Há
documentários sobre cinema que são história e há os que são memória, e esta Viagem
pelo Cinema Francês que Tavernier filmou em 2016, e que a Filmin está
prestes a retirar do catálogo, pertence inequivocamente à segunda categoria, o
que a torna mais valiosa e não menos, porque a história pode ser consultada em
qualquer enciclopédia, mas a memória é de quem a tem e morre com ela.
Tavernier
começa pelo princípio, que no seu caso é um sanatório em Saint-Gervais onde foi
parar em criança, a tratar uma tuberculose contraída nos anos do pós-Ocupação,
e onde viu pela primeira vez um filme que ficaria anos sem conseguir
identificar — uma cena de perseguição noturna de automóvel que lhe perturbou o
sono e lhe instalou para sempre a suspeita de que as imagens em movimento
podiam fazer às emoções coisas que mais nada fazia. O filme era Dernier
Atout, de Jacques Becker, rodado em 1942, e era um título menor de Becker,
como o próprio Tavernier admite com a honestidade que é a marca desta viagem,
mas tinha dentro de si a semente de tudo o que viria a seguir.
O que Tavernier foi percebendo ao longo dos
anos, e este documentário demonstra com paciência e rigor, é Becker ter sido o
realizador francês que melhor compreendeu e assimilou o cinema norte-americano
da sua época, não por imitação mas por destilação — os seus filmes eram
depurados, as intrigas simples até à elegância, fragmentadas em detalhes
minuciosos que valiam mais do que qualquer peripécia, e havia neles o que
Tavernier designa como um culto da decência comum, uma atenção às pessoas que
não precisava de as heroicizar para as tornar dignas de atenção. As personagens
femininas tinham consistência suficiente para nada terem de estereótipos, sem
que o filme precisasse de se proclamar feminista para o ser na prática, o que é
sempre o melhor modo de o ser. E havia o trabalho — os personagens de Becker
dialogavam enquanto faziam coisas, enquanto executavam as tarefas do quotidiano,
e era nesse cruzamento entre a palavra e o gesto que a vida aparecia, não nos
grandes momentos mas nos pequenos, que são os que ficam.
Becker
morreu aos 52 anos, e Tavernier não esconde o que essa morte precoce
representa: um percurso interrompido no momento em que provavelmente o melhor
ainda estava por vir. É uma perda que o documentário carrega como uma das suas
melancólicas linhas de fundo — a de que o cinema francês foi também feito de
ausências e de obras que não chegaram a existir.

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