domingo, maio 10, 2026

Underground: Era uma vez um país de Emir Kusturica, 1995

 

Há filmes que se veem com os olhos e há filmes que se veem com a vida, e o Underground de Kusturica é destes últimos, pelo menos para quem tem em casa, por via de um genro esloveno, uma ligação afetiva e política ao que foi a Jugoslávia e ao modo como ela implodiu, deixando pelo caminho não apenas estados novos e fronteiras redesenhadas, mas também a questão que nenhum mapa responde: o que se faz com a história de um país que existiu e deixou de existir sem ninguém ter pedido licença aos que nele viviam.

O filme começa com as trombetas, esse instrumento que Kusturica usa como se fosse uma declaração de princípios, tonitruante e sem remorsos, uma correria que não para, cansa e esgota, e da qual se sai da sala exausto como de uma festa que durou demasiado e onde a alegria foi sendo, ao longo da noite, substituída por qualquer coisa mais escura que a alegria, embora com a mesma cara. É um artifício consciente, esse ruído permanente, essa energia que não descansa, e serve para esconder — ou para revelar, conforme a generosidade do espectador — que por baixo da festa há uma cave, e que na cave há gente que ficou para trás.

A cave é a metáfora central do filme, e é também onde Kusturica é mais honesto: Marko convence Blacky e os outros de que a guerra ainda não acabou, de que lá fora o fascismo continua, e eles ficam décadas a fabricar armas para uma libertação que já aconteceu sem eles, numa repetição do esquema que o Goodbye Lenin tratou com ternura e aqui é tratado com sarcasmo, embora o resultado seja o mesmo, o de pessoas que aterram sem pré-aviso numa realidade que não reconhecem e para a qual não têm ferramentas, porque as que tinham foram fabricadas para um mundo entretanto desaparecido. A amnésia de um, a mentira do outro, e em ambos os casos a mesma pergunta sem resposta: o que se faz com 
quem ficou à margem dos acontecimentos e de repente tem de viver dentro deles.

O antifascismo está lá, genuíno nas suas origens, heroico em alguns, cobarde e corrupto noutros, como acontece sempre que uma causa justa é apropriada por quem dela faz uso pessoal, e Kusturica não poupa ninguém, o que é um mérito, embora não seja suficiente, porque o culto de Tito que o filme glosa com uma afetividade que o narrador desta crónica entende sem partilhar, é também o culto de uma forma falhada de implementar o comunismo, e o filme não analisa esse fracasso, não lhe dá perspetiva, não pergunta por que razão uma experiência que começou com a resistência ao nazismo terminou na fragmentação étnica e no regresso de fantasmas que se julgavam mortos. O anarquismo de Kusturica é genuíno mas é cego, e a cegueira é um luxo que a história não costuma perdoar.

Fica o filme, longo e barulhento e belo e irritante, como só os filmes verdadeiramente ambiciosos conseguem ser, e fica também a pergunta do narrador, que o viu com os olhos de quem sabe que a implosão da Jugoslávia não foi apenas um acontecimento histórico, mas também uma ferida pessoal para muitos que continuam a não saber muito bem o que fazer com ela.

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