quarta-feira, maio 06, 2026

O vazio deixado por quem não volta

 

1. Meteorito — assim classifica um documentário a obra de Yves Klein, atendendo à brevidade da sua carreira artística, apenas oito anos, e à morte precocíssima aos trinta e quatro, embora esse período tenha bastado para inventar uma cor, aquele azul intenso que viria a ser o de um dos vestidos mais usados pela Elza durante a gravidez e que permaneceu no seu guarda‑roupa daí em diante como uma espécie de assinatura silenciosa.

Ficaram também para a posteridade as polémicas em torno das performances, sobretudo as que transformaram o corpo feminino em pincel com que compôs muitos dos seus quadros, gesto que continua a suscitar leituras contraditórias entre a ousadia conceptual e a objetificação evidente.

Menos convincente é a explicação da sua criatividade como radicada numa busca metafísica destinada a preencher o vazio dos céus de Nice, que ele entendia como um absoluto assimilável ao Paraíso bíblico, mas terei de, na racionalidade dogmática, enfrentar esse lado místico que tantos artistas alegaram ser fonte de inspiração para obras cuja estética, apesar de tudo, aprecio.

2. Nunca fui a Gant, na parte flamenga da Bélgica, mas, a ter acontecido, gostaria que tivesse sido numa das celebrações dedicadas ao passado têxtil da cidade no século XIX, quando as lutas operárias eram intensas e acompanhadas de soluções imaginativas para melhorar a vida dos mais desfavorecidos.

Cooperativas, piscina pública, iniciativas de solidariedade e de autogestão compunham esse acervo que não dispensou, obviamente, confrontos violentos com quem defendia a ordem social imposta pela classe patronal. Talvez por isso essas comemorações não prescindam da Internacional, interpretada por dezenas de músicos que desfilam pelas ruas como se a memória de um tempo de combate ainda pudesse encontrar ressonância no presente.

E volta então uma informação curiosa: se as letras do hino foram escritas no calor dos acontecimentos por Eugène Pottier, figura envolvida nas lutas da Comuna de Paris, a música foi composta por Pierre De Geyter, operário precisamente oriundo de Gant, que lhe deu forma final em 1888.

Sendo essa uma das composições musicais da minha vida, associá‑la à cidade e ao seu passado lutador justificaria que a visitasse precisamente quando esse legado é celebrado.

3. O tema do desaparecimento de pessoas próximas, cuja sorte permanece desconhecida, é um dos mais recorrentes no trabalho do fotojornalista mexicano Yael Martínez, cuja exposição em Lisboa confirma a pertinência de uma obra que a Magnum reconheceu ao integrá‑lo no seu coletivo. Ele sabe bem do que fala, porque na própria família há quem tenha desaparecido sem que se saiba se foi vítima do crime organizado ou sucumbiu ao fascínio de uma emigração clandestina para a outra margem do Rio Grande, onde tantos acreditam encontrar uma vida mais fácil.

A verdade é que inúmeras famílias mexicanas vivem na inquietação, quando não mesmo no desespero, perante este flagelo que transforma a ausência em ferida permanente, e é essa dor que as imagens do fotógrafo procuram fixar como tema incontornável dos nossos dias, como se a fotografia tentasse dar forma ao que não tem forma — o vazio deixado por quem não volta.

4. O tema dos desaparecimentos por explicar é universal e intemporal, e ocorreu também com muitos dos trabalhadores escravizados que os alemães levaram para a retaguarda das suas invasões, destinados a fábricas e quintas que garantissem o aprovisionamento dos exércitos. Se o regime nazi mobilizou catorze milhões de alemães para a Wehrmacht, forçou treze milhões de pessoas, capturadas nos territórios ocupados, a substituí‑los na manutenção de uma economia que sustentava a ambição imperialista, e muitos desses escravos nunca regressaram, nem se sabe o que lhes aconteceu.

Essa é uma das realidades menos abordadas do século XX europeu: no seu próprio seio, a Alemanha submeteu milhões de seres humanos a condições de trabalho que, em direitos inexistentes e na relação com os patrões, pouco se distinguiam das impostas aos negros das plantações do sul dos Estados Unidos no século anterior.

Há algo de profundamente perturbador nesta equivalência histórica, como se a modernidade europeia tivesse preferido esquecer que, por detrás da sua fachada civilizacional, persistiram práticas cuja violência continua a ecoar no silêncio daqueles que nunca voltaram.

5. Um documentário sobre Carmen Miranda lembra, ainda assim, um lado mais luminoso da presença forçada de populações africanas no outro lado do Atlântico: a cantora oriunda de Marco de Canaveses teve a notável intuição de adaptar a tradição musical dessas comunidades, incorporando ritmos e expressões que nasceram da dor da escravização nas canções que a tornaram famosa e dando assim um impulso decisivo ao samba.

Na transposição dessa influência para o glamour hollywoodiano, a opção pelo exagero visual teve uma intenção bem conseguida, porque sem ele tudo soaria a falso na interpretação de temas manifestamente alheios à sua cultura de origem; com esse kitsch alcançou uma dimensão de performance que resultaria num sucesso notável, apenas ensombrado pelo devir com laivos de tragédia que não poupou a cantora e atriz.

Há algo de comovente nessa trajetória: uma artista que, ao mesmo tempo que se deixava moldar por uma indústria voraz, conseguia preservar um núcleo de autenticidade que fazia ressoar, por detrás do artifício, a memória de uma música que não lhe pertencia por nascimento, mas soube acolher com uma generosidade rara.

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