terça-feira, maio 12, 2026

Uma Viagem pelo Cinema Francês (I) Becker, ou a Decência como Estilo de Bertrand Tavernier , 2016

 

Há documentários sobre cinema que são história e há os que são memória, e esta Viagem pelo Cinema Francês que Tavernier filmou em 2016, e que a Filmin está prestes a retirar do catálogo, pertence inequivocamente à segunda categoria, o que a torna mais valiosa e não menos, porque a história pode ser consultada em qualquer enciclopédia, mas a memória é de quem a tem e morre com ela.

Tavernier começa pelo princípio, que no seu caso é um sanatório em Saint-Gervais onde foi parar em criança, a tratar uma tuberculose contraída nos anos do pós-Ocupação, e onde viu pela primeira vez um filme que ficaria anos sem conseguir identificar — uma cena de perseguição noturna de automóvel que lhe perturbou o sono e lhe instalou para sempre a suspeita de que as imagens em movimento podiam fazer às emoções coisas que mais nada fazia. O filme era Dernier Atout, de Jacques Becker, rodado em 1942, e era um título menor de Becker, como o próprio Tavernier admite com a honestidade que é a marca desta viagem, mas tinha dentro de si a semente de tudo o que viria a seguir.

O que viria a seguir foi Casque d'Or, em 1952, visto num cinema da Rue Champollion onde Tavernier fazia gazeta, e que o deixou estarrecido pela consistência com que Becker construía um clima trágico que habitualmente destilava com mais contenção — aqui a tragédia chegava de frente, sem aviso, e não interferia com a emoção mas antes a amplificava, o que é a definição mais
precisa que conheço do que um grande filme deve fazer.

O que Tavernier foi percebendo ao longo dos anos, e este documentário demonstra com paciência e rigor, é Becker ter sido o realizador francês que melhor compreendeu e assimilou o cinema norte-americano da sua época, não por imitação mas por destilação — os seus filmes eram depurados, as intrigas simples até à elegância, fragmentadas em detalhes minuciosos que valiam mais do que qualquer peripécia, e havia neles o que Tavernier designa como um culto da decência comum, uma atenção às pessoas que não precisava de as heroicizar para as tornar dignas de atenção. As personagens femininas tinham consistência suficiente para nada terem de estereótipos, sem que o filme precisasse de se proclamar feminista para o ser na prática, o que é sempre o melhor modo de o ser. E havia o trabalho — os personagens de Becker dialogavam enquanto faziam coisas, enquanto executavam as tarefas do quotidiano, e era nesse cruzamento entre a palavra e o gesto que a vida aparecia, não nos grandes momentos mas nos pequenos, que são os que ficam.

Becker morreu aos 52 anos, e Tavernier não esconde o que essa morte precoce representa: um percurso interrompido no momento em que provavelmente o melhor ainda estava por vir. É uma perda que o documentário carrega como uma das suas melancólicas linhas de fundo — a de que o cinema francês foi também feito de ausências e de obras que não chegaram a existir. 

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