Apelidado
de música dos negros pelos nazis e obviamente proibido, o jazz acabou
por ser utilizado pelo próprio regime durante a guerra para fins de propaganda,
operação que revela bem a elasticidade moral com que Goebbels tratava a cultura
quando esta podia servir os seus objetivos.
Bastou
pegar em êxitos do swing norte‑americano, manter os arranjos, alterar as letras
e adaptá‑las ao tom venenoso das mensagens que pretendia transmitir aos que, no
lado aliado, escutavam as emissões de rádio alemãs. A orquestra de Karl
Schwedler, Charlie and His Orchestra, tornou‑se instrumento dessa
estratégia, funcionando como cavalo de Troia emocional que entrava pelo ouvido
antes de a razão se aperceber do que estava a ser dito.
Há algo
de profundamente perturbador nesta apropriação, porque mostra como até uma arte
nascida da experiência afro‑americana, marcada pela improvisação e pela
liberdade, pôde ser instrumentalizada por um regime que a desprezava, lembrando
que a cultura, quando manipulada, pode ser usada contra a sua própria origem.
A
história do século XX está cheia de momentos em que a estética foi convocada
para fins que a contrariam, razão pela qual o exercício de vigiar o uso da arte
continua a ser indispensável sempre que o poder tenta moldar o que ouvimos.

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