Num
debate do Festival Indie, moderado por Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara,
ouvi quem trabalha com Inteligência Artificial falar de um documentário que a
apresenta como instrumento de perenização do capitalismo, mecanismo que permite
aos donos das Big Techs de Silicon Valley ampliar a acumulação de
capital enquanto grande parte da população mundial é empurrada para a pobreza e
para o desemprego, e a formulação não surpreende porque a tecnologia nunca foi
neutra e sempre serviu quem detém os meios de produção, seja a fábrica, a terra
ou o algoritmo.
A
responsável do podcast onde o debate passou disse que não estamos perante a luta
entre homens e máquinas, mas entre homens e homens, com uns a usar a máquina
para reforçar o poder sobre os outros, e a frase expõe o essencial: o conflito
não é tecnológico, é político, e a IA funciona como extensão da lógica que
organiza o mundo desde que o capital se tornou medida de todas as coisas. O que
se discute não é o futuro das máquinas, é o do trabalho, e o que está em causa
não é o medo de sermos substituídos por sistemas automáticos, mas a certeza de
que esses sistemas serão usados para aprofundar desigualdades que já existem,
como se a história insistisse em repetir a mesma lição sob formas novas, sempre
com o mesmo resultado para quem vive do que produz.
Do que
apurei sobre essa figura do século XIX, fiquei a saber, por um documentário,
que reinou em Madagáscar com o propósito de garantir a independência de uma
ilha que a França ambicionava colonizar, e por isso expulsou missionários,
anulou contratos comerciais desvantajosos e apostou na autossuficiência
industrial, sobretudo no fabrico local de tecidos e sabão, gesto que hoje se
chamaria política de soberania económica.
Tornou‑se
bête noire dos franceses, que a descreveram como tirana impiedosa,
narrativa conveniente para justificar a invasão que transformou a ilha em
colónia nas décadas seguintes, e o padrão repete‑se tantas vezes que já parece
regra: quando um povo tenta defender a própria autonomia, o colonizador
constrói o retrato do inimigo para legitimar o saque. A história de Ranavalona
I lembra que a luta contra o imperialismo não é passado remoto, é estrutura que
persiste, e que a escrita oficial continua a esconder o que não serve o poder,
razão para manter vivo o exercício de reler a História a partir de quem a viveu
e não de quem a conquistou.
Não me
vejo a ler as novecentas páginas do romance em que Gonçalo M. Tavares propõe a
sua versão do declínio do Império Americano, por muito que elogiem o livro como
previsão do presente, já que começou a escrevê‑lo em 2019, quando a pandemia
ainda não se insinuara no horizonte, e a recusa não nasce de impaciência, mas
da sensação de que a complexidade argumentativa que usa para explicar o que
agora sucede não formula problemas claros nem oferece respostas consequentes,
como se a acumulação de hipóteses substituísse o rigor da análise.
O esforço
narrativo, mais amplo do que é habitual na sua obra, acaba por frustrar quem
não se basta na convergência com o seu declarado otimismo perante o futuro,
porque a literatura, quando se aproxima da política, exige clareza conceptual e
não apenas a enumeração de cenários, e o romance parece confiar mais na força
da construção do que na solidez do pensamento.
Fico com
a impressão de que o livro se dirige a quem procura confirmação e não
interrogação, e a literatura, quando abdica da dúvida, transforma‑se em
exercício de estilo, gesto que pode ser admirado, mas raramente ilumina o real,
razão para continuar a procurar leituras que enfrentem o mundo com a nitidez
que o mundo exige, como acontece quando tentamos pensar o presente sem ceder ao
conforto das previsões fáceis.

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