quarta-feira, junho 11, 2014

CINEMA: E Ingmar Bergman ganhou o devido reconhecimento internacional!

(A propósito de «Sorrisos de uma Noite de Verão» de Bergman, realizado em 1955)
A meio dos anos 50 a carreira de Ingmar Bergman parece marcar passo. Sem reconhecimento quer da crítica, quer do público, ele questiona a consistência da sua vocação. Apenas a relação amorosa com Bibi Andersson o parece confortar. E para combater as tentações de suicídio, decide apostar na escrita de uma comédia de costumes influenciada pelo «Sonho de uma Noite de Verão» de Shakespeare  e por «La Ronde» de Edmond Rostand.
O fito da história seria uma ode à libertinagem através do elogio às virtudes de uma reunião no campo onde, graças a uma bebida mágica e à determinação das mulheres, os esposos, os amigos e os amantes se transformarão no que, a seu ver, deveriam ser.
Para levar o projeto avante, Bergman convida alguns dos atores e atrizes com quem mais costumava gostar de trabalhar. Eva Dahlbeck, por exemplo, que considerava o ícone da feminilidade exuberante, ou Harriet Anderson, que descobrira como cantora de cabaré e em quem pressentia a capacidade para se tornar na melhor atriz sueca. E ainda Gunnar Bjornstrand, o seu melhor amigo.
A Svensk Film Industri não encara a proposta do realizador com grande entusiasmo. Pelo contrário: atendendo ao mitigado sucesso dos seus títulos anteriores, quase sempre deficitários, avisa-o de se tratar de uma derradeira oportunidade.
A aposta teve uma resposta eloquente: premiado em Cannes, o filme consagraria Bergman a nível internacional.
Mas vamos, então, à história concebida em circunstâncias tão periclitantes: o advogado Fredrik Egerman, já quadragenário, casou em segundas núpcias, com a jovem Anne, que tem a mesma idade que o seu filho Henrik.
Esposa insatisfeita e ainda virgem após dois anos de matrimónio, Anne tem como confidente a criada Petra cujos trejeitos sensuais deixam Henrik à beira de um ataque de nervos nada condizente com a sua condição de estudante de Teologia e futuro pastor luterano.
Um dia a companhia de teatro, que tem como atriz principal a celebrada Désirée Armfeldt, vai atuar à pequena cidade. Ora, em tempos, já depois de enviuvar da primeira mulher, ela fora amante de Fredrik, que nunca mais a esquecera. Agora ele está ansioso por a poder rever.
Mas o encontro amoroso a que ela não se escusa acaba em cena de vaudeville: a chegada intempestiva do amante dela, o conde Magnus Malcolm, obriga o advogado a fugir em camisa de noite.
Despeitado com a traição de Désirée, o conde encoraja a própria esposa, Charlotte, a contar à sua amiga Anne as circunstâncias em que se evidenciara a infidelidade de Fredrik.
E a mesma Charlotte juntamente com a amante do marido decidem organizar uma festa na casa de campo da mãe desta última, uma velha senhora sem grandes pruridos morais.
No decurso de uma noite louca em que os casais se formam e desfazem o acaso mete Anne no leito de Henrik e o conde Malcolm no da própria esposa. Só Fredrik fica sozinho, já que Anne o trocara pelo filho.
Ao nascer do dia Petra e o cocheiro Frid, libertos de quaisquer preconceitos, proclamam as vantagens do hedonismo no meio de umas medas de feno. Temos, pois, o título do filme consagrado no que são os sorrisos das maravilhosas noites estivais nos países nórdicos, quando o sol nunca se chega a pôr.
Encostada a uma árvore Petra ouve Frid dizer-lhe que a noite costuma sorrir por três vezes: a primeira da meia-noite até à aurora, quando os jovens entregam os seus corpos e corações, como sucedera com Anne e Henrik. Uma segunda vez sorri aos loucos e aos incorrigíveis, entre os quais eles se incluíam.
Ao início da manhã Petra já teve o pedido de casamento de Frid e esse é o terceiro sorriso da noite de verão.
Temos, pois, um filme em que, face a um resoluto segundo sexo, os homens revelam todo o seu catálogo de canalhices e fraquezas. A ponto de nos interrogarmos o que, afinal, as mulheres chegam a ver neles!
Não se trata aqui do encontro de cada homem com uma mulher, mas dos seus desencontros e reencontros concluídos com um pacto definitivamente assente no compromisso de uma reconquista permanente.
Bergman interessa-se, sobretudo, pelo casal formado por Fredrik e Désirée para o qual  tem Petra e Frid como contraponto. Aqueles viveram, sofreram, descobriram-se um ao outro e concluíram pela inutilidade do sofrimento. Contra as paixões tristes Bergman opta por rir de tudo, até dos suicídios fracassados. A seriedade está sempre a mais e Bergman lança a questão: como será possível recuperar no casal o espírito de festa?
Mas os homens saem de facto muito maltratados desta história: julgando escolher, são eles os escolhidos. E Fredrik não deixa de ser o paradigma do homem sem qualidades.
No fundo são Petra e Frid os mais felizes porque, nas coisas do amor, nunca se preocupam em complicar o que lhes parece perfeitamente fácil...

HISTÓRIA: O exército de guerreiros de terracota em Xian

(a propósito do documentário «Os últimos segredos dos guerreiros de terracota» 
de Ian Bremner) 
O Exército de Terracota enterrado com o primeiro imperador da China Qin Shi Huangdi foi descoberto em 1974.
Nesse verão a canícula estava particularmente intensa na região de Xian. Ao tentarem perfurar o solo em busca de novos poços, alguns camponeses deram com restos de objetos de argila. Seriam vasos de eras passadas? Depressa se concluiu não ser o caso, já que se podiam identificar braços, pedaços de armaduras e, desde então, milhares de guerreiros em tamanho natural.
Construídas no século III a.C., essas nove mil estátuas de guerreiros de infantaria e de cavalaria, com os respetivos cavalos, carros e armas, deveriam assegurar a proteção do soberano no Além e ajudá-lo aí a prosseguir o seu reinado. Mas também apareceriam funcionários, acrobatas, lutadores e concubinas, igualmente imprescindíveis à viabilização do reino a que ele acedera e que ampliaria até quase às dimensões do atual território chinês graças a sucessivas guerras de conquista dos territórios vizinhos.
Até agora já foram restauradas  e reposicionadas cerca de mil estátuas, mas a maior parte da área do mausoléu continua soterrada e ainda por explorar. Daí que estejam a decorrer em simultâneo quatro expedições destinadas a colectar novos conhecimentos sobre os ocupantes de tal monumento.
Hoje há quem o qualifique de oitava maravilha do mundo e a atribua à megalomania do imperador Qin Shi Huangdi que, tão só chegado ao trono, logo a mandou começar a construir.
Ainda assim a personalidade de tal soberano não merece admiração por ter ascendido à imortalidade graças à fama de conquistador e deste seu monumento: a História reteve do seu reinado uma sucessão de violentos crimes contra os povos conquistados e os seus inimigos políticos, habitualmente condenados à morte por enterramento em vida. Muitos deles eram eruditos cuja inteligência merecia a maior das desconfianças do tirano que só parecia satisfazer-se com um acatamento incondicional à sua vontade.
Desde há quatro décadas que os trabalhos prosseguem incessantemente nos 56 quilómetros quadrados abrangidos pelo mausoléu e edifícios a ele anexos. Todos os dias os arqueólogos trazem à luz novas peças enquanto alguns especialistas testam as armas para identificar os materiais e as técnicas sofisticadas a que recorreram quem as fabricou.
Cruzando os resultados desses estudos, o documentário de Ian Bremner, recentemente estreado, combina testemunhos de historiadores com reconstituições e sequências animadas de forma a reescrever a história do maior monumento funerário alguma vez descoberto e uma civilização, que se equipara sem favor à do Império Romano então igualmente em formação.

terça-feira, junho 10, 2014

DOCUMENTÁRIO: «Dia D: eles inventaram o desembarque» de Marc Jampolsky

Aviso à navegação: quem dispuser do canal francês TV5 no seu contrato de Tv por cabo ainda poderá assistir hoje por volta das 23 horas a um excelente documentário de Marc Jampolsky sobre o Dia D.
É certo que o realizador não referencia uma única vez aquilo que é uma evidência histórica: que Hitler já perdera a guerra a leste e os norte-americanos e os ingleses apenas quiseram evitar o avanço do Exército Vermelho até para cá de Berlim. Mas, tendo em conta que a produção é francesa e esta batalha ocorreu no território gaulês, compreende-se perfeitamente a importância conferida a esta comemoração do 70º aniversário do desembarque na Normandia.
Ele ocorreu, como é quase universalmente sabido, a 6 de junho de 1944. Nessa madrugada 150 mil homens preparam-se para protagonizar um dos momentos mais icónicos da história contemporânea.
Foi para comemorar esse momento que o programa Thalassa decidiu homenagear todos quantos deram a vida pelo sucesso da operação. Aos que imaginaram a maior operação anfíbia alguma vez concretizada. Aos que, setenta anos depois, ainda são testemunhas vivas do então acontecido. Soldados, veteranos, mas também resistentes que desempenharam um importante papel no sucesso desse projeto.
Esse 6 de junho de 1944 é conhecido como o Dia D, o dia mais longo. Mas antes de pisarem as praias normandas, todos trabalharam dia e  noite durante meses. Pouco mais de um ano para pensar, organizar e concretizar a esse gigantesco encontro com a História.
Os engenheiros tiveram de inventar tudo: barcos, pontões, portos flutuantes. E, depois desse dia, as operações prosseguiram até ao final de dezembro.
No total  entraram 3 milhões de soldados por essas praias para partirem à conquista de todas as terras ocupadas até Berlim. Muitos deles jamais tendo regressado a casa.
Foi, pois, para os homenagear que esta produção congregou o que de melhor existe em técnicas de filmagens e de investigação submarina, conseguindo cartografar as centenas de embarcações afundadas na vasta baía do Sena e visitar a maioria delas por representarem testemunhos históricos de valor incalculável. Puderam-se assim reconstituir em 3D os equipamentos marítimos, que foram pensados para se adaptarem às condições concretas das terras normandas e das suas inacessíveis falésias.
É igualmente um documentário emocionante, sobretudo ao possibilitar-se a alguns dos sobreviventes dessa batalha o mergulho em minissubmarinos para verem de perto os restos dos seus próprios navios e contarem como viveram concretamente os seus naufrágios. Testemunhos de um estado de espírito e de uma coragem incomuns, porque são simultaneamente felizes e tristes.
Mas voltemos à História desse dia: em janeiro de 1944, Eisenhower assume o comando da Operação Overlord, tendo por adjunto o general britânico Montgomery. O plano estabelecido pelo COSSAC em 1943 era pouco ambicioso, pelo que os dois chefes militares decidem alargar o âmbito do desembarque juntando duas praias nas suas extremidades: uma até à foz do Orne, a outra nas costas do Cotentin para se conseguir alcançar Cherburgo mais rapidamente.
Essa alteração implica um adiamento suplementar para convocar os homens e o material para tal necessários. É assim que o desembarque fica adiado para o período entre o início de maio e o início de junho.
São várias as condicionantes que determinam a escolha do Dia D: teria de ser em noite de Lua Cheia, que possibilitasse o envio de para-quedistas para a retaguarda das posições alemãs e o assalto ao nascer do dia a meio da maré cheia a fim de evitar as armadilhas mandadas colocar por Rommel nas praias.
A escolha final foi a do dia 5 de junho, com possibilidade de ainda ser possível cumprir a operação nos dois dias seguintes.
Em 1 de fevereiro de 1944, o marechal Montgomery apresenta o Plano Neptuno, que constitui o prelúdio da Operação Overlord. O nome de código «Neptuno» designa a fase naval da operação, que inclui a travessia do canal da Mancha, os bombardeamentos preparatórios das defesas costeiras alemãs pela aviação e, enfim, o assalto anfíbio às praias até se conseguirem garantir a sustentabilidade da sua conquista e o imprescindível reabastecimento.
Nos portos britânicos concentram-se 1213 navios de guerra entre couraçados, cruzadores, destroyers, fragatas, corvetas, e draga-minas, 736 navios auxiliares, 864 navios mercantes e 2600 barcaças de desmbarque, num total de 6939 embarcações de uma armada posta à disposição do almirante Ramsay segundo dois grupos distintos. A ocidente a Western Task Force do contra-almirante Kirk incumbida das operações nas praias Utah e Omaha. A leste está a Cada força naval é acompanhada por uma esquadra de bombardeamento composta por 15 a 20 navios de guerra. Estes deixam os portos escoceses e irlandeses na madrugada de 3 de junho por serem os que estão mais afastados do objetivo militar.
As frotas de transporte estacionadas nos portos do Sul da Inglaterra, entre Falmouth e Newhaven, levantam a âncora durante esse mesmo dia.
A 4 de junho a frota invasora recebe ordem de retroceder por causa do mau tempo, que motiva a decisão de Eisenhower em adiar a operação por vinte e quatro horas.
No dia 5 os navios voltam a deixar os portos e juntam-se na zona de concentração prevista, designada como Picadilly Circus, situada a 30 quilómetros a sudeste da ilha de Wight. As cinco forças navais dirigem-se então aos respetivos setores através dos canais entretanto aberto pelos draga-minas.
A 6 de junho; ás 2 da madrugada, os navios aliados têm à vista a costa normanda começando o transbordo ao mesmo tempo que cinco mil aviões bombardeiros largam centenas de toneladas de bombas sobre as posições alemãs.
Pouco depois das 5 horas da madrugada, os navios de guerra abrem fogo sobre as fortificações inimigas. Ao fim desse mesmo dia já desembarcaram 155 mil homens e 7 mil veículos nas cinco praias assegurando o sucesso da Operação Neptuno, que se concluirá oficialmente a 30 de junho.
Dois dos filmes mais emblemáticos sobre o Dia D - «O Dia Mais Longo» e «O Regresso do Soldado Ryan» - contribuíram para a imagem impressionante de barcaças pejadas de soldados a dirigirem-se para as praias, com muitas delas a afundarem-se antes de as atingirem,
O projeto deste documentário parte de outra perspetiva, menos conhecida, sobre a Operação Neptuno: a das centenas de embarcações afundadas durante a vigência dessa Operação.
Para concretizar essa pesquisa juntaram-se à equipa alguns arqueólogos submarinos, técnicos e engenheiros, bem como a própria Marinha de Guerra Francesa no que se designou como Operação Dia D e durou entre 10 de julho e 22 de agosto de 2013.
A primeira fase da expedição consistiu no inventário de todas as embarcações naufragadas na baía do Sena. Com os meios tecnológicos mais avançados foram esquadrinhados 500 kms quadrados de fundos marinhos para se conseguir uma cartografia completa da zona do desembarque.
O catamaran «Étoile Magique», equipado com um sonar EdgeTech 4600, fez uma primeira passagem de modo a estabelelcer umal cartlografia genérica. Depois, com outro sonar ainda mais sofisticado - o R2Sonic 2024 Ultra High Resolution - os mesmos fundos marinhos foram varridos em alta resolução, fazendo-se de uma dezena de navios a sua visualização em 3D.
Cada sinal identificado nos computadores determinava o mergulho para identificar o objeto: um tanque, uma arma pesada, um navio…
No navio «André Malraux» transportaram-se os submarinos e os mergulhadores necessários para a exploração desses salvados. Apesar da proximidade com a beira-mar e a profundidade baixa em que esses restos se encontram (em geral entre os 20 e os 50 metros), as condições de investigação não deixaram de ser extremamente difíceis devido às fortes correntes que ali ocorrem nos picos das marés e a fraca visibilidade, que raramente vai para além dos 3 metros. Daí que os mergulhadores só dispusessem de uma hora de trabalho nos períodos de mudança das marés.
Enviado como batedor, o ROV, veículo submarino teleguiado a partir da superfície, começava por fazer uma primeira inspeção dos objetos detetados, seguindo-se então o envio dos minissubmarinos (o «Aquarius» e o «Deep Worker») e dos mergulhadores equipados com câmaras especiais para concretizarem a identificação definitiva.
Enquanto decorria esse trabalho arqueológico alguns veteranos, que viveram na pele os acontecimentos dessa data histórica, juntaram-se á equipa e até viajaram nos minissubmarinos até aos navios onde tinham naufragado. O testemunho desses homens, hoje nonagenários, muito contribui para o interesse humano do documentário por chegar a ser comovente o reencontro deles com essas memórias imorredoiras do seu passado.
Setenta anos depois dessa operação naval os restos dispersos no fundo da Baía do Sena estão a degradarem-se aceleradamente por efeito da água salgada. Daí que esta operação científica e cinematográfica fazia todo o sentido para salvaguardar um património marítimo e tecnológico fora do comum. Que está prestes a ser reconhecido como Património Mundial por parte da Unesco...


segunda-feira, junho 09, 2014

ARTISTAS CONTEMPORÂNEOS: Cabu

Aos 76 anos Cabu é um dos decanos da ilustração francesa, sendo nome de referência do “Canard Enchainé” desde 1982, ou do “Charlie Hebdo” desde 1992. O seu traço simples dá expressão  a uma mordacidade contundente, que o tornaram num dos mais influentes críticos da realidade política francesa.
Nascido em 1938 depressa revelou a vocação por muito que lhe tivessem sido penosas as aulas de desenho técnico no liceu com as quais nunca se conseguiu entender.
Nos anos cinquenta conseguiu emprego como aprendiz num estúdio de desenho em Paris, aproveitando para, ao mesmo tempo, frequentar aulas de artes gráficas na Escola Estienne e na Académie Julian.
Antes de se ver obrigado a cumprir o serviço militar durante a Guerra da Argélia, ainda conseguiu assegurar a publicação de algumas ilustrações num jornal de Reims.
A experiência da tropa incute-lhe um pacifismo militante. Serão várias as querelas em tribunais para onde é conduzido como réu em processos em que o acusam de «minar a moral das tropas francesas».
Já anda ativo a publicar desenhos na grande imprensa escrita (“Ici Paris”, “Paris Match”) quando, no início da década de sessenta se junta a uma geração brilhante, que inclui Cavanna, Reiser, Fred, Wolinski, Topor, no “Hara Kiri”, uma publicação apostada no que era «bête et méchant», não dando tréguas aos tabus de então.

A experiência durou enquanto a censura não forçou o encerramento desse jornal.
Desempregado, Cabu muda-se para o “Pilote”, onde inventa a personagem do Grand Duduche.
Desde então a sua intervenção artística sucede-se em quase todos os grandes jornais e revistas francesas, desde o “Figaro” ao “France Soir”, do “Nouvel Observateur” ao “Libération”. Ainda assim é na imprensa satírica, que ele melhor  dá conta da forma assombrada como lê a realidade...

LIVRO: «Enquanto Vivemos» de Maruja Torres

Em 1950 o maravilhoso clássico de Mankiewicz «All Abou Eve» mostrava como uma rapariga aparentemente ingénua - interpretada por Anne Baxter - conseguia fazer-se contratar por uma celebrada atriz de Hollywood (papel reservado para Bette Davis) e conseguia roubar-lhe o estrelato. Estava em causa a insuspeitada perfídia por trás da candura de um olhar.
Meio século depois a jornalista do «El Pais» Maruja Torres pega no mesmo tema e põe uma rapariga dos subúrbios de Barcelona a bajular a bem sucedida Regina Dalmau, que é um ícone nas mulheres espanholas com mais de quarenta anos.
Judit não adivinha que a sua idolatrada mentora está numa insuperável crise criativa e a contrata como estratégia para descobrir as idiossincrasias da juventude e, com elas, fundamentar um novo fôlego literário.
Quando chegamos a essa fase da história é forçoso reconhecermos algum desapontamento com o que nos espera até ao final, porquanto não nos dissociamos de abordagens muito diferentes das habituais na literatura light.
Temos as angústias femininas, algum sexo à mistura, uma razoável convivência interclassista e uma moral pequeno-burguesa a prevalecer por tudo isso. Porque Regina não vive apenas os problemas do envelhecimento agora que está a chegar à condição de quinquagenária: acomete-a, em grau cada vez mais agudo, o remorso pela forma como terá tratado de quem, na idade de Judit, também lhe servira de mentora.
Teresa, a escritora de livros infantis e episódica amante do pai, tomara-a como sua discípula e fora por ela abandonada, morrendo na miséria e por todos esquecida. Agora Regina compreende com lucidez o comportamento de Judit, que cumpriu a estratégia calculista destinada a conseguir vingar por si mesma no mundo literário, não hesitando sequer em entregar-se  a um dos principais editores, se for esse o passo necessário para singrar como autora de best sellers.
Na melhor tradição dos livros destinados às mulheres obcecadas pelo ambíguo conceito de «realização pessoal», Maruja Torres avança para um happy ending com Regina instalada em Roma a viver quase anónima num bairro popular, onde encontra matéria humana bastante para a sua redenção criativa.
Ao chegar á última página do livro recordam-se as palavras de Wim Wenders, que lamentava já estarem contadas todas as histórias. Só que ainda há quem as vá recriando com algo de substancialmente diferente e esse não é manifestamente o caso da jornalista espanhola.

domingo, junho 08, 2014

ÓPERA: «Casta Diva», ária de Bellini por Dimitra Theodossiou

Segundo o crítico do «Público», Manuel Pedro Ferreira, a soprano Dimitra Theodossiou terá desiludido fortemente o público do São Carlos quando interpretou esta célebre ária na récita da «Norma» de Bellini.
Fica aqui um registo de uma interpretação sua da mesma ária com já ano e meio, em que dá para sentir o quão diferente ela está da Callas. Ainda assim ouve-se-a muito bem.

TEATRO. «O Capital» de Sylvain Creuzevault

«O Capital» é a mais recente peça criada por Sylvain Creuzevault para vir a ser estreada em Setembro no Festival de l’Automne em Paris.
O que os espectadores do Festival Alkantara puderam ver neste fim-de-semana na Culturgest foi mais uma das várias versões de combate com que o elenco da peça tem apresentado em vários palcos europeus como se se tratassem de ensaios gerais do que virá a ser a apresentação oficial. Por isso mesmo o encenador tem optado por versões de duas a três horas, com o palco lisboeta contemplado com uma alternativa de duas horas e meia.
Trata-se, pois, de uma criação em progresso e, por isso mesmo, ainda transmite a ideia de algum desequilíbrio na forma como tenta revisitar os conceitos fundamentais do marxismo sem os deixar de interligar com os da psicanálise ou os da conceção brechtiana da representação.
Enquanto espectador pode-me parecer irónico, que se opere uma abordagem sobre o marxismo e os socialistas utópicos no bunker da Caixa Geral de Depósitos da av. João XXI, que ilustra na perfeição o símbolo do capitalismo no seu fulgor. Mas para além da pitoresca descrição das querelas dentro de um grupo de revolucionários no período da efémera vitória republicana de 1848 em Paris, a explicação sobre o que é a mercadoria, a mais-valia, a alienação consumista e outros conceitos fundamentais para enquadrar a supremacia capitalista nas nossas sociedades prolonga-se demasiado, tornando o espetáculo fastidioso. É que Sylvain Creuzevault segue a regra tão francesa de virar sucessivamente uma tese do direito e do avesso até acabar demonstrada ou desmentida.
Ainda assim ele consegue ser contundente quando explica com insuperável simplicidade o papel de escravo desempenhado pelo assalariado dos nossos dias, disponível para servir de negreiro de si mesmo. E há toda uma criação plástica, que difere de tudo quanto andamos acostumados a ver nos palcos nacionais. Razão para ter dado o tempo e o custo do bilhete como bem empregues!!!