Vemos, ouvimos, lemos e experimentamos. Tanto quanto possível pensamos pela nossa própria cabeça...
segunda-feira, outubro 09, 2017
domingo, outubro 08, 2017
(DIM) Al Berto, um poeta cinematograficamente biografado
Confesso, que nunca me entusiasmei nem com a personalidade nem com a obra de Al Berto: na época em que ele era o mais que tudo de uma certa intelectualidade lisboeta, que tinha no «Frágil» do Bairro Alto o centro do mundo, associava-o ideologicamente ao espetro político oposto do meu. Umbiguista por natureza, pensando quase exclusivamente no seu prazer, cultivava um individualismo, que encontraria particular expressão no «Independente» de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas e viria a servir de batedor ao exército da Alt-right à portuguesa, que fez do governo de Passos Coelho o veículo preferencial para a mundança do país de acordo com os seus valores.
Em poesia ou em prosa a Literatura deveria servir - e ainda acredito ser essa uma das suas vocações incontornáveis! - a de denunciar as disfuncionalidades sociais e, na medida do possível, lançar pistas para que elas venham a ser corrigidas. Algo que dificilmente vislumbraremos nos textos de Al Berto.
E, no entanto, quer com Rimbaud no final do século XIX, quer com Genet já nos três primeiros quartéis do século XX, a literatura apostada no hedonismo homossexual possibilitou o questionamento de preconceitos a contrario da evolução social, que as novas tecnologias impunham. Pode-se concluir que, mesmo sem terem consciência do potencial transformador dos seus comportamentos e ideários, alguns criadores puderam perturbar seriamente os equilíbrios cristalizados cuja perenidade já não fazia qualquer sentido.
O filme de Vicente Alves do Ó repete o objetivo já por ele assumido com a biografia de Florbela Espanca: o de confrontar quem, pela sexualidade, choca as certezas enquistadas de quem os rodeia e torna-os vítimas da incompreensão, se não mesmo do ódio de quem se sente inseguro perante o evidente prazer por eles colhido das suas «escandalosas» opções.
Apesar de dominada politicamente pelo PCP, o regresso de Al Berto a Sines logo após a Revolução dos Cravos constituiu muito mais do que uma pedrada no charco: como podia a vila aceitar que o filho de um dos mais notórios comunistas da terra se tivesse transformado no amante público do falido herdeiro de uma das suas famílias mais abastadas? Se Romeu e Julieta tinham sofrido o que bem sabemos, por quanto Shakespeare nos contou, mesmo sendo de géneros opostos, como podia aquele meio tão pequeno aceitar algo de semelhante entre dois rapazes do mesmo sexo?
Apesar de malquisto pela crítica, que lhe encontrou mais defeitos que virtudes, «Al Berto» justifica plenamente a visão, porque testemunha a transformação iminente suscitada pela construção do Complexo portuário e petroquímico, que atrairia quem se veria atraído pela possibilidade de bons empregos. Os usos e costumes teimavam em sobreviver, mas era a mudança imposta de fora a virá-los do avesso!
Tendo ali estado frequentemente nessa segunda metade dos anos setenta, achara Sines entediante por falta de sítios onde a cultura tivesse algum cabimento. Nessa época não imaginara que Al Berto abandonara há bem pouco tempo a expetativa de a estimular a partir dos saraus literários e das festas no seu palacete ou da livraria, que gente cobarde vandalizaria. Na época reinava um comprometido silêncio a seu respeito como se tudo tendo feito para o expulsar, a vila sentisse a má consciência de tal vilania.
O filme acaba por ter por tema os custos de se procurar ser irreverente onde o conformismo tem força de lei...
(DL) O retrato de uma América agudizada pelas tensões raciais
«Rapariga Branca, Rapariga Negra» é o romance de Joyce Carol Oates, que ando agora a ler. Publicado há onze anos tem como narradora uma rapariga branca, Genna Mead, que nos promete contar as circunstâncias em que terá morrido Minette Swift, rapariga negra que com ela partilhara o quarto numa colégio interno criado pela comunidade quaker. A ação passa-se na primeira metade dos anos setenta e volta a dar à escritora o ensejo para exercitar o fascínio pela violência através de uma tragédia realmente ocorrida no dormitório de uma faculdade.
Genna tem comigo a coincidência de ter nascido em 1956. O pai fora um conhecido advogado, que muito se esforçara por defender os manifestantes contra a Guerra do Vietname ou os Panteras Negras, o que o colocara, juntamente com toda a família, sob o radar da contínua vigilância do FBI.
Essa ascendência radical dera-lhe a necessária consciência social e política para tentar compreender, mesmo que à distância de vários anos, o que realmente sucedera a Minette e como poderia ter evitado esse desenlace fatal.
Na aparência todas as alunas do Schuyler College não pareceriam diferentes, por muito que Genna procurasse escamotear as origens privilegiadas (pertencia á família do próprio fundador da instituição escolar!) e Minette não pudesse esconder a condição de filha de um pastor protestante, que lhe imbuíra um comportamento austero e muito exigente consigo mesma. É esta superioridade moral, que acaba por se virar contra si mesma, tornando-a objeto de inequívoca antipatia por parte das colegas. As situações de bullying não tardam: partem-lhe a janela do quarto á pedrada, vandalizam-lhe um dos mais caros manuais escolares, ostracizam-na no refeitório ou nos pátios.
Genna é a única exceção, nunca desistindo de criar uma corrente de empatia com a colega, mas as diferenças de cor da pele tendem-nas a separar e Minette nunca a aceitará como amiga. Só quinze anos depois, quando tudo recorda e procura aprofundar, é que conseguirá entender melhor as circunstâncias do homicídio e como nunca o teria podido evitar...
sábado, outubro 07, 2017
(C) A hipnose como terapia consensual em ambientes clínicos
Houve um tempo em que a hipnose era vista como uma vigarice, uma ferramenta de manipulação ou, na melhor das hipóteses, um recurso para melhor se conhecer o que se teria recalcado dentro de si.
Mais recentemente a Medicina tem recorrido a ela por se mostrar uma alternativa eficaz à anestesia, quando se trata de combater a dor. Mas começa a ser levada muito a sério para o combate às fobias, às dependências, aos traumas psicológicos, com efeitos inegavelmente minimizadores dos seus impactos em quem os sofre. E, no entanto, já desde o século XIX, que o médico escocês James Braid demonstrou os benefícios dessa técnica alternativa de tratamento médico, considerando que a hipnose não é muito diferente dos estados mentais por que passamos comummente no dia-a-dia, quando nos afundamos nos pensamentos ou quando quase esquecemos tudo quanto se passa à volta porque um entretenimento nos monopoliza toda a atenção.
A hipnose acaba por constituir um recurso para nos distanciarmos do foco no que nos está à volta, desligando essa vertente da consciência. Exames imagiológicos permitem concluir que, quando isso sucede, há zonas do cérebro, que se inativam, e outras, que ganham súbita vivacidade.
Através da hipnoterapia é possível distanciar os pacientes do stress, atenuar dores pós-operatórias e até evitar reações inflamatórias. Porque a hipnose reprograma a perceção da realidade permitindo a indução de sugestões alternativas. Por isso mesmo os médicos, que defendem a sua utilização consideram que possa substituir muitos medicamentos sem deles reter os sempre consideráveis efeitos secundários. A dor pode ser substituída pela calma, pelo bem estar...
Hoje em dia até os atletas de alta competição aderem a esta técnica para melhor controlarem o seu ânimo e melhorarem o desempenho. No entanto ela comporta limites não negligenciáveis: além dos perigos do seu uso por «terapeutas» pouco fiáveis, que se podem valer da hipervulnerabilidade em que os pacientes possam ficar, nem todos nós somos potencialmente hipnotizáveis, porque calcula-se que 1/3 da população dificilmente consegue dissociar-se dessa realidade circundante e, os que melhor o fazem não chegam a 10% dos que têm sido objeto de estudo científico, havendo estados intermédios entre os dez níveis de uma classificação entretanto definida.
O mais curioso é existir essa zona cerebral onde a consciência adormece, substituída pela possível aceitação de uma realidade alternativa, mais sentida do que compreendida.
(DIM) A curiosidade cinéfila do Quixote rodado por Orson Welles
No Espaço Nimas passou há dias a versão do «Don Quixote» de Orson Welles, montada por Jess Franco para ser mostrada na Exposição Mundial de Sevilha em 1992. Apresentada pelo blogue «À Pála de Walsh» como oportunidade para refletir sobre a legitimidade de apropriação do material inacabado, a que o seu criador nunca dera forma definitiva, é essa a questão essencial: se o próprio Welles esforçara-se por dificultar a tarefa de quem se atrevesse a tal propósito, deixando o material disperso por diversas geografias e disfarçado em caixas etiquetadas como se contivesse películas pertencentes a outros projetos, não terá constituído uma traição essa tentativa de comercializar uma hipótese sobre qual seria a sua versão definitiva?
Rodado entre as décadas de 50 e de 70 e situando o personagem de Cervantes no mundo atual, Welles pretenderia metaforizar o seu encontro disfuncional com as grandes questões existenciais desse tempo. Tivesse ele tido os meios necessários para tornar possível o que concetualizara e podemos supor a bela obra-prima, que resultaria. O problema é que, a exemplo de outros projetos também deixados por concluir, Welles viveu sempre em grandes apertos financeiros, complementados com relacionamentos difíceis com quem confiava poderem-lhe financiar os filmes. Por isso embora muito do material disponibilizado pela versão de Franco ostente uma beleza formal irrepreensível, resultou heterogéneo o bastante para que o seu autor nunca se atrevesse a conferir-lhe essa forma definitiva. Às tantas terá assumido que ele permitia-lhe o «hobby» de o entreter na moviola nos seus tempos de lazer, sem justificar objetivo mais ambicioso.
No fundo a versão de Franco permite questionar a legitimidade dos restauros. Quando, por exemplo, percorremos as galerias de Versalhes e damos com pinturas de cores exuberantes, sem sinal da patine do tempo e a que foram aplicadas novas camadas de tinta para se parecerem com as originais, poderemos considerar que existe efetiva identidade entre o que foram e no que se tornaram? É isso que sucede com esta proposta: pode parecer ao jeito de Welles, mas definitivamente não o é de todo!
Até pelas circunstâncias em que o tarimbeiro Franco cuidou de encontrar raccords nos materiais acumulados na sua mesa de montagem, este «Don Quixote» assemelha-se aqueles fortes dos piratas nas Disneylãndias, que nenhuma semelhança efetiva têm com os originais existentes nas Caraíbas.
(DL) Um Nobel que não se discute embora longe de ser indiscutível
Quando chega esta altura do ano e a atribuição do Prémio Nobel da Literatura é anunciada, costumo ter uma de três reações: ou fico extremamente contente, como sucedeu com a consagração de Saramago, mas também com as de Modiano, Le Clézio ou Garcia Marquez. Há aquelas situações em que me indigno com a escolha da Academia Sueca, porque considero totalmente disparatada a sua escolha, como sucedeu no ano transato com Bob Dylan ou, anteriormente, com esse refinado crápula chamado Camilo José Cela. E há anos como este em que vivemos, quando as escolhas são assim uma espécie de melhoral: nem faz bem, nem faz mal. Ou seja: são nomes defensáveis, porque têm talento e obra publicada de irrefutável mérito, mas, passado o seu momento de glória, acabam por regressar ao quase anonimato onde anteriormente subsistiam.
No caso do premiado deste ano é o próprio editor a reconhecer que, apesar de lhe editar os romances, porque muito os aprecia, o retorno económico desse investimento é negativo porque, pelo menos até agora, poucos exemplares deles conseguia vender. Por sorte as próximas semanas poderão mitigar-lhe significativamente os prejuízos, mas exceto na altura do incontornável obituário, quem se lembrará de Ishiguro daqui a meia dúzia de anos?
A primeira vez que dele ouvi falar foi quando se estreou «Os Despojos do Dia», um memorável filme com Anthony Hopkins e Emma Thompson. A singeleza da história, muito bem enquadrada entre os anos anteriores e os posteriores à II Guerra Mundial numa Inglaterra onde as simpatias germanófilas eram substanciais, parecia indiciar uma capacidade narrativa interessante, embora, a exemplo da maioria dos apreciadores do filme, tenha dispensado a leitura do romance em que se baseara.
Passei depois os olhos por um romance em que ele descrevia uma sociedade distópica onde crianças eram geradas e educadas para virem prestar-se, mais tarde, a verem os seus órgãos principais serem transplantados para os corpos envelhecidos e doentes da elite local. Da tomada de consciência dessa sua condição até à revolta, os personagens viviam um processo de consciencialização, que punha em causa a sustentabilidade daquela sinistra realidade.
Pela imaginação e pelo talento que, quem o leu, lhe reconhece, o Nobel atribuído a Ishiguro é de uma justiça incontestável. E premeia quem cria obras respeitadoras dos cânones evitando à Academia as polémicas dos anos anteriores.
Pessoalmente congratulo-me com o facto de, uma vez mais, um conhecido invejoso da nossa praça ter ficado a chuchar no dedo. Reconhecendo-lhe qualidade literária não suporto a petulância de quem se julga um génio injustiçado. A ver um outro escritor de língua portuguesa a colher esta acalmação, que seja Mia Couto ou Agualusa. Pelo menos ao talento literário associar-se-á um feitio bem mais simpático, menos afetado. Até porque já estamos mais que fartos das historietas sobre os pais, os irmãos ou o temor da inevitável morte.
sexta-feira, outubro 06, 2017
quinta-feira, outubro 05, 2017
(EdH) Um general a ser reavaliado como humanista, mais do que como o político inábil que foi
Não deixa de ser irónico ver de seguida o documentário do Edgar Feldman dedicado à personalidade do general Vasco Gonçalves e a seguir um episódio da mais recente temporada de «The House of Cards». Porque não pode haver maior contradição entre a Política vivida com elevados padrões éticos e a que resulta de jogos calculistas entre gente narcísica, mais apostada em satisfazer os seus interesses pessoais e de quem lhes financia a atividade politiqueira do que os do povo supostamente foco da sua preocupação.
E, no entanto, em 1975, quando o general cai na sequência do Documento dos Nove e do discurso de Almada, o meu esquerdismo levava-me a senti-lo do lado oposto do sentido da História tal qual eu desejava, que ela prosseguisse. Ou, agora mesmo, fiz quanto estava ao meu alcance para substituir a esgotada vereação da CDU nesse mesmo concelho pela sua alternativa socialista. O que não me impede de reconhecer as qualidades admiráveis daquele que foi primeiro-ministro de quatro governos provisórios depois do 25 de abril.
Nessa época conheci gente assim: recordo um professor da Escola Náutica de Paço d’Arcos, que nos falava deleitado do 25 de abril, acabado de acontecer, como a oportunidade para vivermos num mundo novo onde seríamos mais iguais e o mérito de cada um seria reconhecido. Que desilusão deve ter sentido quando, após o 25 de novembro de 1975, terá constatado como tudo tenderia a voltar ao mesmo, ou seja a um mundo dividido entre classes sociais com uma delas a prevalecer em força, e em recursos, sobre a grande maioria dos que se distribuem entre os pobres, a pequena burguesia e a média burguesia. Porque não há que ter rebuços com a utilização destas designações: a classe dominante - a dos banqueiros, a dos donos dos hipermercados e de outros centros de criação de autoenriquecimento, que os colocam ano a ano a distribuírem-se entre os mais ricos de Portugal (e sempre com essa acumulação de capital a crescer!) - procura omitir da terminologia usada publicamente, porque oriunda do Marxismo, que julga poder aniquilar enquanto método de análise das nossas sociedades. Em vão, porque tal como as teorias de Einstein vão sendo comprovadas sucessivamente à medida que as condições práticas as podem sujeitar à sua aferição, também as futuras circunstâncias sociais, económicas e ambientais, voltarão a dar o ensejo para novas experiências, passíveis de demonstrar a iminente substituição deste crepuscular sistema económico, por outro mais justo e racionalmente igualitário.
No documentário do Edgar Feldman, pessoas tão diferentes como Basílio Horta, Pezarat Correia ou Correia Jesuíno, são unânimes na admiração pelo trato cordato de Vasco Gonçalves e pela sua irrepreensível integridade, que a investigadora Manuela Cruzeiro tanto valorizou no ensaio a ele dedicado. Incapaz de mentir, de ser desleal e de acreditar profundamente na tradução prática da sua utopia, ele foi destratado, difamado por quem da política tinha um outro sentido mais calculista, podemos até considerar frankunderwoodiano. E, nesse sentido, heróis da Revolução, entretanto muito consagrados como mais conformes com a realidade geopolítica da Europa Ocidental em 1975 - Melo Antunes, Otelo Saraiva de Carvalho, e por omissão, o próprio Mário Soares - não saem bem deste balanço distanciado, mais objetivo do que emotivo da História desses anos de brasa.
Que a sociedade criada de acordo com o sonho de Vasco Gonçalves não seria bonita de se viver, naquele específico momento histórico, muitos exemplos trágicos de outras Revoluções o demonstram. Mas há que reconhecer terem sido os seus governos a concretizarem a imposição legal de um vasto leque de direitos para os trabalhadores e para a universalidade dos cidadãos nacionais, que os sucessivos governos das direitas, e alguns do meu Partido Socialista se encarregaram de cercear tanto quanto puderam. Sempre para satisfazerem os suspeitos do costume…
Do Homem importa resgatar quem, efetivamente, foi: um humanista empenhado, apostado na realidade alternativa em que o poder seria genuinamente do povo e governantes e governados remariam em uníssono para a mesma direção: a do tal Socialismo que, na época, todos os partidos, desde o PCP ao PPD de Sá Carneiro se diziam comprometidos a alcançar.
(DIM) «Alexandre Nevsky», a beleza ao serviço da propaganda e da alma russa
No mês em que vamos celebrar o centenário da Revolução de Outubro faz algum sentido iniciar um ciclo de cinema dedicado à efeméride com o «Alexandre Nevsky», que Sergei M. Eisenstein rodou em 1938? Claro que seria mais compreensível que optássemos pelo «Couraçado Potemkin» ou pelo «Outubro», assinados pelo mesmo realizador ainda no tempo do cinema mudo, mas se já não é fácil atrair espectadores para filmes a preto e branco, eles ainda tenderão a ser mais escassos se os diálogos entre as personagens forem substituídos por legendas intercaladas entre as imagens do ecrã.
É nesse sentido que «Alexandre Nevsky» constitui uma alternativa com algum sentido porque, apesar da guerra civil subsequente aos acontecimentos de 1917, nunca o regime soviético esteve tão em causa como quando Hitler mandou avançar os seus blindados para as estepes russas em junho de 1941 naquela que designou como Operação Barbarossa. Duas dúzias de anos depois o legado bolchevique estava em causa e, pressentindo-o, Estaline convidou Eisenstein para adaptar o episódio medieval, que melhor se ajustava às circunstâncias de então.
Com um filme declaradamente de propaganda o líder soviético pretendia avisar Hitler em como quem pela espada invadisse a Rússia, por ela haveria de morrer. Ao mesmo tempo haveria que ajeitar tanto quanto possível a veracidade histórica de modo a alcançar outro objetivo primordial: elevar a moral soviética tão combalida com as purgas de 1936 e 1937, que tantas mortes e deportações para os goulags tinham implicado para quantos a NKVD (uma das antecessoras do KGB) identificara como inimigos do regime.
Eisenstein agarrou a oportunidade com o maior dos entusiasmos: desde 1929, que não conseguia concretizar um projeto de fio a pavio. A aventura em Hollywood saldara-se por um perturbante fracasso e o seu título mais recente - «Que Viva México!» - nunca seria concluído, vendo-se ele despojado de toda a película utilizada nos locais das filmagens. Nunca o sentindo como um filme pessoal, e prescindindo de muitos dos seus habituais métodos de montagem, ele construiria uma belíssima sinfonia visual, que constitui um autêntico regalo para os olhos e para os ouvidos, porque não se pode esquecer o facto de ter-se aqui iniciado a frutuosa colaboração com o compositor Sergei Prokofiev, responsável por uma partitura capaz de servir de contraponto musical às imagens no ecrã.
Quando o filme começa vemos o território russo, recém-libertado do jugo mongol, a ser ameaçado pelos teutões, provenientes da que viria a ser a moderna Alemanha. Está-se em 1242 e o avanço é tão imparável quanto seria o dos exércitos nazis sete séculos depois. Derrotados em Pskov, os sitiados ficam confinados a Novgorod É então que o povo reclama a vinda do príncipe Alexandre, que derrotara os suecos dois anos antes e se remetera aos seus domínios ocupando-se sobretudo nas suas bem aprazíveis atividades piscatórias.
Exigindo o poder absoluto, ele é caracterizado por Eisenstein com todas as qualidades, que desejaria ver em Estaline e que este não enjeitaria ter: é corajoso, forte, amável, sábio e orgulhoso com a identidade do seu povo a quem escuta atentamente. O conto popular narrado por um dos soldados antes da batalha decisiva, sobre uma lebre e uma raposa, servir-lhe-á de inspiração para a vencer pela inteligência estratégica. Porque, a exemplo dos nazis, Estaline sabia bem como estava em séria desvantagem perante os potenciais inimigos, tanto mais que eliminara alguns dos mais brilhantes generais com que melhor poderiam resistir á previsível invasão.
Os invasores são, igualmente, caracterizados o mais malevolamente possível para suscitar emotiva indignação nos espectadores, que viessem a ver o filme: os prisioneiros indefesos são sumariamente massacrados, as mulheres escravizadas, os bebés atirados para as fogueiras.
Mostrando o quanto se deixara influenciar pela cultura de Hollywood, Eisenstein não hesita em criar um maniqueísmo primário com os bons a terem todos os atributos dos heróis e os maus a excederem-se em crueldade. Mas - e esse é decerto um contributo fundamental colhido nos EUA - ele aligeira o caracter propagandístico com alguns momentos cómicos e uma intriga romântica em torno de um triângulo amoroso, que se irá clarificar ao longo do filme.
Curiosamente Alexandre Nevsky vence por ter conseguido atrair os inimigos para uma armadilha, afogando-os, com as suas pesadas armaduras, no gelo traiçoeiro do lago Chadskoe. A exemplo do que o manhoso Estaline faria no ano seguinte ao da estreia deste filme, assinando o pacto germano-soviético para ganhar o tempo necessário à preparação da invasão, que viria inevitavelmente mais tarde. Se os teutões dos tempos medievais haviam morrido no gelo fundido, os seus descendentes do século XX viriam a finar-se no gelo persistente do inverno russo, que cento e trinta anos antes também vergara as ambições expansionistas de Napoleão.
No entretanto, enquanto Estaline e Ribbentrop celebravam a falsa amizade, enquanto faziam contas ao momento em que apontariam armas um ao outro, o filme de Eisenstein foi brevemente retirado de circulação. Dois anos depois viria a ser profusamente exibido por toda a União Soviética como veículo de propaganda destinado a unir os povos entre os Urais e o Pacífico no desígnio da guerra antifascista.
A beleza formal dos trinta minutos, que duram as cenas da batalha definitiva é imperdível. E não devemos alhearmo-nos de como os invasores são mostrados na linearidade das suas cruzes e lanças, que os cingem às horizontais e verticais, enquanto as multidões russas apresentam-se compactas como assim as pretendia representar Eisenstein por ser essa a aparência a colar á genuína alma russa.
Muito embora prefira «Ivan o Terrível» - que considero até o filme da minha vida! - este «Alexandre Nevsky» é uma belíssima experiência para lançar a comemoração da mais entusiasmante aventura do século XX.
quarta-feira, outubro 04, 2017
terça-feira, outubro 03, 2017
(DIM) «A Fábrica do Nada» de Pedro Pinho
A presente exibição do estimulante «A Fábrica do Nada» remete-nos para Karl Marx, porquanto a análise da situação por que passam os operários do filme só encontra explicação na matriz interpretativa da realidade por ele criada em numerosos livros e textos esparsos.
Na obra de Pedro Pinho os operários de uma fábrica da Póvoa de Santa Iria veem posto em causa o respetivo emprego, quando, numa madrugada, dão com gente desconhecida a carregar em camiões as máquinas com que quotidianamente trabalham. Criando de imediato um piquete para não permitir novo esbulho dos seus meios de produção vão conhecer as habituais estratégias da Administração para os levar a rescindir os contratos com uma indemnização miserável. Que alguns, os mais egoístas, aceitam, mesmo à custa de saírem quase clandestinos do convívio com quem os vira até então como amigos, surgindo depois outras estratégias destinadas a dividi-los, seja em função dos valores propostos a cada um para rescindirem, seja através do contacto direto com as esposas nos respetivos postos de trabalho para que forcem os companheiros a ceder.
As semanas passam, os patrões desaparecem de vez para nada pagarem e um sociólogo surge a acompanhar-lhes o dia-a-dia para compreender todas as premissas com que são obrigados a contar. E é ele quem os tenta aliciar para um projeto de autogestão, que possa superar duas das maiores ameaças ao seu futuro: a globalização e a robotização.
A escassez do emprego suscitada pelos avanços tecnológicos é algo que Marx parecera não prever, porque não há capitalismos sem mercadorias e estas, mesmo se criadas sem intervenção humana, destinam-se a um universo de consumidores, que deverão ter recursos para as adquirir. Como será possível resolver o imbróglio de se prescindir do trabalho humano como mercadoria que se compra e se vende, quando a lógica do sistema insta o mercado a crescer sem parar, o que pressupõe a mesma ampliação do número e dos recursos dos consumidores? Trata-se de uma quadratura do círculo para que não existe outra resposta, que não seja a definitiva superação da «mão invisível», que comanda os mercados e a implementação de uma sociedade mais justa e ecologicamente sustentável.
Numa entrevista o realizador referia que houvera quem acusasse o filme de veículo das ideias da direita, porque, apesar do final em aberto, fica a sensação de não haver alternativa e que, no fundo, quem recebeu a parca indemnização traindo os colegas, saiu a ganhar em relação a estes, condenados a ficarem com uma mão vazia e outra cheia de nada. Mas essa é a leitura que possa convir a quem nisso crê, porque, até na surpresa de inserir cenas surpreendentes (sobretudo a que replica os filmes musicais), «A Fábrica do Nada» cumpre os objetivos de confrontar o espectador com algumas das mais basilares questões dos dias de hoje, desafiando-o a pensar nas possíveis soluções.
segunda-feira, outubro 02, 2017
(DL) Quando um cego não quer ver
W.G. Sebald dedicou uma trintena de páginas a dar-nos a conhecer Alfred Andersch, um escritor alemão, que viveu entre 1914 e 1980 e se considerava genial. Algo comparado com a forma como Tim Burton pôs Johnny Depp a fazer de Ed Wood, com a diferença de a este escassearem os recursos e ambicionar grandes projetos cinematográficos sem ter dinheiro para cantar um cego, enquanto a Andersch faltava nitidamente o talento para alcançar a qualidade literária, que julgava ser capaz de produzir. Daí que sentisse irreprimíveis iras, quando se via contemplado com críticas negativas.
Mas não era só a falta de talento, que estava em causa: ele quis criar de si um passado antinazi, que não se ajustava à veracidade dos factos. Procurou heroicizar-se por ter desposado uma mulher de ascendência judia, mas não enjeitara dela divorciar-se em 1942, quando pretendia ver facilitado o acesso ao organismo nazi, que ajuizaria se os seus romances seriam ou não publicáveis. Ainda que essa desventurada esposa tenha escapado ao Holocausto, a sogra morreria em Theresienstadt.
Resultam, pois, falsas as caracterizações que de si alimenta nos romances, que lhe servem para a catarse da cobardia: descreve-se como teria desejado ser e não como se comportara na realidade.
Desmascarado, refugiar-se-ia na Suíça onde viveria os últimos vinte e oito anos, tornando-se amigo de Max Frisch, que não deixaria de reconhecer ser aquele o sítio ideal para o seu retiro por não «lhe dar nenhum trabalho», no sentido do escrúpulo, da moralidade.
Sebald apresenta o escritor como o exemplo demonstrativo da sua tese sobre a incapacidade dos autores alemães do pós-guerra em descreverem os horrores por que tinham passado, quando os Aliados reduziram a escombros a s cidades onde viviam.
Não quisesse Andersch dar uma imagem distinta de si mesmo, não lhe teriam faltado experiências de vida suficientemente impressivas para lhe servirem de fundamento aos romances. Mas essa característica é muito frequente nas mais variadas culturas. Numa excelente série, que acabei de ver - «I’m dying up here!» - o personagem Ron estragava as relações de afeto e a hipótese de ser bem sucedido enquanto comediante de stand by comedy, porque não conseguia superar a frustração de se encarar como realmente era. Isso na Los Angeles de 1973, precisamente na altura em que Andersch ruminava o seu fracasso enquanto envelhecia sem alcançar a consagração a que se julgaria com direito.
domingo, outubro 01, 2017
(EdH) A Papuásia Ocidental e a sua luta independentista
Sabemos que Portugal livrou-se da ocupação castelhana em 1640, porque os exércitos inimigos estavam demasiado ocupados com a revolta catalã para acorrerem em força à direção oposta dentro da Península. Do mesmo modo, os papuas do lado ocidental da respetiva ilha deixaram passar uma hipótese de sucesso, que sorriu a Timor-Leste em maio de 2002, quando a sua luta independentista existente desde 1963, perdeu fôlego na altura em que melhor lhes conviria.
A Nova Guiné, onde as duas Papuásias dividem a respetiva superfície, é a segunda maior ilha do mundo, logo após a Gronelândia. São 800 mil km2, ou seja tanto como a França e o Reino Unido juntos, divididos pelo 141º meridiano, que serve de fronteira entre a parcela que permanece sob o jugo indonésio desde 1963 - quando os americanos ordenaram aos holandeses, que a entregassem ao país então presidido por Sukarno - e a independente desde 1975, reconhecida como tal pela Austrália, anteriormente a sua potência colonial.
Escassamente povoada - 10 hab/km2 - os 1,7 milhões de habitantes do lado ocidental correspondem a 1,7% da população indonésia, enquanto o seu território equivale a 1/4 do arquipélago opressor.
Quem manda em Jacarta não quer sequer pensar na possibilidade de separação da nação papua: o território é rico em madeira, graças à densa floresta tropical, em minerais (ouro, prata, níquel e cobre) e em petróleo e gás nas zonas costeiras.
Os papuas chegaram á ilha há quarenta mil anos vindos do Sudeste Asiático e da Austrália, dividindo-se em vários grupos étnicos. No século XVII a ilha foi integrada na Companhia das Índias Orientais Holandesas até que, em 1885, os alemães e os britânicos exigiram partilhá-la com os holandeses.
Em 1949 a Indonésia tornou-se independente e logo olhou gulosamente para a ilha, cuja metade oriental lhes seria «atribuída» pela Administração Lyndon Johnson em 1963 para grande desagrado dos papuas: entre esse ano e 1969 morrerão trinta mil nas lutas por conquistarem o direito à autodeterminação. A ONU chegou a exigir um referendo, mas Jacarta subornou os chefes tribais e foram estes a «manifestarem» o acordo com a ocupação.
Um dos maiores motivos para o interesse indonésio reside na mina de Grasberg onde o ouro é retirado da gigantesca clareira a céu aberto e lhe garante a principal parcela do seu PIB. Os lucros do autêntico atentado ambiental ali cometido são, porém, abocanhados maioritariamente pela empresa norte-americana (Freeport McMoRan) que detém essa concessão. Mas essa não é a única multinacional a espoliar a população papua das suas riquezas naturais: a BP explora o gás natural na plataforma offshore e várias multinacionais andam a desflorestar aceleradamente a região de Merauke para aí multiplicar as plantações destinadas á produção de óleo de palma. As organizações ambientais a nível mundial classificam a Papuásia Ocidental como território em estado crítico.
Querendo evitar o exemplo timorense, os indonésios estão a implementar uma política dita de «transmigrasi», atraindo para a ilha muitas populações pobres de Java, das Celebes e das Molucas, com incentivos para ali se fixarem como garantes da estabilização da sua soberania. Se em 1969 a população papua constituía 95% da existente nessa metade ocidental da ilha, atualmente já decresceu ara 69%. Na capital, Jayapura, os javaneses já são maioritários.
A violência contra os independentistas não tem diminuído: o exército e as milícias prendem, torturam e massacram os que assim se assumem, ascendendo a cem mil os assassinados nos 55 anos de ocupação.
No entanto, em 2014, o Vanuatu e as Ilhas Salomão apoiaram os papuas exilados nos seus territórios no esforço por levarem a sua causa ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, exigindo um referendo internacionalmente organizado e controlado. Razão para que, em Jacarta, tenham tinido as campainhas da urgência em acelerarem a assimilação progressiva das populações papuas, coagindo-as para uma aculturação através da religião e da língua obrigatória, de forma a evitar a derrota sofrida em 2002 face à vontade do povo maubere.
Aparentemente a força pende para os indonésios, mas quem disse que lhes caberá a última palavra?
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