A fotografia de
Irving Penn, feita na praça San Martín em Lima, lembra como a sua ida ao Peru
em 1948 nasceu quase por acaso, viagem pensada como extensão do trabalho para a
Vogue e que acabou por transformar tudo o que imaginava ser o seu caminho,
porque ao chegar encontrou um mundo que não cabia nos códigos da moda e
percebeu que a câmara podia servir outra verdade, mais próxima da vida do que
da pose, e instalou ali um estúdio improvisado onde fotografou quem passava,
desde camponeses a vendedores ambulantes, até turistas como esta americana com
o seu acompanhante, figuras que isolava num fundo neutro para lhes devolver
dignidade e presença, gesto simples que contrariava o exotismo fácil com que o
olhar europeu costuma tratar o outro, e ao rever esta imagem reconheço a mesma
praça onde caminhei em 1989 e percebo como certos lugares guardam camadas de
tempo que só se revelam quando alguém os fixa com a atenção que Penn soube ter,
lição que continua a iluminar a forma como tentamos pensar a imagem.
O
concerto que Lang Lang deu no Carnegie Hall em novembro de 2003, primeira vez
que ali atuou a solo, permanece como momento em que um jovem pianista deixou de
ser promessa para se tornar fenómeno, e basta recordar o programa dessa noite
para perceber porquê, porque começou com Schumann, Arabeske e Kreisleriana,
obras que exigem capacidade de alternar introspeção e ímpeto, e Lang Lang tocou‑as
como quem percorre território emocional que se abre e fecha sem aviso, cada
secção a surgir com clareza que não anulava a tensão interna da música; depois
veio Liszt, com a Sonata em Si menor, peça que muitos tratam como
demonstração de força, mas que ele abordou como narrativa contínua, gesto que
uniu virtuosismo e lirismo sem cair no efeito fácil, e a segunda parte trouxe La
Campanella e Granados, momentos em que a técnica fulgurante se
tornou meio e não fim, como se soubesse que o brilho só tem sentido quando
serve a música, consciência rara em intérprete tão jovem e que explica o
impacto do concerto e o caminho que se abriu depois, gesto que continua a
suscitar debate sobre o que significa democratizar a arte num mundo onde o
acesso permanece desigual.
Mais do que merecida a
relevância dada pelo documentário Deux mois et une éternité de Anne Richard à figura de Johanna, cunhada
de Vincent van Gogh, porque foi ela quem carregou a promessa feita ao marido,
Théo, no leito de morte, compromisso simples e absoluto: dar a conhecer ao
mundo a obra do pintor que em vida quase ninguém quis ver, e a determinação com
que o fez continua a surpreender num tempo em que as opiniões sobre arte eram
ditadas por círculos fechados que a excluíram desde o início; enfrentou portas
que se fechavam, preconceitos que se repetiam, desconfiança de quem decidia o
valor dos quadros, e ainda assim persistiu, organizou exposições, publicou
cartas, negociou com marchands que a tratavam
com condescendência, e nunca cedeu à tentação de desistir, porque sabia que a
obra de Vincent precisava de alguém que a defendesse quando ele já não podia
fazê‑lo, e é essa capacidade de vencer resistências, de insistir contra ventos
e marés, que a torna tão merecedora de ser conhecida, lembrando que muitas
vezes a história da arte depende menos do génio e mais de quem decide preservar
a memória quando o mundo prefere esquecê‑la.
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