segunda-feira, maio 25, 2026

A Arte, a Memória e o Limite

 


O encontro de Yehudi Menuhin e Herbert von Karajan em 1966, para interpretar o Concerto n.º 5 para violino de Mozart com a Orquestra Filarmónica de Viena, permanece um daqueles momentos em que a música parece suspender o peso da história, embora ela nunca deixe realmente de pesar, porque de um lado estava o violinista judeu que durante a Segunda Guerra Mundial se empenhou em denunciar o regime responsável pelo Holocausto e em levar música a quem sofria, e do outro o maestro que pedira por três vezes a adesão ao partido nazi antes de ser aceite, gesto que continuaria a marcar a sua biografia mesmo depois de se tornar símbolo da excelência musical europeia.

A escolha da Filarmónica de Viena acrescenta outra camada de desconforto, porque a própria orquestra só muito tardiamente reconheceu o envolvimento com o nazismo, e essa memória silenciosa infiltra‑se inevitavelmente na leitura do concerto, mesmo quando a interpretação é irrepreensível, Menuhin a entrar no Adágio com a serenidade que parecia nascer de dentro do instrumento e Karajan a moldar a orquestra com precisão quase escultórica.

Mas, ao rever a gravação disponível no YouTube, não consigo evitar a sensação de aquele encontro ter sido uma forma de branqueamento do passado comprometedor do maestro, operação subtil que a música facilita porque oferece beleza onde antes houve violência e permite que o gesto artístico se sobreponha ao que preferiríamos não ver, lembrando que o exercício de interrogar o passado continua a ser indispensável mesmo quando a música parece pedir silêncio.

 

Curiosa a afirmação de Vasco Câmara no podcast do Público, quando, em conversa com Alexandra Prado Coelho sobre cinema, diz que os filmes lhe ficam melhor na memória se sobre eles escrever, como se a escrita funcionasse como gesto de fixação, âncora que impede a imagem de se dissolver na neblina difusa onde acabam por cair os filmes que não passam pelo crivo da reflexão.

Ao ouvi‑lo lembrei‑me de Gabriel García Márquez, que intitulou as suas memórias Viver para contar, como se a vida só ganhasse forma quando transformada em narrativa, enquanto o crítico parece escrever não para viver, mas para consolidar o que viu, gesto que transforma cada filme numa espécie de caderno íntimo onde a memória se organiza, lembrando que a experiência, deixada a si própria, é sempre demasiado frágil e permeável ao esquecimento, e que a escrita surge como tentativa de contrariar essa erosão, operação que não é muito diferente da que fazemos quando tentamos guardar o que importa antes que o tempo o leve.

 

Não direi o título do romance, recente e de autor nacional nada afeito à literatura light, mas que abandonei quando ainda só chegara a um terço das suas duzentas e quarenta páginas.

A razão para a desistência, apesar do respeito que me merece o esforço de quem escreve por gosto e não por objetivo meramente comercial, foi a inépcia da narrativa, mesmo tendo um contexto potencialmente interessante, porque as viagens do protagonista pela província do Portugal marcelista permitiam atestar o subdesenvolvimento reinante, quer nas infraestruturas, quer no nível de educação das populações, e as assombrações de um avô assumidamente germanófilo durante o nazismo poderiam ter oferecido matéria literária densa.

O romance está, porém, contaminado pela experiência jornalística do autor, nunca conseguindo libertar‑se dessa matriz para alcançar o patamar literário que o tema pedia, como se a reportagem tivesse ocupado o lugar da imaginação e impedido a narrativa de respirar, gesto que lamentei porque o autor até me merece simpatia por outros livros em que essa condição jornalística era justificada.

Fiquei com a impressão de que a literatura, quando não rompe com o hábito de explicar, perde a capacidade de sugerir, e que certas histórias exigem desprendimento que só se alcança quando se abandona o impulso de informar para tentar inventar o real, operação que aqui nunca chegou a acontecer.

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