quarta-feira, maio 20, 2026

Ilhas, Trincheiras e Lendas

 


A entrevista de Luís Caetano a Abdulrazak Gurnah trouxe‑me de volta as recordações da passagem por Zanzibar no início dos anos 90, quando a ilha ainda estava distante do boom turístico que a transformou, e lembro como as ruas, em grande parte sem alcatrão, se estendiam entre casas de pedra coralina onde o tempo parecia mover‑se devagar, sem passeios definidos e com atividade económica reduzida ao pequeno comércio que sobrevivia entre portas abertas para a rua; estavam lá os edifícios de arquitetura árabe que distinguiam Stone Town das cidades que ia conhecendo na costa oriental do continente, até mesmo em Mombaça, onde a presença católica diluíra a marca deixada durante séculos pelo comércio marítimo vindo dos portos do mar Vermelho e do Golfo Pérsico, herança que em Zanzibar permanecia visível nas portas talhadas, nos pátios interiores, nos minaretes que se insinuavam entre telhados gastos, e no porto cruzavam‑se os dhows de madeira, propulsionados à vela, que durante anos asseguraram o essencial das trocas comerciais na região, como se o Índico ainda guardasse a memória de rotas antigas que o turismo viria a apagar; ao ouvir Gurnah falar de Gente da Casa, tive a impressão de que pouco resta hoje do que ali conheci há trinta e cinco anos, lembrando que a memória de um lugar raramente coincide com o que o lugar se torna e que o exercício de reconhecer o passado exige sempre distância e atenção.


No podcast de Ana Sá Lopes no Público, Ana Bárbara Pedrosa refletiu sobre as esquerdas enquanto trincheira política onde ainda se reconhece, embora a militância ativa no Bloco de Esquerda pertença ao passado, e apesar de concordar no essencial com o que diz, sobretudo quanto à crise de identidade que atravessa essa trincheira, saí da conversa com a mesma sensação que Nanni Moretti descreveu ao ouvir D’Alema na televisão, não tanto porque não se diga nada de esquerda, mas porque falta aquilo que nesta altura procuro: respostas eficazes para enfrentar e derrotar as direitas algorítmicas, que constroem o seu poder a partir de mentiras, manipulações e da fabricação primária de inimigos transformados em ódios de estimação por quem vive frustrado com o que é e com as aspirações intangíveis que alimentam a inveja; a análise é lúcida, mas fica aquém do que o momento exige, porque diagnosticar já não basta quando o adversário opera com ferramentas que moldam perceções, emoções e medos em escala industrial, e o que falta é a coragem de pensar estratégias que devolvam às esquerdas capacidade de disputar o imaginário e não apenas comentar a derrota, tarefa que implica reformular a ação política num tempo em que a disputa se trava menos no parlamento e mais nos circuitos invisíveis onde se fabricam certezas.

 

É também daquelas histórias que John Ford não hesitaria em escolher como exemplo da sua tese sobre as escolhas possíveis entre a verdade e a lenda, porque quando Gabriel García Márquez soube da publicação de A Festa do Chibo de Vargas Llosa sobre Trujillo, ditador feroz da República Dominicana, terá reagido com a galhardia que lhe era conhecida, dizendo que o peruano lhe roubara o tema, frase que parece saída de um dos seus próprios contos e que ilumina a rivalidade silenciosa entre dois escritores que partilharam admiração e conflito; e, de facto, é fácil imaginar o que García Márquez poderia ter feito com um romance sobre Trujillo, ele que transformava violência e poder em matéria de fábula, mas pela pena de Vargas Llosa, que passou a segunda metade da vida a renegar as escolhas ideológicas da primeira, o romance lê‑se com o agrado de quem encontra obra bem escrita, embora marcada por distância analítica que contrasta com a intensidade emocional que o autor de Cem Anos de Solidão teria certamente procurado, e fica‑se com a impressão de que a disputa entre ambos é tão só mais um capítulo da longa história de como a literatura latino‑americana se debate com o peso dos seus próprios fantasmas políticos; quanto à veracidade da reação atribuída a García Márquez, se não aconteceu, é pelo menos saborosa de aceitar como lenda, lembrando que a literatura, quando se aproxima do poder, obriga sempre a escolher entre a verdade e a lenda, e que cada escolha diz mais sobre quem escreve do que sobre o ditador que se pretende retratar.

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