Chamou‑se
tabula rasa à tábua de cera alisada onde nada ficara escrito, superfície
pronta para receber a primeira marca, e os romanos usavam a expressão com a
naturalidade de quem sabe que o mundo começa sempre por ser vazio antes de
alguém lhe traçar um risco; Locke retomou a imagem para dizer que a mente nasce
assim, limpa como cera raspada, e que tudo o que nela se inscreve vem da
experiência, ideia que serviu para alimentar a fé no indivíduo isolado, como se
cada vida começasse sem história, sem classe, sem o peso das condições
materiais que moldam o que julgamos escolher; Arvo Pärt ouviu na mesma metáfora
outra coisa, não a folha vazia, mas o silêncio que antecede o som, e compôs Tabula
Rasa como quem tenta devolver ao ouvido a possibilidade de escutar o mundo
sem o ruído que o mundo produz, cada nota a nascer como se fosse a primeira,
cada pausa a lembrar que o vazio também é matéria. Escolho este título porque o
dia, quando começa, parece oferecer essa promessa de superfície limpa, embora
nunca o seja; a história, a memória e a ideologia escrevem‑se antes de qualquer
gesto, e o que aqui se anota não nasce do nada, nasce do que se tenta
compreender apesar de tudo o que já estava inscrito.
A leitura
de uma peça de Filipe Santos Costa, que viveu quatro anos no Japão, devolve‑me
aquela vertente da cultura nipónica em que alunos e professores limpam as
escolas, trabalhadores e dirigentes fazem o mesmo nas empresas e as ruas
dispensam caixotes porque cada um guarda o lixo até o entregar aos veículos
municipais nos dias marcados, prática que sempre me impressionou nas vezes em
que ali estive, tanto nas cidades como nas aldeias, onde a limpeza parecia
regra natural e contrastava com o que via na China ou em Taiwan; também
encontrei jovens a acelerar carros de motores potentes, espécie de contraponto
ruidoso à imagem de disciplina que o país gosta de exibir, talvez eco distante
da sombra yakusa que atravessa a cultura popular e rompe a superfície zen que o
olhar estrangeiro tende a idealizar. Fica a pena de não ter cumprido o desejo
de ver as cerejeiras em flor com a Elza, porque a efemeridade da vida se
sobrepôs à intenção de nos encantarmos com aquelas alamedas brancas e com os
veados que se aproximam para pedir comida à mão, lembrando que a beleza, quando
chega, não espera por ninguém.
Impressiona
a maneira como ela organiza estes projetos, sempre com a mesma convicção de que
a arte não serve para distrair, mas para revelar, e talvez seja por isso que Eden
se impõe como experiência que ultrapassa o concerto e se aproxima de manifesto
discreto, firme no propósito, lembrando que a música, quando quer, também pode
ser instrumento de transformação.

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