quinta-feira, dezembro 15, 2011

Documentário: HITLER ET SES RANÇONNEURS de Thomas Ammann, Stefan Auste e Caroline Schmidt

Quando o resultado da guerra estava a inflectir-se a favor dos Aliados, Himmler organizou um comércio de judeus como forma de os poder trocar por dinheiro ou por armas. As fábricas alemãs, fosse por falta de matéria-prima, fosse por terem sido bombardeadas, já não produziam então as quantidades necessárias para o esforço bélico nas várias frentes.
Outra via negocial de Himmler orientava-se para os compatriotas radicados na América e para quem a entrada desta na guerra significara o seu internamento em campos de concentração. Trocá-los por prisioneiros judeus foi outra possibilidade, que ele não descurou.
É assim que cerca de sete mil judeus de Bergen Belsen, muitos deles crianças, irão escapar ao Holocausto para que pareceriam inevitavelmente condenados. Passadas seis décadas algumas dessas testemunhas das epidemias, da fome, da morte como espectáculo banalizado do quotidiano, dão aqui o seu relato.
Quem do lado judeu negociou essa transacção sabia tratar-se de um pacto com o Diabo, chamasse-se ele Adolf Eichmann ou um dos seus colaboradores mais próximos.
Em Bergen Belsen os prisioneiros, que aguardavam o momento de servirem dessa moeda de troca, não tinham ilusões sobre o que se passava no bem próximo campo de Auschwitz: os sapatos retirados dos que iam morrendo cremados nos fornos eram para ali enviados a fim de ser recuperado o couro neles aplicado.
Kastner e Joel Brand pretendiam salvar um milhão de judeus, mas o resultado do seu esforço seria muito mais limitado.
Mais tarde ele seria objecto de ostracização em Israel aonde se radicou e onde seria assassinado em 1957: muitos consideravam-no um traidor, apesar de, á partida, ele ter começado nesse comércio imoral para salvar alguns dos seus familiares mais próximos…


"Goldfinger" Trailer

Filme: 007 CONTRA GOLDFINGER de Guy Hamilton (1964)

Descubro os clássicos da série 007 com várias décadas de atraso. Já sem os preconceitos de quem só neles via o maniqueísmo típico da Guerra Fria, ademais posicionado do lado contrário ao então por mim defendido, mas também com o distanciamento de quem se posiciona no papel do arqueólogo capaz de olhar para um passado distante com a intenção de encontrar as chaves para a evolução dos acontecimentos decorridos desde então.
Que o mundo de 007 é anacrónico não é novidade: até antes da queda do Muro de Berlim os argumentistas já tinham o cuidado de escamotear o inimigo soviético ou chinês sob a marca de uma entidade malévola dedicada ao crime internacional. Mas seríamos ingénuos se aceitássemos a inocuidade desse eufemismo: nos anos 50 muitos dos filmes de ficção científica produzidos em Hollywood, quando grassava a caça às bruxas, mostravam os ameaçadores extraterrestres como substitutos catárticos do medo dos russos.
Mas o propósito dos produtores, para além de passarem mensagens ideológicas bastante óbvias, era o de ganharem dinheiro, tornando estes filmes em mega sucessos de bilheteira. Para isso reinventavam a forma de conceber um cinema de entretenimento em que existia um personagem com quem fosse fácil a identificação,  capaz de suscitar interesse nas plateias masculinas pelas suas características de garanhão sempre pronto a horizontalizar-se com as bond girls de serviço, e nas femininas pela sofisticação dos ambientes por onde ia vagueando.
«Goldfinger» é um dos filmes mais conhecidos dos que integraram a série e a canção do genérico contribuiu bastante para tal, porquanto a história é perfeitamente convencional: Bond é levado várias vezes até ao limite da sobrevivência, mas capaz de virar as circunstâncias a seu favor, matando os mauzões de serviço e operando a redenção da vilã, que lhes servia de cúmplice.
Nada de particularmente inovador, mas que servia para, por exemplo no Portugal salazarista de então, distrair os mais incautos das diatribes quotidianas dos esbirros da ditadura...


segunda-feira, dezembro 12, 2011

Livro: HISTÓRIAS INQUIETAS de Joseph Conrad

Quando pensamos em Joseph Conrad somos levados a pensar nos personagens interpretados por Marlon Brando e por Martin Sheen em «Apocaplipse Now», verdadeiros paradigmas de um tipo de demência muito presente em todos os seus romances e novelas e característicos de quem entra em conflito com a realidade.
Os vários contos de «Histórias Inquietas», que Conrad publicou em 1898, confirmam essa ilação apesar de todos os seus personagens pouco terem em comum na classe, na nacionalidade ou na idade a que se associam.
«Karain: uma recordação» foi a terceira história escrita pelo autor e evoca os seus tempos de navegação em navios de carga pelos mares do Extremo Oriente.
Karain é um chefe malaio, que se torna amigo do narrador e lhe dá sobejas provas de consideração nos negócios entre ambos transaccionados, normalmente armas para as disputas com os pequenos estados vizinhos. No entanto o que mais o define é o medo permanente pelo fantasma de um amigo a quem jurara ajudar na vingança contra a irmã e o holandês com quem ela partira para desonra da sua família muçulmana.
Quando o objectivo da longa errância pelas várias ilhas malaias parecia à beira de se realizar Karain matara o amigo, sugestionado pela beleza da rapariga.
Razão para um remorso irremediável…
«Os Idiotas» foi a primeira história escrita por Conrad e é passada em França no período da restauração monárquica. Nela um camponês republicano e ateu sofre a desdita de ter quatro filhos idiotas vituperando a mulher por tão ruim semente.
Mesmo quando está disposto a vender a alma ao diabo, ou seja inclinar-se perante os detestados padres e o poder local do marquês de Chavannes, o resultado não é diferente.
Num paroxismo de acusações a Deus e à mulher ele acaba por ser o responsável do suicídio dela nas falésias ali tão à mão de semear.
«Um Posto Avançado do Progresso» é a segunda história escrita por Conrad e tem muitas semelhanças com o «Coração das Trevas», porque é passado em África, muito a montante da foz do rio Congo e onde os dois europeus aí deixados pela companhia colonial vão morrer sem cumprirem os sonhos de  enriquecerem. Apesar de se tornarem coniventes no tráfico de escravos ou no comércio das presas de marfim…
«O Regresso» foi escrito ao mesmo tempo, que «Karain» e é um longo exercício introspectivo, mesclado de um jogo de massacre conjugal entre um burguês o mais convencional possível, confrontado com a vontade de libertação da mulher com quem se casara cinco anos atrás. Mesmo não tendo ela cometido nada de «irreparável» - ou seja ter relações sexuais efectivas com o amante - ele vê desabar todo o sólido edifício de certezas em que balizara os seus dias. E nessa deriva para a loucura acaba por sair de casa rumo ao desconhecido…
Que «O Regresso» tenha sido escrito nos primeiros tempos de casado, diz bem da assombração vivida pelo próprio Conrad relativamente ao seu próprio casamento…
«A Laguna» também é tida por Conrad como a primeira história por si escrita e tem algumas semelhanças com «Karain»: o narrador volta a ser o capitão de um navio dedicado ao comércio pelas costas malaias e com uma amizade antiga por Arsat. Quando o reencontra numa laguna aonde ele vive com a mulher, que conseguira subtrair à corte de um rajá, ela está moribunda possuída de febres incuráveis.
Ao enviuvar, Arsat fica liberto para ir vingar o irmão, que pagara com a vida a ajuda dada durante o rapto da noiva.
Temos, pois, o amor como um forte argumento para o indivíduo se superar, adoptando um heroísmo suicida que, de outro modo, teria dúvidas em assumir...

sábado, dezembro 10, 2011

Filme: REGRESSO À NORMANDIA de Nicolas Philibert (2006)

Trinta anos depois de René Allio ter ido para a Normandia rodar o seu filme «Pierre Rivière», no qual colaborara como primeiro assistente, Nicolas Philibert volta aos mesmos locais para reencontrar as pessoas então contratadas para serem actores de cinema durante três meses das suas vidas.
Quando aí estivera, Philibert tinha 24 anos e sentia tanto fascínio quanto Allio pela história desse jovem meio alucinado que, cem anos atrás, matara a mãe e dois irmãos, porque Deus assim lho ordenara, prometendo-lhe protecção. 
Depois, encerrado na prisão, escrevera um texto de oitenta páginas para explicar as razões do seu acto, merecendo por isso mesmo a análise posterior do filósofo Michel Foucault
Com um orçamento muito limitado, tanto mais que o seu filme precedente (Rude Journée Pour la Reine») fora um tremendo fracasso comercial, mesmo contando com o protagonismo de Simone Signoret, Allio decide recorrer exclusivamente a actores amadores.
A sua contratação, bem como a busca de vestuário e alfaias típicas da época em causa, fora uma das tarefas encomendadas a Philibert.
Para todos  quantos aceitaram o desafio de Allio, o cinema não se tornou modo de vida. Nem sequer para o jovem Claude Hébert, que desempenhava o papel de Pierre Rivière. Apesar de ainda surgir nalguns filmes da nouvelle vague ele acabaria por responder a um apelo místico e a dedicar-se a um percurso religioso.
Quando o reencontramos, quase no final do documentário, ele é um padre com vastos anos passados no Québec e que, então, reside no Haiti a socorrer as populações mais atingidas pelo terrível terramoto aí ocorrido.
Outros dos participantes são agricultores (e vê-se a cena terrível do abate de um porco, depois de assistirmos nas cenas iniciais ao nascimento de vários leitões) e uma delas trabalha numa instituição com deficientes mentais, que remetem visualmente para o universo demencial de Rivière.
Ademais, embora nada não tendo directamente a ver com a experiência de 1975, muitos deles são militantes activos contra a existência de dejectos nucleares nas redondezas das suas aldeias, organizando manifestações bastante participadas.
O filme é, pois, feito de extractos do que Allio rodou, de entrevistas com os actores de então e com o seu dia-a-dia num presente donde essas pretéritas memórias são amiúde resgatadas para as conversas.
Quanto a Pierre Rivière, apesar de condenado à morte, o rei comutara-lhe a sentença em prisão perpétua. No entanto, um dia, aproveitando o isolamento em que era deixado, ele enforcou-se na sua cela.
Para a história ficaria, porém, como tendo sido o réu do primeiro caso judicial francês em que o tribunal recorreu ao parecer de diversos psiquiatras...

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Flight of the Phoenix Trailer (2004)

Filme: O VOO DA FÉNIX de John Moore

Em 1965  Robert Aldrich rodava um filme de aventuras em que um conjunto de passageiros caía no meio do deserto do Sahara e unia esforços para construir um avião, que os retirasse dali para fora.
O filme estava bem concebido e valia pela interpretação de um punhado de actores de excepção. Agora, quarenta e cinco anos depois, Hollywood produz uma nova versão, que fica muito aquém da qualidade do anterior.
No papel de protagonista Dennis Quaid é Frank Towns, um piloto de aviões de carga que, juntamente com seu co-piloto A.J., é enviado para a Mongólia com a missão de repatriar uma equipa de prospecção petrolífera cujo projecto fora interrompido.
Mas, pouco depois, uma das temíveis tempestades de areia do deserto do Gobi faz despenhar o avião, deixando os seus tripulantes e passageiros à mercê dos perigos da região.
Durante uns dias eles esperam por uma missão de resgate, mas ninguém vem em seu socorro. O que os leva a aderir ao projecto de um dos companheiros de infortúnio, que incita-os a construir um novo avião a partir do que se despenhara.
Quase todo o filme assenta, pois, nas dissensões entre eles, já que há os que acreditam e os que descrêem das vantagens de tal esforço. Mas a ameaça iminente de uma tribo nómada, fá-los apressarem-se e a sossegarem o espectador com um happy end à medida dos objectivos do box office.
Mas não estamos senão um divertimento inconsequente na sua falta de ambição...

Kongo-Müller - The Laughing Man - Der Söldner 1952 - Imperialismus

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Documentário : KONGO MULLER, UM MERCENÁRIO NO CONGO de Siegfried Ressel

Para nós, portugueses, o nome de Siegfried Muller pouco ou nada significará, mas para qualquer alemão, quer da antiga RDA, quer da República Federal, ele protagonizou um dos incidentes mais perturbadores da época da Guerra Fria. Porque ao dar uma entrevista à televisão leste-alemã em 1965, ele forneceu argumentos a quem associava o colonialismo e o imperialismo à utilização de antigos assassinos nazis reciclados em mercenários em África.
Muller acabara de estar a soldo do sinistro Tchombé, político africano do Katanga, tido por grande amigo do regime salazarista e responsável pelo assassinato de Lumumba, o primeiro presidente congolês após a independência. Contratado em Joanesburgo, ele comandava o Destacamento 52,  conhecido pelas torturas aos prisioneiros, à queima de palhotas, aos assassinatos sem reservas e até aos actos de canibalismo.
Os jornalistas Walter Heynowski e Scheumann Gerhard entrevistaram-no, quando ele estava de férias em Munique e, graças à bebida, servida em abundância, conseguiriam um testemunho eloquente na desumanização de um criminoso sorridente.
Envergando camuflado e botas de combate Muller não usa eufemismos para justificar as suas acções como de defesa dos interesses do Ocidente numa África ameaçada pelos comunistas e elogiar o exército nazi a que, orgulhosamente, pertencera.
O constrangimento das autoridades alemãs ocidentais e norte-americanas tinha a ver com o facto de, pela voz de um «monstro» ficar desmascarada a sua cumplicidade com criminosos nazis que, enfeudados à mesma ideologia, defendiam os seus interesses estratégicos em África.
Muller acabaria por morrer sob a asa protectora do apartheid  sul-africano, ainda Mandela estava aprisionado em Robben Island.
Agora, que já tanto mudou na história mundial, o documentário de Ressel serve para recordar o passado tenebroso das supostas democracias ocidentais e das suas opções comprometedoras sempre que se trata de salvaguardar os seus interesses económicos.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Babel - trailer


Se quisermos demonstrar o significado da palavra «manipulação», o filme de Iñarritu pode figurar como um exemplo lapidar: parte-se de uma tese que se quer demonstrar (num contexto de globalização todos estamos interligados e um gesto anódino aqui pode suscitar uma tragédia noutro lado), imaginam-se personagens mais ou menos estereotipados em zonas geográficas aonde se adivinham receitas potenciais, agudizam-se as cenas dramáticas até ao paroxismo … e tem-se um filme com todas as condições para singrar nos festivais de cinema.

O fascismo, enquanto esquema ideológico, não anda muito longe. E são muitos os incautos, que por ele se deixam levar.

Filme: AS CANÇÕES ESCONDIDAS De Andreas Struck (2009)

Martin é um trompetista em crise: num concerto abandona o palco e Kristina, a namorada, acaba por o pôr na rua, por tornar-se insuportável a vida por ambos partilhada.
Temo-lo, assim, reduzido à condição de sem abrigo, ganhando o sustento a tocar nos corredores do metropolitano. É aí que, um dia, descobre morta uma mulher a quem fica com o saco dos escassos pertences. Entre os quais uma espécie de diário cuja leitura o obceca: a lenta deriva de Hanna da sua vida burguesa para aquele desiderato trágico fascina-o ou não esteja ele apostado num  processo de auto-destruição similar.
Vale-lhe porventura a altercação com outro sem abrigo nos corredores do metropolitano e a sua condenação a 320 horas de trabalho comunitário num cemitério.
É essa rotina e o interesse nele manifestado pela jovem Maggie, aí também assistente, que o trazem de volta à realidade, acabando por compor a música para um CD em que os poemas da infeliz lhe estimulam a criatividade.
O filme é fraquinho, apesar da música de Nils Peter Molvaer: num registo semelhante «Alice«, filme português sobre um pai à procura da sua filha desaparecida, é bastante mais consistente.
Convenhamos que, hoje em dia, o cinema alemão está distante da época em que Fassbinder, Herzog, Straub, Wenders e Syberberg iam-lhe  criando uma identidade singular e estimulante

ARTSAVA - Everything Has a Music Deep Inside


O que é mais interessante neste filme de Andreas Struck é a música do norueguês Nils Peter Molvaer.

Britney Spears feat Max Raabe - Oops... I Did It Again

No espectáculo da Gulbenkian, Max Raabe demonstrou que até as canções de Britney Spears se ajustam ao estilo dos anos 20 e 30. De uma forma eloquentemente eficaz!

Max Raabe & Palast Orchester,Moon of Alabama 1927

Concerto: MAX RAABE & THE PALAST ORCHESTRA Gulbenkian, 4/12/2011

Em «Midnight in Paris» Woody Allen põe o protagonista Owen Wilson à procura da Paris mítica dos anos 20, época por ele mistificada por ser aquela em que teria podido conviver com Picasso, Gertrude Stein, Hemingway ou Scott Fitzgerald.
Pode-se dizer que, quando Max Raabe foi estudar para Berlim, também levava consigo todo um conjunto de mitos nele inoculados por uma avó encantadora, que aí vivera a euforia da boémia do mesmo período.
Max até se julgava vocacionado para ser cantor de ópera, mas os apertos da subsistência de jovem estudante sem grandes recursos levou-o a associar-se a alguns colegas da Universidade para criar uma banda - a Palast Orchestra - cujo reportório seria constituído pelas canções da época dourada do cabaré berlinense.
O sucesso foi tal que, logo no início da carreira, a Palast Orchestra estava contratada para animar os espectadores de um Festival de Música em Berlim no hall da sala em causa e esta esvaziou-se porque a preferência do público incidiu no que com ela se passava.
E assim se perdeu um cantor de ópera e se ganhou uma orquestra de entretenimento inteligente, apostada em recursos cénicos rigorosamente aplicados embora resultem num espectáculo ligeiro e extremamente divertido.
O que fascina num espectáculo como o desta noite é a possibilidade de nós próprios vestirmos a pele daquele personagem de Woody Allen e, durante um par de horas, vivermos a idealização de uma Berlim dos anos 20 e 30, antes que a chegada dos nazis ao poder cerceasse a revolução então aí operada a nível das artes e das ideias políticas. Como o próprio Max Raabe se encarrega de recordar muito do reportório por ele investigado e, depois implementado nos espectáculos, resulta da criatividade de tantos compositores judeus reprimidos ou obrigados a exilarem-se quando Hitler os votou à inexistência.
Nunca será demais conjecturar as razões, que levaram a cidade mais cosmopolita e ideologicamente fervilhante dessa época a permitir o avanço das forças mais opostas ao seu espírito. O que dá para concluir que a banalidade do mal está aí mesmo ao virar da esquina. E que nunca serão demasiados os esforços para a impedir de se expressar. Mesmo que, como no caso deste espectáculo, nos votemos momentaneamente à fruição de tão bons momentos.
Num ano não muito entusiasmante a nível de espectáculos, este terá sido o que elejo como o melhor dos que vimos em 2011. 

domingo, dezembro 04, 2011

Nina Simone - Ain't Got No...I've Got Life


Nina Simone já desapareceu do mundo dos vivos, mas a sua voz continua a impressionar. Neste caso vemo-la num espectáculo ao vivo três dias depois do assassinato de Martin Luther King...

Documentário: UM ESPIÃO NO CENTRO DA QUÍMICA NAZI de Scott Christianson e Egmont Koch (2011)

É uma das questões, que têm sido postas desde o fim da Segunda Guerra Mundial: será que os EUA tinham conhecimento das câmaras de gás muito antes de investirem seriamente no esforço militar?
A primeira experiência com Zyklon B no campo de concentração de Auschwitz ocorrera em 3 de Setembro de 1941 com os prisioneiros soviéticos do Bloco 11, mas já se recorria a esse ácido prússico nos EUA desde o seu teste numa execução em Carson City em Fevereiro de 1924, em que o condenado levara mais de quinze minutos a morrer. E ele era conhecido nos laranjais da Califórnia enquanto remédio para cura das moléstias desses pomares, desde que a indústria militar o inventara logo após a Primeira Guerra Mundial.
Erwin Respondek toma conhecimento com tal gás letal, quando trabalhava na IG Farben, empresa alemã, que, em 1930, o mandata a negociar com a norte-americana Dupont a forma de ambas monopolizarem o mercado mundial dos produtos químicos. Três anos depois, quando é um dos deputados centristas, que acolhem com assaz desconfiança a ascensão dos nazis ao poder, Respondek logo inicia uma rede de expatriação clandestina de judeus para além-fronteiras.
No outro lado do Atlântico, vive-se na Dupont o entusiasmo pelos sinais transmitidos por Hitler, tanto mais que a empresa iria apoiar os movimentos fascistas norte-americanos nos anos seguintes e apostaria em manter com a IG Farben a estratégia de cartelização monopolista do mercado mundial. Uma das herdeiras da família até casara com um alemão e mudara-se para a Europa, aí se confessando grande admiradora de Hitler.
As execuções com gás letal, que continuam a suceder-se na maioria dos estados norte-americanos recorrem ao ácido prússico produzido por essa mesma Dupont.
Com a consolidação do poder nazi e o início da guerra, Respondek sente um acrescido estímulo para combater o regime. É assim que, tomando conhecimento, da iminência da invasão da Rússia ele faz chegar tal informação ao Kremlin através da embaixada dos EUA, mas Estaline julga tratar-se de uma provocação e não age com a devida cautela.
Esse terá sido o primeiro acto de espionagem da autoria de Respondek.
Em 1942 está concluído o complexo de Auschwitz-Birkenau com as câmaras de gás aonde irão ser assassinados centenas de milhares de judeus aí chegados por via férrea.
Apesar de Respondek garantir que os principais administradores da IG Farben conheciam toda a estratégia de extermínio nazi, eles acabam inocentados no Tribunal de Nuremberga, quando a guerra acaba.
Pior destino tem Respondek que, nessa altura, é completamente abandonado pelos seus contactos norte-americanos, morrendo esquecido e empobrecido em 1971. Ao contrário de Madeleine Ruoff-Dupont, que acaba celebrada como benfeitora na Alemanha e da Dupont, cujas ligações ao poder nazi nunca chegarão a ser investigadas...

sábado, dezembro 03, 2011

Livro: DUAS SOMBRAS DO RIO de João Paulo Borges Coelho

Em 2003, quando «Duas Sombras do Rio» foi publicado, Moçambique já vivia em relativa paz há dez anos. O regime de partido único, de matriz marxista, dera lugar a uma aparente democracia aonde se iram integrando os terroristas da Renamo, responsáveis por tantas mortandades nos anos subsequentes à independência.
O livro de João Paulo Borges Coelho reflecte essas transformações, suficientes para perturbarem os moçambicanos, de alguma forma representado nesse Leónidas Nsato, um perdido de si mesmo, passando a vaguear pelos acontecimentos como se fantasma fosse, sem entendimento para ultrapassar a condição de indiferente espectador.
Mas apresentam-se, igualmente, outros aspectos plurais de uma realidade complexa como o é o da caça furtiva de elefantes e rinocerontes, causadora de uma funesta depredação da riqueza zoológica do país.
A acção localiza-se fora dos grandes centros populacionais, nesses cus de judas situados junto à fronteira com o Zimbabwe por onde os rios correm caudalosos e os terríveis nhacocos (crocodilos) dão cabo dos mais imprevidentes. Sobretudo, quando a estes resta uma de duas possibilidades igualmente temerosas: escaparem dos terroristas, que assassinam e deitam fogo a tudo quanto alcançam, ou darem-se às vicissitudes de um rio para cuja travessia são escassas as almadias.
O romance de Borges Coelho vem demonstrar que a literatura moçambicana está longe de se cingir a Mia Couto.  Sendo aqui muito mais clara a descrição do contexto histórico, mesmo perdendo-se em poesia e invenção da língua. E contando-se com personagens tão interessantes quanto o são Mama Mére, a cantineira congolesa, que já percorreu todo o cone sul africano e se encarrega da venda das presas de marfim, ou esse tenente Zvovo, zimbabweano, que joga com ela um verdadeiro confronto entre gato e rato. Ou ainda a enfermeira Inês, a contragosto conduzida à condição de meretriz do feroz Salamanga até encontrar a oportunidade de dele escapar levando consigo uma coluna de fugitivos ao jugo terrorista.
É claro que se sente aqui a imaturidade inerente a um romance de estreia, mas o domínio da história e da língua, já revela um autor original a ter em conta nos sucessivos títulos, que dele viermos a descobrir.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Chachapoyas - Cloud People of Peru

Documentário: CHACHAPOYAS, OS GUERREIROS DAS NUVENS de José Manuel Novoa

Nas falésias das montanhas peruanas da Província de Chachapoyas persiste um misterioso passado por identificar. Razão para que quinze arqueólogos enveredam por uma expedição a partir de Leymebamba dirigindo-se para as chulpas, ou seja, para os mausoléus escavados nas paredes alcantiladas por quem integrava uma civilização, que funcionou entre os séculos IX e XV para nelas encontrar corpos mumificados enrolados em panos e encerrados em estruturas de madeira.
O percurso para aí chegar é tormentoso, implicando caminhos quase impraticáveis da floresta virgem e por cursos secos de alguns rios. E depois, só mediante técnicas e equipamento de escalada é que se torna possível alcançar o objectivo.
Os chachapoyas acreditavam que a vida no Além dependia da mumificação dos seus mortos . O seu maior receio constituía a destruição dessas chulpas, que equivaliam à condenação definitiva dos mortos à total inexistência. Por isso optaram por essas verdadeiras fortalezas situadas a mais de três mil metros de altitude.. Mas, noutras ruínas circulares encontradas submersas pela vegetação luxuriante, as ossadas sugerem enterros dentro do espaço de habitação e sacrifícios com animais e, mesmo, pessoas.
Para além da evidente semelhança da sua estatuária com a da Ilha de Páscoa, a equipa de cientistas comprovou a aplicação da trepanação em certos doentes e a sua derrota final à custa dos Incas.