domingo, agosto 30, 2009

Um documentário de Marianne Chaud

Marianne Chaud apaixonou-se pela zona do Zanskar, zona indiana nas encostas dos Himalaias, situada a quatro mil metros de altitude e, por isso mesmo, aprendeu a língua falada pelos povos aí existentes. No seu projecto de cineasta e de etnóloga ela passou a viver uma parte do ano naquela região, convivendo com quem ali habita.
No caso deste filme ela acompanha, sobretudo, as mulheres, porque no Verão os homens estão quase sempre ausentes a ganharem algum dinheiro por fora. Cabe, pois, às mulheres o pesado esforço dos trabalhos do campo, sejam eles a ceifa da cevada ou a transumância dos iaques até aos terrenos de pasto a maior altitude.
Não há limites de idade para o labor no campo: desde que começam a andar as crianças são incentivadas a pegar na foice, assim como só a abandonam as mulheres mais velhas, quando morrem. Imagem expressiva de tal realidade é a da velha senhora cega já muito cansada, mas ainda a trabalhar acompanhada por um dos bisnetos e que morreria três dias depois dessas derradeiras imagens.
Interessantes igualmente as imagens da pequena pastora de 13 anos com uma incurável curiosidade relativamente ao mundo exterior ou as da ceifeira da mesma idade, obrigada a viver sozinha na sua parcela de terra, porque o pai morrera entretanto e a mãe estava com os iaques nas terras mais altas.
Raros são os homens ali presentes, mas um deles reflecte sobre a dureza da vida ali bem como a reencarnação depois da morte. Mas não deixando de deixar no ar a possibilidade disso não fazer qualquer sentido. Ou, mesmo que por omissão, um outro homem levado para a aldeia mais próxima para se sujeitar aos cuidados de um médico tradicional e que, passadas semanas, nada deixa transparecer do que com ele se terá passado. Fica a dúvida se ele terá sobrevivido.
O que fica subjacente a todo o filme é o facto de se tratar de um mundo em iminente mudança: anuncia-se uma estrada a passar pelo vale e com ela a imposição dessa civilização até então apenas pressentida pela passagem dos aviões no céu ou pela visita de viajantes como a realizadora. E então a acelerada invasão dos sinais de modernidade porá cobro a estes comportamentos ancestrais...

Mulheres sarauís

Num artigo do «Le Monde» recorda-se como são diferentes as mulheres sarauis em comparação com as suas islâmicas irmãs no restante Magreb.
No seio da família elas conquistaram um estatuto quase igualitário, que resulta de, desde o berço, as crianças serem prioritariamente orientadas para respeitarem em primeiro lugar a mãe, e só depois o pai.
A mulher casada não se cinge a ficar em casa, podendo sair, passear e dar opinião sobre todos os assuntos. Se usa o véu não é para corresponder a regras religiosas, mas para se proteger do Sol já que os padrões de beleza feminina tornam mais apelativo o tom de pele mais próximo do alvo. Mas, mesmo neste aspecto, a mudança está em curso: ainda há pouco uma mulher era tanto mais bela, quantos uns quilos a mais lhe arredondassem as formas. Hoje a elegância das linhas magras tornou-se regra.
Mas outra das singularidades da mulher sarauí é casar e divorciar-se com alguma frequência. Ora, longe de serem ostracizadas, as que se divorciaram não tardam a ser cortejadas por novos pretendentes estimulados pelo capital de experiência nelas acumulado.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Inimigos Públicos

À primeira vista nunca me sentiria tentado a deslocar-me ao cinema para ver uma história de gangsters. Nem mesmo atraído por uma figura tão popular no seu tempo como foi John Dillinger, cuja ascensão e queda se deu em pouco mais de catorze meses.
Não me sentiria, igualmente, estimulado por mais uma boa reconstituição histórica da época da Grande Depressão, tanto mais que padecemos por ora uma outra de efeitos não menos gravosos.
As coisas começam a mudar, quando sabemos da presença de Johnny Depp e de Christian Bale no projecto. E que Michael Mann, o seu realizador, voltou a apostar nas câmaras digitais para conferir uma outra dinâmica e profundidade da fotografia, levando alguns a anunciarem-no pioneiro em algo de novo no cinema do futuro imediato. E que, como de costume no seu cinema, Mann mostra-se muito mais interessado em criar o ambiente inerente aos acontecimentos do que a estes em si. Por muito, que eles espelhem o fim de uma época e o início de uma outra, com a máfia e o FBI a consolidarem as respectivas organizações.
Será interessante considerar que a indústria do cinema continua a encontrar bastante matéria nos atropelados pelo fio dos acontecimentos: é dos temas mais recorrentes do imaginário dos argumentistas esse fascínio por quem pertence a um passado em vias de passar à História e não se apercebe de quanto lhe minguam, dia-a-dia as oportunidades de sobrevivência.
Será um dos temas secundários do filme, mas não deixa de ser importante: a morte de Dillinger e de outros gangsters demonstra o epílogo de uma América conotada com o espírito dos pioneiros, capaz por isso de engendrar autênticos heróis populares, substituída inevitavelmente pela cultura imperialista, que redundaria em guerras de agressões e tortura a prisioneiros.
Edgar Hoover é o inspirador de gente como Cheney ou Rumsfeld, que representaram o lado mais tenebroso de um país, que se queria de grandes princípios e acaba por comportar as maiores das perversidades entre quem o comanda. A falta de escrúpulos não emergiu apenas da Administração de George Dubliú: já tem um longo historial, que serviu para matar gangsters, agredir e perseguir comunistas e inventar álibis para bombardeamentos ou mesmo invasões guerreiras.
Dillinger surge como apenas mais uma pessoa apostada em ser feliz com quem viveu súbita e arrebatadora paixão. Mas todas as cartas do seu baralho da vida estavam viciadas...

terça-feira, agosto 25, 2009

GAY TALESE: O DESPORTO COMO METÁFORA DA VIDA

Nunca li nenhum livro do escritor norte-americano Gay Talese, mas admito tratar-se de falha grave, porquanto ele será dos mais interessantes de quantos ainda estão em actividade em tal cultura.
Um trabalho de Isabel Coutinho no «Público» dedicado ao escritor e ao por ele dito num encontro literário no Paraty justificou a curiosidade para pôr cobro a este défice cultural.
Fica, para já, o manifesto do escritor: numa América, que ainda continua a privilegiar as histórias de sucesso, como se ela representasse a terra das grandes oportunidades em vez da das imensas desilusões. Talese confessa o fascínio nele suscitado pelas pessoas que perdem. Já o sentia, há cinquenta anos, quando era jornalista desportivo e compreendia que «os jogadores mais interessantes com quem ter uma conversa eram aqueles que tinham tido uma experiência triste, que tinham feito alguma coisa errada, porque experimentaram algo que era devastador no final do jogo, mas era também uma experiência de vida. No futuro eles tinham que esquecer e ultrapassar o acontecido para conseguirem persistir como atletas.»
É nessa linha que ele se interessa por uma futebolista chinesa, que falhara o golo decisivo numa final do Campeonato do Mundo contra os EUA. Nesse caso humano ele pressentiu a possibilidade de generalizar aquele momento de derrota em algo de simbolicamente decisivo.
Decidido a escrever a sua história ele embarca para Pequim, mas mal consegue chegar à fala com a rapariga, demasiado controlada pelas autoridades a começar pelo seu treinador. Mas é aí que Talese aplica outra das suas regras: quando as circunstâncias o impedem de seguir determinado rumo ele orienta a sua história noutra direcção. E, de facto, mais interessante do que a jovem futebolista, Talese vai interessar-se pela mãe e pela avó dela, conseguindo testemunhos muito interessantes sobre a Revolução Cultural e outros momentos decisivos do regime maoista. E consegue assim abordar os temas superlativos, que estavam subjacentes às suas preocupações: o carácter, a redenção, a resignação e a perseverança.

domingo, agosto 23, 2009

Violência gratuita

Curta-metragem premiada, que desmerece de tal sucesso é «Um Bom Dia para um Mergulho» do romeno Bogdan Mustata. O tema é o da crueldade gratuita de um grupo de miúdos, que assaltam e torturam pessoas apenas pelo prazer de lhes fazer mal. No caso do filme as vítimas são o condutor de uma carrinha em que eles agora se deslocam até uma praia deserta e uma prostituta.
Fica em aberto se as vítimas saem ou não vivas da sua provação. Mas interessará mesmo sabê-lo?

ROADS - Lior Geller

Curta-metragem israelita, «Roads» de Lior Geller é o exemplo do dinamismo da escola de cinema de Telavive, mas não deixa de abordar de forma ambígua um tema relevante na região: a elevada toxicodependência dos ex-soldados judeus, que passaram por experiências limite no Líbano e a existência de máfias formadas por palestinianos dispostos a sobreviverem à custa de tal tráfico.
Em «Roads» a história quase não se aguenta de tão frágil se revela o seu argumento: um miúdo foge do seu bairro em Lod, quando constata o recrutamento do seu próprio irmão para o bando.
A fuga só se torna possível graças a um ex-soldado israelita, que lhes cobre a retirada. Mas a imagem resultante é óbvia: os bons sentimentos do judeu em comparação com a crueldade de Ahmed, o líder da máfia palestiniana.
O maniqueísmo é aqui evidente.

Um pequeno passo para o homem

Nas últimas semanas têm sido muitos os documentários nas várias televisões sobre as viagens dos astronautas norte-americanos à Lua.
Num agora visto sobre a expedição da Apolo 11 sobressaíram algumas novidades até agora quase desconhecidas. Por exemplo, será que os três astronautas terão visto um OVNI numa das passagens pelo lado escuro da Lua?
Depois há a rivalidade entre Aldrin e Armstrong sobre quem seria o primeiro a pisar o solo lunar acabando a NASA por desempatar a contenda a favor do segundo.
Há ainda a feliz expressão de Aldrin para crismar a superfície lunar: «uma desolação magnífica»!
E, para que a emoção estivesse garantida até ao final, a descolagem da Lua esteve em risco por causa de um interruptor partido a bordo do módulo.

sábado, agosto 22, 2009

Tabucchi: o escritor enquanto vigilante

António Tabucchi deu uma entrevista a Isabel Lucas do «Económico» que, apesar de não trazer grandes novidades sobre o que dele se sabe, constitui uma revisão à matéria dada. Por exemplo, a sua chegada a Lisboa em 1965, dotado de uma bolsa de estudos, depois do seu rumo universitário ter sido influenciado pela fascinada leitura de «A Tabacaria» de Fernando Pessoa.
Depois, apesar de se tratar de um país muito pobre e de costas viradas para a Europa por causa das ideias políticas de um ditadorzeco de pacotilha, Portugal transformou-se na sua segunda pátria por efeito de uma relação amorosa, que se tem prolongado por estas quatro décadas. As mesmas em que foi desenvolvendo a sua actividade de escritor dado à sua prática como se de mester de operário se tratasse. Já que as palavras precisam de ser trabalhadas até chegarem à sua expressão optimizada quando aterram no olhar atento dos leitores…. Tabucchi não se sente, pois, particularmente, talentoso. O ofício de escritor significa para ele muito suor…. e muita observação do que o rodeia. Por isso viaja muito. Sempre orientado pelo Sul europeu, por esse Mediterrâneo a que se sente especialmente ligado.
Na entrevista ainda se fala de política, do horrível Berlusconi, que representa o paradigma de uma cultura pimba infelizmente apadrinhada pelos eleitores. E fica implícito o papel vigilante do escritor enquanto denunciador dos piores efeitos de tal praga...

domingo, agosto 16, 2009

A Sinfonia nº 60 de Haydn: «O Distraído»

A Sinfonia nº 60 de Haydn, intitulada «O Distraído», foi composta em 1774 como música de cena para a peça teatral do mesmo nome.
Composta por seis andamentos, procura acompanhar as peripécias de um protagonista suficientemente distraído para ter de amarrar um lenço como forma de se lembrar da sua condição de recém-casado.
Bastante imponente, a peça não deixa de conter algumas piadas, que revelam o carácter folgazão do compositor. Temos, por exemplo, um andamento subitamente interrompido para que os músicos afinem os seus instrumentos ou a inserção de alguns compassos de uma canção ligeira intitulada «O Guarda-Nocturno», a servir de ferroada para a hora excessivamente tardia a que acabavam os espectáculos no Palácio Ezsterhaza.
São estes pequenos pormenores, que muito enriquecem uma história da música e demonstram como ela pode ir muito além da sua mera fruição numa sala de concertos...

sábado, agosto 08, 2009

A morte de um homem bom

A morte de Raul Solnado não surpreende. Aos 79 anos o actor já não estava activo há alguns anos desde a altura em que andou num one man show a falar das coisas simples da vida em conversa coloquial com os seus espectadores pelos diversos palcos do país. Mas o seu desaparecimento é o de alguém, que nos era simpático não só por ter feito um humor sempre inteligente avesso à brejeirice primária, mas porque, enquanto profissional jamais pareceu atropelar quem quer que fosse no seu bem sucedido percurso. Homem bom, sempre se situou politicamente à esquerda jamais enjeitando a sua colaboração em campanhas destinadas a fortalecer quem defende os interesses dos mais desfavorecidos.

Paul Auster: «Da Mão Para a Boca»

Já há muito o sabíamos mas, de facto, a América está longe de ser a terra das oportunidades. Que o diga Paul Auster após a conclusão da leitura do seu relato autobiográfico sobre os seus primeiros anos enquanto escritor («Da Mão Para a Boca»). É certo que se revelou avesso a empregos convencionais de horário e salário certo, mas as penas sofridas prolongaram-se anos a fio e puseram, inclusivamente, cobro ao seu primeiro casamento.
Valeram-lhe as traduções, os apoios do padrasto, a curta herança do pai e, sobretudo, a decisão de abandonar a poesia em favor da prosa em que se viria a distinguir.
A leitura desse relato de vida é aprazível e aqui e ali estimulada por algumas curiosidades: ter conhecido John Lennon, quando colaborava com um alfarrabista nova-iorquino, ou a humilhação de um fracasso rotundo na estreia teatral de uma das suas peças aonde outrora fora o atelier de Rothko, que ali se havia inclusivamente suicidado.
O que mais impressiona neste balanço de uma juventude é a capacidade do autor para se livrar da tentação de, através dele, se auto promover. Porque este é o percurso de um jovem imaturo e teimoso, que viria a ter a sorte de se tornar bem sucedido na sua busca de realização pessoal. Mas quantos como ele passam por idêntico afã de moldarem a realidade à sua maneira e acabam por partir literalmente os dentes?
Nunca chegaremos ao momento do sucesso, embora se possa inferir que ele iria surgir logo após os acontecimentos com que o livro se conclui. O de maior insucesso fica relatado no instante em que procurou vender a ideia de um jogo a um executivo na feira de brinquedos de Nova Iorque e é por ele agrestemente expulso do local.
Acaba-se por concluir que uma das razões para o sucesso posterior do escritor Paul Auster terá sido o sabor amargo do fracasso durante todos esses anos de maturação.

segunda-feira, agosto 03, 2009

DALI: O CRISTO DE SÃO JOÃO DA CRUZ

Que diferença entre o Cristo de S. João da Cruz, que Dali pintou em 1950, e o de Matthias Grunewald, de 1525, aqui representado ao lado.
No quadro renascentista o corpo de Cristo está fracturado e tem os espinhos enterrados na carne. Trata-se, pois, da imagem perversa de um Cristo a contorcer-se de dores no seu corpo gangrenado. Seria esta uma das influências mais marcantes do pintor Francis Bacon já no século XX.
O Cristo de São João da Cruz de Dali é bem diferente do de Grunewald: na sua parte inferior está reproduzida a paisagem de Port Ligat, que o pintor desfrutava de sua casa.
O quadro terá sido sugerido a Dali por um frade carmelita, que entendia a crucificação como uma forma de ascético misticismo, relacionando-o com esse São João da Cruz, homem religioso do século XVI frequentemente possuído de visões relativas a tal acontecimento.
É baseado no desenho de uma dessas visões esboçado pelo próprio místico, que Dali concebe o seu quadro dotando-o de uma perspectiva matemática.
O pintor é, igualmente, sugestionado pelos ambientes de Hollywood que estava a frequentar, recorrendo até a um duplo dos estúdios enquanto modelo.
O quadro levará cinco meses a criar, concluindo-se em 1951. Vendido para um museu de Glasgow suscitará imediata polémica com os críticos a acusá-lo de kitsch e os crentes a admirarem essa versão do «mistério da Cruz».
Um dos aspectos mais interessantes do quadro é a omissão do rosto de Cristo, obrigando o espectador a imaginá-lo. E para quem suspeitava da sinceridade do seu catolicismo, o pintor responderia o quanto gostaria de confirmar a existência de Deus, embora nele não pudesse crer...

sábado, agosto 01, 2009

O encontro com a lenda

E ao penúltimo dia do mês de Julho estivemos perante uma lenda viva: Leonard Cohen.
O espectáculo do Pavilhão Atlântico não diferiu muito do DVD gravado em Londres até porque eram os mesmos os acompanhantes em palco.
Houve mais temas do primeiro álbum, que comprei quando tinha doze ou treze anos («Songs of Love and Hate») - nomeadamente o «Like a Bird on a Wire», o «Famous Blue Raincoat» ou «Le Partisan» - e desapareceu, por provavelmente ter deixado de fazer sentido, o «Democracy in the USA».
É claro que o espectáculo ao vivo tem as suas limitações: mesmo na vigésima segunda fila a distância do palco é tão grande, que só se vêem figuras minúsculas a agitarem-se. É evidente que os ecrãs gigantes, postados a um e a outro lado desse centro de atenções, compensa tudo isso, mas aí é como se nos rendêssemos ao espectáculo televisivo, que ali estava fora de questão. O que se buscava eram as pessoas concretas, tridimensionais, e não a sua bidimensionalidade nos ecrãs.
Mas, em compensação, as vozes ao vivo - sobretudo as de Cohen e a da impressionante Sharon Robinson - ganham outra riqueza, descortinando-se nelas os timbres filtrados naquele hipervisto DVD.
E, enfim, há aquelas canções imemoriais, que já constam do cancioneiro obrigatório da música do século transacto, alimentadas por poemas, que sugerem muito para além do que explicitam.
E foi bonito constatar o carinho do público por este cantor de 74 anos, embora fosse, amiúde, inconveniente na frequência com que lhe interrompia as canções e os discursos, cortando uma sequência pensada ao milímetro e ali a ajustar-se obrigatoriamente aos ditames de quem viera para se deixar encantar, mas também para expressar uma surpreendente admiração.
Essa foi a noite em que constatei existirem em Portugal cohenófilos mais entusiastas, que eu próprio...

quarta-feira, julho 29, 2009

As praias de Agnés

Uma das metáforas felizes emitidas por Agnés Varda a respeito do seu filme mais recente («As Praias de Agnés») é a da organização da sua memória como se se tratasse de imenso puzzle, mas em que, quem o tenta resolver, não tem qualquer imagem de referência a guiá-lo.
É a vida feita de múltiplos momentos, que podem ser associados das formas mais distintas. Sobretudo se, como no caso da realizadora, se usufruiu, não de uma, mas de diversas e riquíssimas vidas. Por exemplo a da adolescente belga apanhada aos 13 anos pela 2ª Guerra Mundial sem sequer pressentir a iminência de tão medonha carnificina. A da jovem ligada à Nouvelle Vague sem assumidamente nela se integrar de facto. A da cineasta convidada para uma carreira do outro lado do Atlântico aonde conviveria com a seita de Warhol e com o líder dos Doors. A mulher apaixonada por um excêntrico (Jacques Demi) com quem partilharia fascínios e inquietações. A observadora atenta da realidade sociológica abordando por isso os esforços dos esforçados respigadores numa sociedade vocacionada para a exclusão. Ou, enfim, a experimentalista que, aos 81 anos, ainda continua a procurar novas linguagens e meios de as expressar.

Dash Snow: mais um mito emergente?

Provavelmente até nem voltaremos a ouvir falar dele. Mas pode ocorrer o contrário: vir a ser mais um dos artistas citados como fazendo parte do restrito Clube dos 27. Aqueles que não ultrapassaram vivos essa idade mítica: Tim Buckley, Jim Morrison, Janis Joplin ou Jimi Hendrix.
Nascido em ambiente privilegiado Dash Snow passaria, a exemplo de Nan Goldin e de Larry Clark a viver e testemunhar nos seus polaróides o ambiente boémio da noite nova-iorquina.
Pôs-se em causa a perenidade da obra tendo em conta o carácter efémero desse suporte fotográfico. Mas há quem ande a dar pequenas fortunas por essas imagens colhidas por Dash quando ele assumia tirá-las para se lembrar do que andara a fazer na noite anterior. Uma de muitas, antes daquela em que já não despertou da derradeira overdose.

sábado, julho 18, 2009

Nan Goldin e a sua estranha forma de vida

Em Arles está agora em foco a fotografia de Nan Goldin, uma das raras vedetas do actual mundo da fotografia.
O que é dado a conhecer é a própria vida da fotógrafa, que já acumulou muitas experiências desde o dia da sua saída da casa dos pais aos 14 anos. Uma significativa parte dessas vivências por ela recolhidas em imagens tem a ver com a sua juventude, os amigos, os amores e desamores, as dores. A família de substituição por ela encontrada. Com muita droga, violência e álcool à mistura. Alguns auto-retratos são apaziguadores ao realçarem-lhes os cabelos fartos e alourados, o rosto frágil, o corpo belo. Mas outras mostram esse mesmo rosto ensanguentado depois de uma violenta agressão do amante da altura. Ou nem precisa de chegar a esse extremo: há uma fotografia em que ela está deitada na cama enquanto o amante fuma um cigarro de costas para ela, indiferente às suas emoções.
Nan Goldin inventou o diário pessoal em imagens. Fala dela, mas evoca, igualmente, a época das comunidades marginais dos anos 70 e 80. Significativo o facto de a maioria dos que se vêem nessas imagens já ter entretanto morrido.

A tristeza segundo Preminger

Em cinquenta anos o cinema mudou muito e «Bonjour Tristesse», o filme que Otto Preminger rodou então demonstra-o bem.
A história, baseada no romance homónimo da então aclamada Françoise Sagan, é muito pobrezinha, espelhando uma mudança de paradigma na cultura francesa de então: a passagem de uma escrita ideologicamente bastante consistente à esquerda para uns existencialismos inócuos, que encontrava nestas angústias adolescentes e burguesas um subproduto bastante apreciado.
Por outro lado a representação é canónica em relação aos costumes da época, mas de limitados recursos apesar de envolver algumas das grandes estrelas de então - David Niven, Deborah Kerr e Jean Seberg.
Quanto à realização, que dizer da sua enfadonha banalidade?
E, no entanto, é possível pegar na história e problematizá-lo de forma a sair de uma apreciação mais básica. Por exemplo, o que levará a jovem Cécile a intrometer-se nas aventuras amorosas do seu mulherengo pai não será indiciador de um evidente Édipo por resolver?
Noutra perspectiva não deixa de ser curiosa a perspectiva dos personagens masculinos serem completamente manipulados pelas femininas, que exploram a sua tendência para ditarem os seus comportamentos pela acção descontrolada das suas hormonas, tornando-se seus joguetes.
Duas leituras de entre as muitas possíveis para demonstrar como até o mais entediante pastelão pode ganhar algum interesse se apostarmos em o analisar para além do seu nível de leitura mais imediato.
Haverá, porém, quem opte por realçar uma lógica moral mais conservadora, já que todo o argumento gira em torno da má consciência da protagonista, essa rapariga de 17 anos, que decide conspirar contra a futura madrasta, quando a vê coarctar-lhe a liberdade de movimentos e acaba por lhe provocar a morte num suicídio mascarado de acidente. E esta abordagem, embora admissível, acaba por justificar todos os discursos contra as «excessivas liberdades» conferidas à juventude, à importância dos «valores familiares» e outras fórmulas similares pelas quais as forças ideológicas mais retrógradas vão tentando travar a lógica evolutiva da História dos usos e costumes da Humanidade.

sexta-feira, julho 17, 2009

Um homem muito procurado segundo Le Carré

Não está fácil a vida para Tommy Brue, um banqueiro sexagenário cuja instituição está sediada em Hamburgo, depois de ter passado, em tempos idos, por Londres e Viena. Instituição de pequena dimensão, mas muito prestigiada, a Irmãos Brue tem um problema estrutural a ameaçá-la: as contas lippizan, criadas no tempo do pai de Tommy - Edward - para branquear capitais ilícitos de antigos espiões ocidentais no seio das instituições soviéticas.
O mais notório desses espiões fora Karpov, um coronel do Exército Vermelho, que legara a sua fortuna ao filho ilegítimo resultante da sua violação a uma adolescente chechena.
Agora, vinte anos depois, esse rapaz - Issa - vem à procura de tal dinheiro sob a pele de um militante islamista meio desvairado, que diz ter por projecto de vida usá-lo para se tornar médico.
Quem o ajuda é uma advogada de boas famílias - Annabel - devotada defensora das melhores causas como esta de ajudar imigrantes clandestinos a encontrarem a sua via para a sobrevivência. E é ela quem se apresenta a Tommy Brue a reclamar o que é devido ao seu cliente.
O problema para Tommy é compreender que a idade avançada não o impede de alimentar uma paixão juvenil pela rapariga. E que, atrás de Issa, andam os serviços secretos ingleses, alemães e sabe-se lá quais mais…
Chegado a meio do livro - «Un Homme três recherché» - há várias pontas soltas numa história que irá ganhar consistência para uma direcção ainda não adivinhada nesta altura...

sexta-feira, julho 10, 2009

E fiquei à espera das Variações Diabelli

Chegando este ano aos quarenta anos de idade, Bereszovski estará nesta altura no auge da sua carreira. E a sua carreira leva-o a permanentes digressões pelas grandes salas de concerto de todas as latitudes. Foi, assim, que dele vimos em tempos um concerto ao vivo, embora nos tenhamos sentido então defraudados. Estavam-nos prometidas as Variações Diabelli, mas Bereszovski já se sentia tão cansado de sucessivos concertos nos dois dias anteriores nessa Festa da Música, ainda sob a égide de René Martin, que decidiu-se por outra alternativa: apresentar-se com os seus dois parceiros de um trio já rodado em concertos e gravações - Dmitri Makhtin (violino) e Alexandre Kniazev (violoncelo) - e presentear o público do CCB com um espectáculo em que ele se apagou em proveito do virtuosismo dos seus dois cúmplices.
Agora o documentário em causa mostram-nos facetas desconhecidas do intérprete: o seu gosto pela improvisação, que o leva a tocar jazz com alguns amigos nos bares de Ekaterinburgo, ou pelos casinos aonde perde dinheiro invariavelmente.
Os concertos ao vivo são para ele uma forma de vida, mais do que um prazer em si, já que esse fica reservado para o estudo solitário das peças, quando se fecha em casa.
Decerto que nos próximos anos ainda voltaremos a ter a oportunidade para novamente lhe apreciar o virtuosismo irrepreensível. Aquele que o levam a tocar com a mão esquerda as difíceis peças de Chopin, que outros tão dificilmente executam com o recurso às duas mãos.
Gostaria não só de ver ao vivo essas tais Variações beethovenianas, mas sobretudo essas peças de Rachmaninov, tão lendariamente exigentes e nas quais ele tem porfiado o seu esforço nos últimos tempos. Tanto mais que nunca se o vê olhar para uma pauta durante os seus concertos...

domingo, julho 05, 2009

Uma leitura que me desilude

Acabou por me desiludir a novela do Stephen King, que andava a ler: «Janela Secreta, Jardim Secreto».
Recordo o que estava em jogo: um escritor é acusado de plágio por um sinistro campónio vindo do Mississípi e eivado de propósitos homicidas se aquele lhe não demonstrar a falsidade do seu juízo. Estão em causa duas datas: John Shooter teria escrito o seu conto em 1982 e Mort Rainey afirma ter provas da sua publicação numa revista de 1981.
E, no entanto, as provas por que ele espera comprovar a sua afirmação e livrar-se da ameaça, começam a evaporar-se quando fica em cinzas a casa da ex-mulher em cujo anexo ele teria uma cópia dessa revista ou, ao ser-lhe enviado outro exemplar pelo correio expresso, as páginas do índice e das folhas aonde tal conto apareceria estavam eliminadas.
A páginas tantas cheguei a suspeitar do antipático fumador de cachimbo por quem Amy trocara Mort desde o dia em que este os encontrara em flagrante num quarto de motel. Afinal também ele viera de uma pequena localidade sulista de nome Shooter e poderia sentir-se diminuído pela superioridade intelectual de Mort, desejando assim eliminá-lo enquanto concorrente aos favores de uma ainda insegura Amy.
Mas, pouco a pouco, percebe-se que a novela não é mais do que uma nova variante dos temas abordados pelo autor em «Shining», ou mesmo em «Misery»: ou seja, entre o escritor que enlouquece e escreve milhentas vezes a mesma palavra e o leitor obsessivo apostado em que lhe redijam uma história só para si, eis o conteúdo de «Janela Secreta, Jardim Secreto».
E nesse mais do mesmo sem novidade se resume a minha decepção ao concluir a sua derradeira página.