceitos miltonfriedmanianos na Economia.
Obama entra na Casa Branca, quando o capitalismo selvagem está ainda atordoado pelos efeitos catastróficos da rédea solta em que o deixaram governantes e reguladores. E quando o Iraque pós Saddam é bem demonstrativo da importância de se negociarem diferenças em vez de se imporem conceitos.
Talvez seja pedir demais a um homem que estimule por si mesmo uma mudança para melhor deste mundo em que vivemos. Mas ele poderá simbolizar essa aspiração de utopia que, por anos a fio, pareceu abandonar a Humanidade. Pelo menos desde que ficou exemplificado como as mais generosas ideologias podem estimular as mais hediondas ditaduras…

sábado, janeiro 17, 2009

COM A GUERRA DE GAZA POR FUNDO

Como será o país daqui a uns anos? Se tempos houve em que tudo pareceria encaminhar-se para a resolução de muitos dos nossos atrasos e para a garantia de um tempo mais bonançoso, sucessivas crises importadas de fora e sem grande ajuda de quem, internamente, mais deveria lutar por esse objectivo, está a incrementar uma cultura de pessimismo para a qual não parece haver paliativo. Até um comentador de assuntos económicos comedido como o é Daniel Amaral aposta no advento de crises maiores:
Um país em exclusão social, onde a juventude não tem esperança, a família não se desenvolve e a população envelhece - um país como este é um barril de pólvora. A pobreza desperta situações de revolta, a fome é má conselheira e os desesperados não têm leis. Um país como este precisa de uma gestão com pinças, porque o mais pequeno descuido pode redundar em desgraça.


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Nos jornais vão surgindo comentários políticos sobre a Guerra em Gaza, muitos dos quais procuram legitimar o inimaginável: os crimes contra a Humanidade, que o poder sionista está a executar, matando gente encurralada numa exígua prisão territorial.
Acostados ao apoio da Casa Branca e de alguns governos europeus, que lhes servem de cúmplices nesse genocídio, os israelitas há muito perderam a legitimidade moral a eles conferida na condição de vítimas da barbárie nazi. Hoje são eles os bárbaros, que violam as mais elementares regras civilizacionais. E que mais contribuem para a justificação de outra forma de barbárie não menos odiosa: a dos fanáticos integristas, que se substituem aos políticos laicos um pouco por todo o mundo muçulmano.
É o insuspeito António Vitorino quem acaba por reconhecer numa das suas crónicas, que Israel não pode aspirar a sustentar as suas razões perante um cenário de verdadeira catástrofe humanitariamente, que deliberadamente está a provocar.


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Num documentário sobre a vida animal, o apresentador pondera no dilema moral de nos colocarmos ao lado do gnu acabado de caçar ou da leoa para quem essa carne garantirá a sobrevivência das suas crias.
Tal como no respeitante aos israelitas e aos palestinianos, ambos os lados têm as suas razões. Deverá ser terrível para a vítima sentir os dentes do carnívoro a apertarem-se nas suas goelas. Mas Tamu, a leoa em causa, já está tão fraca, que aquela presa será porventura a derradeira possibilidade de sobrevivência, quer de si, quer das três crias a quem já salvou de outras ameaças.
Impossível, pois, não tomar partido por um dos lados. No documentário em causa a simpatia do apresentador está com a leoa. No caso da Guerra em Gaza estou, obviamente, com as vítimas contra o seu predador sionista…


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A mais absurda irracionalidade está demonstrada num documentário televisivo dedicado à cultura da vingança na Albânia. Vigorando a regra do «olho por olho, dente por dente», as famílias vão-se matando entre si para comprovarem a sua honra e se mostrarem à altura dos que morreram violentamente.
Há uma freira, que se desloca num permanente corrupio de contactos para desarmar a raiva nos corações, mas o seu esforço parece fútil perante um tal peso das tradições.
E, no entanto, compreende-se facilmente, que iniciado um ciclo de morte entre duas famílias, ele jamais se concluirá … a não ser quando nenhum restar.

sábado, janeiro 10, 2009

«THE STING» de GEORGE ROY HILL

Em 25 de Abril de 1974 um dos filmes em exibição em Lisboa era «A Golpada» de George Roy Hill. Premiado com os Óscares desse ano o filme era o melhor exemplo de como as aparências iludem, de como a realidade diverge em absoluto daquilo que sugere. Ora nos dias anteriores à Revolução de Abril o país parecia completamente diferente daquele que despertaria para uma nova forma de encarar o mundo a partir desse acontecimento regenerador.
Regressar ao filme, passadas três décadas e meia, equivale a recordar essa ilação: que nem mesmo nas alturas mais difíceis, vale a pena desesperar, porque tudo pode suceder de um momento para o outro. Uma utopia ou mesmo um novo conjunto de circunstâncias, que devolva esperança ao cristalizado desespero…


Estamos em Chicago em 1936 e Johnny Hooker (Robert Redford) integra um pequeno bando de carteiristas apostado em pequenos golpes. Num deles, porém, tomam como vítima um correio da Máfia a quem conseguem extorquir uns bons milhares de dólares. O que leva o tenebroso Doyle Lonnegan (Robert Shaw) a ordenar a vingança inevitável.
O velho Luther, que contava reformar-se com a parte recebida desse último golpe, acaba por morrer, projectado para a rua a partir do seu modesto apartamento.
Conseguindo fugir, Johnny fica a saber pelo corrupto polícia Snyder a identidade do comanditário daquele crime e decide, ele próprio, procurar Lonnegan para fazê-lo pagar a morte do sócio. Para isso conta com a colaboração de Henry Gondorff (Paul Newman), que Luther lhe recomendara como sendo o professor ideal para a carreira de vigarista em que apostava. Mas, Henry está longe de o convencer de início, já que encontra-o completamente embriagado nas traseiras de um bordel aonde se esconde da polícia federal, depois de ter enganado um Senador.
Mas ele começa logo por lhe temperar as emoções de rápida vingança em que se poderá perder. E começam ambos a organizar uma golpada com a conivência de um grupo de outros vigaristas, que terá em Lonnegan a sua vítima, fazendo-o crer na possibilidade de ganhar uma fortuna com a aposta certeira em corridas de cavalos.
A armadilha é tão bem idealizada, que o mafioso fica sem meio milhão de dólares e acaba convencido que os autores dessa façanha morrem na agência de apostas clandestina.
E para Hooker a lição propiciada por Gondorff é tão completa, que inclui a salvação da sua pele, quando está em vias de ser assassinado por outro dos comanditários de Lonnegan e que fora sua breve amante pelo espaço de uma noite…

domingo, janeiro 04, 2009

VALSA COM BASHIR

É certo que, quer antes, quer depois do massacre dos campos de Sabra e de Chatila, a História da Humanidade tem sido fértil em massacres odiosos perpetrados por cobardes armados contra gente indefesa cujo único «crime» é serem obrigadas a estar no lugar errado à hora errada. Mas esse lamentável episódio ecoou ao longo destas décadas e continua a perdurar na memória de muita gente.
O problema com o realizador israelita Ari Folman foi precisamente o inverso. Ele estava lá num dos círculos de militares israelitas, que cercava os campos e protegia os falangistas cristãos autores do crime. E esqueceu tudo alienando tal vivência da sua memória.
O que perdurava era uma espécie de sonho em que, nu, ele e alguns amigos, emergiam da água junto a uma cidade sob um céu nocturno iluminado por «very lights».
O que quereria dizer tal sonho?
Instado por um amigo psicólogo a perscrutar nesse terreno complicado da memória ele vai ao encontro de outros amigos e antigos colegas para, das respectivas reminiscências, recuperar as suas.
Trata-se, pois, de uma viagem ao fim da noite da memória e em que está em causa toda a política militarista do seu país, feita de atirar rapazes de dezoito e dezanove anos para a frente de batalha sem cuidar de sequer lhes facultar qualquer razão mais aprofundada para serem obrigados a matar como o fazem de forma mais ou menos inconsciente.
Fosse este documentário feito de imagens reais e não nos apressaríamos tão lestamente a ir vê-lo tão só estreado no King e no Monumental. Mas a opção pelo desenho animado ganha particular força, porque mantém a credibilidade do testemunho de gente real, sem deixar de ilustrar de forma superlativa os momentos mais dramáticos vividos por esses rapazes atirados para a frente pelos seus generais como carne para canhão.
O efeito «murro no estômago» é plenamente conseguido e sai-se do cinema com a noção de impotência perante uma prática continuada de crimes de guerra, que aproxima o poder sionista da prática holocáustica dos nazis de que tanto haviam sido vítimas.
E as imagens reais com que o filme acaba são idênticas a muitas outras ulteriores a culminar nas dos nossos actuais telejornais, quando está em curso mais uma guerra de agressão na Faixa de Gaza.
Felizmente que este vigoroso libelo contra o terrorismo de Israel é assinado e produzido por israelitas. Lembrando-nos que subsiste muita gente decente em Israel para quem a política dos seus governantes é sinónimo de crime.

sábado, janeiro 03, 2009

Gala Teatro Colón: Gli arredi festivi Nabucco Coro Estable

Desta ópera a célebre ária «Va Pensiero» é bem mais conhecida. Mas estoutra não deixa de ser igualmente um belo momento coral da História da Ópera Italiana.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

«Promessas Perigosas», filme de David Cronenberg

"Promessas Perigosas”: filme duro o mais recente da lavra de David Cronenberg. Como sempre na sua filmografia há o tema da metamorfose ou do duplo, em que um ou mais personagens convivem consigo mesmos e com o seu oposto.
A violência extrema começa logo na primeira cena, quando o barbeiro Azim dá ordens ao mentecapto Ekram para degolar o mafioso checheno sentado na sua cadeira de barbeiro.
Noutro ponto da cidade - estamos em Londres - uma jovem adolescente pede ajuda numa farmácia, com uma imensa hemorragia a escapar-se-lhe do útero aonde tem a filha germinada de uma violação. Tatiana não sobreviverá às tentativas dos médicos do hospital para a salvarem, mas deixa ao mundo a criança, que se torna o enlevo da parteira Anna Ivanovna.
É para indagar dos familiares da rapariga a quem pretende entregar a criança, que esta descendente de russos vai procurar a ajuda do dono de um restaurante, o venerável Semyon. Mas dá de caras com o filho deste, o imaturo Kirill, e com o motorista deste, o impassível Nikolai. Que a provocam, mas lhe franqueiam passagem até ao ancião, que logo se interessa por ajudá-la, sobretudo a partir do momento em que ela lhe confessa ter consigo o diário deixado por Tatiana. Sob a promessa de a ajudar a traduzir tal documento e, por ele, encontrar os familiares da defunta, Semyon insta-a a voltar ali ao estabelecimento na tarde do dia seguinte.
Compreende-se, entretanto, que o checheno Soyka fora assassinado a mando de Kirill, que agora recorre a Nikolai para o ajudar a desfazer-se do cadáver. O que o fazem num dos becos, que dão directamente para o Tamisa.
Não tarda que Anna se arrependa de ter contactado com Semyon, já que parece óbvia a sua ligação à máfia russa (Vory v zalone), que estará por trás do tráfico de mulheres em que Tatiana se deixara enredar. Da tradução do seu diário, conseguida do seu tio Stepan, Anna fica a saber que a rapariga fora trazida com 14 anos ali para Londres e aí violada por Semyon depois de Kirill se mostrar incapaz de tal aleivosia. Será o velho o verdadeiro pai da criança a quem ela se afeiçoa como se filha sua fosse. E, de facto, ela corresponde à substituição da própria criança, que abortara aquando da sua antiga relação com um médico negro…
Perante as ameaças de que se vê alvo, não resta a Anna outra atitude que não a de entregar o diário a Nikolai, muito embora o motorista de Kirill lhe inspire surpreendente confiança.
Não admira: ele é um polícia russo infiltrado nos meios mafiosos para os poder manietar. E com sucesso, porquanto recebe as tatuagens de integração nessa organização criminosa. Mesmo no contexto em que Semyon busca confundir os assassinos a soldo dos familiares de Soyka de forma a que eles o matem em vez do seu príncipe herdeiro.
Apesar de alguns percalços complicados o filme acaba por resolver-se num happy end: afastado o «rei» (acusado de violação de menor no caso de Tatiana, denunciado pelo mesmo ADN da bebé!) e o respectivo «príncipe», Nikolai ascende à liderança da organização. Ao mesmo tempo que Anna satisfaz os seus instintos maternos com a adopção dessa mesma criança.
Embora com algumas imagens de particular crueza, «Promessas Perigosas» espelha a ideia que fazemos desse tipo de estrutura criminosa. Em que toda a violência, que possamos a ela relacionada, fica aquém do que a perversidade dos seus chefes consegue conceber!

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Thomas Quasthoff - Gute Nacht

No «Novos Tempos Interessantes» está a versão Brendel/ Dieskau, que serve de comparação com esta de Barenboim ao piano e Quasthoff na voz.
Se o timbre de Dieskau me agrada mais, a toada mais lenta desta versão espelhará porventura melhor a desolação intima do poeta ao viajar pelo cenário devastado pelo Inverno...

Presidência Guterres à vista?

Domingos Amaral sempre foi insuspeito quanto ao seu posicionamento político, que se associa facilmente a uma certa direita civilizada. Ou seja aquela direita, que privilegia uma certa racionalidade muito distante do seu carácter troglodita em que ela quase sempre se distingue.
Na sua derradeira crónica no «Diário Económico» ele demonstra bem essa racionalidade ao fazer uma leitura curiosa sobre o presente conflito institucional entre o Governo e Cavaco Silva:
“Como primeiro-ministro, (Sócrates) tem feito o que pode. Passou três anos em contenção para poder corrigir o deficit e depois desaba-lhe em cima uma crise internacional sem precedentes. É azar, e esse azar pode ainda piorar, pois agora Cavaco também quer entrar na dança, e começa a dar sinais de que o tempo de lua-de-mel com o governo terminou. No meio desta grande crise internacional, só nos faltava mais esta: um presidente que deseja desestabilizar”.
Mas, no meu optimismo próprio, acabo por ver neste episódio o primeiro capítulo de um processo, que se concluirá com a reeleição da maioria absoluta de José Sócrates e a eleição do Presidente Guterres.

Freddie Hubbard

«Juventude criativa, energia, velocidade, virtuosismo, inovação, humor, alegria... Mas também dependência do alcool e droga, e a inevitável inconstância e irregularidade que isso aportou a uma carreira que, mesmo assim, se prolongou por meio século e mais de 300 discos. Foi assim a vida e a obra de Freddie Hubbard (1938-2008), trompetista americano de jazz que morreu na segunda feira, na Califórnia, aos 70 anos.»
Texto de Sérgio C. Andrade no "Público» de ontem.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Uma BD que me continua a agradar apesar de tudo...

«O Caso Francis Blake» já não saiu da criatividade de Edgar Pierre Jacobs. Pegando nos personagens Francis Blake e Philip Mortimer, os também conceituados Jean Van Hamme e Ted Benoit criaram uma história, que respeita escrupulosamente o espírito da série.
Tudo começa, quando o chefe dos Serviços Secretos, Francis Blake parece desmascarar-se enquanto traidor capaz de pôr não só em risco a segurança nacional, mas também assassinar os agentes supostamente às suas ordens.
Mortimer decide-se a fazer os possíveis por ilibá-lo de tão ignóbeis suspeitas. No entanto, ele próprio acaba por se envolver em inesperada aventura, tanto mais que os jornais acabam por denunciar a cumplicidade com o «traidor» em fuga.
Afinal o que estava em causa era uma tentativa de Blake em desmascarar quem, ao mais alto nível do governo do país, estava conluiado com potências inimigas.
Obviamente que o sempiterno Olrik aparece do lado dos mauzões, que acabam derrotados.
É claro que há aqui um cheirinho a guerra fria e em que os ingleses são os bons e os «outros» os maus. Embora ideologicamente muito ambíguo, não deixo de sentir algum fascínio pelo grafismo e pela forma como se estrutura a intriga...

Sensemayá, Silvestre Revueltas.

Que melhor homenagem a Silvestre Revueltas, que o exerto da interpretação de uma das suas maiores oberas pela Orquestra Simão Bolivar dirigida por Dudamel?

Evocar Silvestre Revueltas

Nasceu precisamente há cento e nove anos. Era o último dia do ano do século XIX (embora subsista a discussão de quando se inicia um novo século!) e Silvestre Revueltas era mais um dos filhos de uma família talhada para lançar para o mundo gente que viria a ser influente no mundo das artes e das letras.
Silvestre viria a ter fama de feitio difícil. No entanto o seu talento para a composição musical era imenso e cedo demonstrado em sucessivas obras.
Quando o governo republicano espanhol o convidou para colaborar consigo no que poderia vir a ser o embrião de um projecto artístico de grande alcance, dirigia-se não só ao artista, mas também ao homem político, que tinha uma sólida empatia com as aspirações populares e delas colhia inspiração para a sua obra.
Os tempos eram, porém, difíceis: para os homens de esquerda a década de trinta trará a sensação de um toque a finados por muitas das suas ilusões de um mundo melhor. E Silvestre afundar-se no álcool, na miséria e na doença. Quando morre, de pneumonia, em 1940 - conta a lenda que tinha uma garrafa na mão no seu último alento - o fascismo parecia exuberante nas mais diferentes latitudes.
Quase sete décadas depois a sua música chega-nos, sobretudo, pela mão de entusiasmado divulgador, o jovem maestro venezuelano Gustavo Dudamel, que a executa com a sua Orquestra da Juventude Simon Bolívar. «Sensemaya» ou « A Noite dos Maias» correspondem aos títulos mais conhecidos dessa obra, que se enquadra na escola nacionalista e se considera a mais adequada para vestir de sons a cultura do seu país...

segunda-feira, dezembro 22, 2008

High Places - Shared Islands - Live @ The FADER Sideshow

Os High Places são, de entre os muitos grupos, que vão procurando singrar no competitivo panorama do rock alternativo, um dos mais interessantes. Pelo carácter hipnótico da sua vida, por alguma ingenuidade pressentida na voz da vocalista!
Um percurso a seguir com alguma atenção...

sábado, dezembro 20, 2008

Revolução no «Sonho Americano»?

Não sei se será possível, mas confio na necessidade de uma grande mudança no paradigma mental dos norte-americanos com o almejado sucesso da Administração Obama. Pelo menos que o «sonho americano» ganhe alguma lucidez e deixe de ter na conquista da riqueza a qualquer preço a sua principal estratégia. Até porque, para o cidadão das classes mais baixas ou, mesmo remediadas, as últimas semanas não devem ter sido fáceis de conciliar com tal idiossincrasia, quando até os mais insuspeitos milionários são denunciados como fraudulentos.
É claro que será uma revolução ideológica difícil de fazer prevalecer: McCain conseguiu o apoio de quase metade do eleitorado ao propor menos impostos para os ricos e ao diabolizar as práticas «socialistas» prometidas pelo adversário.
A palavra «socialista» está, aliás, tão desconsiderada por aquelas bandas que um homem inteligente como o actual Nobel da Economia, Paul Krugman, vem dizer nos media, que os homens políticos não devem, nesta fase, ter receio de «parecerem socialistas».
Não é, pois, o de serem, mas o de parecerem!
Que as realidades económicas acabem por propiciar essa tão necessária viragem à esquerda. Embora tenhamos bem presente a lição histórica de da Depressão de 1929 terem, afinal, emergido os tenebrosos fascismos…

terça-feira, dezembro 09, 2008

TEATRO MERIDIONAL: VLCD

O Teatro Meridional confirma ser, hoje, um dos mais fascinantes projectos artísticos de Lisboa. Os seus espectáculos continuam a surpreender pela originalidade e pelo experimentalismo em relação a novas formas de expressão.
Essa ânsia de vanguardismo surge logo no título da mais recente peça estreada nas suas instalações: «VLCD - do lugar onde estou já me fui embora».
O tema é o da velocidade a que somos coagido no nosso tempo, que nos prejudica a capacidade de ver, de pensar … até mesmo de sentir. Dando, pois, razão ao provérbio italiano citado no programa: «O Homem mede o tempo e o tempo mede o Homem.»
O tempo acelerado que aumentou a produtividade e a qualidade do consumo de bens materiais, mas igualmente a infelicidade de quem nele se perde.
Tanto mais que a competição fomentada socialmente enquanto forma de realimentar, em contínuo, essa obsessão pela velocidade, enaltece sempre o mais rápido. Independentemente da qualidade ou da beleza do que nesse lapso de tempo se concretizou…
Num século desumanizado todos se empurram para chegar o mais cedo possível ao emprego, tornando-se hediondas todas as possibilidades de colocar pauzinhos na engrenagem.
A proposta da companhia teatral sedeada no Poço do Bispo passa por abordar esse frenesim pelas vivências de quatro palhaços, uns mais do que outros, adaptados a tais regimes de produção.
Como diz o programa: «Destas premissas nasceu um espectáculo, feito do encontro de todos os seus criadores. Um espectáculo edificado e projectado dramaturgicamente no espaço contemporâneo dos ensaios e que também ele se debateu, na sua fase de criação, com as mesmíssimas questões que eram, afinal, o seu objecto. Da alegrias, descobertas, dificuldades e também tanta angústias resultou uma oportunidade de crescimento. e de valorização humana inesquecível.»
Graças a um belíssimo naipe de actores, dos quais ressai Carla Maciel, passamos em revista os grandes problemas sociais do nosso tempo e a forma como reagem os que a eles se vão procurando adaptar. Com maior ou menor sucesso…
8

quinta-feira, dezembro 04, 2008

A BAUHAUS (1)

Fundada em 1919 por Walter Gropius em Weimar, a Bauhaus (que significa literalmente «casa do edifício») estendeu as suas pesquisas a todas as artes maiores e aplicadas, de forma a integrá-las na arquitectura. Segundo o desígnio do seu fundador, todos os que participam na construção do edifício devem ser imbuídos pelos princípios do coordenador da obra e criar, em harmonia com ele, a parte que completa o todo.
Convocados por Walter Gropius, os maiores artistas do tempo ensinaram ali.. Daí que a Bauhaus tenha suscitado um vivo interesse no mundo e provocasse fortes reacções nos meios políticos alemães.
Transferido para Dessau em 1925, e depois para Berlim em 1932, foi definitivamente encerrada pelos nazis, quando estes chegaram ao poder em 1933.
Os princípios da Bauhaus marcaram profundamente a estética contemporânea: um grande número de escolas e de universidades adoptaram os seus métodos de ensino, assim como aconteceu com a indústria a respeito das suas concepções.
A maioria dos seus mestres e dos seus antigos alunos, acolhidos pelos EUA pouco antes de 1939, continuam a influenciar a arte moderna.
Henry Van de Velde, desejoso de deixar a Grossherzogliche Kunstgewerberschule de Weimar, por ele fundada em 1906 e de que ele era director, convidou Walter Gropius para lhe suceder.
Em 1915 Gropius aceitou o convite na condição de poder reorganizar o ensino das belas artes em Weimar segundo aquilo que pensava.
Na Primavera de 1919, juntou a Grossherzogliche Kunstgewerberschule e a Grossherzogliche Hochschule für bildende Kunst numa Hochschule für Gestaltung, sob o nome de Das staatliche Bauhaus Weimar, que instalou nos edifícios construídos por Van de Velde.
Convidados por Walter Gropius foram professores da Bauhaus desde 1919: Johannes Itten, Lyonel Feininger, Gerhard Marcks, Adolf Meyer; Georg Muche juntou-se-lhes em 1920, seguido de Paul Klee e Oskar Schlemmer em 1921; Wassily Kandinsky chegou em 1922 e László Moholy-Nagy em 1923.
Tendo suscitado a oposição das autoridades conservadoras da cidade e do governo provincial da Turíngia, a Bauhaus de Weimar, instituição estatal, fechou portas - com os professores e alunos solidários com o seu director - no termo do seu contrato de sete anos a 1 de Abril de 1925.
Numerosas cidades como Darmstadt, Frankfurt, Mannheim, estavam disponíveis para a receber, mas quem ganhou foi Dessau. O município pediu a Gropius para construir a nova escola. Iniciados nos finais de 1925 os trabalhos ficaram concluídos em Dezembro de 1926. Foram chamados novos professores: Josef Albers, Herbert Bayer, Marcel Breuer, Gunta Scharon-Stölzl, Hinnerk Scheper, Joost Schmidt.
(Enciclopédia Universalis)

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Contemporâneos - Gafes:Manuela Ferreira Leite

Somos fãs impenitentes dos Contemporâneos.
O Nuno Lopes entusiasma-nos enquanto actores e o Bruno Nogueira tem surpreendido claramente pela positiva.
E neste sketch ambos mostram bem as «qualidades» da actual líder da oposição...

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Mozart - Requiem - Karl Bohm

Terá sido a última obra do genial Amadeus. O Requiem causa-me sempre uma imensa emoção, não tanto por se reportar à morte enquanto omnipresença incontornável dos nossos dias, mas pelo que a vida lhe poderá resistir.
Essas vozes, que se erguem, poderosas, apontam para o justificado inconformismo perante as leis da vida tais quais elas ainda se nos apresentam.
Por isso o interesse pelo que a Biologia ou a Medecina vão anunciando enquanto estratégias para adiar tanto quanto possível esse instante. Querendo acreditar na exequibilidade de um dia se verificar o que um lunático professor de Cambridge anuncia para breve: a possibilidade de se viver mil anos à conta da capacidade para ir substituindo os nossos órgãos internos à medida, que eles vão denunciando a sua imprestabilidade.
Esta notabilíssima versão de Karl Bohm com Christa Ludwig entre as cantoras remete-me para essa luta quixotesca com um adversário ainda demasiado poderoso para contra ele acreditar na possibilidade de uma vitória...

ROBERT WILSON: O CEGO DE SEVILHA

De entre as leituras muito interessantes por que vou dispersando a minha atenção avulta um romance policial de Robert Wilson intitulado «O Cego de Sevilha». O protagonista é Javier Falcon, o inspector da Brigada de Homicídios da cidade andaluza, a quem uma sucessão de crimes irá suscitar uma crise íntima muito complicada.
O primeiro morto é Raul Jimenez, um empresário de sucesso da área da restauração, cujo corpo aparece amarrado e de olhos abertos para uma cassete pornográfica com mais de vinte anos e aonde a sua actual mulher, Consuelo, actuava como uma das participantes.
O adjunto de Javier, o ambicioso Ramirez, que não esconde o desejo de lhe ficar com o lugar, aposta na culpabilidade da viúva, até pelos benefícios imediatos inerentes a essa súbita condição. Mas Javier não está disposto a guiar-se por tais evidências. Tanto mais, que se segue logo outro corpo, o da meretriz Eloisa com quem Raul tivera relações exactamente antes de ficar à mercê do seu assassino.
Aprofundando a sua investigação, Javier descobre que o morto começara por enriquecer em negócios obscuros em Tânger e de lá viera com a família depois do rapto do filho, Arturo, que nunca mais chegaria a aparecer. Nessa época ele estava casado com a primeira mulher, precocemente levada pela doença e com quem Consuelo se parecia como se dela fosse papel químico.
Mas Javier remete-se igualmente para a relação com o pai, um famoso escritor em cuja casa ainda mora e cujas memórias escritas ele começa a investigar. Para perceber, igualmente, o quanto Tânger também para ele fora o ponto de partida para a carreira e como, ainda antes de enviuvar da primeira mulher, já ele mantinha uma relação clandestina com quem viria a ser a sua segunda mulher.
Pressentindo o quanto este caso irá mexer com o que ele próprio está a vasculhar no seu passado, Javier sente-se em íntimo desequilíbrio não sabendo como iludir a longa jornada de cada noite: A casa era uma prisão, o quarto uma cela, a cama um catre em que era torturado todas as noites.