quinta-feira, janeiro 18, 2018

(S) Recordar Ella Fitzgerald no ano em que ela faria cem anos

Sobre Ella Fitzgerald costuma-se referenciar o quão milagrosa terá sido a descoberta do seu talento. Porque a jovem tímida de um meio desfavorecido, que tudo tenderia a empurrar para o anonimato, converteu-se na cantora de jazz que, quer os puristas, quer o grande público, apreciaram, ou não fosse de uma surpreendente frescura essa voz inimitável nas seis décadas, que durou o seu percurso artístico.
A infância e a adolescência deram-lhe uma sucessão de experiências difíceis: nascida num dia 25 de abril - o de 1918 - ela deixou Newport News, na Virgínia, quando o pai deu à sola do lar e ela viu-se na contingência de acompanhar a mãe para Yonkers, no Estado de Nova Iorque, onde teve os primeiros contactos com as suas duas paixões - a dança e o canto - na Igreja Metodista Episcopal  de Bethany.
A mãe morre-lhe na adolescência obrigando-a a mudar-se, aos 14 anos, para a casa de uma das tias em Harlem. Aí vive de expedientes até à noite determinante de 21 de novembro de 1934, quando é consagrada com o primeiro prémio de um concurso de canto no mítico Apollo Theatre do seu bairro.
Alertado pela sua bela voz, Chick Webb contrata-a para vocalista da sua orquestra com que ela atua entre 1935 e 1939, quer em espetáculos, quer em gravações de estúdio. Um dia, enquanto ensaiava “You’ll have to Swing it”, Ella Fitzgerald lança-se numa súbita improvisação feita de sílabas e de onomatopeias. Acabava de inventar o scat, que alguns também atribuem como saído da verve de Louis Armstrong.
Os temas, que lhe vão dando crescente notoriedade, sucedem-se: A-Tisket, a-Tasket, a Brown and Yellow Basket”, “I Found my Yellow Basket” ou “My Heart Belongs to Daddy”. Substitui Billie Holiday na orquestra de Teddy Wilson e colabora com conjuntos vocais  como os Savoy Eights ou os Mills Brothers. Se ainda não alcançou a maestria da voz, que revelaria a partir dos anos 40, já são únicas a espontaneidade e a convicção rítmica, que tão enfático elogio suscita na influente revista «Down Beat» em 1937.
Com a morte de Chick Webb, em 1939, toma conta da orquestra e rebatiza-a como Ella Fitzgerald and her Famous Orchestra. A experiência dura três anos e não se revela frutuosa. Por isso opta por projetos individuais, com acompanhamentos de outros grupos de cantores: os Delta Rhythm Boys e os Ink Spots (1942-1943), Four Keys e Louis Jordan (1945).
Inicia também a colaboração com Louis Armstrong, com quem a empatia é imediata, imitando-o de forma irresistível.  Sob a influência do bop explora o scat com uma liberdade criativa sem peias.
Acabada a Segunda Guerra Mundial, passa a ter por empresário Norman Granz, que logo a associa a grandes digressões mundiais  e a leva aos palcos mais significativos: o Carnegie Hall em 1947, o Metropolitan Opera dez anos depois. A produção discográfica torna-se frenética e conta com as colaborações dos mais prestigiados pianistas - Oscar Peterson, Ellis Larkins, Hank Jones, Don Abney, Paul Smith, Lou Levy, Tommy Flanagan, Ray Bryant, Jimmy Jones, Jimmy Rowles – e de outros grandes nomes do jazz: Ray Brown (com quem esteve casada), Dizzy Gillespie, Joe Pass, Barney Kessel, Lester Young, Benny Goodman, Illinois Jacquet, Paul Gonsalvez, Coleman Hawkins ou Roy Eldridge.
Tornaram-se frequentes os convites para atuar com as grandes orquestras de Count Basie ou Duke Ellington. Este compõe para ela o Portrait of Ella Fitzgerald em quatro movimentos com títulos elucidativos : Royal AncestryAll HeartBeyond Category et Total Jazz...
Na publicidade ela era a voz que quebrava o vidro num memorável anúncio publicitário da cassette Memorex. Até ao fim dos anos 70 nunca pára, ganhando sucessivos Grammies, participando em muitos filmes e sendo convidada frequente da Casa Branca. A saúde, porém, irá fazendo-a declinar acabando por se ver amputada das duas pernas em 1993. Acaba por falecer em 15 de junho de 1996 em Beverly Hills, na Califórnia.
Olhando para a sua carreira como um todo nunca nela se constatou o renegar das origens, nem o desprezo por qualquer género musical. Por isso também a ouvimos cantar temas natalícios, de bossa nova ou até mesmo pop music. Os grandes títulos da comédia musical norte-americana (Irving Berlin, Cole Porter, George Gershwin) tiveram nela intérprete sem igual  e no seu cantar nada ressoava da revolta plangente dos blues. Pelo contrário a sua presença irradiava, alegrava e surpreendia com a amplitude da voz até às duas oitavas e meia.  Os amadores apreciavam-lhe a técnica, a plasticidade vocal, a fantasia poética. Mas quem conseguiria resistir à energia e elegância do seu swing, às coloraturas ingénuas do seu timbre, aos improvisos mais imaginativos? Ella Fitzgerald parecia ter encontrado a receita da eterna juventude. 



(S) Ella Fitzgerald - Summertime (1968)

quarta-feira, janeiro 17, 2018

As Partes do Todo (VIII): 17 de janeiro de 2018 - Rimbaud, Veneza, Marco Polo

1. De Rimbaud sabemos que foi poeta, antes de se converter num viajante, num comerciante, num etnólogo pelas vastidões inóspitas do Corno de África. Terá pretendido fugir à Literatura, mas a razão maior era a de afastar-se de Verlaine, que fora seu inflamado amor.
A intenção foi tão arreigada que, apesar de multiplicar cartas à família prometendo voltar para breve, nunca o chegou a fazer, morrendo precocemente e privando-nos do muito que poderá por ali ter escrito nos intervalos da sua atividade comercial de comprar umas mercadorias aqui para as vender acolá. Sempre com sucesso muito irregular. A influência que deixou foi duradoura: alguns dos slogans do Maio de 68 foram nele inspirados e Patti Smith considerou-o o seu virtual boy friend.
Mas se aqui o trago à colação é por um texto seu, escrito há quase século e meio, ter ganho crescente atualidade: “Quando se quebrar a servidão da mulher, quando ele viver por ela e para ela, o homem, atá agora abominável - dando-lhe o devido troco -, também ela será poetisa. A mulher encontrará o desconhecido! Os seus mundos de ideias definirão os nossos? - Ela encontrará coisas estranhas, insuspeitáveis, repulsivas, deliciosas. Nós agarrá-las-emos, compreenderemos!”
2. Num conhecido programa sobre Filosofia no canal Arte formulam-se duas perguntas apropriadas a muito do que se vai passando nos nossos dias: será que o Homem foi expulso do Paraíso por ter inventado o motor (ou a roda)? Será que quando se come carne dever-se-ia matar um animal pelo menos uma vez para saber donde ela vem?
3. Quando visitei a Basílica de São Marcos pela primeira vez a arquitetura interior - com os seus mosaicos amarelo-dourados - decerto constatei a óbvia influência oriental. Que não era assim tão verdadeira, porque a utilização da folha de ouro na cerâmica já existia em Pompeia, muito antes de se consagrar imagem de marca da capital bizantina. Os segredos do vidro e dos mosaicos haviam nascido na Península Itálica, migrado para as margens do Mar Negro, e de lá voltaram sob a forma de esbulho por conta de vitórias militares.
O que me passou despercebido foi uma placa de mármore onde se misturam os símbolos das várias religiões pressupondo um ecuménico propósito de diálogo entre as civilizações. Bonitas intenções, que não impediram a pilhagem de Constantinopla durante a 4ª Cruzada para de lá serem trazidos os cavalos, que dominam toda a Praça. Como de costume, quando de religiões se trata, a empatia com crenças diversas esboroa-se quando há hipóteses de as esmagar.
4. Fazendo a ligação com Rimbaud, mas não fugindo a amores tidos então como repreensíveis, foi da Sereníssima que, em 1271, Marco Polo partiu ao encontro da Rota da Seda. E, ao contrário do autor do «Bateau Ivre», não só comerciou com sucesso, como de tais aventuras conseguiu o encontro com a Literatura, que aquele pretendera dissociada de si.

terça-feira, janeiro 16, 2018

(DIM) «As Bandeiras dos Nossos Pais» de Clint Eastwood (2006)

O meu problema com Clint Eastwood é o de sabê-lo odiosamente reacionário, mas ter uma incontestada competência para realizar filmes. Nalguns casos, como o de «Invictus», até o poderíamos imaginar eivado de um pensamento ideológico progressista, mas noutros (vide «Milagre no Rio Hudson») temo-lo a dar mais acrescentos à mitologia americana de uma História baseada em heróis determinados, quando bem sabemos quanto ela mais não é do que a resultante de uma dialética evolutiva no confronto de forças opostas.
Em «Flags of Our Fathers» ele revisita essa enorme mentira que foi a fotografia de Joe Rosenthal em que milhões de crédulos acreditaram ver o instante da conquista da ilha de Iwo Jima durante a 2ª Guerra Mundial, sabendo-se hoje o quanto se tratou de uma representação para fins propagandísticos. De facto essa batalha decisiva ocorrida em 19 de fevereiro de 1945 teve um desenlace demasiado rápido para que os fotógrafos, que acompanhavam os militares, a pudessem documentar tal qual ocorreu. Rosenthal teve, pois, toda a disponibilidade do comando da 5ª divisão para conceber uma representação esteticamente apelativa destinada a impressionar quem, na retaguarda, financiava o esforço de guerra.
De tal modo assim foi que três dos fuzileiros da fotografia foram aclamados como heróis e incumbidos de protagonizarem uma tournée  de norte a sul dos States para incentivarem a compra de bilhetes do Tesouro destinados ao financiamento do crescente complexo militar-industrial, cuja contínua evolução resultou na situação atual: se não existem guerras, espicaçam-se quem as podem despoletar para que se mantenham empregos e, sobretudo, se garantam obscenos lucros a consórcios empresariais.
O interesse do filme de Eastwood reside na contradição entre a condição de heróis, que Ira Hayes, John Doc Bradley e Rene Gagnon têm dificuldade em assumir, tanto mais que os assombram a memória dos camaradas  que viram morrer. Se o filme pode perturbar os mais acirrados defensores de uma falsa imagem, que a América gosta de criar a seu respeito, é a des-identificação dos «heróis» com a noção dos limites da normalidade enquanto homens de carne e osso. E sobretudo dotados de uma consciência de que não se dissociam os sentimentos de culpa ( a questão de se questionaram porque sobreviveram e outros não!).
Como seria de esperar em Eastwood as cenas de desembarque e de batalhas são irrepreensíveis, mas fica sobretudo o questionamento sobre o que é ser patriota numa América, que se vale dessa mitologia para justificar o seu permanente objetivo imperialista.

segunda-feira, janeiro 15, 2018

(S) «L'enfant et les sortilèges» de Maurice Ravel

As partes do todo (VII): 15 de janeiro de 2018: Eleanor Roosevelt e Martin Rees

1. Nada faria prever que, apesar de inteligente, a tímida Eleanor Roosevelt teria tanta influência na política norte-americana. Esposa do carismático presidente, que lançara o New Deal depois da crise de 1929, emancipar-se-ia da sua tutela ao envolver-se em lutas contra todos as formas de discriminação, apenas movida pelo desejo de favorecer uma maior justiça social.
Feminista e militante dos direitos das minorias, ela percorreu todo o território federal para ouvir os humilhados e ofendidos, tornando-se deles porta-voz junto do esposo. O casal acabou por constituir uma equipa capaz de atrair à causa democrata novos eleitores, sobretudo os afroamericanos.
Foi graças a esse apoio que, em 1939, quando a cantora lírica Marian Anderson foi impedida de dar um concerto numa sala tutelada por uma organização feminista, não isenta do preconceito racista, Eleanor causou furor ao organizar um concerto alternativo junto ao Lincoln Memorial e assistido por muitos milhares de pessoas.
A fachada familiar, porém, não condizia com a realidade, porque o casal foi afastando-se progressivamente, Frank envolvido com a secretária, Lucy Mercer, e Eleanor a viver o grande amor da sua vida com a jornalista Lorena Hicock, a grande responsável por a introduzir nas tertúlias vanguardistas e revolucionárias para escândalo dos mais conservadores.
A imagem que dela ficou foi a de uma mulher moderna, comprometida com os ideais de liberdade e que serviria de inspiração para Hilary Clinton, enquanto autoassumida defensora da mesma visão progressista da realidade.
2. A Terra existe há 45 milhões de anos, mas só agora se chegou à Era Antropocénica, ou seja aquela em que, pela primeira vez, a nossa espécie pode determinar, para o bem ou para o mal, o futuro de toda a nossa biosfera. Numa entrevista facultada a Teresa Firmino («Público»), o astrofísico britânico Martin Rees reconhece-se otimista tecnológico, mas pessimista político. Oscilando entre o lado positivo de a maior parte das pessoas viver melhor do que anteriormente, mas ao mesmo tempo verem-se ameaçadas pelas armas nucleares, pelas alterações climáticas e pelo potencial mau uso das novas tecnologias.
Desafiado a considerar as hipóteses de sobrevivência da espécie ele recorre à estimativa mais compreensível: 50-50.

(DIM) O Medo no cinema norte-americano dos anos 60

O Medo continua a ser o tema que a Cinemateca vem abordando na grande maioria das sessões deste mês, ciente de, desde os seus primórdios, a Sétima Arte sempre ter fundamentado o sucesso na capacidade de despertar emoções nos que se sentam para ver quanto se passa num ecrã. Ora, sendo o Medo uma das sensações mais intrinsecamente humanas por ser uma das que melhor coincide com a preocupação de sobreviver a ameaças, ele vem sendo eficientemente exorcizado através de filmes capazes de deixarem mais descontraídos quem os vê e neles liberta muitos dos mais inconfessados receios.
Nos anos 60 a indústria de Hollywood encontrou nessa preocupação um bom motivo para concretizar propostas, que estavam destinadas a satisfazer a procura de catarses cinéfilas.
Logo no início da década, o alemão Wolf Rilla adaptou uma novela de um conhecido autor de ficção científica, devidamente incluído na mítica coleção Argonauta, que tanta evasão permitiu aos adolescentes da minha geração: John Wyndham. Em «A Aldeia dos Malditos» os miúdos de uma aldeia inglesa começavam a ostentar comportamentos estranhos como se deles tivessem sido erradicadas todas as emoções normais. O pior estava por se descobrir logo de seguida: dotados de poderes maléficos, eles revelavam uma sinistra tendência homicida…
Dois anos depois, em 1962, o realizador Blake Edwards  fez um parêntesis no seu habitual afã em criar comédias e assinou «Uma Voz na Escuridão». Glenn Ford era um detetive incumbido de analisar as suspeitas relativamente à personagem interpretada por Lee Remick quanto a homicídios e assaltos verificados numa vila, que David Lynch viria a tornar famosa: Twin Peaks.
Outra ambição teve Roman Polanski quando, em 1968, assinou «A Semente do Diabo», que constituiria um dos filmes mais significativos dessa época. Numa variação do tema de Fausto, o marido da personagem interpretada por Mia Farrow vendia-a ao Diabo, que a engravidava, tornando iminente uma ameaça terrível para a humanidade. Seria este filme a abrir a torneira para um longo fluxo de filmes em que os poderes maléficos inquietavam as plateias.

(DL) «L’ heure hybride» de Kettly Mars (2005)

Em 2005 a escritora haitiana Kettly Mars publicou o seu segundo romance, que adotava como protagonista um gigolo de Port-au-Prince, chegado a uma altura da vida em que se justificam os balanços sobre as suas origens e o que fez para se tornar no que é.
Para além do contexto de um país marcado pela ditadura dos Duvalier durante décadas, enfatiza-se uma hierarquia social em função da cor da pele. Jean-François vive na situação ambivalente de, nem sendo muito negro, nem apresentando uma tez suficientemente branca, situar-se entre dois mundos, que o olham com suspeição e o fazem sentir-se perdido.
Vivendo sobretudo de noite, já que os dias lhe servem para se alongar na cama a descansar e a ouvir as notícias transmitidas pela rádio, ele inventa para as clientes mil vidas bem mais excitantes que a sua. Nessa versão de Rico, o homem que prodigaliza prazer, é nítida a existência desse estado de hibridez: “Existo na noite. Num espaço onde as fronteiras ficam fluidas, na penumbra que atenua os defeitos, maquilha as imperfeições, dissimula o que perturba.”
De dia sente vir a si, idealizada de forma quase obsessiva, o fantasma de Irene, a mãe desaparecida demasiado cedo, que foi também a única mulher a quem verdadeiramente amou. Também ela prostituta, é por ele santificada, tanto mais que, oriunda de uma família prestigiada, se viu tão vítima das circunstâncias quanto ele se sente nesta altura. Mas Rico não enjeita o recurso à ambiguidade dessa origem para ir sobrevivendo. Até que um inesperado encontro irá afetar todas as suas convicções, virar de pantanas tudo quanto julgara compreender até então. Port-au-Prince torna-se, então, e ainda mais, nesse espaço de gente perdida nas brumas do álcool e da solidão.

(S) Um dos mais famosos momentos do «Quebra-nozes» de Tchaikovsky.

domingo, janeiro 14, 2018

As partes do todo (VI) - 14 de janeiro de 2017: o fenómeno do turismo de massas

Debates sobre o excesso de turistas no centro de Lisboa. Divergências, até no partido do governo, relativamente aos direitos e deveres do alojamento local através de plataformas tipo Airbnb. A constatação de uma óbvia ligação causa-efeito no aumento dos roubos na cidade. Ainda não se chega ao repúdio pelos visitantes que já se sente em Barcelona ou em Veneza, mas não se anda longe. Porque, ao mesmo tempo, sobram testemunhos do desagrado de muitos alfacinhas subitamente expulsos dos bairros onde nasceram, e sempre viveram, para darem lugar a negócios, que beneficiam maioritariamente os interesses privados e muito pouco os munícipes.
Num documentário de Antje Christ sobre o fenómeno - «Turista, Vai-te Embora!» - pode-se constatar a ambígua complacência dos autarcas em relação ao fenómeno: os presidentes das câmaras de Veneza ou de Dubrovnik pouco se interessam pelos efeitos negativos desta involução conquanto os lucros continuem a ser enormes para os consórcios, que visivelmente representam. Ao primeiro pouco importa que os enormes paquetes movimentem enormes massas de água da laguna, quando atravessam o Canal de la Giudecca, exercendo sobreesforços tremendos sobre os pilaretes de madeira em que assentam os edifícios da cidade. Mesmo que a cidade em si pouco beneficie com os trinta milhões de invasores, que a percorrem anualmente, ele está sobretudo interessado nos lucros do consórcio privado, que gere o porto veneziano decidindo os lugares de atracação de cada um dos sucessivos navios, que ali vêm estacionar durante algumas horas. E também o julgamos muito «sensível» aos interesses das famílias que gerem, em regime de exclusividade a atividade de gondoleiro, não permitindo que hajam mais do que os atuais 360. Acaso algum se queira reformar e trespassar a sua licença, o eventual interessado pode preparar pelo menos meio milhão de euros para garantir o negócio, isento de qualquer carga fiscal. 
Por seu lado o autarca croata não tem pejo em se considerar o «gestor» de uma empresa, que diz representar quinze mil acionistas, mas que, bem vistas as coisas, só interessa a uma ínfima minoria. Porque há quem tema um sinistro, que transforme a cidade numa autêntica armadilha, quando comporta dentro das suas muralhas, dezenas de milhares de turistas e as suas três portas só permitem o escoamento gradual, e em segurança, de pouco mais de três mil. É certo que alguns «millennials» andam aparentemente felizes e contentes com os seus projetos de empreendedorismo individual, mas desconfiamos que eles pouco lhes rendem e os mantém numa precariedade de que não se conseguirão livrar. A menos que sigam o exemplo dos mais habilitados academicamente, que mudam para outras paragens, deixando para trás apenas os que não têm competências para ambicionarem empregos mais exigentes do que de meros tarefeiros no enorme parque temático a céu aberto.
Hoje aumenta a consciência de não estarem a ser respeitados os direitos dos habitantes das cidades, que vêm sendo reconhecidas como estando na moda dos grandes fluxos turísticos. O espírito do lugar, tal qual Lawrence Durrell o definia, perde-se  e tudo se tende a igualar um pouco por todo o lado: as mesmas lojas das grandes insígnias, os mesmos restaurantes de fast food, os mesmos hotéis. Pouco a pouco cada cidade vai perdendo a sua alma e colando-se ao conceito urbano imposto pelos grandes negócios turísticos. Que são explorados e beneficiam os grandes grupos económicos para quem os próprios turistas são mansas ovelhas prontas a tosquiar. 

(DIM) «Aproveita a Vida, Henry Altmann», Phil Alden Robinson (2014)

Há filmes, que valem bem mais do que mostram no ecrã e este é disso exemplo eloquente. No mesmo ano em que foi rodado, Robin Williams punha termo a prolongada depressão suicidando-se. É por isso, que existe algo de perversamente necrófilo em vermos este filme e tentarmos entender até que ponto ator e personagem se colavam um ao outro.
Se quisermos acentuar ainda mais nesta nota poderemos aferir até que ponto este papel possa ter precipitado uma decisão anteriormente congeminada. Mas também podemos concluir que Williams terá rejeitado a grande lição de Henry Altmann, que depois de tentar o suicídio no Hudson, atirando-se da Ponte de Brooklyn, terá aproveitado os oito dias de vida, que o aneurisma cerebral lhe proporcionou para compensar os muitos desperdiçados nos últimos anos.
Situando-nos nos territórios das comédias dramáticas, existe aqui algo afim aos livros de autoajuda, que nos tendem a convencer de uma série de ideias feitas, que não são mais do que isso mesmo (“enquanto há vida há esperança”, “o mais importante é a família”, “há que fazer na vida o que nos for agradável, deixando para trás o que só nos frustra”, etc.).
Entre a tendência do cinema mainstream de Hollywood em nos deixar consolados no final e algumas soluções no argumento, que poderiam sugerir a intenção (mesmo que não o talento!) de ir mais além, «Aproveita a Vida Henry Altmann» fica nas nossas memórias por coincidir com o definitivo adeus de um ator que nos deixou gratas recordações...



(S) A Abertura e o Bacchanale de Tannhauser de Wagner, dirigida por Georges Prêtre

As partes do todo (V) : 13 de janeiro de 2018 - homicídio em Havana e o incrível mundo dos ratos-toupeira

1. No seu derradeiro caso como polícia, o Tenente Mário Conde é incumbido de esclarecer o homicídio de Miguel Forcade, um antigo alto quadro da Administração cubana, que se exilara em Miami e ali voltara já na condição de cidadão norte-americano.
Será que a sua morte violenta terá algo a ver com a posse ilícita de quadros e outras obras artísticas valiosas abandonadas pela elite anticastrista, quando os «barbudos» chegaram a Havana?
Conde e Manolo, seu adjunto, suspeitam que Forcade terá sido assassinado por cúmplices, quando se preparavam para fugir com esses tesouros para a Flórida, mas acabam por concluir existirem razões mais prosaicas … e passionais para que a vítima tenha aparecido castrado e a flutuar em frente ao Malecón. 
O romance chama-se «Paisagem em Havana» e é um dos títulos da série Mário Conde, que Padura foi criando em paralelo com outras obras não obrigatoriamente vinculadas ao género policial. Mas os cânones deste tipo de escrita servem de capa para o escritor dar a conhecer muito do que é a sua visão crítica da realidade cubana. Não se colocando propriamente na perspetiva de opositor ele adota a de quem muito acreditou no lado idealista da Utopia, e se descobriu num país subdesenvolvido sem grandes expectativas de superar essa fase de permanente falta de alguns bens de primeira necessidade.
Em romances posteriores já encontraremos Conde dedicado à pouco lucrativa atividade de alfarrabista, razão para aceitar alguns casos enquanto detetive particular. Mas sempre com o desejo de escrever romances, ainda que não vá conseguindo passar das primeiras páginas.
2. O rato-toupeira está a suscitar a atenção da comunidade científica internacional apesar do aspeto ingrato, que levaram alguns a considera-lo uma derivação monstruosa das leis de Darwin. Sem pelo e com dentes invulgarmente longos, este roedor, cujo habitat se situa entre a savana queniana e os desertos do Corno de África, revela uma inesperada longevidade e uma saúde extraordinária.
Organizado em colónias constituídas por amas secas, soldados e operários, são lideradas por uma rainha, que é a única reprodutora do grupo e tem ainda maior esperança de vida que a dos seus súbditos. O interesse dos cientistas incide pois na resposta à questão de se descobrir como consegue esta espécie vencer os obstáculos, que a pudessem privar da sua longevidade?
Da análise do património genético os cientistas concluíram que estes animais estão equipados com genes capazes de eliminarem os dejetos proteicos que, ao acumularem-se, provocam o envelhecimento celular na espécie humana. Ademais têm células a produzirem ácido hialurónico, que possuem um efeito preventivo sobre os riscos de cancro.
Noutras experiências pode-se concluir que os ratos-toupeiras conseguem suprir a falta de oxigénio recorrendo ás suas reservas de frutose, algo até agora só conhecido nas plantas.
Os laboratórios dos institutos, que os estudam, procuram encontrar forma de replicar este tipo de genes, utilizando-os depois nos tratamentos anticancerígenos, na criação de medicamentos mais eficientes contra a dor e na salvação de vítimas de AVC.
Estamos, pois, perante uma espécie animal, dotada de características únicas e de cujo estudo podem surgir soluções farmacêuticas de inegável interesse.


sábado, janeiro 13, 2018

(DIM) O medo segundo Lynch, Fassbinder a Argento

Três filmes dos anos 70, oriundos de outras tantas distintas cinematografias, permitiram-nos analisar a abordagem do Medo nos ecrãs, quando recentemente passaram nas salas da Cinemateca.
Datada de 1977, «Eraserhead», foi a primeira longa-metragem de David Lynch, que, até então, se limitara à rodagem de curtas-metragens experimentais. Entre o surrealismo e a cinefilia, ele já nos desafiava para um mundo de sonhos e de fantasmas.
Quatro anos antes, com «O Medo Come a Alma», o alemão Rainer Werner Fassbinder decidira-se pelo remake de um melodrama de Douglas Sirk sobre a relação de uma alemã, empregada de limpeza, com um árabe muito mais novo do que ela. Ao contrário do que sucedia no filme de Lynch, o medo era aqui suscitado pela realidade em que a diferença de tom da pele ou da idade - neste caso até ambas! - serviam para estigmatizar os indivíduos.
Mais conforme com os estereótipos associáveis ao cinema de terror, «Suspiria» de Dario Argento foi rodado em 1976 e tinha por protagonista uma estudante americana recém-inscrita numa academia de dança alemã. Contando com duas atrizes veteranas  bastante conceituadas - Alida Valli e Joan Bennett - Argento punha a pobre da Jessica Harper a viver em medo constante num clima que extravasava para quem, nas plateias, a ela se apegava.



sexta-feira, janeiro 12, 2018

As partes do todo (IV): 12 de janeiro de 2018 - que fazer da Democracia?

1. Há a sociedade em que as leis vêm ditadas de cima e aquela em que, quem se lhes submeterá, será também quem as cria. Esse grande passo civilizacional foi dado pelos antigos gregos, que impuseram a dissipação do divino no espaço democrático. A heteronomia surge, então, como forma de organização da sociedade em que a hierarquia do grupo sobrepõe-se a qualquer um dos seus indivíduos. Mas estes assumem-se como transformadores e não meros seguidores de uma qualquer tradição.
2. Pensar filosoficamente não se direciona apenas para si mesmo. Trata-se de tentar colocar-se no lugar dos outros e expressar-lhes as opiniões por palavras que sejam incapazes de formular.
Governar em Democracia também deve ser isso: interpretar as aspirações os cidadãos e fazer os possíveis por as concretizar. Por isso mesmo o exercício do poder deveria significar o exercício da abnegação. Algo impensável num Trump, jamais capaz de entender o seu papel de ator incumbido de interpretar e representar a vontade coletiva dos seus concidadãos.
3. Os grandes políticos são os que conseguem emancipar-se de si mesmos. São os que se revelam suficientemente corajosos para dizerem o que se justifica em cada circunstância, tomando decisões em contextos, que implicam o conflito. Embora individual, o exercício da governação deverá aproximar-se, tanto quanto possível, dos interesses coletivos.
4. A Nação é o espaço onde se exercem os compromissos sociais e políticos. Hoje em dia os tratados internacionais, que se vêm sobreposto a essa ideia de Nação, têm vindo a ser sucessivamente derrotados, porque a Revolução Francesa deixou dentro de todos nós o desejo da Soberania. Como sinónimo de conquista da Liberdade, de respeito pela identidade.
5. Ao contrário do que pretendem os fascistas, as nações soberanas não devem ser vistas isoladamente, porque implicam o respeito de umas pelas outras, excluindo a possibilidade submissão ou de opressão. Um bom exemplo disso mesmo está aqui ao nosso lado, com a soberania catalã a ser reprimida pelo centralismo madrileno.

(C) Papuásia - a expedição a um mundo perdido

Hora e meia é quanto este documentário de Christine Tournadre dura para nos envolver numa odisseia científica excecional a um dos escassos santuários naturais ainda inexplorados no planeta. É o maciço de Lengguru, na Papuásia ocidental, que foi criado por uma violenta colisão de placas tectónicas há onze milhões de anos. Criaram-se, desde então, relevos cársticos, grutas impenetráveis, vales e lagos isolados.
O acesso a essa região é dificultado por tantos obstáculos que quase ninguém nela se aventurou. Razão para aí terem prosperado espécies endémicas desconhecidas fora dali e que estão por identificar e classificar. Algumas delas, muito primitivas, terão ficado prisioneiras nesse território desde tempos imemoriais, correspondendo a testemunhos vivos de um mundo perdido.
Patrocinada por instituições universitárias e científicas franco-indonésias a expedição envolveu setenta investigadores de várias especialidades e foi coordenada por Laurent Pouyaud. O objetivo era o de conhecer os segredos da evolução e da adaptação das espécies, percorrendo os fundos marinhos e as labirínticas grutas subterrâneas, os cumes das montanhas circundantes e a intrincada floresta por elas rodeada.
Sendo de inegável interesse para quem se interessa pela natureza o documentário poderá ganhar outra abrangência junto de quantos pretendam conhecer algo mais sobre este planeta em que vivem.

(S) O Concerto nº 23 de Mozart na interpretação de Maurizio Pollini

quinta-feira, janeiro 11, 2018

As Partes do Todo (III): 11 de janeiro de 2018: a reação de um macho latino ao discurso estupido de algumas feministas

Tenho-o escrito nos últimos tempos: é singular que se tenha instituído uma espécie de caça ao assediador sexual desde que Weinstein foi denunciado por umas quantas atrizes de Hollywood, enquanto uma imensa amálgama de mulheres se deleitaram com a prosa de «As Cinquenta Sombras de Grey» em que a protagonista se sujeitava a tratos de polé por um execrável sádico.
Vem isto a propósito da polémica atualmente em curso em França, tendo de um lado feministas fanáticas, que descrevem os homens como seres repelentes sempre orientados para a predação sexual das suas vítimas, incapazes de recuperarem dos seus traumas, e, do outro, um abaixo assinado liderado por Catherine Deneuve, Sarah Chiche e Catherine Millet, que, não pondo em causa o carácter criminoso da violação ou do verdadeiro assédio, alertam para o discurso estupidamente antimasculino e para a imposição de um puritanismo que, em última análise, diminui as mulheres em vez de as valorizar.
Com a sua forma expedita de reagir a escritora Christine Angot, que sabe bem do que está a falar, disse sem papas na língua, que uma mulher sujeita a violação ou a incesto só tem de se levantar, de nada lhe valendo ficar-se pelo discurso de eterna vítima. A não ser que pretenda ver-se num papel infantilizado, que lhe pode dar prazer, mas nada contribui para a valorização do papel das mulheres na sociedade.
Mas a história do abaixo-assinado, que tanta histeria causou nas feministas puras e duras, surgiu de uma conversa de Sarah Chiche com uma editora, que lhe terá confessado a forte improbabilidade de, nesta altura, um livro como o de Catherine Millet («La Vie Sexuelle de Catherine M.») chegar ao prelo por não ter personagens femininas suficientemente identificadas com os seus traumas, nem a queixarem-se das vicissitudes por que terão passado.
De repente cria-se um ambiente infecto na cultura em que há quem altere o final da «Carmen» de Bizet, pondo a protagonista a matar Don José em vez de por ele ser morta. Por «liberdade criativa» argumentou o traste, que a tal se atreveu. E os exemplos vão-se-sucedendo: uma campanha contra uma retrospetiva de Polanski na Cinemateca francesa, como se a obra fosse o homem e vice-versa, não existindo uma óbvia separação entre a personalidade e a sua criação; a censura a um cartaz com um nu pintado por Egon Schiele; a solicitação para ser retirado um quadro de Balthus de um museu pela sua sugestão pedófila. Ou o adiamento de uma retrospetiva de Jean Claude Brisseau.
Até onde imporão as novas pitonisas do politicamente correto antimasculino? A exigirem que se reescreva o final de Emma Bovary para que ela não se veja punida? Tapar partes de alguns quadros de nus ou sujeitá-los a autos-de-fé  se pensarmos na «Origem do Mundo» de Courbet?
Sob o manto de algumas situações condenáveis, a nova Inquisição feminista chega a tal desatino que, qualquer dia, para que um homem consiga ir para a cama com uma mulher terá de, previamente, assinar com ela um contrato sobre o mútuo consentimento, passando previamente pelo notário a validá-lo antes da consumação do ato.
Manifestamente algum discurso feminista dos dias de hoje polui o nosso ambiente social com uma visão profundamente puritana deveras reacionária. Que irrita, mas ao mesmo tempo intimida!