quinta-feira, setembro 03, 2026

As cidades sobrepostas

 


Walter Dalrymple escreveu La Cité des Djinns depois de quatro anos em Nova Deli, e o livro nasce dessa convivência com uma cidade que não se oferece de imediato, exige tempo, errância, atenção ao detalhe.

As ruas estreitas dos bairros antigos, as avenidas largas dos edifícios modernos, os mercados onde o passado cruza-se com o presente sem se reconhecerem, tudo compõe uma geografia que não se lê à superfície.

Dalrymple percebe que cada passo assenta sobre camadas invisíveis, sete cidades sobrepostas, cada uma construída sobre os restos da anterior, como se a história insistisse em não desaparecer, apenas em mudar de lugar.

Os djinns do título são os fantasmas que alguns acreditam habitarem esses estratos. Não são figuras de terror, mas presenças discretas, ligadas às ocupações que se sucederam ao longo dos séculos, sombras que se escondem nos recantos mais antigos, nos pátios onde a luz chega com dificuldade, nos corredores onde o tempo parece suspenso.

A crença não é superstição; é forma de reconhecer que a cidade não é apenas o que se vê, é também o que se perdeu, o que ficou enterrado, o que resiste sem nome.

O interesse do livro está na perceção de que Nova Deli não é uma cidade, mas uma acumulação de cidades. Cada camada guarda uma memória, cada ruína sustenta uma narrativa, cada fantasma devolve uma pergunta.

Dalrymple não procura decifrá‑los; limita‑se a escutar. E essa escuta, feita de passos lentos e observação paciente, revela uma verdade que não é exclusiva da Índia: todas as cidades são palimpsestos, todas escondem ocupações anteriores, todas carregam fantasmas que não precisam de ser reais para serem significativos.

A história, quando se acumula, transforma o espaço em arquivo. E o arquivo, quando é lido com atenção, devolve sempre mais do que se esperava.

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