O
encontro de Yehudi Menuhin e Herbert von Karajan em 1966, para interpretar o
Concerto n.º 5 para violino de Mozart com a Orquestra Filarmónica de Viena, permanece
um daqueles momentos em que a música parece suspender o peso da história,
embora ela nunca deixe realmente de pesar, porque de um lado estava o
violinista judeu que durante a Segunda Guerra Mundial se empenhou em denunciar
o regime responsável pelo Holocausto e em levar música a quem sofria, e do
outro o maestro que pedira por três vezes a adesão ao partido nazi antes de ser
aceite, gesto que continuaria a marcar a sua biografia mesmo depois de se
tornar símbolo da excelência musical europeia.
A escolha
da Filarmónica de Viena acrescenta outra camada de desconforto, porque a
própria orquestra só muito tardiamente reconheceu o envolvimento com o nazismo,
e essa memória silenciosa infiltra‑se inevitavelmente na leitura do concerto,
mesmo quando a interpretação é irrepreensível, Menuhin a entrar no Adágio
com a serenidade que parecia nascer de dentro do instrumento e Karajan a moldar
a orquestra com precisão quase escultórica.
Mas, ao
rever a gravação disponível no YouTube, não consigo evitar a sensação de aquele
encontro ter sido uma forma de branqueamento do passado comprometedor do
maestro, operação subtil que a música facilita porque oferece beleza onde antes
houve violência e permite que o gesto artístico se sobreponha ao que
preferiríamos não ver, lembrando que o exercício de interrogar o passado
continua a ser indispensável mesmo quando a música parece pedir silêncio.
Curiosa a
afirmação de Vasco Câmara no podcast do Público, quando, em conversa com
Alexandra Prado Coelho sobre cinema, diz que os filmes lhe ficam melhor na
memória se sobre eles escrever, como se a escrita funcionasse como gesto de
fixação, âncora que impede a imagem de se dissolver na neblina difusa onde acabam
por cair os filmes que não passam pelo crivo da reflexão.
Ao ouvi‑lo
lembrei‑me de Gabriel García Márquez, que intitulou as suas memórias Viver
para contar, como se a vida só ganhasse forma quando transformada em
narrativa, enquanto o crítico parece escrever não para viver, mas para
consolidar o que viu, gesto que transforma cada filme numa espécie de caderno
íntimo onde a memória se organiza, lembrando que a experiência, deixada a si
própria, é sempre demasiado frágil e permeável ao esquecimento, e que a escrita
surge como tentativa de contrariar essa erosão, operação que não é muito
diferente da que fazemos quando tentamos guardar o que importa antes que o tempo
o leve.
Não direi
o título do romance, recente e de autor nacional nada afeito à literatura
light, mas que abandonei quando ainda só chegara a um terço das suas duzentas e
quarenta páginas.
A razão
para a desistência, apesar do respeito que me merece o esforço de quem escreve
por gosto e não por objetivo meramente comercial, foi a inépcia da narrativa,
mesmo tendo um contexto potencialmente interessante, porque as viagens do
protagonista pela província do Portugal marcelista permitiam atestar o
subdesenvolvimento reinante, quer nas infraestruturas, quer no nível de
educação das populações, e as assombrações de um avô assumidamente germanófilo
durante o nazismo poderiam ter oferecido matéria literária densa.
O romance
está, porém, contaminado pela experiência jornalística do autor, nunca conseguindo
libertar‑se dessa matriz para alcançar o patamar literário que o tema pedia,
como se a reportagem tivesse ocupado o lugar da imaginação e impedido a
narrativa de respirar, gesto que lamentei porque o autor até me merece simpatia
por outros livros em que essa condição jornalística era justificada.
Fiquei
com a impressão de que a literatura, quando não rompe com o hábito de explicar,
perde a capacidade de sugerir, e que certas histórias exigem desprendimento que
só se alcança quando se abandona o impulso de informar para tentar inventar o
real, operação que aqui nunca chegou a acontecer.

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