Há uma
tradição literária que o filme de Tarik Saleh convoca sem necessidade de a
nomear explicitamente, e que a descrição que traz — a de um Cândido muçulmano —
capta com precisão: a do jovem inocente lançado num mundo cuja lógica de poder
lhe é inteiramente estranha, e que só vai compreendendo à medida que essa
lógica o esmaga. Adam, filho de pescadores do delta do Nilo, chega a Al-Azhar
imaginando ter recebido uma dádiva divina — a bolsa de estudo é, para ele, a
antecâmara do paraíso. O que encontra, em vez disso, é um tabuleiro de xadrez
em que ele próprio é peão, movido por mãos que nem sequer se dão ao trabalho de
se apresentar.
É essa
desproporção entre a ingenuidade da personagem e a sofisticação do jogo que a
envolve que dá ao filme o seu interesse maior, ainda que também revele o seu
limite mais evidente. Saleh constrói, com competência mas sem grande
originalidade formal, um thriller de espionagem que se declara devedor tanto de
"O Nome da Rosa" de Umberto Eco — a instituição religiosa fechada
sobre si própria, os corredores onde se cruzam fé e crime — quanto do cinema
paranoico americano dos anos setenta, com a sua desconfiança sistemática
perante qualquer instituição de poder.
A
referência funciona bem como coordenada, mas talvez seja também o sintoma do
problema: o filme aplica moldes narrativos já testados a um contexto — a
Universidade de Al-Azhar, bastião do Islão sunita fundado pelos Fatímidas no
século X — que teria matéria de sobra para gerar uma linguagem própria, e Saleh
parece preferir a segurança da fórmula reconhecível à exploração mais arriscada
dessa singularidade.
Onde o
filme ganha verdadeira densidade é na tese política que deixa implícita, nunca
sublinhada em excesso: a de que o confronto entre correntes religiosas —
moderados contra a linha mais dura, próxima dos Irmãos Muçulmanos — é, no
fundo, uma fachada manobrada pelo poder político do Estado egípcio, que
pretende colocar à frente da instituição o candidato que melhor lhe sirva os
interesses, independentemente de quantos corpos caiam pelo caminho.
É aqui
que "A Conspiração do Cairo" ultrapassa o mero exercício de género
para se tornar um comentário lúcido sobre o Egito pós-Primavera Árabe: a queda
de Mubarak mudou o rosto do regime sem alterar a substância. A intimidação, a
censura, a prisão arbitrária, o ostracismo, o exílio — todos os instrumentos de
controlo sobrevivem intactos, apenas reformulados para uma nova gramática de
legitimidade religiosa que o Estado manipula sem nunca sujar diretamente as
mãos.
Adam,
nesse tabuleiro, nunca chega a ser um agente com vontade própria — e é essa,
precisamente, a sua verdade mais dolorosa. O rapaz que partira do delta do Nilo
convencido de estar mais perto do paraíso passa o filme inteiro a correr de um
lado para o outro, não em busca de nenhum ideal, mas simplesmente a tentar
sobreviver a um jogo cujas regras nunca lhe foram explicadas e cujos jogadores
mais fortes mal reparam nele exceto quando lhes é útil sacrificá-lo. É um
retrato eficaz, ainda que sem grande entusiasmo formal, de como as revoluções
que prometem libertar acabam por gerar novas hierarquias de opacidade — e de
como os mais vulneráveis, os Adams de cada geração, continuam a pagar o preço
de jogos que nunca foram seus.

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