domingo, setembro 27, 2026

A Decência Como Herança

 


Sempre que a RTP Memória repete os dois episódios de Vejam Bem dedicados a José Mário Branco, assinados por Edgar Fonseca e Nuno Galopim, volto a eles como quem regressa a uma casa antiga onde tudo permanece no sítio certo.

Não é novidade o que se conta — conheço cada episódio da sua vida, ouvi‑os da sua boca na rádio, na televisão, em palco, em conversas que atravessaram décadas. Mas a repetição não cansa; devolve. E o que devolve não é apenas a figura, é o conjunto de valores que ele encarnava com uma coerência rara, quase impossível de encontrar hoje.

José Mário Branco não precisava de construir personagem: era o que dizia. A lucidez política, a exigência ética, a recusa de qualquer forma de complacência, a atenção ao detalhe humano — tudo isto atravessa os dois episódios como se fossem uma aula. A vida que se revisita não é apenas biografia; é método. Um modo de estar no mundo que não separava criação de responsabilidade, música de consciência, militância de inquietação.

O que prende sempre, mesmo sabendo tudo de cor, é essa integridade que praticava. A forma como falava do exílio, da clandestinidade, das derrotas, das esperanças, nunca com heroísmo, sempre com precisão. A forma como desmontava ilusões sem perder a capacidade de imaginar. A forma como defendia que a arte serve para confrontar o mundo. E, apesar de tudo, mantinha uma ternura funda, quase escondida, que só se revelava quando falava dos outros.

Ver Vejam Bem é reencontrar um conjunto de valores que não envelhecem: rigor, coragem, inquietação, decência. Num tempo em que tudo parece negociável, José Mário Branco lembra que há coisas que não se negoceiam. E talvez seja por isso que volto sempre: não para ouvir histórias, mas para recuperar uma medida.

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