A música
contemporânea é pouco sedutora na renúncia aos modelos de repetição que o
Barroco inaugurou e Beethoven e Ravel sofisticaram, ao fazerem da repetição de
um motivo mais do que uma redundância: uma respiração.
A
dodecafonia, na sua lógica, pede compreensão racional, exige que o ouvido
aceite a ausência de centro tonal, e reconheça a intenção sem suscitar o
prazer. A razão consegue segui‑la; a emoção, menos.
O
problema não está na inovação, mas na perda de um eixo. A repetição barroca, no
seu desenho circular, cria expectativa, prepara o ouvido para o reencontro.
Beethoven transforma essa estrutura em tensão, Ravel em vertigem.
A música
contemporânea, ao recusar esse mecanismo, liberta‑se da tradição, mas também afasta-se
daquilo que permitia ao ouvinte entrar sem pedir licença. A inteligência
reconhece o gesto; a sensibilidade procura o que já lá não está.
A
dodecafonia é uma arquitetura: tem rigor, método, ausência de ornamento. Mas a
emoção não se alimenta de rigor. Alimenta‑se de repetição, de reconhecimento,
de pequenas permanências. A música que abdica desses elementos pode ser
admirada, mas dificilmente é habitada. E a diferença entre a admiração e
habitação é o que separa a razão da magia.
A sedução
musical, quando existe, não precisa de explicação. A ausência dela, mesmo
quando compreendida, não se resolve com análise.

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