Sempre
que a RTP Memória repete os dois episódios de Vejam Bem dedicados a José
Mário Branco, assinados por Edgar Fonseca e Nuno Galopim, volto a eles como
quem regressa a uma casa antiga onde tudo permanece no sítio certo.
Não é
novidade o que se conta — conheço cada episódio da sua vida, ouvi‑os da sua
boca na rádio, na televisão, em palco, em conversas que atravessaram décadas.
Mas a repetição não cansa; devolve. E o que devolve não é apenas a figura, é o
conjunto de valores que ele encarnava com uma coerência rara, quase impossível
de encontrar hoje.
José
Mário Branco não precisava de construir personagem: era o que dizia. A lucidez
política, a exigência ética, a recusa de qualquer forma de complacência, a
atenção ao detalhe humano — tudo isto atravessa os dois episódios como se
fossem uma aula. A vida que se revisita não é apenas biografia; é método. Um
modo de estar no mundo que não separava criação de responsabilidade, música de
consciência, militância de inquietação.
O que prende
sempre, mesmo sabendo tudo de cor, é essa integridade que praticava. A forma
como falava do exílio, da clandestinidade, das derrotas, das esperanças, nunca
com heroísmo, sempre com precisão. A forma como desmontava ilusões sem perder a
capacidade de imaginar. A forma como defendia que a arte serve para confrontar
o mundo. E, apesar de tudo, mantinha uma ternura funda, quase escondida, que só
se revelava quando falava dos outros.
Ver Vejam Bem é reencontrar um conjunto de valores que não envelhecem: rigor, coragem, inquietação, decência. Num tempo em que tudo parece negociável, José Mário Branco lembra que há coisas que não se negoceiam. E talvez seja por isso que volto sempre: não para ouvir histórias, mas para recuperar uma medida.

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