quinta-feira, maio 14, 2026

O Mundo Antes do Mundo

 

A fotografia de Irving Penn no Peru, tal como a minha memória de Lima em 1989, abre a porta para esse território onde a arqueologia ainda respirava aventura e onde o olhar europeu procurava, mais do que ruínas, uma confirmação de que o mundo permanecia maior do que os mapas.

É nesse mesmo espírito que se inscreve a corrida a Machu Picchu entre Hiram Bingham e Percy Fawcett, dois homens movidos por impulsos distintos, mas unidos pela convicção de que o século XX ainda podia oferecer um último El Dorado. Bingham, académico de Yale com ambições de explorador, encontrou em 1911 a cidade inca que devolveria ao continente sul‑americano um esplendor pré‑colombiano que a Europa nunca compreendera totalmente. Fawcett, militar obstinado, perseguia a sua cidade Z com uma fé quase religiosa, convencido de que ali se escondia a prova de uma civilização tão avançada quanto qualquer cultura clássica. Ambos encarnavam a nostalgia de um planeta onde o desconhecido ainda era possível, onde a modernidade não tinha apagado por completo a sensação de maravilha.

Essa mesma nostalgia, essa vontade de acreditar que o mundo guardava bolsas de tempo intacto, ofereceu a Arthur Conan Doyle o cenário ideal para imaginar O Mundo Perdido, publicado em 1912, quando a revelação de Machu Picchu ainda ecoava nos jornais e a figura de Fawcett já se tornara sinónimo de selva indomável. A Amazónia, com mapas incompletos e rumores de cidades desaparecidas, permitia-lhe suspender a lógica vitoriana e conceber um planalto isolado onde criaturas pré‑históricas sobreviviam como se a Terra tivesse decidido conservar um fragmento de si própria para desafiar a arrogância humana.

Esse imaginário atravessou o século e reapareceu, reinventado, nos livros juvenis de Isabel Allende, onde a selva volta a ser território de iniciação e revelação. Em A Cidade das Feras, por exemplo, a Amazónia é novamente o espaço onde a racionalidade ocidental se desfaz e onde o adolescente protagonista descobre que o mundo é maior do que aquilo que lhe ensinaram, herdeiro direto dessa linhagem que começa com Bingham e Fawcett, passa por Conan Doyle e chega ao leitor contemporâneo.

O fio que une estas histórias não é apenas o da exploração geográfica, mas o da persistência de um desejo europeu — o de acreditar que, algures, existe ainda um território onde o mito não é superstição, mas forma de conhecimento. Um lugar onde a aventura não é fuga, mas reencontro com aquilo que a modernidade tentou esquecer: a possibilidade de que o impossível seja apenas aquilo que ainda não foi descoberto.

Sem comentários: