sábado, outubro 31, 2009

Confissão de um leitor de Stephen King

«Um Bruto muito Feio», assim se chama a novela de Stephen King, que comecei agora a ler.
Sim, eu sei, que se trata de literatura light, daquela que nunca ganhará prémios literários e muito menos será sequer equacionada pelo júri do Nobel. Mas confesso a minha fraqueza: gosto mesmo muito de ler este autor de histórias sobrenaturais, eu que como ateu racionalista ponho tais manifestações no campo da mera inverosimilhança.
Mas o que mais me atrai no universo de King não é a fundamentação realista das suas histórias, mas sim a forma como ele as torna extremamente atractivas para o leitor.
Partindo de uma tese de partida  - neste caso um miúdo de dez anos tira polaróides aonde se vêem imagens de outro lugar e/ou de outro tempo - que não se enquadra num código credível de referências, ele irá envolver-nos numa sucessão de cenas competentemente orientadas para um clímax aonde a própria sobrevivência fica em causa. E é nessas páginas, que os olhos saltam linhas e buscam resposta para um desiderato que - justiça seja feita ao autor - quase nunca corresponde a um apaziguador happy end.
Mas, no caso desta novela, ainda estou no seu arranque...

domingo, outubro 25, 2009

A literatura como sonhar pela mão dos outros

Se, conforme diz Fernando Pessoa, ler também é sonhar pela mão dos outros, o livro de Rui Cardoso Martins satisfaz perfeitamente esse pressuposto.
O que fazemos, quando sonhamos?
Se aceitarmos a lógica freudiana, exacerbamos os nosso receios e inquietações, procurando para eles a adequada catarse. Ora «Deixem Passar o Homem Invisível» encontra clara correspondência num dos mais estereotipados pesadelos infantis: aqueles em que nos víamos cingidos num espaço para onde nos pretendíamos ir esconder e de onde já não conseguimos sair.
Um pesadelo, que encontra paralelo em adultos, quando vemos por exemplo as imagens televisivas de gente soterrada sob efeito de terramotos ou de deslizamentos de terras. Nessas alturas soa em nós a campainha de alarme do mais claustrofóbico dos terrores íntimos.
A leitura satisfaz, pois, a necessidade catártica de vermos realizados os sonhos mais inacessíveis ou de nos livrarmos dos terrores por que nunca quereremos passar.
Num sentido ou no outro, a literatura de viagens ou os romances de Stephen King são exemplos lapidares de uma escrita orientada, não só para o entretenimento de quem a lê, mas sobretudo para dar asas às ambições e aos medos colectivos, mesmo que vividos individualmente.
E a literatura também é isso!

Deixem Passar o Homem Invisível

Quando duas personagens convergem para um mesmo espaço e se tornam cúmplices nas mesmas vivências a partir de um ponto inicial, que era o de nem sequer se conhecerem até aí, o natural será surgirem muitas histórias passadas, seja com eles mesmos, seja do espaço aonde estão cingidos.
É essa a lógica de «Deixem Passar o Homem Invisível», romance de Rui Cardoso Martins em que temos um advogado cego e um escuteiro de oito anos a atravessarem meia Lisboa debaixo do chão depois de serem arrastados por uma enxurrada para um dos caneiros da cidade.
Cá em cima afadigam-se outros personagens, uns por ofício (os bombeiros, uma arqueóloga), outros por conhecerem os desaparecidos (a mulher do cego, a mãe do miúdo e um mágico chamado Serip) e o que vai sobressaindo é uma análise bastante crítica a uma sociedade aonde as obras de manutenção dos espaços públicos não se fazem a tempo e os desastres, quando sucedem, nunca são devidamente ressarcidos nos respectivos prejuízos porque o conceito de justiça passa sempre por minimizar os custos do Estado.
Sem constituir prosa memorável, o romance do jornalista das Produções Fictícias, está muito bem escrito, revela uma apreciável erudição quanto à história da cidade e a viagem de António e de João desde S. Sebastião da Pedreira até ao rio lê-se com agrado e expectativa.
Literatura também é esta arte de contar boas histórias

terça-feira, outubro 20, 2009

Defender os animais

Pode parecer que a legislação recentemente publicada no sentido de defender os direitos dos animais em circos ou na posse de privados possa parecer demasiado fundamentalista. Moralista até. Mas que ela vai no sentido de uma tendência histórica da relação do Homem com a Natureza, que o rodeia, não sobram dúvidas.
É à medida que vai sentindo apertar-se a estreita via entre a sua sobrevivência enquanto espécie e a sua definitiva extinção, que esse Homem colectivo vai ganhando consciência da necessidade de se livrar da postura de predador irracional e perspectivar a forma de se entender parte de um mundo aonde a sustentabilidade é requisito de futuro.
A progressiva noção de se defenderem os direitos dos animais decorre dessa evolução conceptual sobre a sua posição no seio do planeta: já não como protagonista, mas como personagem acessório.
Quando surgem as catástrofes sob a forma de terramotos, furacões ou erupções vulcânicas, o Homem tem consciência súbita da sua pequenez perante a vontade indómita dessa Natureza, que costuma menosprezar. Mas é ao sentir-se nessa menoridade, que poderá olhar à volta e respeitar a tal diferença, que tanto execram os tais moralistas. Os tais para quem os sentimentos de um cão ou de um gato não se podem equivaler aos de uma pessoa.  E por isso os abandonam nas auto-estradas, quando partem para férias.
Se a Ocidente já começa a ser consensual a necessidade de se preservarem baleias e golfinhos, de se acabar com o genocídio anual das focas canadianas ou de se proibirem em definitivo as touradas, ainda resta um longo caminho por cumprir até se chegar à última das consequências: a de julgarmos indecoroso o consumo de carnes e peixes de cujo martírio nos alheamos, quando os vemos cozinhados no prato. Mas que a tendência civilizacional aponta para um futuro macrobiótico a nível alimentar não restam grandes dúvidas.
Resta que a Oriente, particularmente na China e no Japão, esse atraso civilizacional é ainda maior. Mas torna-se clara a capacidade de imitação das modas deste Hemisfério, que ali são prontamente replicadas como sendo as adequadas. Por isso se a Europa se tornar paladina desses direitos depressa os verá adoptados noutras latitudes.
Em questões civilizacionais não há que temer a condição de pioneiro!
Como escreve Leonel Moura no «Jornal de Negócios» a questão dos direitos dos animais é matéria de civilização humana. À medida que as sociedades evoluem tende a aumentar a consciência da devastação e sofrimento que a acção do homem provoca nas restantes espécies que connosco partilham o planeta. Essa evolução é lenta, mas inexorável.

domingo, outubro 18, 2009

A TECTÓNICA DOS SENTIMENTOS

Serão as relações humanas equiparáveis aos fenómenos ocorridos nas placas tectónicas?

Eric-Emmanuel Schmitt pensa que sim: a tal ponto que intitulou «A Tectónica dos Sentimentos» à peça que levou à cena no Théatre Marigny em Janeiro de 2007 e publicada em livro no ano seguinte.
O que está em causa é o substrato vulcânico das nossas emoções, quando vivemos o sentimento amoroso. Umas vezes as duas placas justapostas vão coexistindo harmoniosamente, roçando uma na outra, deslocando-se a par sem causar problemas à volta. Mas, quando uma se quer sobrepor à outra, quantos cataclismos podem surgir! Terramotos, tsunamis, erupções de magma e outras consequências dramáticas, que tudo põe em causa.
O orgulho dos dois amantes é fundamento relevante para tais perturbações. Assim o demonstram Diane e Richard, os protagonistas da peça. Ela é deputada com reconhecido trabalho na tentativa de resgatar prostitutas da espiral de violência em que se deixaram enredar. Ele um milionário com tempo excessivo para se dedicar aos afectos que, aparentemente, o acabam por enfadar.
Durante uns anos ele assediara-a com propostas de casamento, que ela sempre rejeitara. É agora, quando está disposta a aceitá-lo, que Diane dá um passo em falso: testa-o na convicção dos seus afectos, dizendo-se cada vez mais esfriada a seu respeito e questionando-o se não sente o mesmo.
Em vez de o ver negar essa possibilidade, Diane tem a desagradável surpresa de o ver corroborar esse esfriamento da relação e a propor-lhe a ruptura imediata.
O despeito de uma mulher traída nas suas expectativas tem nela um exemplo lapidar de como só na vingança se poderá compensar. E vemo-la, então, convidar duas prostitutas romenas, Rodica e Elina a prestarem-se a uma missão humanitária: Richard estaria com um cancro em fase terminal e seria desejável proporcionar-lhe uma despedida em grande. Para isso Rodica faria de mãe da bela Elina e esta passaria por uma jovem estudante chegada a Paris para frequentar a Faculdade e ainda completamente desconhecedora dos meandros do amor.
Começa então um jogo do gato e do rato, com Diane a manipular as duas mulheres como se fossem marionetas e Richard a desesperar de nunca chegar a vias de facto com a desejada, mas inacessível Elina. Até que, como única alternativa, Richard decide desposar a rapariga.
É o tão esperado momento da vingança: Diane divulga o passado de Elina, expondo o ex-amante ao ridículo na influente sociedade parisiense.
O feitiço voltará, porém, a virar-se contra o feiticeiro: ao saber de todas as maquinações de Diane, Richard perdoa a Elina a quem aprendera a amar profundamente e acaba por revelar à ex-amante como ele próprio sofrera ao prestar-se ao papel de desinteressado no dia em que ela o testara e assumira um papel então impensável: é que, na época, ele amava-a mais intensamente do que ela julgara.
A peça acaba por ser ligeira, com laivos de comédia à Feydeau, particularmente no recurso aos equívocos de julgamento, mas não deixa de ser muito séria quando demonstra o perigo da desconfiança, quando o Amor deverá significar precisamente uma enorme aposta no seu lado exclusivamente positivo.

sábado, outubro 03, 2009

Ontem na Gulbenkian: Anne Sophie von Otter e as canções de Terezin

Começando na sobriedade da sua postura e prosseguindo no fio condutor do alinhamento do que ali vimos, o que estava em causa era a homenagem às vítimas do campo de concentração de Terezin, recordado como a montra organizada pelos nazis para iludir alguns incautos sobre a dimensão do seu crime fazendo crer que as pessoas a quem se tinham retirado todos os direitos ainda podiam aí praticar diversas expressões da sua criatividade artística.

Em trânsito entre as suas casas e o definitivo local de martírio, uns quantos artistas apeavam-se em Terezin, traduziam em poesia ou música o seu profundo terror e seguiam caminho em direcção às câmaras de gás.
Filha de um diplomata, que não conseguiu divulgar as suas suspeitas nessa altura, Anne Sophie homenageia todas essas vítimas com sonoridades ora soturnas, ora cândidas, que expressam a memória de um tempo, que nunca deveria ter assistido a tais horrores, mas de que nunca se retiveram as devidas lições. Como o demonstram os massacres, que se vão sucedendo um pouco por todo o mundo. Como sucedeu esta semana na Guiné-Conacri...

O FINALE DA SINFONIA «LONDRES» DE HAYDN

Em 1795 Joseph Haydn está em vias de deixar Londres, pondo termo àquele que viria a considerar o período mais feliz da sua vida. As doze sinfonias aí compostas serão determinantes para lhe associar o prestígio, que a sua posterior transição para a Alemanha se limitará a confirmar.
É nesse mesmo ano, que compõe a Sinfonia nº 104, também conhecido pela «Sinfonia Londres».
Perpassam por ela os ecos do intenso vendaval, que percorria a Europa de então, com a Revolução Francesa a pôr em causa toda a estrutura política e social do continente.
Ao ouvi-la nos seus diversos andamentos vale a pena ter em conta tal contexto para melhor compreendermos melhor o que subjaz a tais sonoridades.
Mas o que dela melhor se recorda é o seu último andamento, que parte de um pregão muito conhecido na época nas margens do Tamisa e é desenvolvido de uma forma facilmente dada à cantarolice.
Esse andamento é o melhor exemplo de uma conotação muito inteligente dos métodos de composição de Haydn com o ambiente popular em que se pretendia inserir. É essa associação, que facilitará o sucesso das suas obras, porquanto estabelecedoras de pontes comunicativas muito eficazes com o seu público de então.

domingo, setembro 27, 2009

A CASA DE BERNARDA DE ALBA

A produção de «A Casa de Bernarda de Alba», que o Teatro da Terra apresentou nas instalações do Teatro Meridional, levanta a sempiterna questão de se saber para que serve uma obra de arte. No caso em concreto, porque se apresenta esta peça em detrimento de uma qualquer outra.

É claro que a obra de Lorca - a última por ele escrita antes de ser fuzilado no mês seguinte - tem esse valor histórico, que justifica plenamente a sua apresentação no Teatro Nacional ou num Teatro da Cornucópia, que tem substituído com grande vantagem o que se vai fazendo nas salas do Rossio no que diz respeito à divulgação dos grandes textos dramatúrgicos da civilização ocidental.
Mas o que se espera de um grupo de teatro independente não é propriamente isso, por muito que nele possamos aprovar a encenação de Maria João Luís e da generalidade das interpretações com natural destaque para os desempenhos de Custódia Gallego ou de Ana Brandão.
Ao invés aguarda-se por proposta, que sirva de caixa de eco para as preocupações dos nossos dias, questionando-as de acordo com estéticas inovadoras em ruptura com as abordagens mais tradicionais.
Ora, apesar de lhe reconhecermos uma enorme importância, o texto de Lorca já pouco se interliga com o mundo em que vivemos. Se nos inícios dos anos 70, a peça serviria de metáfora muito eficaz contra o despotismo do regime salazarista-marcelista e para todos os preconceitos relacionados com o sexo, tudo mudou entretanto e já quase é de arqueologia a personalidade troglodita de Bernarda de Alba na sua obsessão em manter aprisionadas as filhas à sua idiossincrasia ultraconservadora.
Em muitos países sujeitos à islamização dos seus costumes esta repressão das mulheres faz sentido, mas em Portugal já quase será universal a condenação do comportamento de Bernarda de Alba, nomeadamente quanto á importância por ela atribuída ao diz que disse dos vizinhos.
Essa dessintonia do tema da peça com as preocupações actuais justificou algum enfado, tanto mais que ela decorre em ambiente lúgubre, porque ela inicia-se na sequência da morte do segundo esposo de Bernarda e com todas as mulheres a condenarem-se ao luto.
É claro que existe a luta de classes entre quem manda (Bernarda) e as criadas, mas bem podem elas verberar a patroa nas suas costas, que calam todas as reclamações na sua presença. O que prova não ser essa a preocupação essencial de Lorca ao formulá-la.
Por tudo isso, de entre as muitas peças exibidas nos últimos dois anos no teatro da Marvila, esta terá sido decerto a menos entusiasmante.

sábado, setembro 26, 2009

A DESDITOSA PÁTRIA DE SENA

A evocação de Jorge de Sena a respeito do regresso a Portugal dos seus despojos fúnebres depressa deu lugar ao esquecimento a que o escritor sempre foi votado no nosso país.
Várias foram as razões para, de forma breve, se ter interrompido esse voto de silêncio a seu respeito. Por um lado ele faria noventa anos em 2009 e, por outro, foi em 1959, que ele se exilou.
Mas, antes, já os seu livros de poemas vinham sendo proibidos pela PIDE, porquanto eram considerados «subversivos» e «pornográficos».
O Brasil é a primeira etapa da sua condição de exilado. Mas o golpe fascista de 1964 força-o a demandar os Estados Unidos.
De Portugal escreverá:

         Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
         Nem é ditosa, porque o não merece.
         Nem minha amada, porque é só madrasta
         Nem pátria minha, porque eu não mereço
         a pouca sorte de ter nascido nela.

A percepção do país a partir do exílio foi sustentando nele uma grande amargura a respeito de Portugal: «Os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninas, que nunca se libertaram do peso da mãezinha», como diria em memorável discurso no Dia de Portugal.
Segundo diria «a nossa história esteve sempre repartida entre o anseio de uma liberdade, que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou seja, as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a década um e o desejo de ter um pai transcendente, que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido ou D. Sebastião».

PORTUGAL FAZ ALGUM SENTIDO?

Portugal faz algum sentido?

A pergunta foi feita numa conferência ocorrida algumas semanas atrás em Serralves com a presença de Eduardo Lourenço, que aproveitou para enfatizar a singularidade do país, quase uma ilha no meio de outros povos, mesmo dos mais próximos.
E valerá a pena reconhecer o quão orgulhosos estamos de tal singularidade: mesmo deprimidos como herdeiros desses intelectuais dos finais dos século XIX, que buscaram as causas da decadência ibérica nas famosas Conferências do Casino.
Até hoje teremos ficado prisioneiros desse exercício de auto-crítica, desse ensimesmamento quixotesco de quem se sente sem objectivos durante mais de século e meio. Até porque se foram perdendo as colónias, a começar pelo Brasil…
Hoje descobrimo-nos num mundo globalizado, muito mais adiantado, que o nosso, sendo-nos pedidos esforços gigantescos para a ele nos adaptarmos.
No fundo, tal qual frisava Manual Maria Carrilho numa recente crónica do Diário de Notícias, «perdeu-se a confiança numa evolução positiva do mundo. Desapareceu a certeza de que o dia de amanhã será melhor do que o dia de hoje».

quarta-feira, setembro 23, 2009

OS TRIOS DE HAYDN

Existe uma razão bastante consistente para, de entre as muitas obras compostas por Haydn, serem os seus trios as menos conhecidas. Ela é o facto de tais obras darem uma tal primazia ao piano, que o violino ou o violoncelo jamais abandonam a função de acompanhamento redundante do que aquele entoa. Isso significa que, hoje em dia, quando algum agrupamento de câmara escolhe os temas para as suas apresentações em público, a opção vai para os que permitem um desempenho igualitário entre os seus instrumentistas em vez de olharmos quase exclusivamente para o pianista, esquecendo os que, ao lado, se limitam a servir-lhe de caixa de ressonância.

E, embora se possa pensar que Haydn teria composto tais obras no início da carreira, sucedeu precisamente o contrário: a maioria dos mais de quarenta trios por ele compostos foram-no quando já tinha ultrapassado os cinquenta anos de idade. Ou seja, quando ele se deu ao prazer de criar obras preferencialmente para o seu instrumento de eleição sem se preocupar com os demais.
E, no entanto, são obras de um virtuosismo evidente, que garantem prazeres melómanos garantidos para quem tiver o prazer de as escutar.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Sobreviver com os Lobos

O Holocausto já foi abordado de milhentas formas, sendo cada vez mais difícil encontrar ponta de originalidade em quem se abalança à revisitação desse fenómeno histórico.

Vera Belmont, realizadora francesa à beira da condição de septuagenária, decidiu-se a fazê-lo com recurso a um romance de Misha Defonseca, que começou por ser apresentado como autobiografia, mas se desmascarou depois como história completamente inventada.
Mas dos equívocos da autora do romance não tem culpa a realizadora: o seu projecto é pegar numa história extraordinária e vertê-la em imagens. Focalizando toda a sua atenção numa miúda de oito anos a contas com uma vivência heróica: a da personagem porque atravessa toda a Segunda Guerra Mundial e suas múltiplas ameaças sem perder a vida; a da jovem actriz, obrigada a um desempenho muito exigente…
Ao iniciarmos o filme, Misha ainda vive com os pais num bairro de Bruxelas aonde a ameaça vai pairando de uma forma cada vez mais insistente. Razão suficiente para a miúda votar um ódio quase visceral aos boches.
Um dia o pai não a vai buscar à escola e ela é recolhida por uma organização clandestina, que a confia a uma família muito renitente a aceitá-la a não ser pela retribuição regularmente paga pela sua protecção.
No entanto, quando esse pagamento deixa de ser feito, Mme Valle não hesita em denunciá-la à polícia.
Ela bem tenta recolher-se em casa do velho Ernest Leroy, que costumava fornecer documentos falsos e alimentos aos Valle, mas vê-o a ser levado pela milícia pro-nazi devido às suas actividades de falsificador.
Já os Alemães estão a sentir limites para a sua expansão no cerco a Estalinegrado, quando Misha fica entregue a si mesma, usando a sua liberdade para, recorrendo à bússola de Ernest se dirigir a Leste já que os pais terão sido levados nessa direcção.
Na floresta ela descobre, além da fome intensa, o seu estranho poder de comunicação com os lobos, seus companheiros circunstanciais nos anos seguintes.
Em 1943 já ela está em território polaco, conseguindo sobreviver graças a hábeis manobras de desenrascanço. Como o de beber leite directamente das tetas das vacas, quando as encontra num estábulo.
Vive momentaneamente numa tribo de outros miúdos entregues a si mesmos. Mas, mais lúcida do que eles, escapa da armadilha em que os vê serem capturados pelo Exército nazi.
Quem ela não consegue salvar é a alcateia em que se recolhe a seguir e quase por inteiro chacinada por caçadores. O sentimento de perda transparecido nessa altura é o da transferência do por ela vivido em relação aos seus desaparecidos pais.
1944 já a apanha na Ucrânia, quando o exército nazi está à beira da derrota. Recolhida por resistentes comunistas, ela vive um período quase idílico, em que se sente ternamente acolhida por aqueles admiradores de Estaline.
É no cinema onde se mostram imagens da libertação de Bruxelas, que Misha decide empreender sozinha o caminho de regresso.
Quando chega a casa no ano seguinte está exausta e em estado comportamental semi-selvagem. Ela acabará por ser recolhida por Ernest Leroy, o único apoio que lhe resta, já que dos pais nunca mais voltará a saber...

terça-feira, setembro 08, 2009

Os sonetos de Shakespeare

É verdade que ao longo do ano vamos assistindo a muitos bons espectáculos teatrais ou musicais. Mas, já no último terço do ano, tenho para comigo a convicção de ter acabado de assistir ao melhor de entre os que pude ver ao longo deste 2009. E, em vez de o apreciar ao vivo, foi através do canal ARTE, que ele se fez disponível. Trata-se de «Os Sonetos de Shakespeare», ópera levada à cena no Berliner Ensemble numa dramaturgia de Jutta Ferbers, encenada por Bob Wilson e musicada por Rufus Wainwright.
Sabemos bem como está esgotada, de forma pueril, a palavra «fantástico» para definir algo de muito bom. Mas este é dos escassos exemplos, que deveria fazer jus a tal expressão. Porque os textos são superlativos na forma como se interligam ao abordar maioritariamente o amor nas suas diferentes vertentes, seja nas felizes, seja nas infelizes, sem esquecer as relações de poder que a tudo preside. A colori-los há a contar com uma belíssima encenação, que conta com uma caracterização dos actores em cujos rostos embranquecidos foram desenhados vigorosos traços a negro acentuadores das suas sucessivas expressões e com um trabalho de luminotécnia capaz de vestir o cenário sem qualquer outro adereço. Mas, quando os utiliza, Bob Wilson remete claramente para a pintura abstracta de Mondrian ou para o simbolismo surrealista de Magritte.
Há a contar, igualmente, com a música de Rufus Wainwright, definitivamente um dos mais interessantes criadores contemporâneos nessa área criativa. Aliando a pop à canção de cabaret de Kurt Weill, sem esquecer uma vertente mais minimal repetitiva, ele enriqueceu todo o lado visual do espectáculo com uma tecedura sonora digna dos maiores elogios.
«Os Sonetos de Shakespeare» é exuberante na capacidade para associar os diversos estímulos num espectáculo, que conta com interpretações merecedoras dos mais entusiásticos adjectivos.
O problema ao abordar uma obra assim é já terem-se esgotado os elogios noutras de menor valia, não sobrando expressões ainda mais vibrantes para aplicar a esta...

segunda-feira, setembro 07, 2009

Guerra no Grande Norte

Trondheim, Tromso, Spitzberg…

Tudo sítios conhecidos da época em que o Grande Norte norueguês fazia parte dos nossos itinerários estivais por efeito de obrigações profissionais em navios de cruzeiros.
O conhecimento de tais locais - a que acrescentaria outros não referenciados no documentário, mas com história muito intensa no período da Segunda Guerra Mundial como foi Andalesnes - aguçou a curiosidade pelas quase duas horas do filme de Rolf Daubitz e Jens Becker subordinado à «Guerra no Grande Norte».
Três razões estratégicas presidiam à decisão alemã de invadir a Noruega e neutralizar a seu favor a frágil Finlândia: por um lado encontravam-se aí matérias-primas fundamentais para alimentar a indústria siderúrgica alemã, que trabalhava intensivamente na produção de armamento militar. Depois, ganhavam-se ai posições geoestratégicas muito importantes para defender o território do Reich e atacar o norte da União Soviética: Murmansk, porto siberiano por onde era reabastecida a cercada cidade de Leninegrado, constituía objectivo fundamental para aí derrotar o Exército Vermelho. E, enfim, tendo em conta a importância da meteorologia no planeamento das operações aéreas, e privada a Alemanha das informações dos serviços internacionais, era em Spitzberg que se justificava a instalação de bases científicas destinadas a recolher informações passíveis de estabelecer previsões consistentes.
Durante o período entre 1940 e 1944 as tropas alemãs vão de vitória em vitória e nada parece interpor-se entre elas e a vitória final na guerra. Até que os soviéticos partem ao contra-ataque e se comecem a acumular as más notícias: a destruição do navio almirante da Marinha Alemã, o «Turpitz» num fiorde norueguês, a viragem finlandesa, que de aliada passa a inimiga depois de um acordo com Estaline e as derrotas sucessivas nos confrontos como Exército Vermelho.
No final da guerra os territórios norueguês e finlandês terão contribuído com cem mil vítimas para o somatório das vidas perdidas durante o conflito. E sobram muitas histórias dos sobreviventes, que os realizadores ouviram, quer para contar os inauditos sacrifícios por todos padecidos e algumas histórias de relações amorosas estabelecidas no fio da navalha.
O maior mérito do filme é mesmo o de dar a conhecer os efeitos históricos do conflito numa área geográfica normalmente esquecida, quando ele é abordado.

sábado, setembro 05, 2009

Mamma Mia!

Há também filmes do tipo Melhoral. Não fazem bem nem mal.
Vem isto a propósito de «Mamma Mia», o filme com música dos Abba e que dá a Meryl Streep e a Pierce Brosnan a oportunidade para se exercitarem num género a que, por natureza, pareciam avessos.
Produzido pelo casal Hanks estamos em entretenimento puro, com a história de uma rapariga em vias de casar e apostada em ser levada ao altar pelo pai. O problema é que, segundo o diário surripiado á mãe, há três potenciais responsáveis por essa gestação. E ao convidá-los para a pequena ilha grega aonde tudo se passa, gera os equívocos óbvios, que culminam no casamento final, com intervenientes bem diferentes dos inicialmente previstos…
A música ouve-se bem, as vozes não comprometem, o argumento, mesmo que inverosímil, aceita-se numa lógica de mera diversão e assim se passa uma plácida tarde de sábado!

sexta-feira, setembro 04, 2009

COMO SE TRANSFORMAM NOTÓRIOS RÉUS EM VÍTIMAS INOCENTES!

As duas histórias do dia coincidem na plena demonstração de como, no PSD, está a valer tudo para tentar derrotar José Sócrates nas eleições do dia 27. Depois de falhada a opção da eventual inclinação homossexual do primeiro-ministro, depois do ciclo dedicado ao seu diploma de Engenheiro, e em vias de se esgotar todo o folhetim relacionado com o caso Freeport, os ideólogos das campanhas sórdidas do PSD lançam agora a tese da «asfixia democrática». E é inconcebível como conseguem, em aparência fazer passar uma mensagem que, racionalmente, todos os factos tendem a desmentir, mas já estava em vias de implementação quando Aguiar Branco lançou o tema no comício do Pontal.
Tal estratégia, hoje evidente, socorre-se da velha máxima nazi em como uma mentira hiper-repetida acaba por passar como uma verdade.
E essa repetição tem a ver com quem domina hoje a informação escrita e televisiva, quem são os seus accionistas, a que interesses se ligam os seus directores, colunistas e comentadores.
A asfixia democrática na informação existe, porque é óbvia a sua pertença a quem controla o capital, excluindo dela quem possa e queira objectivá-la. E assim se entende todo o nervosismo associado ao controle da TVI pela PT, quando nunca se viu qualquer problema com o da SIC por Pinto Balsemão.
Mas os casos de hoje espelham um passo em frente numa estratégia clara, que ainda há dias fora testada com a história da suposta espionagem do Governo ao que se passaria no Palácio de Belém. Já nessa altura surgiu a figura da denúncia operada por um assessor ANÓNIMO do Presidente, o que deveria logo indiciar a suspeita para quem acusava em vez de ser assacada a quem era acusado.
Quando os valores morais eram mais sólidos e a dignidade humana se fundamentava em gente que dava a cara, qualquer denúncia anónima era por si mesma desconsiderada. Agora, nestes órgãos de (des)informação, ela é explorada até à exaustão, porquanto serve os valores de quem assumiu a sua missão por quem lhe paga o ordenado. E se a regra é derrubar o Governo, todos os argumentos são bons.
Ora o primeiro caso do dia 3 foi o de um vice-presidente do Instituto Sá Carneiro, que acusa pessoas anónimas não identificadas, mas relacionadas com o Governo de chantagearem Alexandre Relvas a respeito das suas actividades empresariais.
Variante do caso da semana transacta, temos um acusador parcialíssimo, já que é notório militante do PSD a fundamentar uma acusação sem sentido mas baseado em fontes não especificadas.
E depois, já na tarde do mesmo dia, o caso do «Jornal Nacional» da TVI merece uma análise não menos relevante. Ao que se sabe agora a sua responsável iria aproveitar para, em plena campanha eleitoral, apresentar mais uma das suas reportagens violadoras dos valores elementares da deontologia profissional tendo o caso Freeport como tema. Não é preciso ser bruxo para adivinhar que teríamos mais uma manipulação grosseira de factos à mistura com insinuações sem provas destinadas a prejudicar o Partido Socialista.
Num país aonde o jornalismo tivesse uma ética responsável há muito que a respectiva classe teria denunciado a antiga deputada do CDS como o exemplo paradigmático do que não deve ser essa profissão. Infelizmente, e uma vez mais, embora o estilo profissional de tal criatura desagrade a uma grande maioria de profissionais da informação, não é deles que surge a iniciativa de denunciar como inaceitável o que dela emana.
Que sejam os accionistas a decidirem impor critérios de objectividade na informação oriunda desse canal, evitando o escândalo ético de uma ingerência indigna na livre escolha dos portugueses quanto a quem querem ter a governá-los, eis uma vez mais a inversão da lógica dos acontecimentos, travestindo em vitimas inocentes quem em toda esta história deveria surgir como réus sujeitos a rigoroso julgamento.
Espere-se que os portugueses mostrem a sua lucidez, já demonstrada noutras alturas e votem ao fracasso estas baixas manobras de fazer política.

quarta-feira, setembro 02, 2009

«Alexander Nevsky» de Eisenstein

Já não me recordo em que sala lisboeta o vi pela primeira vez. Tenha sido no Apolo 70, no Caleidoscópio ou no Estúdio do Império, foi decerto em espaço já apenas reservado na memória de quem, nos idos anos 70, se assumia numa cinefilia interessada pelos títulos clássicos do grande cinema soviético.
E este era decerto um dos mais deslumbrantes, apenas ultrapassado pelo verdadeiro monumento cinematográfico, que seria «Ivan, O Terrível». Agora é um dos muitos, que aguardam na minha cinemateca particular a oportunidade para ser reapreciado. Com outra maturidade que, então, mal saído da adolescência, ainda não possuía.
O filme data de 1938 e correspondia a encomenda de Estaline como ferramenta de propaganda contra a ameaçadora Alemanha nazi. Por isso não se olhou a meios, possibilitando ao realizador a sua primeira obra sonora.
O tema era elucidativo: evocar a grande vitória do Príncipe Alexandre, quando a terra russa se viu invadida pelos cavaleiros teutónicos em 1549. O que correspondia a um aviso a Hitler, bem explícita na legenda final: «Quem vier com a espada morrerá pela espada».
Mas, para além dessa temática histórica, que servia de metáfora para uma abordagem ideológica da situação política de então, o filme é uma ópera grandiosa servida pela música de Prokofiev e com um esplendor plástico baseado na organização das suas linhas, das suas figuras e dos seus sons. Nomeadamente a batalha final, que por muito confusa nos pareça, associa os sons das armas, os gritos e as imprecações numa sinfonia visual culminada pela cena memorável do cavaleiro a afundar-se nas águas geladas do lago Peipous.
E não falta, enfim, a grande característica do realizador: essa movimentação coordenada dos milhentos figurantes, que além de dar um sentido colectivo à mensagem, possui um efeito estético superlativo.

segunda-feira, agosto 31, 2009

O mito Rommel

Que se poderá dizer de um homem como Rommel? Embora haja muitos crédulos dispostos a rever os comportamentos criminosos dos seus idolatrados «nazis de bom coração», a verdade é que todos eles eram parte integrante de um sistema cujas injustiças deveriam ser óbvias logo à primeira abordagem. Incluindo os que haveriam de atentar contra Hitler e acabariam por ser sumariamente fuzilados por isso mesmo.
Para a maioria dos Rommels da Wehrmacht a ditadura de Hitler nunca constituíra problema enquanto os efeitos mais drásticos da sua política tomavam como vítima os judeus e os comunistas. Para tais militares o regime nazi trouxera promoções e agradáveis regalias, que os cegava quanto ao beco sem saída para onde se deixavam cordatamente conduzir.
A consciência antifascista só viria com os bombardeamentos aliados e a noção de se estar em vias de uma derrota passível de todas as benesses retirar.
Os últimos dois anos de vida do marechal deverão ter sido de enormes angústias pela incapacidade em travar a maré humana armada, que não tardaria a confrontar os alemães com os seus crimes. Pode-se até dar de barato, que só nessa altura ele tivesse tido conhecimento do Holocausto em curso. Mas nada disso o fará inflectir nessa lealdade a Hitler: como soldado ele limita-se a cumprir ordens, só evitando as inevitavelmente gravosas para os seus comandados. Por isso recua em El Alamein, quando a probabilidade de derrota se torna evidente.
Não se justifica assim a criação desse tal mito Rommel de que este filme não se dissocia. Nada na biografia do marechal o distingue de qualquer outro marechal ou general do seu tempo na busca de soluções para evitar um desastre anunciado. E é na plena consciência de se considerar um militar leal, que nunca admitirá possa vir de si qualquer tentativa para retirar o tapete a Hitler, que Rommel vi pressentindo o som dos tanques aliados a aproximarem-se.
A última prova do seguidismo inconsequente de Rommel em relação a Hitler está na sua própria morte: quando o cada vez mais paranóico Fuhrer lhe manda uma cápsula de cianeto para que se suicide, será sem qualquer contestação, que ele a tomará.
Admitamos que, nesse momento, já não fosse o receio do ditador, que o tenha comandado: ele já poderia pressentir que os vencedores não iriam ser complacentes com os derrotados. E o castigo prometido constituiria um insuportável enxovalho para o antigo capitão bruscamente projectado para a condição de um dos mais fiáveis símbolos do regime...

domingo, agosto 30, 2009

Um documentário de Marianne Chaud

Marianne Chaud apaixonou-se pela zona do Zanskar, zona indiana nas encostas dos Himalaias, situada a quatro mil metros de altitude e, por isso mesmo, aprendeu a língua falada pelos povos aí existentes. No seu projecto de cineasta e de etnóloga ela passou a viver uma parte do ano naquela região, convivendo com quem ali habita.
No caso deste filme ela acompanha, sobretudo, as mulheres, porque no Verão os homens estão quase sempre ausentes a ganharem algum dinheiro por fora. Cabe, pois, às mulheres o pesado esforço dos trabalhos do campo, sejam eles a ceifa da cevada ou a transumância dos iaques até aos terrenos de pasto a maior altitude.
Não há limites de idade para o labor no campo: desde que começam a andar as crianças são incentivadas a pegar na foice, assim como só a abandonam as mulheres mais velhas, quando morrem. Imagem expressiva de tal realidade é a da velha senhora cega já muito cansada, mas ainda a trabalhar acompanhada por um dos bisnetos e que morreria três dias depois dessas derradeiras imagens.
Interessantes igualmente as imagens da pequena pastora de 13 anos com uma incurável curiosidade relativamente ao mundo exterior ou as da ceifeira da mesma idade, obrigada a viver sozinha na sua parcela de terra, porque o pai morrera entretanto e a mãe estava com os iaques nas terras mais altas.
Raros são os homens ali presentes, mas um deles reflecte sobre a dureza da vida ali bem como a reencarnação depois da morte. Mas não deixando de deixar no ar a possibilidade disso não fazer qualquer sentido. Ou, mesmo que por omissão, um outro homem levado para a aldeia mais próxima para se sujeitar aos cuidados de um médico tradicional e que, passadas semanas, nada deixa transparecer do que com ele se terá passado. Fica a dúvida se ele terá sobrevivido.
O que fica subjacente a todo o filme é o facto de se tratar de um mundo em iminente mudança: anuncia-se uma estrada a passar pelo vale e com ela a imposição dessa civilização até então apenas pressentida pela passagem dos aviões no céu ou pela visita de viajantes como a realizadora. E então a acelerada invasão dos sinais de modernidade porá cobro a estes comportamentos ancestrais...

Mulheres sarauís

Num artigo do «Le Monde» recorda-se como são diferentes as mulheres sarauis em comparação com as suas islâmicas irmãs no restante Magreb.
No seio da família elas conquistaram um estatuto quase igualitário, que resulta de, desde o berço, as crianças serem prioritariamente orientadas para respeitarem em primeiro lugar a mãe, e só depois o pai.
A mulher casada não se cinge a ficar em casa, podendo sair, passear e dar opinião sobre todos os assuntos. Se usa o véu não é para corresponder a regras religiosas, mas para se proteger do Sol já que os padrões de beleza feminina tornam mais apelativo o tom de pele mais próximo do alvo. Mas, mesmo neste aspecto, a mudança está em curso: ainda há pouco uma mulher era tanto mais bela, quantos uns quilos a mais lhe arredondassem as formas. Hoje a elegância das linhas magras tornou-se regra.
Mas outra das singularidades da mulher sarauí é casar e divorciar-se com alguma frequência. Ora, longe de serem ostracizadas, as que se divorciaram não tardam a ser cortejadas por novos pretendentes estimulados pelo capital de experiência nelas acumulado.