segunda-feira, setembro 07, 2026

As saídas que são armadilhas

 


1. Há um fio comum entre duas curtas-metragens portuguesas, recentes e afins na duração, que a partilha da direção de fotografia de Leonor Teles sublinha: ambas filmam personagens colocadas à margem — pela pobreza, falta de horizontes, ausência de qualquer rede de proteção social real — que identificam, na sua situação, uma única porta de saída possível, e que ela revela-se, invariavelmente, uma nova forma de captura.

Em "By Flavio" (2022), de Pedro Cabeleira, é Márcia quem constrói a fantasia de ascensão enquanto influencer, única rota disponível para escapar à precariedade em que vive com o filho. A ilusão duplica-se quando a essa estratégia se soma o envolvimento com um rapper cujo interesse nela é puramente instrumental — a "horizontalização", para usar o termo exato, é uma transação de proximidade e visibilidade que nada tem de afeto e tudo de cálculo.

Cabeleira filma essa dupla ilusão sem complacência para com as personagens, mas também sem as tornar patéticas: Márcia não é ingénua, antes alguém que, perante a ausência de qualquer alternativa estrutural, aposta no único capital que a economia da visibilidade contemporânea parece oferecer aos que não têm mais nada — a exposição do próprio corpo e do filho como mercadoria de likes e seguidores. É uma crítica ácida à forma como as redes sociais vendem a meritocracia da fama instantânea precisamente às classes que a estrutura social mais eficazmente exclui de qualquer ascensão real.

"O Tapete Voador" (2025), de Justin Amorim, radicaliza esse mesmo tema levando-o a um território mais sombrio: baseado no maior escândalo de pedofilia institucionalizada em Portugal, o filme segue Ricardo, que não vê no horizonte outra via de sobrevivência que não seja prostituir-se junto de clientes de alta condição social. E é nesse circuito que reencontra a irmã de quinze anos, também ela absorvida pela mesma rede de exploração.

O filme não precisa de explicitar o horror para o denunciar — a eficácia da crítica está precisamente em mostrar como esse circuito de abuso depende da cumplicidade silenciosa de uma classe alta que se protege atrás do estatuto e da impunidade que esse estatuto historicamente lhe garantiu em casos deste tipo. O título é de uma ironia amarga: não há tapete voador nenhum a elevar estas crianças e adolescentes para fora da sua condição — há apenas homens poderosos a explorar a promessa de ascensão para as manter ainda mais presas.

O que aproxima as duas curtas, para além da fotografia partilhada, é esta arquitetura comum: personagens sem outro capital que não o próprio corpo — seja para a economia da visibilidade digital, seja para a economia mais antiga e mais brutal da exploração sexual — que confundem a atenção que recebem com uma via de saída, quando na realidade trata-se do mecanismo exato que as mantém capturadas. Não há, em nenhum dos dois filmes, um momento de ilusão perdida que traga alívio; há apenas a constatação de que as "soluções" oferecidas a quem não tem recursos são quase sempre desenhadas por quem já os tem, e servem, antes de mais, para preservar essa mesma desigualdade.




2. No filme de Amorim Leonor Teles consegue um tipo de grão que faz imaginá-lo rodado na época do caso Casa Pia.

Esse detalhe não é apenas uma opção estética mas uma decisão que carrega significado histórico e ético. Ao optar por uma textura de imagem do final dos anos noventa e início dos anos 2000, período em que o caso Casa Pia decorreu e rebentou publicamente, Teles está a ancorar o filme num tempo específico, a impedir que o espectador o encare como ficção genérica sobre um problema abstrato e intemporal. O grão funciona como se a imagem tivesse sido resgatada de um arquivo daquela época, e não recriada décadas depois com todo o distanciamento que essa recriação poderia permitir.

Esta escolha tem uma consequência crítica importante: recusa ao espectador a comodidade do "isso já não acontece assim" ou do "isso pertence a um passado bem delimitado e encerrado". A textura de imagem colapsa a distância temporal entre o caso real e a ficção que dele deriva, obrigando quem vê a confrontar-se com uma proximidade incómoda, quase física, com os factos que inspiraram o argumento. É uma estratégia que dialoga, ainda que por vias completamente distintas, com a que Hou Hsiao-Hsien usava em "Um Verão em Casa do Avô" — a de deixar a forma fazer o trabalho que a palavra explícita não precisa de fazer.

 Comparado com "By Flavio", onde a fotografia de Teles procura captar a textura contemporânea da vida precária filmada através do ecrã do telemóvel e das redes sociais — uma luminosidade mais fria, mais achatada, própria da estética de conteúdo digital que o filme retrata —, em "O

Tapete Voador" a diretora de fotografia parece ter optado pelo caminho inverso: uma imagem que envelhece deliberadamente o presente da narrativa, empurrando-a para dentro de uma memória coletiva ainda dolorosamente viva em Portugal.

Duas estéticas opostas, portanto, mas movidas pela mesma inteligência: a de que a textura da imagem não é neutra, mas uma forma de posicionar o espectador perante o que vê — seja aproximando-o da imediata e asséptica reprodução do ecrã, seja empurrando-o para dentro de uma memória histórica que o país ainda não deixou de processar.

É essa capacidade de Teles para tornar a fotografia um instrumento de argumentação, e não apenas de composição visual, que faz destas duas curtas um caso de estudo sobre o quanto a direção de fotografia pode, por si só, comunicar uma tese que o argumento apenas sugere.

 

3. O que estas curtas metragens - “By Flavio” e “O Tapete Voador”-, vistas em conjunto, acabam por revelar é que a exploração das classes mais vulneráveis assume hoje, em Portugal, formas contíguas e comunicantes: a exploração digital, que promete visibilidade e vende dependência, e a exploração institucional, que promete proteção e vende impunidade a quem a exerce. Que a mesma diretora de fotografia tenha sido capaz de encontrar, para cada uma destas formas de captura, uma linguagem visual distinta e igualmente precisa — a frieza clínica do ecrã de telemóvel, o grão que devolve o presente a uma memória histórica por saldar — diz muito sobre a maturidade de um cinema português jovem que já não precisa de gritar para denunciar, porque aprendeu a deixar a própria imagem testemunhar aquilo que as personagens não têm poder para mudar.

Sem comentários: