A
primeira ida à Feira do Livro, no fim dos anos sessenta, permanece como uma
dessas memórias inaugurais que não se apagam. Diante dos pavilhões alinhados na
Avenida da Liberdade senti‑me com o deslumbre do Charlie na fábrica de
chocolates, cada banca como porta para mundos que ainda não conhecia e me
chamavam com a força irresistível das promessas que só os livros conseguem
fazer.
Adorava
histórias de aventuras, sobretudo de ficção científica, e as naves Apollo
aproximavam‑se da tentativa de pousar na Lua, o que tornava cada capa ilustrada
com planetas, foguetões ou criaturas improváveis numa extensão natural do que
via na televisão.
Teria
comprado uma montanha de livros não fosse exíguo o orçamento, limite a escolher
com cuidado entre tantas lombadas que me faziam salivar pelo que conteriam.
Ler já
era prazer, mas ali tornou‑se destino, gesto que ainda reconheço como uma das
maneiras mais seguras de alargar o horizonte quando tudo à volta parece pequeno
demais.

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