Kazimir
Malevich ocupa um lugar raro na história da arte: seduz pela estética e afasta
pelo fundamento. O suprematismo, com a sua geometria depurada, economia de
forma e a recusa do mundo visível, produzia uma beleza que não dependia de
narrativa nem de objeto. O Quadrado Negro não era ausência, mas presença
absoluta. A superfície plana, o silêncio da composição, a suspensão de qualquer
referência exterior — tudo isto criava uma espécie de magnetismo visual que
funcionava mesmo quando se rejeitava o misticismo que lhe deu origem.
O
paradoxo estava aí: a obra convencia, a doutrina não. Malevich acreditava que
era possível apagar cinco milénios de cultura humana para regressar a um ponto
zero, uma escuridão primordial onde a luz surgiria não da experiência, mas da
revelação. Via no negro absoluto uma espécie de portal filosófico, talvez
religioso, como se o vazio fosse condição para uma verdade superior.
A ambição
era grandiosa, mas o fundamento escapava. O misticismo que o guiava nada acrescentava
à obra; apenas a rodeava de uma intenção que não era necessária para que funcionasse.
O gesto
suprematista era, no essencial, um assassínio do objeto. Malevich eliminava a
figura, recusava a representação, desligava a pintura do mundo. Procurava a
sensação pura, não adulterada por história, por contexto, por memória. A arte
deixava de ser janela e tornava‑se superfície. O olhar já não procurava o que
estava para lá da tela; confrontava apenas o que a tela era. Nesse confronto,
algo acontecia — não porque o artista tivesse encontrado uma verdade
metafísica, mas porque a redução extrema produzia uma intensidade que não
dependia da crença.
A força do suprematismo estava na estética, não na teologia. O que permanecia não era a doutrina, mas a forma. O negro absoluto não iluminava; concentrava. E essa concentração, mesmo despojada de qualquer misticismo, continuava a ser uma das experiências mais radicais que a pintura do século XX ofereceu.

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