A
fotografia de Irving Penn no Peru, tal como a minha memória de Lima em 1989,
abre a porta para esse território onde a arqueologia ainda respirava aventura e
onde o olhar europeu procurava, mais do que ruínas, uma confirmação de que o
mundo permanecia maior do que os mapas.
Essa
mesma nostalgia, essa vontade de acreditar que o mundo guardava bolsas de tempo
intacto, ofereceu a Arthur Conan Doyle o cenário ideal para imaginar O Mundo
Perdido, publicado em 1912, quando a revelação de Machu Picchu ainda ecoava
nos jornais e a figura de Fawcett já se tornara sinónimo de selva indomável. A
Amazónia, com mapas incompletos e rumores de cidades desaparecidas,
permitia-lhe suspender a lógica vitoriana e conceber um planalto isolado onde
criaturas pré‑históricas sobreviviam como se a Terra tivesse decidido conservar
um fragmento de si própria para desafiar a arrogância humana.
Esse
imaginário atravessou o século e reapareceu, reinventado, nos livros juvenis de
Isabel Allende, onde a selva volta a ser território de iniciação e revelação.
Em A Cidade das Feras, por exemplo, a Amazónia é novamente o espaço onde
a racionalidade ocidental se desfaz e onde o adolescente protagonista descobre
que o mundo é maior do que aquilo que lhe ensinaram, herdeiro direto dessa
linhagem que começa com Bingham e Fawcett, passa por Conan Doyle e chega ao
leitor contemporâneo.
O fio que
une estas histórias não é apenas o da exploração geográfica, mas o da
persistência de um desejo europeu — o de acreditar que, algures, existe ainda
um território onde o mito não é superstição, mas forma de conhecimento. Um
lugar onde a aventura não é fuga, mas reencontro com aquilo que a modernidade
tentou esquecer: a possibilidade de que o impossível seja apenas aquilo que
ainda não foi descoberto.

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