sábado, julho 28, 2012

«Envelhecer ao Sol», documentário de Kamil Taylan (2009)


São muitos os alemães, que apostaram viver os seus anos crepusculares em Alanya, uma cidade balnear turca situada nas margens do Mediterrâneo. Mas o documentário de Kamil Taylan mostra que o paraíso na Terra está longe de ser eterno.
Esse movimento migratório ocorreu, sobretudo, há cerca de vinte anos, quando um fluxo importante de reformados descobriram a possibilidade de, com o valor das suas pensões, usufruírem de condições de vida muito privilegiadas numa terra de clima ameno e de preços baixos. O projeto não podia parecer mais sedutor…
Mas, hoje, estes emigrantes de tipo novo envelheceram e muitos estão doentes. Ora, num país aonde as estruturas de acolhimento à terceira idade são quase inexistentes, muitos deles sentem-se profundamente sós e desintegrados. A situação revela-se tanto mais complicada quanto a maioria jamais se dignou a aprender a língua local nem em interessar-se pela cultura dos vizinhos.
O realizador, ele próprio nascido em Alanya, embora resida atualmente em Francfort, foi à procura desses reformados e encontrou um conjunto de personalidades muito diferentes, embora coincidentes nas inquietações.
No cemitério encontrou a forma derradeira da suprema solidão: covas anónimas desses reformados, que exalaram o último suspiro sem que ninguém - familiares ou amigos - lhes viessem dar a atenção de os identificar na morgue.
Para o evitar Edmund Kusch revelou-se prudente: já viúvo, comprou e mandou colocar uma  lápide na cova ao lado da da esposa, já com a designação do seu nome e o da data de nascimento, faltando pois, apenas, acrescentar-lhe a da morte. E, regularmente, ali vai ele encarregar-se da manutenção e limpeza das duas campas…
Mas houve também quem encontrasse forma de ocupar o tempo disponível em atividades voluntárias: Martina, por exemplo, recolhe, trata, esteriliza e mantém num canil particular, os cães abandonados nas ruas da cidade. Evitando-lhes o triste destino conferido a tais animais nos países muçulmanos, aonde é frequente apedrejá-los por serem, segundo o Corão, «impuros».
No caso de um casal, ele ocupa-se em prosseguir a atividade de construtor civil respondendo à moda turca de encomendar garagens para os seus carros, e ela liderando uma organização filantrópica - a Bombola - que recolhe donativos para fazer chegar cadeiras de rodas a crianças deficientes.
Há também as solitárias já maduras, que se tornam vítimas fáceis da versão local dos «Zézés Camarinhas», iludindo-se com a possibilidade de viverem fulminantes paixões, mesmo que tardias.
Mas esta realidade está a mudar drasticamente: o custo de vida deixou de ser apelativo para os novos reformados, que veem os preços locais a rivalizarem com os da sua terra de origem. E as consequências são devastadoras para a indústria imobiliária local: milhares de apartamentos, construídos à pressa para corresponderem a tal procura, sem interessados para os adquirirem.
Alanya vai regressando, assim, à secundariedade provinciana, que era a sua...

sábado, janeiro 07, 2012

Documentário: PALAWAN, O IMPÉRIO DAS PÉROLAS de Therese Engels (2010)

Filipinas: as pérolas douradas mais valiosas provém daqui. Em verdadeiras quintas aquáticas, as ostras perlíferas são alimentadas, limpas e viradas diariamente por mergulhadores, que passam o dia em apneia para conseguirem pérolas o mais perfeitas possível.
Trata-se de um trabalho árduo tanto mais que 20% das ostras rejeitam o corpo estranho nelas inserido para que reajam com a camada nacarada pretendida.
Esses mergulhadores são antigos pescadores e comerciantes, cujos rendimentos insuficientes os trouxe para esta actividade cujo custo começa por ser o de ficarem longe das famílias, já que ali por perto não existem escolas aonde as suas crianças possam estudar.
Mas a actividade está em perigo por outras razões: o aquecimento global é uma evidência nos corais moribundos em redor dos viveiros. E a subida do nível do mar constitui outro factor perturbador neste tipo de cultura muito delicada.
Mas a investigação biológica procura responder a tais desafios e foi por selecção artificial que, em poucos anos, se conseguiu evoluir de uma cor branca pouco apreciada para a cada vez mais rentável cultura de pérolas douradas.
Ainda assim, cerca de 30% das pérolas colhidas não chegam ao mercado por não possuírem o tamanho, a forma ou a cor aí procuradas.
Embora ainda florescente, os que vivem desta actividade em Palawan sabem que o risco dela deixar de existir é bastante elevado.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

Documentário: Pescadores do Rio Negro de Carmen Butta (2001)

Rio Negro, no Noroeste da Amazónia: aqui existe o peixe cardinal tão apreciado nos aquários domésticos dos países europeus.
Porque a cidadezinha de Barcelos não tem indústrias e a terra só permite a plantação da mandioca, a solução para muitas famílias restringe-se à pesca. Mas os mil e cem pescadores vão iludindo a miséria nas vinte e três tabernas locais, já que os peixes cardinais estão cada vez mais desvalorizados no mercado.
Nómadas no rio, eles só aportam para comprarem o necessário, o que significa um volume cada vez menor de mercadorias.
Crispim e Silvana são o casal, que a realizadora acompanha e que nunca tiveram dinheiro para arranjarem casa em Barcelos. Por esse motivo têm de deixar os filhos a parentes enquanto dura a época escolar.
A casa é, pois, o pequeno barco, o «Rio Demeni». Mas o combustível está cada vez mais caro e as dívidas acumulam-se
Crispim confessa a saudade do tempo em que os seus rendimentos eram bem maiores, porque a procura dos peixes cardinais ainda não era sujeita aos efeitos da aquacultura norte-americana e em Singapura.
De origem índia Crispim já não seria capaz de imitar os antepassados e conseguir o sustento da floresta virgem. Por isso Manaus, aonde nunca foi, está povoada de muitos antigos pescadores nas suas favelas miseráveis.
Mas nem tudo é mau: uma vez por ano, durante a Festa do peixe Cardinal a família mascara-se para participar numa festa, que alegre as almas enquanto perdura. O pior é quando ela acaba e a realidade difícil se volta a impor...

48 (Portugal, 2009). Susana de Sousa Dias.


A notícia é de hoje e vem das lonjuras chilenas: o governo de direita de Piñera decidiu impor uma alteração aos manuais escolares, que deixarão de falar de «ditadura» a respeito dos anos de Pinochet em La Moneda, substituindo esse termo por «regime militar».

Tal eufemismo mostra como a luta antifascista não pode refrear o ânimo, porque os defensores de políticas autoritárias estão sempre prontos a avançarem para cobrir o espaço libertado pelos que se acomodem ao mero exercício das liberdades fundamentais.

Um filme como «48» de Susana Sousa Dias tem a importância de manter vivo o sinistro tempo de repressão sobre quem apostasse em pensar pela sua própria cabeça e não cedesse aos chavões salazarentos.

A realizadora foi aos arquivos da Pide buscar as imagens captadas pelos fotógrafos da organização no momento da detenção ou da libertação e colocou-as à apreciação dos respectivos ex-presos políticos, que as comentam em voz off e aproveitam para revelar as circunstâncias inerentes a essa experiência.

Trinta e cinco anos depois estes testemunhos ainda têm a relevância de constituírem um poderoso libelo contra um regime com ainda tantos saudosistas a ele conotados. E por isso vale sempre a pena neles nos determos…

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Black Cat, White Cat (Crna macka, beli macor) (1998) - Trailer


O rio agita-se com a chegada dos russos, que vêm alimentar o mercado negro. Mas Matko, que passa o tempo a jogar poker consigo mesmo, é enganado na compra de um barril de combustível, afinal cheio de água. Para dar a volta à vida socorre-se do tio Grga, que o sabe trapaceiro, mas se sente em dívida para com o pai dele, que lhe terá salvo a vida por duas vezes, uma em Génova e outra em Nápoles. Consegue assim um oportuno empréstimo, para o objectivo de desviar um comboio de combustível entre a Jugoslávia e a Turquia com a ajuda de Dadan, um mafioso toxicodependente, que adora a música tecno. Mas este decide trapacear o cúmplice, ficando com o comboio e com o dinheiro de Matko, sem que este se aperceba do logro em que caiu. Para piorar as coisas ele acede ao pedido de Dadan, que pretende fazer desposar a filha mais nova, a anã Bubamara com o seu Zare também ele chegado a idade casadoira, invocando para tal a compensação por quanto perdera com o negócio.

O problema é a propensão de Zare por Ida, uma bela rapariga também a viver nas margens do Danúbio. Resta ao rapaz a ajuda do avô, que finge morrer para impedir a cerimónia.

Mas Dadan não se prende com tais escrúpulos e obriga Matko a esconder o corpo do pai no celeiro para que o casamento acabe por ser celebrado.

Mas, tão só o padre inicia a cerimónia, e já a noiva foge com a ajuda de Zare e de Ida. É na sua fuga que ela encontra o gigante Grga Veliki, neto do velho padrinho e imediatamente se enamora. É então a vez do velho Grga cobrar a Dadan uma antiga dívida, que ele pagará com Bubamara.

Tudo se normaliza com a comunidade a preparar-se para a celebração de dois casamentos - o de Zare com Ida e o de Veliki com Bubamara. Mas é então que o velho Grga é acometido de um ataque cardíaco. Para que as núpcias taõ esperadas não sejam anuladas, Dadan leva o corpo de Grga para o celeiro para junto do seu velho amigo Zarije.

Algumas horas depois dos dois velhos ressuscitam como que por magia e os casamentos são enfim consumados.

Em 1998, após a realização de Underground Emir Kusturica recebeu a encomenda de um canal alemão para rodar um documentário sobre a música cigana. Quando se prepara para ir ao local da rodagem ouviu a história da morte de um avô em vésperas de um casamento e que terá sido soterrado em gelo para que a cerimónia decorresse. Outra inspiração para este filme terá sido a leitura de «Os Contos de Odessa» do russo Isaac Babel.

O projecto transforma-se, então, numa longa-metragem de ficção, que será este «Gato Preto, Gato Branco» para cuja concepção recorrerá ao argumentista Gordan Mihic com quem já trabalhara em «O Tempo dos Ciganos».

quarta-feira, janeiro 04, 2012

A Viúva Montiel

CONTOS COMPLETOS (2) de Gabriel Garcia Marquez

A personagem de José Montiel surge em dois dos contos de «Os Funerais da Mamã Grande», o primeiro dos livros incluídos na colectânea de Gabriel Garcia Marquez.
No primeiro, «A Tarde Prodigiosa de  Baltasar», ele é o rico comerciante para cujo filho, o carpinteiro da aldeia cria a mais bela das gaiolas, sem que consiga por ela o devido pagamento. De facto, avarento por natureza, José Montiel culpa Paco por ter feito tal encomenda e ao artesão aponta a falta de sensatez pela aceitação da encomenda de um miúdo de dez anos.
Mas, incapaz de dar parte de fraco, Baltasar vai passar a tarde na taberna a viver as glórias de tão elogiada construção. Que merecera do próprio médico o elogio de ter sido feita pelo grande arquitecto, que ele poderia ter sido.
Nessa tarde Baltasar bebe vinho pela primeira vez e embriaga-se pagando rodadas a todos quanto o acompanham. Madrugada adentro, já sozinho e sem coragem para voltar para casa, fica prostrado numa valeta a querer perdurar o mais possível o melhor dos seus sonhos.
Montiel surge caracterizado como um pai autoritário e um rico sem escrúpulos, nunca satisfeito com os bens acumulados. Mas o conto seguinte, «A Viúva Montiel» ilustra a forma como ele enriquecera, valendo-se da sua condição de delator da ditadura, informando o sargento arvorado em alcaide de Macondo sobre quais os pobres a fuzilar na praça central da aldeia e quais os ricos condenados a abandonarem a povoação, não sem antes lhe entregarem a preços irrisórios as terras e gado.
Ao contrário do que todos teriam conjecturado, o velho Montiel é poupado a uma morte violenta, acabando serenamente na sua rede de dormir. A viúva descobre-se então sozinha, por todos abandonada, inclusivamente pelos filhos radicados na Europa e conscientes de como poderiam ter a vida em perigo se arriscassem voltar.
Resta à viúva a morte, quando a ruína já se apossara das paredes da sua outrora florescente mansão...

terça-feira, janeiro 03, 2012

En este pueblo no hay ladrones (Alberto Isaac, 1965)

Livro: CONTOS COMPLETOS (1) de Gabriel Garcia Marquez

A D. Quixote  publicou, agora, num só volume, quatro colectâneas de contos de Gabriel Garcia Marquez escritos entre 1947 e 1992.
Embora se trate, em muitos casos, de uma revisão da matéria dada, regresso a eles com o fascínio de sempre pelo estilo inconfundível do escritor colombiano, feito de frases curtas e palavras definitivas quanto à caracterização das feições, expressões ou sentimentos dos seus personagens.
O que surpreende em Gabriel Garcia Marquez é a depuração absoluta do texto, aonde não se vislumbra qualquer redundância, que retire eficácia ao sortilégio criado em torno de quem se vê condenado a situações dramáticas incontornáveis.
Nas semanas vindouras, andarei a abordar aqui as quarenta e uma histórias, que integram esta volumosa colectânea.
Os primeiros três contos foram escritos em 1962 e integravam «Os Funerais da Mamã Grande».
O primeiro chama-se «A Sesta de Terça-feira» e passa-se num modesto povoado adormecido, quando se digere o almoço sob uma temperatura asfixiante. É em tal ocasião que uma velha e uma miúda vão bater à porta do padre para pedir-lhe a chave do portão do cemitério.
Acabadas de chegar no comboio, que ali acabara de parar, têm um par de horas para visitar a campa de Carlos Centeno. Tratava-se de um jovem morto na semana anterior, quando procurava assaltar uma casa cuja velha locatária dera uso a um revólver há muito arrumado, desde a época do coronel Aureliano Buendia.
As oito páginas são suficientes para Gabo revelar a falsa aparência inicial: em vez de adormecido, o povoado está vigilante e prepara-se para acompanhar com um olhar censório essa caminhada entre a igreja e o cemitério.
Bem o padre procura evitar às forasteiras tal provação, que a velha revela um orgulho de quem nada deve, nem teme. Razão porque o conto acaba com a frase: Pegou na mão da menina e saiu para a rua.
A segunda história ainda é mais curta. «Um Dia Destes» apanha um alcaide acometido de uma insuportável dor de dentes e obrigado a recorrer ao único dentista do povoado.
Decerto comprometido com a oprimida resistência à ditadura militar, o homem bem procura esquivar-se ao serviço, mas a ameaça é taxativa: ou tira o dente ou leva um tiro.
Resta-lhe como alternativa a extracção sem anestesiante, forçando o representante da repressão a sofrer uma pequena vingança pelo sofrimento que encarna.
«Neste Povoado Não Há Ladrôes» tem mais de vinte páginas o protagonista é um rapaz pouco esperto chamado Dâmaso, que procura iludir a pobreza com a aposta na actividade de ladrão. Mas é tão pouco inteligente e o povoado tão miserável, que volta do salão de bilhar com as três bolas com que os aldeões iam aí entretendo o seu tédio. Dinheiro, quase não havia, nem qualquer outro bem que pudesse transaccionar por dinheiro vivo.
Bem Ana, a jovem mulher, de ventre inchado pela avançada gravidez, o vitupera, que ele só aumenta a dimensão do seu desastre. E, quando perdido de bêbedo, vai tentar devolver as bolas ao sítio donde as surripiara, é apanhado pelo gerente, que espalhara a notícia do desaparecimento de duzentos pesos e agora o entrega à polícia para os poder «reaver».

quinta-feira, dezembro 29, 2011

SAYOME - trailer

Documentário: SAYOMÉ de Nikos Dayandas (2011)

Este documentário parte de um pressuposto bastante aliciante: nos anos setenta uma jovem japonesa deixou Tóquio para se radicar na ilha de Creta, atraída pelos encantos do marinheiro Manoulis.
Não se tratara de decisão fácil nem para um, nem para o outro: o pai dela proibira-lhe o uso do apelido de família por ver nessa expatriação uma desonra e os dele bem o tinham instado a criar família com uma das muitas raparigas casadoiras da ilha.
Passaram-se, entretanto, trinta e cinco anos e Sayomé, agora com 62, sente uma vontade de reencontro com os pais e os irmãos até então esquecidos e contacta-os. É assim, que os dois irmãos dela aterram no aeroporto de Creta e a visitam durante uns dias…
As coisas não correm, porém, de feição: histórias antigas voltam a subir à superfície e, sobretudo, a irmã esfria bastante a relação em relação às expectativas iniciais. É que Sayomé tivera uma infância muito diferente da dos irmãos, já que começara por ser educada como uma pequena princesa pelo avô, que não tolerara a negligência do filho e da nora ao deixarem a bebé cair numa fogueira. Sorte diferente tinham conhecido os irmãos nascidos depois dela e sujeitos aos rigores do trabalho infantil.
Depois, mais tarde, quando ocorrera o divórcio dos progenitores, Sayomé ficara em Tóquio com o pai, enquanto a irmã seguia com a mãe para Osaka.
Mas esses equívocos com origem em tão distante passado, não desmotivam Sayomé de regressar ao arquipélago asiático até por tomar conhecimento da iminente morte da mãe.
Vemo-la assim a voar com o filho mais novo para Tóquio visitando sucessivamente o irmão, o pai, a mãe e a irmã.
O primeiro é afável e prossegue com o respectivo filho a tradição familiar se cuidar do corte de cabelo dos seus muitos clientes.
O velho Mori recebe-os bem, esquecido das afrontas passadas, até porque sente uma admiração evidente pelo arcaboiço do neto.
À mãe, Sayomé quase mal vê: é chegar, constatar o seu estado terminal e estar presente no seu derradeiro sopro. Ainda assim cabe-lhe cumprir um estranho ritual: levar o cadáver ao colo entre o hospital e a casa da aldeia natal aonde se cumprirão as exéquias fúnebres.
Finalmente, com a irmã, todos os ressentimentos são vencidos, partilhando ambas dois rituais incontornáveis: a visita ao túmulo do avô e uma noite no bar de karaoke.
Quando regressa a casa, Sayomé está pacificada com os seus sentimentos de pertença simultânea, quer à ilha mediterrânica, quer ao seu país de origem.

Bob Dylan: Dont Look Back - Clip


Don’t Look Back é um documentário que acompanha a digressão de 1965 de Bob Dylan pelo Reino Unido.

Na época Dylan era um jovem arrogante, sempre disposto ao confronto com quem dele pudesse discordar e vivia a relação amorosa com Joan Baez. Uma das cenas mais recordadas do filme é precisamente quando ambos cantam temas de Hank Williams num quarto de hotel.

Sucedem-se assim as cenas de bastidores com entrevistas, conversas com elementos do staff ou outros músicos que o visitam como Alan Price ou Donovan, ou mesmo poetas do calibre de um Allan Ginsberg. Acrescentando-se-lhes extractos do concerto no Royal Albert Hall.

Comecei a ouvir falar deste filme alguns anos depois, quando costumava passar nas Quinzenas do Monumental ou nos ciclos do Império, que faziam convergir estudantes de todas as faculdades lisboetas ao Saldanha ou à Alameda ao fins da tarde dos dias de semana. Só não lembro se o vi ainda antes ou depois do 25 de Abril. De qualquer forma fazia, então, todo o sentido o poema que diagnosticava um tempo de mudança. Mesmo se aquela a que aspirávamos já nada tivesse a ver com Dylan, que desde o seu desastre de mota mudara de voz, de discurso e de valores. Se é que alguma vez ele terá justificado as expectativas ideológicas nele investidas por um Pete Seeger, que tanto contribuira para ele sair do anonimato e chegar ao estrelato, enquanto possível sucessor de Woody Guthrie.

O filme é, pois, um documento sobre um momento específico da vida de um cantor, que já passou por tantas fases, mas nunca se conseguiu dissociar desta, que foi a mais marcante do seu percurso.

domingo, dezembro 25, 2011

Made In Dagenham - Official Trailer [HD]


Em 1968 as operárias da fábrica da Ford em Dagenham fizeram uma greve bem sucedida para fazer valer o princípio da remuneração igual para trabalho igual.

Elas tinham tudo contra si, contando à partida com cinco obstáculos por superar: o primeiro era a sua inexperiência, quase ingenuidade em relação às metodologias do combate sindical. Em segundo lugar as dificuldades pessoais de cada uma das envolvidas, que viam os conjugues reagirem com desconfiança, e até com oposição ao processo de luta encetado. Depois, o próprio sindicato contava com dirigentes mais dados às regalias inerentes a tal condição do que à verdadeira defesa dos seus representados. Em quarto lugar os trabalhistas no Governo, liderados por Harold Wilson, tinham contado com a complacência do patronato nas eleições, dada a promessa de reduzirem o clima de agitação social dos anos anteriores. E, finalmente, a própria Ford ameaçava com a deslocalização das suas fábricas, temerosa de que a cedência ali se transformasse numa bola de neve em todas as demais espalhadas pelo mundo industrializado.

Embora a realização não tenha nada de excepcional, o filme conta com um argumento de peso: Sally Hawkins no papel de Rita O’Grady, a confirmar-se como uma das actrizes inglesas mais versáteis do momento, recorrendo a expressões de rosto ou corporais, que acrescentam algo mais ao que os argumentistas ou o realizador pretendiam.

É claro que muito mudou desde 1968, muito por obra dos tenebrosos anos de governo de Margaret Thatcher. As lutas reivindicativas deixaram de ter este tipo de características, tornando-se muito mais duras e difíceis de vencer. Mas não deixa de ser reveladora a necessidade de recuperação dos êxitos sindicais do passado, quando o actual estado da luta de classes evidencia a relevância de todas as formas possíveis de inflectir a obscena desigualdade entre a riqueza de um punhado de privilegiados e a crescente pauperização da maioria da população europeia…

Assim como assim, este tipo de filme pode indiciar uma vaga de fundo, que cuide de atirar para o caixote do lixo da História este tipo de capitalismo depredador, assente na especulação financeira e na globalização, e que se conclui estar cada vez mais distanciado das aspirações colectivas quanto a um nível de qualidade de vida só alcançável num outro sistema politico e económico.

Nesse sentido, «Igualdade de Sexos» vale mais pela sua qualidade cinematográfica do que pelas expectativas, que permite suscitar.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

CU: STEVE TESICH - FOUR FRIENDS


Este é decerto um dos filmes da minha vida. Não seguramente dos primeiros, que para isso há Welles, Eisenstein ou Chaplin, mas decerto entre aqueles que se visitam e revisitam sempre com o mesmo encanto. Porque trata de uma geração para quem importavam os sonhos, que pudessem realizar sem cederem ao emburguesamento a que todos acabam, mais cedo ou mais tarde, por ceder.

Há actores (Craig Wasson, mas, sobretudo Jodi Thelen) em estado de graça e a referência a tudo quanto a América iria passar durante essa década de 60, a começar pela morte de Kennedy e pelo problema dos direitos cívicos até à alunagem de Armstrong e de Aldrin na Lua, sem esquecer, obviamente, a guerra do Vietname.

Para Danilo Prozor, o protagonista, a América acaba por ser muito mais do que a promessa de sonhos condenados a frustrarem-se: ela é o espaço dilatado de tantas esperanças e tragédias por que vai passando, até se tornar possível o que sempre desejou. E que começara por perder muito cedo devido à sua imaturidade.

Nesse sentido o filme de Arthur Penn acaba por ser generoso para com o espectador, porque deixa a possibilidade de, mesmo tardando muito e implicando tanto sofrimento, o desejo mais improvável acaba por se tornar exequível. Nesse sentido ainda alimenta o mito de América, terra dos sonhos...

Mas é, também, um filme sobre as dificuldades de comunicação entre pais e filhos, já que apresentam aqueles ora como abusadores psicopatas ora como complexados perante a enorme diferença, que vai entre o seu mero esforço pela sobrevivência e a inesgotável vontade de realização pessoal dos seus rebentos.

terça-feira, dezembro 20, 2011

"Biutiful" - Trailer Legendado HD




A propósito do mais recente filme de Martin Scorcese, que começa a exibir-se em écrãs europeus, o autor da sua história, Brian Selznick, atribui três características a um bom filme: uma grande ambição, uma tragédia e um final feliz.
Quanto à grande ambição, o protagonista de Biutiful assume-a na necessidade de garantir a sobrevivência dos filhos, nem que para tal contribua para a exploração de africanos e chineses ou para a corrupção da polícia.
Tragédia há várias no filme: o cancro de Uxmal, já em fase terminal, a só lhe atribuir uma esperança de vida de apenas alguns meses; as crises bipolares da mãe dos seus filhos, sempre inevitavelmente a recair apesar de promessas em recuperações ilusórias; a deportação de muitos dos clandestinos africanos, apanhados numa emboscada policial para a qual não chegaram os subornos por ele distribuídos; ou a morte de vinte cinco chineses provocada pelos aquecedores defeituosos comprados para a camarata aonde pernoitam.
Mas não existe propriamente um final feliz, que sirva de consolação para um espectador confrontado com uma atmosfera hiper-realista em que tudo quanto pode correr de pior ao protagonista, acaba sempre por suceder por muito que ele se esforce para que tal não suceda.
Nesse sentido, quem vai ao cinema para se divertir, vem de lá com uns bons murros no estômago. O que não o predisporá para qualquer manifestação de agrado com tal experiência. Mesmo que se deva reconhecer a superlativa interpretação de Bardem...

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Documentário: LE PROCÉS CÉLINE de Antoine de Meaux

Até alguém tão insuspeito como Baptista Bastos reconhece que Louis Ferdinand Céline foi um escritor genial. Mas também um desprezível crápula! E o que mais surpreende muita gente é como pode ser possível essa associação entre um imenso talento e um comportamento pessoal execrável.
É esse o tema do documentário de Antoine de Meaux, que lembra o seu regresso a França em 1957 depois de um longo exílio na Dinamarca e quando estava reduzido à condição de pária pelos seus colegas escritores de então.
Como romance de denúncia da estupidez da guerra, do colonialismo e da solidão dos seres escravizados pela sociedade industrializada, «Voyage au bout de la nuit», escrito em 1932 , continuava a ser admirado como um dos romances mais brilhantes de entre quantos foram publicados na primeira metade do século, mas poucos estavam dispostos a esquecer o miserável colaboracionismo de Céline durante o governo de Vichy. E, no entanto, as suas origens familiares já faziam prever o que ele faria no contexto do nazismo: nascera numa família burguesa com pretensões aristocráticas e de assumido anti-semitismo.
Os títulos seguintes de Céline não tinham tido a receptividade encorajadora daquela obra de estreia: em «Summelweis» homenageia o médico húngaro incompreendido, que descobrira a relação entre as mortes nos partos e a falta de limpeza das mãos dos médicos comprometidos em tais operações. Depois, em 1936, surge «Mort à Crédit», que é rejeitado pela crítica por ser considerado pornográfico e violento numa altura em que a subida ao poder da Frente Popular suscitava um repúdio do que sugeria a sordidez da realidade.
Mas se Céline ainda se conotava com a esquerda francesa, a viagem à URSS afasta-o completamente dessa opção política e realça o que de pior ele virá a escrever: «Bagatelles pour un massacre» é um panfleto anti-semita, consonante com a concomitante propaganda nazi, que culpava os judeus pela iminência da guerra então em preparação.
E já concretizada a Ocupação alemã de Paris, ele publica outro panfleto, «L’École des Cadavres», quando frequentava assiduamente a boémia de Montmartre. Época também das suas cartas para os jornais colaboracionistas em que denunciava explicitamente judeus ainda a ocuparem funções como médicos ou funcionários públicos a fim de os ver despedidos.
Admirador de Doriot, Céline surge em 1942 a apoiar a tentativa de federar todos os movimentos colaboracionistas em torno das bandeiras do nazismo e do anti-semitismo.
Compreende-se assim porque, pressentindo a reviravolta política, ele tenha fugido para a Alemanha em Junho de 1944, partindo depois para a Dinamarca, aonde é aprisionado durante dezoito meses. Azar dos que, como Brasilach ou Drieu de la Rochelle, não fugiram e acabaram ou fuzilados ou suicidados. Apesar de condenado à revelia, Céline acabará amnistiado, apesar de levar anos a defender um discurso negacionista a respeito das câmaras de gás.
Mas o estigma do seu revelador passado jamais o voltaria a deixar...



domingo, dezembro 18, 2011

'Fair Game' Trailer HD

Filme: JOGO LIMPO / FAIR GAME de Doug Liman

Em 2001 nada pareceria beliscar o patriotismo de Valerie Wilson, agente da CIA a actuar infiltrada em diversos cenários de operações relacionados com a luta terrorista. A sua transferência para a área das armas de destruição maciça do regime de Saddam Hussein até configurava uma merecida promoção.
Mas, em Fevereiro de 2002, o marido dela, Joe Wilson, antigo embaixador em África na época da Administração Clinton, é convidado pelo Departamento de Estado a dirigir-se ao Niger para confirmar se o regime iraquiano estava a tentar aí comprar urânio conforme era afirmado por outras fontes.  Mas a realidade com que ele se depara não lhe deixa dúvidas: nem as minas nigerinas produziam as 500 toneladas em causa, como nada se comprovava quanto a esse eventual negócio.
Desconhecedora do que Joe ia descobrindo, Valerie está ocupada com a  identificação dos cientistas iraquianos com formação bastante para serem utilizados no tal programa nuclear de Bagdad, ao mesmo tempo que se desconcertava com declarações taxativas de Condoleeza Rice dando como certos que uns tubos de alumínio já afastados por Fort Langley como utilizáveis naquele objectivo, estavam a produzir urânio enriquecido a partir de centrifugadoras escondidas em parte incerta do país.
Quando George Bush avança para a guerra, a generalidade dos quadros pertencentes à CIA e ao Departamento de Estado estão convictos de tratar-se de uma decisão baseada em mentiras facilmente desmascaráveis. E, uma delas - a do suposto negócio em África, é prontamente desmentido por Joe Wilson num artigo publicado no New York Times.
É o que basta para que um colunista ligado à Casa Branca denuncie Valerie como espia da CIA, tornando-a num alvo fácil para todos quantos a julgavam mera funcionária de uma empresa de produtos químicos e a descobriam agora a uma nova luz. Mas, pior ainda, todos os cientistas iraquianos com quem, Valerie se comprometera a garantir-lhes o exílio nos EUA, são agora abandonados à sua sorte numa Bagdad em ruínas ou mesmo abatidos pela própria CIA para não venderem os seus conhecimentos  a inimigos dos EUA.
O casal Wilson não tardará a passar por maus momentos, ostracizados por todos à sua volta e sem encontrar formas de defesa eficazes contra todos os ataques contra eles emitidos quer da Casa Branca directamente, quer através da tenebrosa Fox News.
Daí a crise conjugal, que leva Val de regresso a casa dos pais. Mas é o progenitor dela, já a contas com o Alzheimer, mas ainda lúcido bastante para a incentivar a  não esquecer tudo quanto lhe tinham feito, que a leva de volta para lutar com Joe a favor do desmascaramento da mentira da Administração Bush. Nomeadamente mediante a sua comparência perante uma Comissão de Inquérito do Congresso...
O filme de Doug Liman tem várias virtudes, uma delas a de ilustrar com bastante convicção o crime hediondo de manipulação das informações para que Bush ganhasse fundamento para a sua ilegítima guerra contra Saddam Hussein. Mas impressiona, igualmente, a rapidez com que o cinema norte-americano traduz em filme os episódios históricos mais recentes sem temer as limitações à falta de distanciamento perante a sua interpretação.