domingo, maio 10, 2026

A Superfície e o Som

 

Chamou‑se tabula rasa à tábua de cera alisada onde nada ficara escrito, superfície pronta para receber a primeira marca, e os romanos usavam a expressão com a naturalidade de quem sabe que o mundo começa sempre por ser vazio antes de alguém lhe traçar um risco; Locke retomou a imagem para dizer que a mente nasce assim, limpa como cera raspada, e que tudo o que nela se inscreve vem da experiência, ideia que serviu para alimentar a fé no indivíduo isolado, como se cada vida começasse sem história, sem classe, sem o peso das condições materiais que moldam o que julgamos escolher; Arvo Pärt ouviu na mesma metáfora outra coisa, não a folha vazia, mas o silêncio que antecede o som, e compôs Tabula Rasa como quem tenta devolver ao ouvido a possibilidade de escutar o mundo sem o ruído que o mundo produz, cada nota a nascer como se fosse a primeira, cada pausa a lembrar que o vazio também é matéria. Escolho este título porque o dia, quando começa, parece oferecer essa promessa de superfície limpa, embora nunca o seja; a história, a memória e a ideologia escrevem‑se antes de qualquer gesto, e o que aqui se anota não nasce do nada, nasce do que se tenta compreender apesar de tudo o que já estava inscrito.

 

A leitura de uma peça de Filipe Santos Costa, que viveu quatro anos no Japão, devolve‑me aquela vertente da cultura nipónica em que alunos e professores limpam as escolas, trabalhadores e dirigentes fazem o mesmo nas empresas e as ruas dispensam caixotes porque cada um guarda o lixo até o entregar aos veículos municipais nos dias marcados, prática que sempre me impressionou nas vezes em que ali estive, tanto nas cidades como nas aldeias, onde a limpeza parecia regra natural e contrastava com o que via na China ou em Taiwan; também encontrei jovens a acelerar carros de motores potentes, espécie de contraponto ruidoso à imagem de disciplina que o país gosta de exibir, talvez eco distante da sombra yakusa que atravessa a cultura popular e rompe a superfície zen que o olhar estrangeiro tende a idealizar. Fica a pena de não ter cumprido o desejo de ver as cerejeiras em flor com a Elza, porque a efemeridade da vida se sobrepôs à intenção de nos encantarmos com aquelas alamedas brancas e com os veados que se aproximam para pedir comida à mão, lembrando que a beleza, quando chega, não espera por ninguém.

 

O concerto Eden, cantado por Joyce DiDonato num festival em Turku, confirma a impressão de que ela não se limita a exibir a voz extraordinária que possui e prefere construir projetos em torno de temas que exigem atenção, como se a música pudesse convocar consciência onde o discurso político falha, e neste caso o que está em causa é a fragilidade do planeta e a urgência de repensar a forma como vivemos nele; acompanhada pelo ensemble Il Pomo d’Oro, DiDonato transforma cada peça num gesto que liga passado e presente, como se a música antiga pudesse iluminar a catástrofe contemporânea e mostrar que a beleza não é refúgio, é forma de resistência, e o resultado é percurso que começa na contemplação e termina na inquietação, porque o que se ouve não é apenas canto, é aviso.

Impressiona a maneira como ela organiza estes projetos, sempre com a mesma convicção de que a arte não serve para distrair, mas para revelar, e talvez seja por isso que Eden se impõe como experiência que ultrapassa o concerto e se aproxima de manifesto discreto, firme no propósito, lembrando que a música, quando quer, também pode ser instrumento de transformação.

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