Há uma
justiça histórica na redescoberta deste filme, apresentado em Cannes quase meio
século depois de realizado: Sumitra Peries foi a primeira mulher a assinar um
longa-metragem no Sri Lanka, e "Gehenu Lamai" — As
Raparigas, ou, na designação com que chegou à distribuição internacional, "Les
Filles" — é uma estreia que já revelava a sensibilidade que lhe
valeria o epíteto de poetisa do cinema cingalês.
É um
filme de uma delicadeza formal pouco comum, construído por uma câmara que se
aproxima menos do drama social explícito do que da pintura de género — planos
que fixam-se na textura da vida rural, nos gestos contidos, no não-dito — e é
precisamente essa delicadeza que torna a sua denúncia mais eficaz do que
qualquer explicitação panfletária.
A
história de Kusum, criada humilde que trabalha em casa de Nimal e se apaixona
por ele, poderia facilmente resvalar para o melodrama de classes que o cinema
já tantas vezes filmou — o amor impossível entre a serva e o senhor, o
obstáculo social a vencer ou a sucumbir.
Peries
recusa esse caminho previsível. O que verdadeiramente importa no filme não é
tanto a distância de classe entre os dois jovens — embora ela seja real e
determinante — mas o facto de que, mesmo dentro dessa história de amor, é a
rapariga quem carece de qualquer poder para definir os termos da própria vida.
Kusum não
decide o seu destino; recebe-o. A sua condição de serviçal duplica-se, e
agrava-se, pela condição de mulher — dupla subalternidade que o filme entende
com uma lucidez que nunca precisa de se anunciar como tese.
É aqui
que reside o verdadeiro projeto do filme, mais do que na crónica sentimental
que a sinopse sugere: a demonstração de como uma sociedade patriarcal organiza
o amor de raparigas como Kusum em função da obediência, não da liberdade.
O afeto
que ela sente por Nimal não lhe pertence inteiramente — está sujeito a códigos
de conveniência social, a expectativas familiares, a uma economia de casamentos
que decide por ela antes de poder decidir por si.
Peries
filma essa secundarização não com indignação retórica, mas através de uma
acumulação de pequenos gestos de silenciamento — olhares, palavras, decisões
tomadas por terceiros em conversas de onde as raparigas estão ausentes — que,
somados, compõem um retrato social mais devastador do que qualquer discurso
explícito conseguiria ser.
Há ainda
uma dimensão histórica que atravessa o filme discretamente, situando essa
história íntima num momento preciso da nação: um Sri Lanka que discute, através
das personagens jovens e das conversas políticas, o que significa a
independência recém-conquistada e se essa liberdade nacional é real ou apenas
condicional, sujeita a outras formas de sujeição — económicas, sociais, de
género. É uma sobreposição inteligente: a pergunta que o filme faz sobre a
autonomia de Kusum, mulher sem poder de decidir a própria vida, ecoa a pergunta
mais vasta que o país fazia a si próprio sobre a sua própria soberania.
A
liberdade, sugere Peries, nunca é uma conquista abstrata — mede-se sempre pela
liberdade concreta que concede, ou nega, às vidas mais vulneráveis dentro dela,
e não há independência nacional que baste enquanto a metade feminina da
população continua a ser tratada como propriedade a transmitir, não como
sujeito a escutar.

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