segunda-feira, maio 11, 2026

Poder, Memória e Previsão

 


Num debate do Festival Indie, moderado por Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, ouvi quem trabalha com Inteligência Artificial falar de um documentário que a apresenta como instrumento de perenização do capitalismo, mecanismo que permite aos donos das Big Techs de Silicon Valley ampliar a acumulação de capital enquanto grande parte da população mundial é empurrada para a pobreza e para o desemprego, e a formulação não surpreende porque a tecnologia nunca foi neutra e sempre serviu quem detém os meios de produção, seja a fábrica, a terra ou o algoritmo.

A responsável do podcast onde o debate passou disse que não estamos perante a luta entre homens e máquinas, mas entre homens e homens, com uns a usar a máquina para reforçar o poder sobre os outros, e a frase expõe o essencial: o conflito não é tecnológico, é político, e a IA funciona como extensão da lógica que organiza o mundo desde que o capital se tornou medida de todas as coisas. O que se discute não é o futuro das máquinas, é o do trabalho, e o que está em causa não é o medo de sermos substituídos por sistemas automáticos, mas a certeza de que esses sistemas serão usados para aprofundar desigualdades que já existem, como se a história insistisse em repetir a mesma lição sob formas novas, sempre com o mesmo resultado para quem vive do que produz.

 

O nome de Ranavalona I nunca me surgira, e isso confirma como a História ao nosso alcance continua a ser eurocêntrica, escrita a partir do olhar que domina e raramente considera a perspetiva dos povos africanos, asiáticos ou ameríndios, como se o mundo tivesse começado na Europa e tudo o resto fosse rodapé.

Do que apurei sobre essa figura do século XIX, fiquei a saber, por um documentário, que reinou em Madagáscar com o propósito de garantir a independência de uma ilha que a França ambicionava colonizar, e por isso expulsou missionários, anulou contratos comerciais desvantajosos e apostou na autossuficiência industrial, sobretudo no fabrico local de tecidos e sabão, gesto que hoje se chamaria política de soberania económica.

Tornou‑se bête noire dos franceses, que a descreveram como tirana impiedosa, narrativa conveniente para justificar a invasão que transformou a ilha em colónia nas décadas seguintes, e o padrão repete‑se tantas vezes que já parece regra: quando um povo tenta defender a própria autonomia, o colonizador constrói o retrato do inimigo para legitimar o saque. A história de Ranavalona I lembra que a luta contra o imperialismo não é passado remoto, é estrutura que persiste, e que a escrita oficial continua a esconder o que não serve o poder, razão para manter vivo o exercício de reler a História a partir de quem a viveu e não de quem a conquistou.

 

Não me vejo a ler as novecentas páginas do romance em que Gonçalo M. Tavares propõe a sua versão do declínio do Império Americano, por muito que elogiem o livro como previsão do presente, já que começou a escrevê‑lo em 2019, quando a pandemia ainda não se insinuara no horizonte, e a recusa não nasce de impaciência, mas da sensação de que a complexidade argumentativa que usa para explicar o que agora sucede não formula problemas claros nem oferece respostas consequentes, como se a acumulação de hipóteses substituísse o rigor da análise.

O esforço narrativo, mais amplo do que é habitual na sua obra, acaba por frustrar quem não se basta na convergência com o seu declarado otimismo perante o futuro, porque a literatura, quando se aproxima da política, exige clareza conceptual e não apenas a enumeração de cenários, e o romance parece confiar mais na força da construção do que na solidez do pensamento.

Fico com a impressão de que o livro se dirige a quem procura confirmação e não interrogação, e a literatura, quando abdica da dúvida, transforma‑se em exercício de estilo, gesto que pode ser admirado, mas raramente ilumina o real, razão para continuar a procurar leituras que enfrentem o mundo com a nitidez que o mundo exige, como acontece quando tentamos pensar o presente sem ceder ao conforto das previsões fáceis.

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