1. Um documentário sobre a queda dos reis maias oferece um exemplo eloquente de como as alterações climáticas podem destruir uma civilização precisamente quando ela parece ter alcançado o auge do seu esplendor, tornando inevitável um paralelo perturbador com o que se passa no nosso presente. O belicismo crescente daqueles responsáveis políticos, cada vez mais envolvidos em batalhas que apenas iludiam o prolongamento das secas e a insuficiência das colheitas, revela um mecanismo de fuga que se repete ao longo da história: quando a realidade se torna demasiado evidente, procura‑se desviá‑la através do conflito.
A aposta em crenças absurdas
— religiões baseadas em sacrifícios humanos que prometiam apaziguar forças que
não o podiam ser — funcionava como cortina de fumo para o que deveria ter sido
óbvio: uma sucessão de más decisões perante uma crise que exigia outro tipo de
estratégia.
A
civilização maia não caiu de um dia para o outro; foi-se desfazendo lentamente,
incapaz de reconhecer que a natureza deixara de responder aos rituais e que a
política, em vez de enfrentar o problema, se limitara a amplificá-lo.
2. Erro
de julgamento, embora noutra dimensão e âmbito, foi o da atriz Jani Zhao ao
preparar a personagem Rosa, protagonista do filme Projeto Global de Ivo
Ferreira. Partira do princípio de que a opção pela luta armada nascera, para
mulheres como aquela que interpretava, do desejo de garantir um futuro melhor
aos filhos, como se a maternidade fosse o eixo inevitável de qualquer decisão
extrema. Ao falar com algumas das mulheres envolvidas nas ações das FP‑25, teve
a surpresa de ouvir que nem sequer tinham pensado nisso; o que as movera fora
antes a urgência de responder às próprias expectativas, a necessidade de
afirmação pessoal num tempo em que a política parecia oferecer um caminho para
essa construção de identidade.
A atriz
concluiu então que um preconceito moral da sua parte a conduzira a uma leitura
errada do que estava em causa, lembrando que a interpretação, tal como a
História, se torna falível quando parte de pressupostos que parecem evidentes,
mas não resistem ao confronto com a experiência real.
3. Às
vezes a História avança dois passos à frente e o recuo de um para trás revela‑se
trágico, doloroso de uma forma que só se percebe plenamente quando se o
analisa.
Senti
isso ao ver a entrevista que Salvador Allende concedeu a Roberto Rossellini
durante a sua presidência, expondo com enorme clarividência o que teria de ser
feito para que a experiência socialista chilena pudesse prosperar dentro das
regras de uma realidade cujos fundamentos — a imprensa concentrada nas mãos dos
mesmos de sempre, a produção de cobre espoliada por interesses multinacionais —
já preparavam a defenestração de um processo que procurava demonstrar a
possibilidade de chegar ao socialismo pela força da razão num contexto em que
os seus opositores apostavam na razão da força.
A frase
de Mao, lembrando que a revolução não é um convite para jantar, ecoa
inevitavelmente ao rever aquelas imagens, não como palavra de ordem, mas como
constatação amarga de que o governo da Unidade Popular acabaria por servir de
prova de que a História raramente concede vitórias à serenidade quando os que a
contestam se organizam para a destruir.
4. Que a
indústria da guerra está pujante, tecnologicamente cada vez mais avançada e
capaz de prometer cenários progressivamente mais distópicos de morte e
destruição, confirma‑o um documentário recente da televisão francesa, que
acrescenta a essa realidade uma camada de glamour e nenhuma gota de
inquietação.
Enquanto
se acumulam genocídios e conflitos marcados por desigualdades gritantes entre
agressores e agredidos, torna‑se inevitável regressar ao imperativo da paz e à
necessidade de encarar a população terrestre como um todo unido pelo mesmo
interesse em sobreviver aos perigos de um planeta cuja sustentabilidade se
encontra ameaçada.
Em vez de
aprofundar divisões como as que os nacionalismos espúrios alimentam, faria mais
sentido reconhecer que a sobrevivência comum depende menos da competição e mais
da capacidade de imaginar formas de convivência que não passem pela lógica da
força.
5. Continuo
sem compreender verdadeiramente o que levou o ateu Javier Cercas a aceitar o
convite do papa Francisco para o acompanhar na viagem à Mongólia; parece‑me uma
jornada absurda por parte de um escritor que tantas vezes me deu excelentes
momentos de leitura e deveria saber de antemão a resposta para a pergunta que
pretendia dirigir ao seu companheiro de viagem: se fazia sentido a previsão da
mãe, católica fervorosa, de que voltaria a encontrar o marido defunto quando
morresse.
Eu
próprio gostaria de reencontrar a Elza num suposto Além, quando a matéria de
que sou feito se transformar em cinzas na cremação, mas nunca me passaria pela
cabeça antever essa possibilidade senão como mirífico pensamento mágico, uma
dessas construções de consolo que a razão reconhece como ilusória mesmo quando
o coração gostaria de a tomar por verdadeira.
Talvez
seja esse o ponto cego de Cercas: a tentação de procurar no exterior uma
confirmação para uma dúvida que só existe porque ele próprio a alimenta, como
se a literatura não lhe tivesse já ensinado que há perguntas cuja resposta não
pertence ao domínio do verificável, mas ao da imaginação que cada um tolera em
si.

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