Há filmes
que se veem com os olhos e há filmes que se veem com a vida, e o Underground
de Kusturica é destes últimos, pelo menos para quem tem em casa, por via de um
genro esloveno, uma ligação afetiva e política ao que foi a Jugoslávia e ao
modo como ela implodiu, deixando pelo caminho não apenas estados novos e
fronteiras redesenhadas, mas também a questão que nenhum mapa responde: o que
se faz com a história de um país que existiu e deixou de existir sem ninguém ter
pedido licença aos que nele viviam.
O filme
começa com as trombetas, esse instrumento que Kusturica usa como se fosse uma
declaração de princípios, tonitruante e sem remorsos, uma correria que não
para, cansa e esgota, e da qual se sai da sala exausto como de uma festa que
durou demasiado e onde a alegria foi sendo, ao longo da noite, substituída por
qualquer coisa mais escura que a alegria, embora com a mesma cara. É um
artifício consciente, esse ruído permanente, essa energia que não descansa, e
serve para esconder — ou para revelar, conforme a generosidade do espectador —
que por baixo da festa há uma cave, e que na cave há gente que ficou para trás.
O
antifascismo está lá, genuíno nas suas origens, heroico em alguns, cobarde e
corrupto noutros, como acontece sempre que uma causa justa é apropriada por
quem dela faz uso pessoal, e Kusturica não poupa ninguém, o que é um mérito,
embora não seja suficiente, porque o culto de Tito que o filme glosa com uma
afetividade que o narrador desta crónica entende sem partilhar, é também o
culto de uma forma falhada de implementar o comunismo, e o filme não analisa
esse fracasso, não lhe dá perspetiva, não pergunta por que razão uma
experiência que começou com a resistência ao nazismo terminou na fragmentação
étnica e no regresso de fantasmas que se julgavam mortos. O anarquismo de
Kusturica é genuíno mas é cego, e a cegueira é um luxo que a história não
costuma perdoar.
Fica o
filme, longo e barulhento e belo e irritante, como só os filmes verdadeiramente
ambiciosos conseguem ser, e fica também a pergunta do narrador, que o viu com
os olhos de quem sabe que a implosão da Jugoslávia não foi apenas um
acontecimento histórico, mas também uma ferida pessoal para muitos que
continuam a não saber muito bem o que fazer com ela.

Sem comentários:
Enviar um comentário